terça-feira, 13 de março de 2012

Dilma tira de Jucá a liderança do governo no Senado; Vaccarezza deve perder o cargo correspondente na Câmara

Pretextando a necessidade de promover um rodízio, a presidente Dilma Rousseff decidiu trocar o líder do governo no Senado: sai Romero Jucá (RR), e entra Eduardo Braga (AM). Os dois são do PMDB. A mudança foi negociada com Renan Calheiros (AL), líder do partido na Casa. A decisão é reflexo da rejeição do nome de Bernardo Figueiredo, que não conseguiu ser reconduzido, conforme queria Dilma, para a diretoria geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Descontente com o governo, os peemedebistas decidiram mandar um recado à presidente. O senador Lindberg Farias (PT-RJ), por exemplo, passou a acusar Jucá abertamente de ter comandado a recusa.

Jucá é do grupo de José Sarney e Renan. O trio manda no partido. Mas há uma fatia que resiste a essa liderança. Braga, em tese ao menos, dialoga com todos os grupos. A troca também vai permitir que Dilma tire da liderança do governo na Câmara o deputado Candido Vaccarezza (PT-SP), que nunca foi do seu agrado, é bom deixar claro. Ele já protagonizou algumas trapalhadas fomridáveis. Só está no cargo porque se articulou para ser presidente da Câmara e acabou atropelado por Marco Maia (RS), que resolveu fazer um discurso contra a hegemonia dos paulistas e coisa e tal. Como prêmio de consolação, Vaccarezza levou a liderança do governo na Câmara, mas nunca disse a que veio.

Dilma tenta mexer nessas peças para ver se melhora sua articulação no Congresso, mas está difícil. Não tem quem faça o trabalho de costura política. Ideli Salvatti (Relações Institucionais) é o desastre que dela se esperava. Nem os peixes assistiram ao milagre da multiplicação da competência de Ideli. Gleisi Hoffmann é disciplinada, mas não tem trânsito.

A natureza da crise
É preciso que se caracterize a natureza da crise para que ela não seja tomada por aquilo que não é. A turma de Dilma está plantando loucamente na imprensa que a presidente está num braço-de-ferro contra a ala fisiológica do PMDB, que estaria sempre querendo mais e mais. Como a Soberana é muito ética, durona mesmo, e gosta de tudo certinho, então sobreviria o conflito…

É…

Não é bem assim. O PMDB que está aí não é menos ético do que sempre foi. Jucá, aliás, que deixa a liderança, exerceu este mesmo cargo no governo… FHC!!! Em 2003, primeiro ano do governo Lula, ainda era… oposição! Depois foi virando…O partido é o de sempre. O que mudou?

Já expliquei aqui: Dilma é ruim de taco. O governo não decola. As coisas não acontecem. Os peemedebistas que estão na máquina precisam da “fazeção” para que possam atender à sua enorme clientela política, especialmente em ano eleitoral. Áreas como saúde e educação, nas mãos de petistas, concentram mais as ações de propaganda do governo, passando a impressão de operosidade. O PMDB se sente dando os votos de que Dilma precisa no Congresso, mas sem receber nada em troca, diz. E esse negócio de “nada em troca” contraria a leitura cínica da ética franciscana dos peemedebistas: “É dando que se recebe”.

Dilma dá o troco para demonstrar que não se sente refém do PMDB. Vamos ver. Duvido um pouco que mude alguma coisa na qualidade da articulação.

Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ok, a esquerda venceu. Venceu?

O filho de um casal de amigos trouxe outro dia lição de casa que tinha como base um texto de uma revista de esquerda, um texto errado e tendencioso, que não resistiu a uma checagem no Google. Nem o texto nem o professor.

Em poucas clicadas, o casal descobriu que o professor era militante de um nanopartido da esquerda radical, tinha se candidatado a vereador em 2004 e agora tentava catequizar adolescentes completamente despolitizados de uma escola conhecida de São Paulo usando um texto tendencioso e com informações erradas que ainda por cima promovia um correligionário seu.

Os pais ficaram na dúvida se deveriam ir ou não à escola reclamar do que lhes pareceu claramente proselitismo político em sala de aula de adolescentes. Mas uma fonte informada da área de educação argumentou que as universidades de história e geografia de São Paulo, USP e PUC especialmente, são celeiros inesgotáveis desses professores militantes de esquerda e que era inevitável lidar com eles. Melhor ensinar o filho a filtrá-los do que combater o inevitável.

