terça-feira, 5 de julho de 2011

Só no Brasil a nova ponte do Rio Guaíba não é o caminho mais curto entre o Ministério dos Transportes e a penitenciária


Há uma semana, o governo da China  inaugurou a ponte da baía de Jiaodhou, que  liga o porto de Qingdao à ilha de Huangdao. Construído em quatro anos, o colosso sobre o mar tem 42 quilômetros de extensão e custou o equivalente a R$2,4 bilhões.
Há uma semana, o DNIT escolheu o projeto da nova ponte do Guaíba, em Ponte Alegre, uma das mais vistosas promessas da candidata Dilma Rousseff. Confiado ao Ministério dos Transportes, o colosso sobre o rio deverá ficar pronto em quatro anos. Com 2,9 quilômetros de extensão, vai engolir R$ 1,16 bilhão.
Intrigado, o matemático gaúcho Gilberto Flach resolveu estabelecer algumas comparações entre a ponte do Guaíba e a chinesa. Na edição desta segunda-feira, o jornal Zero Hora publicou o espantoso confronto númerico resumido no quadro abaixo:

Os números informam que, se o Guaíba ficasse na China, a obra seria concluída em 102 dias, ao preço de R$ 170 milhões. Se a baía de Jiadhou ficasse no Brasil, a ponte não teria prazo para terminar e seria calculada em trilhões. Como o Ministério dos Transportes está arrendado ao PR, financiado por propinas, barganhas e permutas ilegais, o País do Carnaval abrigaria o partido mais rico do mundo.
Depois de ter ordenado o afastamento dos oficiais, aí incluído o coronel do DNIT, Dilma Rousseff parece decidida a preservar o general. “O governo manifesta sua confiança no ministro Alfredo Nascimento”, avisou nesta segunda-feira uma nota da Presidência da República. “O ministro é o responsável pela coordenação do processo de apuração das denúncias feitas contra o Ministério dos Transportes”. Tradução: em vez de demitir o chefe mais que suspeito, Dilma encarregou-o de  investigar os chefiados.
Corruptos existem em qualquer lugar. A diferença é que o Brasil institucionalizou a impunidade. Se tentasse fazer em outros países uma ponte como a do Guaíba, Alfredo Nascimento e seus parceiros saberiam que o castigo começa com a demissão e termina na cadeia.
blog Augusto Nunes

Líder do tráfico na Chapada Diamantina é preso em operação

Robert Ricardo Santana de Almeida, conhecido como Rasta, foi preso no último final de semana

Redação CORREIO
Está preso na delegacia do município de Mairí, a 284 km de Salvador, um dos traficantes mais procurados na região piemonte da Chapada Diamantina. Robert Ricardo Santana de Almeida, conhecido como Rasta, foi preso no último final de semana em Várzea da Roça.

Segundo o delegado Zennon de Almeida, Rasta foi preso durante um cerco da polícia quando entrava na casa de um outro traficante conhecido como Ivandelson Alves dos Santos. Com a dupla, foram apreendidos dois revólveres, 12 trouxas de maconha, R$ 252, balança de precisão e munição para vários tipos de armas.

"O Rasta era responsável pela distribuição da droga nos municípios vizinhos, como Mundo Novo, Baixa Grande, Miguel Calmon. Já havia pedido de prisão decretada por tráfico", contou o delegado

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Eles acharam que estava tudo dominado

