quarta-feira, 23 de maio de 2012

A PEC do trabalho escravo e o setor escravo de um preconceito boçal

A Câmara aprovou, por 308 votos a 29, a chamada PEC do Trabalho Escravo, que prevê a expropriação de propriedades caso se constate a existência de “trabalho escravo”. Já escrevi fartamente sobre isso aqui. Vejam que curioso: o texto não discrimina propriedade urbana de rural. Vale para os dois casos. Não obstante, ao noticiar a aprovação, o jornalismo não tem dúvida: informa que foi aprovada a PEC que prevê a “expropriação de terras”. 

 O que isso significa? Que as propriedades urbanas só foram incluídas na PEC como tributo que o vício presta à virtude. O que se quer é mais um instrumento para pressionar esses que a imprensa chama “ruralistas”. Nunca antes na história destepaiz uma categoria tão importante para o país foi tão satanizada. Alguém aí imagina as oficinas de costura que exploram a mão de obra barata dos bolivianos sendo expropriadas? Ora… Há dias, uma empreiteira que ergue casas do programa “Minha Casa, Minha Vida” foi acusada pelo Ministério Público do Trabalho de explorar trabalho “semelhante à escravidão”. Ela seria expropriada? Até parece! 

O texto volta para o Senado, onde se espera que haja uma regulamentação caracterizando o que é “trabalho escravo”. Qual é o busílis? As normas que regulamentam, por exemplo, o trabalho rural têm 252 itens. O “trabalho semelhante à escravidão” virou matéria de arbítrio da fiscalização. O simples descumprimento de quatro ou cinco regras já pode jogar o proprietário nessa categoria. Ou se estabelece o que é trabalho escravo, ou tudo passa a ser possível. 

A PEC do trabalho escravo é mais uma evidência de que um setor da economia — o agropecuário — é escravo de um preconceito boçal.

Márcio Thomaz Bastos. Nunca antes na história das democracias houve alguém como ele. É um ser único no mundo democrático

Olhem aqui: todos têm direito a um advogado. É fundamento do estado de direito. Ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo ou a se autoincriminar. É outro fundamento do estado de direito. Advogados criminalistas não devem atender apenas freirinhas do convento das carmelitas descalças e probos professores de educação moral e civismo. Muito provavelmente eles não precisem de… advogados criminalistas. Isso também é um apanágio do estado de direito. Márcio Thomaz Bastos é, sem dúvida, um dos maiores criminalistas do país. Fez fama e grande fortuna nesse ramo. Que o advogado provavelmente mais rico do país atue justamente na área criminal, eis um emblema da vida pública brasileira, não é? Ao mesmo tempo, Bastos sabe cuidar de sua reputação politicamente correta. O militante lulo-petista falou, por exemplo, como “amicus curiae” no STF em defesa das cotas raciais. Curiosamente, pronunciava-se em nome da Associação dos Advogados Afrodescendentes. Adiante. 

Não! Não serei eu aqui a julgar doutor Márcio em razão da qualidade de seus clientes. Isso não faz sentido. Seria o mesmo que dizer que o estado se torna copartícipe de crime quando nomeia, por força de lei, um defensor para o pior dos homicidas. O ponto definitivamente não é esse. 

 O problema de Márcio Thomaz Bastos não é sua expertise de criminalista, mas a sua inserção na vida política. Eu duvido que exista em qualquer outra democracia do mundo alguém como ele. É militante partidário; é um dos principais conselheiros e interlocutores de Lula (dentro e fora do poder formal) — o mesmo Lula que tenta, a todo custo, manipular a CPI; foi ministro da Justiça; guarda os arcanos da República e do PT… 

Essa condição lhe rendeu hoje, durante a CPI do Cachoeira, muitos elogios, salamaleques e rapapés. Ora, foi durante a sua gestão no Ministério da Justiça, com a Polícia Federal sob o seu comando, que se estabeleceu no país a República do Grampo. Foi sob o seu comando que setores da PF decidiram brincar de luta de classes, com algumas operações espetaculosas para demonstrar que “os ricos também choram”. Sob os seus auspícios, prisões, digamos, midiáticas ganharam o noticiário. O preso poderia até ser solto logo depois, mas a notícia já estava garantida. E se criou então um mito: acabou a impunidade, acabou a festa! 