E filtros serão necessários. A narrativa histórica de esquerda, que demoniza o grande capital e o grande proprietário ao invés de explicá-los, ganha espaço crescente no Brasil desde que a ignorância da ditadura legou essa fama terrível à direita nacional e desde que o PT e aliados tomaram conta dos cargos e verbas que movimentam a produção e a difusão de conhecimento no país. Você conhece algum cineasta de direita?

Não teremos guerras culturais por aqui. A esquerda já venceu. Mas, brasileiramente, venceu sem o menor rigor, muito pelo contrário. Venceu abraçando o capitalismo. Porque no fim de nossa história, o partido sob o qual o capitalismo brasileiro prosperou foi o PT. Foi com a economia de mercado que o PT conquistou o eleitorado. Goste-se ou não, foi/é uma estratégia brilhante.

Em "Entreatos", o documentário de João Moreira Salles sobre a campanha que levou Lula e o PT à Presidência, em 2002, Lula explica assim sua maior vitória eleitoral sobre José Serra, que este ano completa dez anos "Ninguém tem a base de apoio no Brasil, o alicerce que eu tenho. Tenho grande parte da Igreja Católica, os estudantes, a CUT, é muita coisa, ninguém tem isso, teve isso."

A lista do que Lula tem cresceu muito desde então, não para de crescer. Principalmente à direita. A nomeação do bispo que não pesca para o Ministério da Pesca é a última materialização dessa compulsão antropofágica à composição do ex-presidente, que casou perfeitamente com o clientelismo local e deu no que parece ser cada vez mais uma hegemonia política sufocante e duradoura.

Com a conversão dos evangélicos, que agora comungam com os católicos, Lula, quer dizer, Dilma expande a enorme base governista. No seu governo "all inclusive", a extinção da direita prossegue por cooptação.

Mas fica só uma pergunta para além da política: afinal foi o lulo-petismo que subjugou a direita ou foi a direita que subjugou o lulo-petismo?


Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos "Dinheiro" (2004-2010) e "Mundo" (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

E os milhões mortos pela Santa Inquisição?”, perguntam. E Reinaldo Azevedo responde.

Escrevi em alguns posts que os valores essenciais do cristianismo certamente conduzem um juiz a um bom caminho — isso se o crucifixo estivesse em alguns tribunais por isso. Mas a razão, como já expliquei, é outra. Sempre que se fala do cristianismo, conjugam-se as mais variadas correntes de difamação da religião, especialmente do catolicismo, que se foram formando ao longo da história. A mais recente — historicamente falando — e mais poderosa, claro, é o marxismo. Atrocidades foram cometidas por autoridades eclesiásticas em quase dois mil anos de história? Foram, sim! E a própria Igreja se debruçou sobre isso.

Uma das técnicas da militância política, que deveria causar repúdio aos historiadores, é distorcer os fatos para vender uma ideologia. Infelizmente, no Brasil e em boa parte do mundo, quando o tema é religião, a irracionalidade predomina… em nome da razão! Nos colégios, nos cursinhos, nas universidades, professores se referem aos “milhões de mortos da Inquisição”, por exemplo, para tentar criticar não aquela Igreja do passado, mas a do presente. Parece que não há diferença entre as práticas do século 17 e as do século 21!!! Imaginem se todas as barbaridades que os cientistas já cometeram, na comparação com o que sabemos hoje, fossem usadas para considerar a ciência, então, um discurso brutalizante. “Religião não é ciência”, gritará alguém. De fato, a crença não é um objeto que possa ser dissecado à luz das leis da natureza. Mas existem uma ciência teológica e uma ciência moral que remetem ao conjunto de experiências e conhecimentos acumulados no terreno da fé. Adiante.

Ao longo do tempo, por bons e maus motivos, a Igreja foi uma inimiga poderosa de poderosos. Misturou-se e não se distinguiu da política durante um largo período. E foi, nem poderia ser diferente, alvo de difamações. Uma delas diz respeito justamente aos tais “milhões” de mortos da Inquisição. Uma leitora, Tereza Cristina, manda o comentário que segue. Ao responder a ela, respondo a dezenas, talvez centenas de outros comentários de igual teor. Leiam.