“Está tudo dominado”, costumam lastimar-se muitos comentaristas da coluna. É compreensível a sensação de impotência provocada pela impunidade dos corruptos, pela cumplicidade ativa ou passiva dos três Poderes, pela voracidade da aliança governista, pela pilhagem sistemática dos cofres públicos, pela mansidão bovina da maioria do eleitorado ─ enfim, pela paisagem política desoladora. Mas não está tudo dominado.
A frase que dá por consumado o triunfo dos fora-da-lei será apenas um verso derrotista enquanto existirem imprensa livre e milhões de brasileiros capazes de indignar-se com denúncias consistentes. Se tudo estivesse dominado, Antonio Palocci, por exemplo, ainda seria chefe da Casa Civil. O governo fez o que pôde para proteger o reincidente incurável. Acabou por render-se aos homens honestos inconformados com a nova safra de patifarias.
Se estivesse consumado o triunfo dos vilões, a quadrilha que age há meses no Ministério dos Transportes não começaria a ser desbaratada horas depois que seus integrantes foram identificados por uma reportagem de VEJA. Nomeados pelo ministro Alfredo Nascimento, presidente do PR, e sob o comando do deputado Valdemar Costa Neto, um dos mais gulosos protagonistas do escândalo do mensalão, os quadrilheiros instalados na cúpula do ministério abasteceram o caixa do partido e as próprias contas bancárias com bilhões de reais desviados dos cofres públicos.
Certamente por achar que está tudo dominado, o bando abusou dos métodos de sempre ─ obras sem licitação, contratos superfaturados, barganhas com empreiteiros e empresas fantasmas, fora o resto. Na manhã deste sábado, quatro chefões souberam que estavam desempregados numa conversa por telefone com Alfredo Nascimento, o ex-ministro de Lula que recuperou a vaga no primeiro escalão por ter naufragado na disputa do governo do Amazonas. Veterano frequentador do noticiário político-policial, ele continua a fazer de conta que não sabia de nada. A pose de inocente não combina com o prontuário. E colide com depoimentos que amparam a denúncia de VEJA.
Há dias, Nascimento alegou “compromissos inadiáveis” para ausentar-se da reunião em que Dilma quis saber dos figurões do ministério por que todas as cifras que administram estavam “insufladas”. (Insuflar: é isso o que faz, na novilíngua do Planalto, quem acumula um himalaia de bandalheiras. Mas isso é tema para outro post). A presidente foi dispensada por VEJA de convocar outro encontro para cobrar as respostas: a edição desta semana desvendou o claro enigma.
Com argumentos de sobra para livrar-se dos “insufladores”, Dilma tem o dever de prosseguir a faxina com a imediata demissão do ministro. Ainda convalescendo da afronta estrelada por Palocci, o país não merece ficar outros 20 dias esperando que Alfredo Nascimento se anime a gaguejar algum álibi, ou tente explicar o inexplicável

Princípios de uma política conservadora

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 27 de junho de 2011
 
Estes princípios não são regras a ser seguidas na política prática. São um conjunto de critérios de reconhecimento para você distinguir, quando ouve um político, se está diante de um conservador, de um revolucionário ou de um “liberal”, no sentido brasileiro do termo hoje em dia (que é uma indecisa mistura dos dois anteriores).
1. Ninguém é dono do futuro. “O futuro pertence a nós” é um verso do hino da Juventude Hitlerista. É a essência da mentalidade revolucionária. Um conservador fala em nome da experiência passada acumulada no presente. O revolucionário fala em nome de um futuro hipotético cuja autoridade de tribunal de última instância ele acredita representar no presente, mesmo quando nada sabe desse futuro e não consegue descrevê-lo senão por meio de louvores genéricos a algo que ele não tem a menor idéia do que seja. Quando o ex-presidente Lula dizia “Não sabemos qual tipo de socialismo queremos”, ele presumia saber (1) que o socialismo é o futuro brilhante e inevitável da História, quando a experiência nos mostra que é na verdade um passado sangrento com um legado de mais de cem milhões de mortos; (2) que ele e seus cúmplices têm o direito de nos conduzir a uma repetição dessa experiência, sem outra garantia de que ela será menos mortífera do que a anterior exceto a promessa verbal saída da boca de alguém que, ao mesmo tempo, confessa não saber para onde nos leva. A mentalidade revolucionária é uma mistura de presunção psicótica e irresponsabilidade criminosa.
2. Cada geração tem o direito de escolher o que lhe convém. Isto implica que nenhuma geração tem o direito de comprometer as subseqüentes em escolhas drásticas cujos efeitos quase certamente maléficos não poderão ser revertidos jamais ou só poderão sê-lo mediante o sacrifício de muitas gerações. O povo tem, por definição, o direito de experimentar e de aprender com a experiência, mas, por isso mesmo, não tem o direito de usar seus filhos e netos como cobaias de experiências temerárias.
3. Nenhum governo tem o direito de fazer algo que o governo seguinte não possa desfazer. É um corolário incontornável do princípio anterior. As eleições periódicas não fariam o menor sentido se cada governo eleito não tivesse o direito e a possibilidade de corrigir os erros dos governos anteriores. A democracia é, portanto, essencialmente hostil a qualquer projeto de mudança profunda e irreversível da ordem social, por pior que esta seja em determinado momento. Nenhuma ordem social gerada pelo decurso dos séculos é tão ruim quanto uma nova ordem imposta por uma elite iluminada que se crê, sem razão, detentora do único futuro desejável. No curso dos três últimos séculos não houve um só experimento revolucionário que não resultasse em destruição, morticínio, guerras e miséria generalizada. Não se vê como os experimentos futuros possam ser diferentes.
4. Nenhuma proposta revolucionária é digna de ser debatida como alternativa respeitável num quadro político democrático. A revogabilidade das medidas de governo é um princípio incontornável da democracia, e toda proposta revolucionária, por definição, nega esse princípio pela base. É impossível colocar em prática qualquer proposta revolucionária sem a concentração do poder e sem a exclusão, ostensiva ou camuflada, de toda proposta alternativa. Não se pode discutir alternativas com base na proibição de alternativas.
5. A democracia é o oposto da política revolucionária. A democracia é o governo das tentativas experimentais, sempre revogáveis e de curto prazo. A proposta revolucionária é necessariamente irreversível e de longo prazo. A rigor, toda proposta revolucionária visa a transformar, não somente uma sociedade em particular, mas a Terra inteira e a própria natureza humana. É impossível discutir democraticamente com alguém que não respeita sequer a natureza do interlocutor, vendo nela somente a matéria provisória da humanidade futura. É estúpido acreditar que comunistas, socialistas, fascistas, eurasianos e tutti quanti possam integrar-se pacificamente na convivência democrática com facções políticas infinitamente menos ambiciosas. Será sempre a convivência democrática do lobo com o cordeiro.
6. A total erradicação da mentalidade revolucionária é a condição essencial para a sobrevivência da liberdade no mundo. A mentalidade revolucionária não é um traço permanente da natureza humana. Teve uma origem histórica – por volta do século XVIII – e terá quase certamente um fim. O período do seu apogeu, o século XX, foi o mais violento, o mais homicida de toda a História humana, superando, em número de vítimas inocentes, todas as guerras, epidemias, terremotos e catástrofes naturais de toda ordem observadas desde o início dos tempos. Não há exagero nenhum em dizer que a mentalidade revolucionária é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. É uma questão de números e não de opinião. Recusar-se a enxergar isso é ser um monstro de insensibilidade. Toda política que não se volte à completa erradicação da mentalidade revolucionária, da maneira mais candente e explícita possível, é uma desconversa criminosa e inaceitável, por mais que adorne sua omissão com belos pretextos democráticos, libertários, religiosos, moralísticos, igualitários, etc.