Acabou? Como criminalista no Ministério da Justiça, foi dele a tese de que mensalão era mero caixa dois de campanha. O esquema Delta, diga-se, tem tudo para ser um mensalão de dimensões pantagruélicas. Não venham me dizer que devemos encarar como coisa corriqueira o fato de Dr. Márcio ora estar de um lado do balcão, tentando coibir o crime, ora estar do outro, oferecendo seus préstimos profissionais a criminosos. Não há nada de errado numa coisa. Não há nada de errado na outra. Uma e outra são parte do jogo democrático. Quando as duas condições, no entanto, se juntam num homem só, há algo de errado é na República. 

Consta que a defesa de Cachoeira custará R$ 15 milhões ao contraventor. 99,9% dos criminalistas brasileiros — na verdade, dos advogados — não ambicionam receber isso ao longo de, sei lá, 10 ou 15 anos; uma vida, quem sabe? Por isso, claro!, parabéns ao doutor Márcio. Mas não o parabenizo, não!, por ser, a um só tempo, um homem que domina segredos de estado e do principal partido do poder e também o advogado de um criminoso que tem relações íntimas com essas duas instâncias. 

Se os parlamentares quiserem elogiar o criminalista, fiquem à vontade. Se quiserem elogiar o ex-ministro da Justiça, vá lá. As duas coisas no mesmo discurso? Aí não! Isso é mais sintoma de um problema do que motivo para regozijo. De resto, dado o perfil, não será doutor Bastos a estimular Cachoeira a dizer tudo o que sabe justamente contra o grupo de poder e a corrente ideológica que fazem do advogado a mais fina flor do pensamento dito ”progressista e de esquerda” do Brasil. 

Vejam que coisa: Márcio Thomaz Bastos detém hoje segredos de estado (foi ministro de uma das pastas mais importantes), segredo do PT e segredos do Cachoeira. Tudo isso e, consta, mais R$ 15 milhões só nessa causa. O Brasil que ele sempre disse que queria mudar tem sido muito generoso com ele. 
 Por Reinaldo Azevedo

Os petistas como policiais da Internet. Ou: PT não é como colesterol e não tem versão HDL. Ou: Expulse o homem-partido de sua praia

Leiam este texto. *

Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, convocou os militantes do partido a se comportar como policiais da internet. Eles não só devem usar a rede para fazer campanha para Lula como denunciar o que chama de “guerra suja”. Há até um endereço para o qual enviar mensagens consideradas ofensivas. O partido ameaça os que não rezam segundo a sua cartilha com uma indústria de ações judiciais. É uma intimidação explícita. Elas podem não dar em nada, mas tomam tempo, enchem a paciência. Diogo Mainardi sabe disso. Eu sei disso. Se eu postar num blog a existência de 40 quadrilheiros aliados de Lula é “guerra suja” ou informação prestada pelo procurador-geral da República? 

 Pomar quer é patrulhar as consciências. Este senhor disputou com Ricardo Berzoini a presidência do partido e chegou a fazer críticas bastante ácidas à turma que promoveu ou tolerou o mensalão. Tarso Genro, antes dele, havia até imposto condições para dirigir a legenda. Defendia a sua “refundação”. Os jornais caíram na conversa e se esmeraram em fazer infográficos distinguindo as várias correntes petistas. Nada aconteceu. Estão todos juntos porque jamais se separaram. Incluindo Delúbio Soares. O PT não é como colesterol. Não tem uma versão HDL. 

 “Sujo” é tudo aquilo com que os petistas não concordam. E por que a internet? Porque não há censura politicamente correta na rede, embora, claro, seus usuários estejam sujeitos às leis do país. Ocorre que Pomar não está preocupado com infrações que configurem crimes explícitos. A questão é outra. A rede mundial de computadores é o território do indivíduo - palavra e conceito que as esquerdas abominam - do homem-célula. Não há constrangimentos ditados ou por concessões públicas ou por razões de mercado. 