Reinaldo, você pode até discordar da Liga Brasileira de Lésbicas é um direito seu. Mas negar parte da história do Cristianismo no seu discurso é inaceitável. As acusações feitas a Liga hoje por você já foram práticas do Cristianismo. Não vamos esquecer da SANTA INQUISIÇÃO: momento que sabemos muitos morreram, foram torturados, sofreram perseguição religiosa e que a proteção da vida não foi lembrada. Seria bom também, se tivéssemos como voltar no tempo e perguntar aos africanos que vieram para o Brasil sobre PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA.Só para lembrar: A Inquisição foi um espécie de Tribunal religioso criado na Idade Média para condenar TODOS que eram contra os dogmas pregados pela Igreja Católica.Mandou para a fogueira milhares de pessoas como você mesmo falou ” crime simplesmente por não concordar com eles. De que mesmo a Liga está sendo acusada???? Contra fatos não há argumentos.

Comento
Em primeiro lugar, não acusei a “Liga Brasileira de Lésbicas” de coisa nenhuma — só de intolerância. Quanto à Santa Inquisição, republico um texto do site católico Veritatis Splendor - Memória e Ortodoxia Cristãs, que põe as coisas nos seus devidos lugares, com as necessárias referências bibliográficas.

Quem ainda estiver disposto a aprender alguma coisa vai se surpreender com o texto. Quem já sabe ficará satisfeito com a divulgação dos fatos — ou vai se zangar porque a mentira lhe é útil. E há sempre aquele que não vai querer aprender nada: “Ah, o Reinaldo está dizendo que a Inquisição foi bolinho”. Atenção! A fase do Terror, da Revolução Francesa, matou, em um ano, milhares de pessoas — os números variam de 16 mil a 40 mil. Muitas vezes mais do que a Inquisição em quatro séculos! Fidel Castro fuzilou, sozinho, muito mais do que o Santo Ofício ao longo da história: 17 mil pessoas. Se considerarmos, então, os mais de 80 mil que morreram afogados tentando fugir da ilha… Mao Tse-Tung matou 70 milhões; Stálin, 25 milhões; Hitler, 6 milhões…

Não, senhores! Eu não estou negando que a Igreja tenha praticado brutalidades. Como vocês verão abaixo, no entanto, ela podia ser muito mais branda que os tribunais civis. Mas isso é o de menos. Invariavelmente, os que querem mandar a Igreja, mesmo a de hoje, para o banco dos réus costumam mandar para o trono Robespierre, Fidel, Mao, Stálin…

Leiam o artigo, reflitam, pesquisem.
*
A Inquisição exterminou 30 milhões de pessoas?
Para muitos estes supostos dados de “milhões de mortes” são as provas claras e literais do obscurantismo e corrupção da Igreja católica durante a “Idade das Trevas” podemos então afirmar a veracidade destes números que pressupõem que um verdadeiro “holocausto” foi promovido por parte do clero da Igreja Católica?

É comum vermos na literatura secular, em filmes e documentários, pior nas escolas do ensino fundamental e médio e até em faculdades e universidades, a afirmativa de que a Igreja “torturou e matou milhares”, alguns dizem milhões de pessoas aniquiladas pela Inquisição. Há também diversos ambientes acadêmicos no Brasil em que é nítido tal interpretação, são muitos autores e professores universitários a partilhar dessas objeções.

É inegável a atuação da Inquisição assim como os julgamentos, qualquer contraposição é uma aberração um erro grotesco de história, a crítica veiculada neste texto é dirigida aos números de mortes e incidentes referentes aos cerca de 386 anos de atuação, deste tribunal eclesiástico.

Muitos podem até dizer que números não importam, contudo ela “matou e torturou”, a questão é que nesta situação os números representam o maior pretexto e fonte de contradições a temática, pois tendem a alimentar e propagar a ideia de uma tragédia histórica, sem controle, um crime, um perverso e criminoso ato, vindo da Igreja contra a humanidade. Não levando em conta os fatores, o contexto e as posições religiosas da época estaria correto colaborar com estas argumentações e afirmações? Teria sido uma ferramenta de perseguição e extermínio de quem ousava pensar diferente? ou trata-se de posições subjetivas oriundas do homem contemporâneo?