Aquele abraço turminha minoritária

O Sr. Lauro Adolfo S. Dourado, considerando que não há  clima de civilidade possível  que possa argüir com um mínimo de objetividade às interpelações bucéfalas dos adversários do Governo da Confiança e no uso de suas atribuições,
RESOLVE
                1º - Considerando que tais pessoas formam um grupo reduzido que trocam afagos entre si, elogiando-se mutuamente;
                2º - Considerando que a maioria esmagadora do povo desconhece tais pessoas assim como  suas opiniões;
                3º - Considerando ainda que as intervenções da Secretaria Municipal da Comunicação, aqui representada pelo seu assessor, concedeu um palanque para os inimigos do Governo da Confiança,  frustrando sua intenção original de esclarecer e não acirrar os ânimos, decide;
                Suspender  até segunda ordem, suas intervenções nos sites freqüentados por tais indivíduos. Aquele abraço. Fui.
Revogam-se as disposições em contrário.

Secretaria Municipal de Comunicação                                                                 Lauro Adolfo S. Dourado
                 Assessor

domingo, 3 de julho de 2011

Itamar era controverso, mas não ambíguo moralmente. Morre um político pobre, e isso é mesmo uma notícia um tanto espantosa. Ou: Uma estranha forma de a “Virtù” se casar à “Fortuna”.