Esclareço a referência ao mercado: hoje em dia, é preciso ser “neutro” e “isento” diante de conflitos. Ou o veículo será visto como um “radical”. É preciso falar para o maior número de pessoas possível. Ninguém sabe para que time Galvão Bueno torce. E está certo. Ele é quase um juiz do jogo, que desperta paixões. Mas será assim também na política? Será tão legítimo “torcer” para Israel quanto “torcer” para Hezbollah-Síria-Irã? Lendo alguns jornais e assistindo a certos noticiários, sou tentado ora a achar que sim, ora a considerar que criminoso mesmo é Israel, o Estado democrático que foi agredido e que está reagindo. Estes setores da imprensa também usam civis libaneses como escudo. Eles protegem a sua covardia e a justificação moral do terror. 

 Se o petismo está devidamente infiltrado na mídia formal (sem a qual os blogs não existem, é bom deixar claro, mas este é assunto para outro artigo); se, nas redações, disputa espaço com outras correntes de pensamento, sempre minoritárias, porque fragmentadas, a hegemonia, na rede, ainda é daquelas vertentes de pensamento que o PT classifica de “conservadoras” ou “de direita”, sinônimo, entenda-se, de “sujas”. E por que é? Um submarxista diria que é por causa da exclusão digital, uma mentira grosseira. No universo de que falo, o corte de renda não tem a menor importância. 

 A minha hipótese é outra. O homem-célula não se submete a nenhum ente de razão. Ele não precisa escrever, por exemplo, que “os EUA consideram o Hezbollah um grupo terrorista”, como se fosse esse um juízo de valor. O homem-célula não precisa ouvir o que pensa a Fenaj sobre o projeto que cria um cartório no jornalismo. Sei que choca o que vou escrever, mas vou escrever: o homem-célula é incompatível com a esquerda, mesmo a “vegetariana”, preocupada em salvar baleias, o mico-leão-dourado e a ararinha-azul: ou bem você acredita que um partido porta a forma e o conteúdo do futuro e, então, põe a sua inteligência a serviço dessa construção, ou bem exerce a sua liberdade. 

 Pomar comete o equívoco de supor que pessoas livres são necessariamente antipetistas. Opa! Esperem aí: ocorre-me que ele pode estar certo. E, nesse caso, estamos todos correndo um grande risco. 

Voltei 
Leram? Esse texto, deste escriba, que está no livro “O País dos Petralhas”, foi publicado, ATENÇÃO!, no dia 22 de julho de 2006 no jornal “O Globo”. Até eu fico um pouquinho impressionado, hehe. Ali já anuncio a disposição do PT para patrulhar a rede — eles profissionalizaram essa atividade mais tarde — e o inconformismo da turma com o fato de que aqueles que chamavam “direita” estivessem mais presentes no debate. 

 Se quiserem saber, estavam e estão. Por isso mesmo, além dos policiais da Internet — que ficam molestando e trollando nas redes sociais os que criticam o partido —, criou-se também o JEG (Jornalismo da Esgotosfera Governista). Achando que isso é pouco, recorrem ainda a perfis falsos no Twitter e a robôs para espalhar as verdades eternas do partido. 

 A razão de ser da Internet, no que diz respeito à comunicação, é isso que chamo de homens-célula, os indivíduos. Para combatê-los, os petistas criaram o “homem-partido”, que fala em nome de um ente. Esse “homem-partido” das redes sociais tem de ser combatido porque, antes de mais nada, ele frauda aquela que é uma conquista dos indivíduos: o direito de ter a sua própria voz! 