Vale salientar que estas sociedades eram claramente ligadas ao bem e ‘alegria social’ (Pernoud, 1997) e da religião “em função da fé cristã” (Daniel Rops, Vol. III. p. 43), tinham como ferramentas de prevenção, a condenação de grupo ou individuo, para evitar a contaminação de confusões e divisões que ruíam ‘todo o sistema e ordem social da época’ (Gonzaga, 1994) além de evitar a propagação de heresias e divisões entre os fieis na Cristandade, assim os códigos penais abraçavam e previam comumente a tortura e a morte do réu. E o povo entendia que estes eram os princípios jurídicos e inquisidores (cf. Mt 18,6-7) que evitavam a expansão de cismas e heresias.

Mas seriam verdadeiros estes indicies sobre a Inquisição? Ou é maquinação vinda dos inimigos da religião que tiram proveito não só da Inquisição ou das Cruzadas, centram-se também nos erros e faltas morais de alguns filhos da Igreja para fazê-los de “cavalo de batalha na sua guerra contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja.” como disse o historiador e Pe. W. Devivier, S.J. Fato que “é da natureza da Igreja provocar ira e ataque do mundo” segundo Hilaire Belloc.

A principal finalidade do artigo não é amenizar os efeitos da Instituição ou fazê-la mais branda, mas trazer a tona os fatos e verdadeiros números da referida instituição, cujos estudiosos sérios testemunham para que possamos construir uma justa interpretação do tema, sem nos veicularmos a nenhuma propaganda anticatólica.

Vamos tomar como referência as Atas do grande Simpósio Internacional sobre a Inquisição, em que 30 grandes historiadores participaram vindos de diversas confissões religiosas, para tratar historicamente da Inquisição, proposta motivada pela Igreja. O Papa João Paulo II afirmou certa vez: “Na opinião do publico, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. E perguntou “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade”.

O encontro realizou-se entre os dias 29 e 31 de Outubro de 1998. Com total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Oficio e da Congregação do Índice. As Atas deste Simpósio, foram anos depois reunidas e apresentadas ao público, sob forma de livro contendo 783 paginas, intitulado originalmente de “L’Inquisione” pelo historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade de La Sapienza de Roma. O mesmo historiador lembrou “Para historiadores, porem, os números têm significado” (Folha de S. Paulo, 16 junho 2004).

As atas documentais do Simpósio, já foram utilizadas em vários obras de historiadores, e continuam a ser, tais documentos são resultados de uma profunda pesquisa sobre os dados de processos inquisitoriais: as seguintes afirmações foram declaradas pelo historiador Agostinho Borromeo.

Sobre a “famigerada e terrível” Inquisição Espanhola:
“A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7% (13) foram condenados em “contumácia”, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.”

Sobre as famosas “caças às bruxas”.
“Dos 125.000 processos de sua historia [tribunais eclesiásticos], a Inquisição espanhola condenou a morte 59 “bruxas”. Na Itália. 36 e em Portugal 4.”

E a propaganda de que “foram milhões”.

Constatou-se que os tribunais religiosos eram mais brandos do que os tribunais civis, tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis que mataram milhares de pessoas.

Sentenças de um famoso inquisidor:
“Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 “entregas ao braço secular” ([citado em] AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1 ed. Cleofas. Lorena. 2009, p. 23).

O Simpósio conclui que as penas de morte e os processos em que se usava-se tortura, representam números pouco expressivos, ao contrario do se imaginava e foi propagado. Os dados são uma verdadeira demolição e extirpação de muitas ideias falsas e fantasiosas sobre a Inquisição.

“Hoje em dia, os historiadores já não utilizam o tema da inquisição como instrumento para defender ou atacar a Igreja. Diferentemente do que antes sucedia, o debate se encaminhou para o ambiente histórico com estatísticas sérias” (Historiador Agostinho Borromeo, presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos: AS, 1998).

Bom que tudo isto tem mudado é sinal de esperança, tomara que haja uma nova reconstrução “hermenêutica”, sendo esta necessidade histórica. Que com uma justa crítica acurada, superem-se as ambiguidades historiográficas.

Pena que as correntes históricas penduram-se e os teóricos antigos, dizem eles os “conceituados” continuam a ser as referencias “fidelíssimas”, assim na prática pedagógica e histórica; seja superior (acadêmica) ou (média e fundamental) ensinos públicos, continua à ritualista tradição a-histórica, não transparente sobre os acontecimentos e de tom feiticista e alienado, incluindo dentre destes, muitos estudiosos, professores, e jornalistas brasileiros e do resto do mundo. “Há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõe o que seja a Igreja Católica” (Bispo americano, John Fulton Sheen).

Referencias:

AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1º ed. Cleofas. Lorena. 2009.