Collor queria alguém que lhe conferisse alguma credibilidade no meio político. Itamar era a figura mais próxima do establishment a lhe dar ouvidos. Já durante a campanha ficou claro que era um peixe fora d’água naquele grupo que ficou conhecido como “República de Alagoas”. Eleita a dupla, o vice ficou encostado e dava sinais evidentes de desconforto com o “estilo” e as escolhas do titular. Nunca foi ouvido, consultado ou auscultado. Era ignorado pelo fortão que tinha “aquilo roxo” e aquilo outro menos cinzento do que se imaginava…
A crise que resultou na renúncia de Fernando Collor, diante de um impeachment certo, conferiu grandeza à biografia de Itamar Franco. Deu-se conta da gravidade do momento, percebeu que só conseguiria governar propondo uma espécie de pacto entre os partidos e, a despeito de seu dito “temperamento mercurial”, não se entregou a arroubos cesaristas.
Atenção, leitor! Neste ponto, deixo o “fio Itamar Franco” para pegar um outro: o “fio PT”. Depois, junto os dois. Destaco um momento notável de má fé do partido, que, por caminhos inesperados, também faria um grande bem ao país.
PT na oposição
O PT, junto com quase toda a nação, participou ativamente do “Fora Collor”. A mobilização dos chamados “movimentos sociais” ficou por conta da legenda, então principal alvo de Collor, que a acusava de tentar disputar o “terceiro turno” das eleições — acusação que os petistas fazem hoje a seus adversários; não por acaso, Lula e Collor são agora aliados.
O PT, que ajudou a derrubar o governo, recusou-se a participar da base de apoio a Itamar Franco — e olhem que era aquele um momento de certa tensão até institucional. O primeiro presidente eleito diretamente depois do ciclo militar era também o primeiro a testar um país pós-impeachment, que só não se deu legalmente porque ele renunciou primeiro. O petismo ajudara a desestabilizar Collor por bons motivos e decidiu que tentaria desestabilizar também seu sucessor, aí por maus motivos.  O motivo dos petistas era e é um só: jamais dar apoio a uma Presidência que não seja comandada pelo partido. Foram para a oposição o PT e o PFL — este partido, justiça seja feita, não havia colaborado para a queda de Collor ao menos; foi coerente no seu erro.
Petistas demonstravam, em suma, a sua notável habilidade para sabotar governos e a disposição de faltar ao país mesmo num momento de crise aguda porque preocupados apenas com seu projeto de poder. Luíza Erundina foi punida pela legenda por ter aceitado o cargo de ministra da Administração de Itamar. Decidiu deixar a legenda. Para todos os efeitos, os petistas não aceitavam “alianças com partidos burgueses” — Lula recusara o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno de 1989, naquele que foi, talvez, o ato mais indigno de sua história. De verdade, o partido estava de olho em pesquisas que indicavam que o Babalorixá de Banânia era o favorito à sucessão de Itamar. Assim, diante da possibilidade de chegar ao poder, por que se comprometer com a governabilidade do país, não é mesmo?
Juntando as pontas
Então junto agora este fio com aquele outro que larguei lá atrás. As circunstâncias da posse de Itamar Franco, que dependia do núcleo de estabilidade e credibilidade que passou a lhe fornecer o PSDB, e o fato de o PT, por maus motivos, ter decidido ficar fora do governo permitiram que Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda, juntasse a inteligência econômica necessária para elaborar e aplicar o mais ousado e bem-sucedido plano de estabilização da economia jamais havido no Brasil. Em muitos aspectos, dizem alguns especialistas em que confio, único na história. Durante um bom tempo, o Brasil passou a funcionar com duas moedas. Não faltou quem antevisse o desastre. O Brasil começava a se reinserir na ordem econômica mundial. Sim, o plano foi coordenado e liderado por FHC; sim, ele foi aplicado no governo Itamar Franco. O presidente era fraco o bastante para depender do PSDB e da massa crítica que fez o Real; ele era forte o bastante para bancar o risco — e foi preciso alguma coragem política.
O PT, claro!, ficou na oposição e tentou sabotar o plano de estabilidade — e todas as outras iniciativas que se seguiram, já no governo FHC, para estabilizar a economia. Lula e seus bravos, especialmente Aloizio Mercadante, anteviam um desastre de proporções monumentais. Lembro, à margem, que foi no governo Itamar que seu deu a privatização da CSN. Ali o petismo dava início à sua sanha vigarista “contra a venda do patrimônio nacional”, que se estenderia pelos anos seguintes. Retomo.
Eleito FHC, com o apoio de Itamar, o já ex-presidente deu mostras de que não havia entendido exatamente o alcance do plano que fora efetivamente implementado em seu governo e que demandava um conjunto de medidas para se consolidar — ele decidiu se opor a elas. Passou a falar como um político mais ou menos de oposição. Há quem queira que pretendia se candidatar à sucessão de FHC, eventual intenção frustrada com a aprovação da emenda da reeleição. Em 2002, Itamar apoiou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.
Eleito governador de Minas em 1998, ainda na linha do confronto com FHC, que conseguiu seu segundo mandato das urnas, Itamar decretou uma polêmica moratória em Minas, que ajudou um tanto a bagunçar as contas públicas. As relações com o tucano nunca voltaram a ser, digamos, normais, embora tenham recuperado a polidez. Itamar sempre considerou que haviam lhe roubado a paternidade do Plano Real, o que não é, definitivamente, fato. Acima, explico as circunstâncias em que o plano se deu. Sua grandeza, reitero, foi ter tido a coragem de dar sustentação política a uma ousadia cuja extensão, ele próprio revelou depois, desconhecia.
Eleito para o Senado pelo PPS no ano passado, Itamar prenunciava uma atuação firme, em defesa de boas causas, combatendo o cesarismo inescrupuloso do PT. Infelizmente, a trajetória foi interrompida. Morre, reitero, um político cuja vida é compatível com seus rendimentos, que fez um breve governo, sim, mas honrado. Henrique Hargreaves, seu chefe da Casa Civil e seu assessor até hoje, viu seu nome envolvido numa acusação de tráfico de influência. Itamar tomou uma decisão rara — na verdade, até hoje, única: afastou imediatamente o auxiliar para que a investigação fosse feita com lisura. Provada a inocência do ministro, ele voltou. Para quem vê o PT afagar culpados, estranha um presidente que afastou mesmo um inocente, sobre quem, no entanto, pesavam algumas suspeitas.
Também entrou para a história um episódio envolvendo o então senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), um dos políticos que mais o fustigavam. ACM dizia ter um calhamaço de evidências de que havia corrupção no governo. O presidente marcou uma audiência com o político baiano, que prometeu levar uma pasta recheada de documentos. Itamar, então, fez algo inesperado: chamou a imprensa e convidou o senador a apresentar as suas provas também aos jornalistas. Eram só recortes antigos de jornal.
Encerro
Queria Maquiavel que o feito notável de um príncipe requer que a “Virtù”, o conjunto das qualidades pessoais do governante, possam se casar com a “Fortuna”, um conjunto de fatores que caracterizam uma época, de que todos fazemos parte, mas que estão fora do nosso alcance; não dependem da nossa vontade. No caso de Itamar, isso se deu de um modo estranho: o dado mais notável de sua “Virtù” era justamente a sua fraqueza ao assumir o governo, o que o fez depender da boa-vontade de estranhos. As circunstâncias pediam um ato radical em favor da estabilidade da moeda, o que só poderia ser feito se o PT estivesse fora da aliança que sustentava Itamar — e o PT estava fora.
Olhem que formidável! A fraqueza de um e o mau-caratismo de outro permitiram que o Brasil saísse do buraco. Morre Itamar, um homem que fez bem ao Brasil. De quantos  da estirpe dos políticos se pode e se poderá dizer o mesmo? Que Deus o acolha em sua infinita bondade!
Por Reinaldo Azevedo