 Expulse o homem-partido da sua página, dos seus grupos de relacionamento, dos seus bate-papos. Só aceite falar com indivíduos! 
 Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 22 de maio de 2012

Luiz Inácio ApeDELTA volta a negar a existência do mensalão, a acusar o golpismo da oposição e da mídia e a atacar a Dona Zelite! Ainda haveremos de criar uma Comissão da Verdade para combater suas mentiras

Neste texto, demonstro que o bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude. Se gostarem, passem adiante. * 

Luis Inácio ApeDELTA da Silva recebeu ontem à noite, na Câmara Municipal de São Paulo, o título de “Cidadão Paulistano”. O combinado é que seria a primeira de uma série de solenidades para alavancar o nome de Fernando Haddad, o candidato à Prefeitura que ele impôs na base do dedaço. Parece que a coisa não saiu como o esperado. No discurso, o ex-presidente se referiu uma única vez a Haddad, que estava na plateia (”o maior ministro da Educação que este país já teve”, claro, claro…), e preferiu usar seu tempo para atacar as elites… A cascata de sempre. Presente, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que teve a sua pré-candidatura cassada por Lula, discursou. Disse que o novo pelo novo (leia-se: Haddad), por si, não significa nada; o importante é um “programa novo”. Para o ungido do Babalorixá, foi um anticlímax… E não se tinha ali o melhor… quero dizer, o pior da noite. Lula voltou a se referir ao mensalão e ressuscitou a tese vigarista, obviamente falsa, de que aquilo tudo não passou de uma mancomunação da oposição com a imprensa para derrubá-lo. Uma tentativa de “golpe”, disse de novo. Deve-se entender, assim, que tanto a Procuradoria-Geral da República, que apresentou a denúncia, como o Supremo Tribunal Federal, que a recebeu, são partícipes dessa conspirata. Relembrando as próprias palavras, o ApeDELTA afirmou que a oposição só não deu prosseguimento ao impeachment — nunca houve movimentação efetiva nesse sentido; é mentira! — porque ficou com medo a mobilização popular. Isso também é falso. A aprovação de Lula, naqueles dias, estava pouco acima dos 50%. Ademais, entre aprovar e sair às ruas fazendo barricadas, há uma grande diferença. 

 Mas o recado é claro! Lula acredita dever a manutenção de seu mandato apenas ao “povo”, entendido, na sua visão perturbada, como o outro lado das “instituições”. Afinal, se oposição, imprensa, Ministério Público e Supremo participaram de uma conspiração, só restou mesmo uma instância de verdade no país: o PT — e, obviamente, os que se aliaram ao partido. 

 O ex-presidente comanda, de maneira nem tão clandestina e com pressões nada sutis, o esforço para cassar moralmente o direito de o Supremo julgar com isenção os mensaleiros. A fala de ontem, repetindo boçalidade antiga sobre um golpismo que nunca existiu, é parte da pressão. Até o seu discurso de agradecimento, que volta a fazer a velha clivagem vigarista entre “povo” e “elite” é fração desse esforço. Lula quer que o país acredite que condenar José Dirceu por “formação de quadrilha” é um atentado aos interesses populares… 

 Incrível este senhor! Contrariando mais uma promessa solene que fez — e ele é o rei do descumprimento de promessas (já me estendo a respeito) — está sendo muito pior como ex-presidente do que foi como presidente. Explico-me: na Presidência, mesmo tentando coisas novas e ruins, acabou, felizmente, limitado pelas coisas antigas e boas. Não encontrou o país como seus amigos Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e o casal Kirchner encontraram, respectivamente, a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina — com a institucionalidade em frangalhos. Ao contrário: em razão da conjuntura internacional, a nossa economia não ia muito bem, mas havia plena governabilidade. Na verdade, os oito anos do governo FHC haviam sido um período de institucionalização de procedimentos. Em muitos aspectos, O TUCANO INVIABILIZOU O QUE SERIA UM GOVERNO TIPICAMENTE PETISTA. Lula teve de seguir o modelo. 