DEVEVIER, W. A Historia da Inquisição, curso de apologética cristã. Melhoramentos, São Paulo, 1925.

L’INQUISIONI. Atas do Simpósio sobre a Inquisição, 1998.

PERNOUD, Régine. A Idade Média: Que não nos ensinaram. Ed. Agir, SP, 1964.

ROPS. Henri-Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Vol. III. Ed. Quadrante, São Paulo. 1993

Por Reinaldo Azevedo

PMDB manda recado e ajuda a rejeitar recondução de indicado de Dilma para agência reguladora

O PMDB mandou ver. Deu um recado forte ao governo. Tudo foi organizado, digamos assim, durante o “mandato” de Michel Temer . Leiam o que informam Chico de Gois, Gerson Camarotti e Cristiane Jungblut, no Globo:

Por 36 votos contra 31 a favor e uma abstenção, o plenário do Senado rejeitou nesta quarta-feira a recondução de Bernardo Figueiredo para o cargo de diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Considerado um homem do staff da presidente Dilma Rousseff, com quem trabalhou diretamente por dois anos na Casa Civil, o resultado é uma derrota de Dilma no Senado. Integrantes da base aliada avaliaram que o resultado reflete a insatisfação de senadores com o governo. E o Planalto foi pego de surpresa com o resultado da votação.

O núcleo palaciano já tinha identificado a insatisfação na base. Mas não esperava essa derrota. A votação foi recebida por interlocutores diretos da presidente como uma advertência dos partidos aliados no Senado. “Hoje, os aliados estão usando uma votação secreta para mandar um recado. O problema maior será se essa rebelião acontecer numa votação aberta”, reconheceu um auxiliar direto da presidente Dilma.

Ainda na avaliação do governo, houve uma junção de insatisfações no caso. No encaminhamento da votação, mais cedo, o recado fora dado pelo PMDB. Foi apresentado um requerimento para adiamento da votação, e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), conseguiu manter a votação por apenas cinco votos de vantagem. Ao encaminhar, o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), avisou que iria manter a votação, mas que a indicação não era pacífica dentro do partido, numa senha para a votação seguinte.

Interlocutores do Planalto disseram que avisaram que haveria problemas. O PR, que queria manter o controle da agência, estava irritado com a situação. Outros, inclusive dentro do PT, comentaram que foi uma derrota da presidente, devido sua ligação com o indicado.

O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), também avaliou que o resultado da votação secreta traduziu a insatisfação de alguns senadores com o governo. “Existe insatisfação em vários partidos e isso foi manifestado no voto secreto”, concluiu.

Para ele, é preciso aprofundar as relações políticas entre o governo e a base para acabar com traições. A insatisfação, de acordo com o líder, tem a ver com os problemas de sempre: falta de liberação de emendas, indicações políticas, falta de atenção dos ministros. “Juntou a insatisfação com os problemas com o nome do indicado. O relatório do TCU deu combustível”, observou. A oposição comemorou. “As irregularidades eram flagrantes, e as denúncias, gravíssimas. Prevaleceu o bom-senso e o Senado agiu com independência”, disse o líder do PSDB, Álvaro Dias (PR)

‘O noticiário da TV me faz agradecer aos céus por não ter nascido na Europa’,


Mauro Pereira

Depois de assistir aos principais telejornais, todos patrocinados por alguma estatal e veiculando nos intervalos de generosas propagandas de algum dos 40 ministérios, agradeci aos céus por não ter nascido europeu: de acordo com os informativos televisivos, trata-se do continente mais subdesenvolvido do planeta. Reportagens extensas e minuciosas me permitiram conhecer mais a fundo o atraso cultural, a instabilidade política e a miséria social que vêm flagelando alemães, ingleses, franceses, dinamarqueses, holandeses ao longo de suas histórias. Mais uma vez minha presidente me encheu de orgulho ao dar uma descompostura naqueles governantes medíocres, incompetentes e corruptos, e ensinar-lhes o que fazer com seus dólares.

Tive a oportunidade, também, de avaliar como sou privilegiado por residir num país que pratica uma das políticas de distribuição de renda mais avançadas do mundo. Responsável direta pela erradicação da pobreza, foi concebida sob a ótica revolucionária do capitalismo de resultado, principalmente o eleitoral. Descobri que vivo em uma nação cuja população está condenada a ser rica: a pobreza caminha celeremente para ganhar status de contravenção penal. Um único senão fica por conta de meia dúzia de miseráveis que agora deu para querer andar de avião, transformando os saguões dos moderníssimos aeroportos nacionais num inferno.