sábado, 2 de julho de 2011

Políticos e especialistas reagem às mentiras deslavadas de artigo de Sarney

Por Isabel Braga e Adauri Antunes Barbosa, no Globo:
Após ser criticado por ter chamado, em sua biografia, o ex-deputado Ulysses Guimarães de “político menor”, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), voltou a ser alvo de condenações pelo artigo publicado nesta sexta-feira no jornal “Folha de S. Paulo”. No texto, Sarney diz que, sem o Plano Cruzado, teria sido deposto da Presidência. Também afirmou que o plano foi “a primeira grande redistribuição de renda do Brasil”. E que em seu governo o Plano Real já estava idealizado, mas não foi implementado por falta de “condições políticas”.
Para o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), Sarney quer rever a História de um plano econômico terrível: “É uma tentativa revisionista. O Cruzado foi uma ilusão terrível, uma maneira que se encontrou de eleger governadores peemedebistas e políticos governistas. Encerradas as eleições, vieram os reajustes. Um plano equivocado, mal construído, um fiasco, um estelionato econômico e eleitoral contra a população e a nação brasileira”.
Tucano diz que plano Cruzado foi eleitoreiro
O líder do DEM afirmou que o Plano Cruzado dificultou a busca pela estabilidade econômica, e não o contrário, como defende Sarney no artigo: “Ele deveria é reconhecer que foi levado ao erro por economistas demagogos e não ficar enaltecendo um engodo. Para consertar o erro, foi preciso a política econômica feijão com arroz do Mailson da Nóbrega, que deu fundamentos para a estabilidade. Foi a parte responsável do governo Sarney.”
O líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira (SP), disse que o Cruzado foi um plano eleitoreiro:”Aquilo foi um estelionato eleitoral, serviu para eleger governadores do PMDB. Não tem a mínima comparação com o Real, nem na concepção, nem nos fundamentos econômicos e, sobretudo, nos resultados”.
Para especialista, Sarney tenta mudar História
O historiador Marco Antonio Villa, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), também criticou Sarney: “Sarney está criando um passado que não existe, criando um marimbondo de fogo histórico. Confesso que fiquei enojado com esse artigo. O artigo esconde o fracasso do Plano Cruzado e de seu governo porque tenta se apropriar do sucesso dos outros. É um estelionato histórico.” Para o professor da UFSCar, Sarney “delira” quando afirma que poderia ter sido deposto:”Isso não existe. É um delírio. Em 1986 não havia nenhuma mobilização, nenhum movimento militar. E um ano antes já havia sido convocada a Assembleia Nacional Constituinte. Não havia nenhum clima golpista.”