 Tentou inovar na área das liberdades democráticas? Tentou, sim! Esforçou-se para diminuí-las, propondo ou endossando, por exemplo, mecanismos de controle da imprensa — esta mesma que ele continua a atacar ainda hoje — e demonizando os órgãos que vigiam o governo. Mas acabou sendo malsucedido nesses intentos. Os marcos legais que encontrou ao chegar ao poder o obrigaram a uma gestão dentro das regras — e essa foi, obviamente, a sua sorte. Não foi um Chávez não porque não tivesse disposição e caráter para tanto — lembre-se de que ele é o autor de uma frase fabulosa: “Nunca houve tanta democracia na Venezuela como agora”; não foi um Chávez porque as leis brasileiras não lhe permitiram ser e porque a sociedade, mesmo aprovando sua gestão, recusa expedientes autoritários. 

Sem regras 
Se teve de ser um presidente segundo as regras — o que o obrigou a jogar no lixo o programa do PT, para sua glória e nossa sorte! —, pode agora ser um ex-presidente sem limites. Há dois meses, comanda um esforço brutal para tentar impedir que se investigue a fundo o esquema Delta — de que Carlinhos Cachoeira era só um operador local, do Centro-Oeste. Há dois meses, lidera a palavra de ordem para levar a imprensa para o banco dos réus, esforço malogrado porque se percebeu a tempo a pilantragem, esta sim, golpista: junto com o jornalismo, Lula queria desmoralizar o Ministério Público Federal e uma parte do Supremo. 

Ontem, realizou-se uma reunião da casa do deputado Maurício Quintela (PR-AL), sob o comando dos petistas, com um único propósito: impedir que a CPI investigue a Delta nacionalmente, mantendo o foco só no Centro-Oeste e nas relações da empresa com Carlinhos Cachoeira. O Lula que quer fraudar o passado é o mesmo que frauda o presente para impedir que o país se livre de alguns larápios que têm tudo para infelicitar o seu futuro. O contraventor e suas franjas no Congresso e em governos têm, sim, de ser investigados e, estabelecidas as culpas, punidos. MAS JÁ NÃO HÁ DÚVIDA NENHUMA DE QUE O NOME QUE DESPERTA PÂNICO NO PT E NA BASE GOVERNISTA É UM SÓ: DELTA!!! 

 Tenho escrito alguns textos sobre a tal “Comissão da Verdade” e sua vocação natural, desde o nome, para a mentira. Não é impressionante que se tenha instalado algo assim em dias como esses? Não é impressionante que uma comissão que pretende estabelecer a “verdade oficial” sobre fatos ocorridos há quase 50 anos seja contemporânea e cria de um líder político que nega a existência de um crime escancaradamente provado? Não é impressionante que atue firmemente para impedir a apuração de outros tantos crimes? 

 O bem que Lula pode ter feito ao Brasil foi sem querer — a institucionalidade que herdou o fez em seu lugar. Já o mal que faz é deliberado, consciente, por querer. Sabem por quê? O Lula que governou não pôde ser plenamente petista. Já o ex-presidente o é em sua plenitude. 

 Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Programa de biodiesel não atingiu meta social

DE SÃO PAULO

O PNPB (Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel) ampliou significativamente o mercado para esse biocombustível no país, mas a iniciativa do governo federal, lançada em 2004, ainda não conseguiu cumprir uma de suas principais metas: promover o desenvolvimento regional em áreas carentes por meio da inclusão de agricultores familiares na cadeia produtiva.

A conclusão é da pesquisa "Análise de competitividade da cadeia produtiva de biodiesel no Brasil", coordenada pelo professor Mario Otavio Batalha, da UFScar (Universidade Federal de São Carlos), e financiada pela Fapesp. "A produção do biodiesel é mais cara que a do diesel comum e, ainda hoje, não é sustentável do ponto de vista econômico. A grande justificativa para o PNPB foi esse viés social", afirma Batalha.

O programa buscou incentivar a produção do biocombustível a partir de diversas oleaginosas, especialmente a mamona, no Nordeste, e o dendê, no Norte. Também foram criados mecanismos para favorecer a inclusão do pequeno agricultor, como o Selo Combustível Social.

Concedido a produtores que compram matéria-prima diretamente da agricultura familiar em quantidades predeterminadas pelo governo, o selo garante benefícios fiscais e o direito de participar dos maiores lotes para venda de biodiesel nos leilões da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível).