O desenvolvimento espetacular do sistema educacional garantiu a mais de 20% dos adolescentes a alternativa inovadora de concluir o ensino fundamental sem sequer ter frequentado salas de aula, além de criar um método particular no ensino médio que estimula o potencial intelectual do aluno obrigando-o a percorrer os limites da compreensão para sair ileso das provas do ENEM. Sou um cidadão despreocupado e protegido e os investimentos pesados na segurança pública, confesso, até me fazem sentir saudade dos tempos em que religiosamente me prostrava em frente à televisão para assistir aos brasís urgentes.

Coisas do passado. A excelência no serviço de saúde oferecido pelo governo federal atingiu um estágio de excelência tão avançado que nossas autoridades são as primeiras a dar o exemplo. Quando necessitam de atendimento médico não hesitam em usar o Sistema Sírio-Libanês de Saúde. Estamos próximos da perfeição! Porém, inquestionavelmente é no plano político e na seara administrativa que percebo o maior de todos os avanços.

O Congresso Nacional é uma beleza! Constituído por homens públicos de integridade moral acima de qualquer suspeita, meus deputados e senadores são notáveis. Sobressaem-se pelo respeito devotado aos cidadãos quando nomeiam para suas Comissões os melhores quadros da Casa. A de Justiça, por exemplo, é comandada por um réu em processo de corrupção, e a da Educação tem como destaque um parlamentar que não se acovardou ante a dificuldade extrema imposta por uma oposição invejosa, utilizando menos que hora e meia para desenhar o seu nome diante de um juiz eleitoral. Há momentos em que o ufanismo se exacerba e não consigo me conter, reiterando minha gratidão por ter nascido no meu país!

O Executivo é o meu maior orgulho. Só presidentes como os meus seriam tão competentes para produzirem, sozinhos, quase duas dezenas de ministros corruptos em pouco mais de nove anos. E escaparem ilesos! O desempenho dos ministros é assombroso e o índice de aprovação apurado junto a fornecedores e ONGs companheiras sempre os premia com notas altíssimas. Uns ganham as de 50; outros, as de 100. É virtude demais. Posso estar errado, mas sou capaz de apostar que no relacionamento internacional o governo do meu país é reconhecidamente o único entre todas as nações que só funciona quando leva um pé no traseiro.

Sou duplamente abençoado, pois, além de ter nascido no meu país, habito o continente mais desenvolvido entre todos a América. Desconsiderando-se o Norte, que míngua à própria sorte, sou bafejado pela fortuna por viver na outra ponta continental e compartilhar de uma vizinhança da mais alta qualidade. Mais ao centro, percebe-se uma explosão de democracia, e é concedido aos oposicionistas o direito de morrerem de fome, sem nenhuma interferência governamental. Ao Sul, estende-se uma malha invisível que dá guarida a democratas legendários e inquestionáveis. Kirchner, a Evita de Nestor; Morales, A Grife do Índio; Lupo, O Pai de Todos; Chavez, O Tio Sam de Boina e Correa, O Peito de Aço. É democracia demais. E futuro de menos.

Como desgraça pouca é bobagem, de tempos em tempos todos se juntam à Dona da Pensão em algum ponto dessa América destroçada para se autoproclamarem heróis nacionais, dissertarem sobre as delícias do socialismo capitalizado e ofender os americanos do norte. Entre um descuido e outro, até comentam a miséria extrema que devasta a América. A América que eles devastaram. Éter na mente, latino-americano!

Quando termina o último dos quatro telejornais vai-se junto a sensação de êxtase que deles emana e fica apenas a certeza de que esse é o meu país. Mas, decorrente dessa convicção, sei, também, que esse jamais será o meu governo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

França: por trás dos ditirambos "verdes" e "vermelhos" se rendem à gastronomia refinada

Comer insetos é para o comum dos homens,
não para líder verde no governo

A gastronomia é uma arte verdadeiramente aristocrática. Sobretudo se pensarmos na francesa. Levada à glória na corte de Luiz XIV, ela atingiu paroxismos de requinte em mesas esplêndidas do século XIX, como as do príncipe de Talleyrand. Dali conquistou todas as cortes, palácios, casas de burgueses e hoje inspiram restaurantes e deliciosos pratos caseiros no mundo inteiro.