Mas a soja revelou-se ao longo dos anos a matéria-prima mais competitiva do mercado. Atualmente, 80% do biodiesel no país deriva desse grão. "Os produtores de soja podem até ser pequenos, mas são altamente treinados e organizados em cooperativas. É uma cultura madura no país", diz.

Segundo Batalha, os incentivos fiscais dados aos produtores de biodiesel não cobrem, muitas vezes, os custos de comprar matéria-prima da agricultura familiar no interior do Norte e do Nordeste. "A escala de produção é pequena, a qualidade é ruim, há restrições tecnológicas, manejo inadequado e alta sazonalidade.


Além disso, as famílias ficam dispersas, o que aumenta muito o gasto com transporte e favorece a atuação de atravessadores."

CONCORRÊNCIA - Há ainda casos em que os próprios agricultores não se interessam em fechar o negócio. "É mais vantajoso vender um litro de óleo de mamona para a indústria ricinoquímica --que utiliza a oleaginosa para produzir lubrificantes, cosméticos e alimentos-- que para os produtores de biodiesel. O agricultor pode ser pobre, mas não é bobo. Vai vender para quem pagar mais", avalia Batalha.

No caso do dendê, a grande concorrente é a indústria de alimentos, que usa o óleo de palma em diversos produtos. "A produção, que ainda é pequena, precisa se expandir muito e vender o excedente para a produção de combustível. Isso resolveria o problema de abastecimento de combustível nas comunidades isoladas da região Norte."

Na opinião do pesquisador, para que o PNPB realmente cumpra seu papel social, é preciso diversificar as matérias-primas usadas na produção de biodiesel. "A soja está mais concentrada no Sul e Sudeste. Para atingir o pequeno agricultor da Bahia, tem que ser usada a mamona. Na Amazônia, pode ser o dendê. Temos de investigar qual é a oleaginosa mais adequada em cada região", destacou.

O monopólio da soja teria desvantagem também do ponto de vista econômico, pois o custo de produção do combustível fica sujeito à variação de preço do grão no mercado internacional.

Diário da Dilma: Quem foi mordido por cobra até de minhoca tem medo

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE MAIO DA REVISTA PIAUÍ
1º DE ABRIL ─ Só agora deu para falar sobre a Índia. Eita lugarzinho longe! Mas gostei daquela confusão. É gente de lá para cá, de cá para lá, levando oferenda para uma deusaiada tão vasta que me deixou até confusa. Comparado àquilo, a Bahia é o berço do monoteísmo. Agora, tenho de dizer: voltei maravilhada com aquele Taj Mahal. Será que não dá para aproveitar o combo Copa do Mundo + Olimpíadas para erguer alguma coisa parecida lá no Rio? Mandei um SMS para o Serginho Cabral. Tô cansada dessas piadinhas de Primeiro de Abril. Esse pessoal aqui é muito imaturo…

2 DE ABRIL ─ Cheguei no meu gabinete e topei com o Lula. O espaçoso estava com os pés em cima da mesa, fuçando meus e-mails. Ainda olhou para mim e soltou “Quem vai à feira perde a cadeira”. Quando o homem ficar 100%, sei não.
Serginho encaminhou um orçamento da Delta para construir o Taj Mahal na Barra. Que rapidez, menino. Mas achei caro demais.

3 DE ABRIL ─ Estou com medo que descubram que o Cachoeira já foi crupiê nas nossas partidas de tranca. Se isso vier à tona, ponho a culpa na Ideli, que não sabe contar direito as cartas. Já disse para ela: “Em caso de necessidade, casa a freira com o frade.”

4 DE ABRIL ─ Santa periquita do bigode loiro! Nunca imaginei chegar a 77% de popularidade. O Lula, claro, ligou em seguida e pediu para eu transferir uns pontos percentuais para o Haddad, tadinho.