Porém, em livros e discursos, intelectuais socialistas e comunistas manifestam seu ódio contra a gastronomia e exaltam a alimentação proletária como sendo a única compatível com os pobres, como se estes desconhecessem saborosíssimos pratos populares.

Os verdes execram a gastronomia – inclusive a feijoada e um bom churrasco – e até pregam o consumo de insetos nauseabundos. Sobre isso já falamos em nosso blog.

Porém, observou sagazmente o jornal “Le Monde” de Paris,, após proferirem seus ditirambos, os corifeus do socialismo e do ambientalismo descabelado se reúnem nos templos mais seletos da gastronomia parisiense para se regalarem com suas delícias

Nesse sentido, no tempo dos ministros ferozmente socialistas e autogestionários de François Mitterrand, o apelativo “esquerda caviar” fez sucesso.

Os jornalistas de “Libération” (órgão fundado após a Revolução de Maio de 1968), que “davam a palavra ao povo”, gastam parte importante de seu ordenado em restaurantes “étoilés” (estrelados) de Paris, descreve “Le Monde”.


Carlo Petrini, fundador do Slow Food (uma das “pérolas” do ambientalismo), contava que Lucio Magri, diretor do jornal italiano anarco-subversivo “Il Manifesto”, tachava debochadamente de “padres” os militantes que elogiavam a boa mesa.

“Mas – acrescentou Petrini –, nas férias, [o diretor anarquista] ia à França para fazer um giro discreto, mas suculento e requintado, nos melhores restaurantes antes de voltar a se identificar com a classe operária”.

O Club des Cent (Clube dos Cem) foi fundado em 1912 para o punhado de privilegiados franceses que podiam percorrer o país de carro à procura das mais requintadas iguarias. Hoje ele só possui 100 membros. Mas cada uma de suas vagas é disputada, de um lado pelo que o mundo do dinheiro tem de mais rico, e de outro pelo que as esquerdas “chiques” têm de mais populista e anticapitalista.

Nomes que controlam bilhões como Bouygues, Peugeot, Rostchild, ou príncipes como Jean de Luxembourg e Alberto II de Mônaco, podem encontrar socialistas bem “vermelhos” como Jack Lang ou Strauss-Kahn saboreando “œuf à la coque au caviar” ou “royale de foie gras” regados com vinhos como o Puligny-Montrachet, o Gruaud-Larose, e champanhes como o Roederer magnum.

As histórias são intérmináveis. Lulu, um ex-trotskista, trocou a foice e o martelo pelo garfo e a faca e recebia em seu bistrot da rue du Château o mais restrito círculo de socialistas mitterrandianos que outrora quiseram arrasar o capitalismo.

“Hoje, ele não se sente tão sozinho” – conclui com ironia o jornal pró-socialista, simpático à causa ambientalista radical.

‘Ainda as privatizações’, um artigo de Fernando Henrique Cardoso

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

Ilustração: Luiz Roberto
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

A recente e tardia decisão do governo federal de enfrentar o péssimo estado da infraestrutura aeroportuária deu margem a loas de quem conhece a precariedade de nossos aeroportos e a justificativas envergonhadas por parte de dirigentes petistas, segundo os quais “concessões” não são privatizações, como se ambas não fossem modalidades do mesmo processo.

Passados tantos anos das primeiras privatizações de empresas e concessões de serviços públicos, e dada a sua continuidade em governos controlados por partidos que se opunham ferozmente a elas, a relevância ideológica da discussão é marginal. Só o oportunismo eleitoral pode explicar por que insistem num tolo debate que sustenta ser “patriótico” manter sob controle estatal um serviço público, ao passo que concedê-lo à iniciativa privada, com ou sem a venda da propriedade, é coisa de “entreguista”.

Esvaziar o Estado de funções econômicas não passou pela cabeça dos constituintes, nem dos congressistas ou dos governos que regulamentaram ou modificaram a Constituição para adequá-la às transformações da realidade produtiva. Ainda no final dos anos 80 houve privatização de empresas de menor importância que se haviam tornado estatais porque o Estado as tinha salvado da falência, nas chamadas operações-hospital do BNDES.

No começo dos anos 90, já regulamentadas em lei, as privatizações ganharam corpo. Alcançaram, por exemplo, o obsoleto parque siderúrgico do País, que desde então passou por imensa modernização, com apoio do BNDES, não mais na função de socorrer empresas falidas, mas de promover a atualização do setor produtivo. Na segunda metade dos anos 90, quando se tratou de atrair o capital privado para os investimentos que o Estado já não podia fazer na oferta de telecomunicações, energia, petróleo, etc., flexibilizaram-se monopólios estatais e se criaram as agências reguladoras para assegurar a competição nesses setores, evitando o surgimento de monopólios privados. O governo atuou não apenas para aumentar a concorrência nos leilões ─ e, portanto, o ágio recebido pelo Tesouro ─, mas também para apoiar, por meio do BNDES, o investimento privado que se seguiu à desestatização.

No caso do petróleo, depois da quebra do monopólio, em 1997, a Petrobrás transformou-se numa verdadeira empresa moderna, menos sujeita a influências político-fisiológicas, que hoje se insinuam novamente. Diziam que o governo queria privatizá-la, quando, na verdade, estava comprometido a fortalecê-la. Mantida sob o controle da União, mas submetida à competição, tornou-se uma das cinco maiores petrolíferas do mundo. A participação acionária do setor privado na companhia, existente desde o período Vargas, foi ampliada, até com a possibilidade de uso do FGTS para a compra de ações por parte dos trabalhadores. As contas da empresa tornaram-se mais transparentes para o governo e para a sociedade. A quebra do monopólio veio acompanhada de uma política de indução ao investimento local na indústria do petróleo, com a fixação de porcentuais de conteúdo nacional já nas primeiras licitações realizadas pela ANP. Medida adotada, no entanto, com o equilíbrio necessário para evitar aumento nos custos dos equipamentos e atrasos em sua produção, como agora se verifica.

Nas telecomunicações houve uma combinação de privatização e concessão de serviços. No caso da telefonia celular poucos foram os ativos transferidos, pois ela praticamente inexistia no País. Estamos vendendo vento, brincava Sérgio Motta, então ministro das Comunicações, que sonhava com o dia em que celulares seriam vendidos em todo canto. Pena ter morrido antes de ver seu sonho realizado. Hoje existem no Brasil mais celulares do que habitantes. Na desestatização do Grupo Telebrás houve transferência de ativos. A divisão da holding em várias empresas foi classificada de esquartejamento, quando pretendia assegurar a competição no setor. Graças a esse novo ambiente e às regras estabelecidas pelo governo, as empresas privatizadas foram obrigadas a fazer pesados investimentos para acompanhar os avanços tecnológicos e ampliar o acesso às linhas, inclusive à internet, deixando-nos sem saudades do antiquado sistema de telefonia pré-privatização.

Já no caso da Vale do Rio Doce, assim como da Embraer, houve privatização pura e simples, com a ressalva de que, nesta última empresa, o governo manteve uma golden share, com direito a veto; e o BNDES adquiriu e manteve uma posição importante, de cerca de 20%, no controle da mineradora. Para não falar na participação dos fundos de pensão das empresas estatais. Na privatização da Vale, os críticos diziam que o governo estava alienando o subsolo nacional ─ uma afirmação descabida, já que este era e continuou a ser propriedade da União, conforme manda a Constituição. Falavam também que a empresa terminaria “desnacionalizada”, com número menor de empregos ─ retórica que os fatos posteriores desmentem sem margem à contestação. Ainda se escutam murmúrios do surrado argumento de que a mineradora, que hoje vale muito mais do que o bom preço por ela pago à época, foi vendida por valor vil (não foi o que se viu no leilão, vencido por um grupo nacional que ousou no preço bem mais do que o considerado razoável pelos demais concorrentes). Ora, se hoje a Vale tem valor em bolsa da ordem de US$ 100 bilhões, é porque, liberta das amarras estatais, pôde chegar aonde chegou.

Os que criticam as privatizações são os mesmos que se gabam dessas empresas e de sermos hoje a quinta economia do mundo. Esquecem-se de que isso se deve em muito ao que sempre criticaram: além das privatizações, o Plano Real, o Proer, a Lei de Responsabilidade Fiscal, enfim, a modernização do Estado e da economia. Mas atenção: não basta fazer concessões e privatizar. É preciso fazê-las com critérios predefinidos, elaborar editais claros, exigir que se cumpram as cláusulas das licitações e evitar que as agências reguladoras se transformem em balcões partidários.

Esperemos para julgar o que ocorrerá com os aeroportos.