5 DE ABRIL ─ Que chatice esse negócio de visto para os Estados Unidos. Fiquei hoooooras na fila e ainda tive que comprovar que tenho emprego fixo. Mostrei logo meus índices de popularidade, no guichê, para provar que estou garantida no cargo até 2018. Funcionou. Agora ando com essa pesquisa na carteira, menina.

6 DE ABRIL ─ A verdade é que falei para o Patriota dar um tempo nessas viagens. É uma mão de obra! Manda fazer roupa, marca depilação, pé, mão, sobrancelha, tintura, é um tempo danado. E aproveito pouco. Mal dá para comprar uma coisinha ou outra, sempre correndo para chegar naqueles compromissos com gente de meia-idade que só fala, fala, fala.
Taí uma pergunta pertinente: suco natural pode ser substituído pelo de caixinha?

7 DE ABRIL ─ Queria comprar umas camisas de seda iguais àquelas da Cristiana Lôbo. Ficam tão bem! De um chic…

8 DE ABRIL ─ Cheguei em Washington e adotei o conselho da Ideli: vesti um pretinho básico e desci do avião de óculos escuros. Ninguém merece aparecer com olheira e roupa saída da boca do cachorro. Essa Ideli é eficienta demais.

10 DE ABRIL ─ Vou falar uma coisa: esse Obama me paga! Quando ele veio para o Brasil trouxe até a sogra! Tratei todos com a maior delicadeza! Até aula de capoeira eles assistiram. Agora, quando vou lá, não me oferecem nem um prato de comida?! Depois, quando dou uns pitos nele, o pessoal fica dizendo que o meu passado isso, meu passado aquilo… não é nada disso. É sem educação mesmo!
Menos mal que o conjuntinho rubro-negro me caiu muito do bem. Batata! De noite, lá estava a Patricinha Poeta de quê? De quê? Terninho vermelho! Popularidade de 77% é ditar moda, mon chéri. “Joãozinho do Passo Certo.” De onde eu tirei isso, meu Deus?! Acho que foi o Velho Barreiro que levei para o Obama.

11 DE ABRIL ─ Cruzei com a Hillary. Ela elogiou meu penteado e perguntou quem era meu cabeleireiro. Para ser simpática, disse que pagaria um corte com o Kamura quando ela viesse ao Brasil.

12 DE ABRIL ─ Fecharam o cerco em cima do Cachoeira. Vão descobrir que ele me passou a dama de copas por debaixo da mesa. Esse homem é um Midas ao contrário: se comprar um circo, o anão dispara a crescer. Uma das coisas que mais me orgulho é ter levado a classe C para as tramas das novelas. Adoro núcleo pobre! Titia ficou apegada a esse Tufão.
O Zé Dirceu está em polvorosa. Toda vez que ouve falar em CPI, fica com mania de perseguição. Mas também não é para menos. Quem foi mordido por cobra até de minhoca tem medo.

13 DE ABRIL ─ Não é que a Hillary vem mesmo? Foi só oferecer um corte grátis! A crise tá braba mesmo. Pedi logo para ela trazer um box com os novos episódios de Mad Men. Ela disse que ainda não saiu em DVD. E para que serve aquele poderzão todo, meu Deus?

14 DE ABRIL ─ O Sarney teve um piripaque e a República se transferiu para a UTI, o que provavelmente encerra alguma lição. Soube que o Temer já conseguiu enfiar três assessores no almoxarifado do Sírio. Cartagena, aqui vou eu!

15 DE ABRIL ─ Ô reuniãozinha besta! Nem eu aguento mais falar de Cuba. A Cristina resolveu dar piti com as Maldivas. Subiu nas tamancas porque ninguém deu bola para ela e foi embora sem se despedir. Grossa que só! A Hillary é mesmo um amor. Se não fosse ela, eu não tinha com quem puxar assunto.

16 DE ABRIL ─ Sabia que não ia ficar só nisso. Como não conseguiu nacionalizar as Maldivas, a Cristina acabou descontando na Espanha e garfou a Repsol. Já disse para ela várias vezes: esse negócio de dar troco nos colonizadores é tão século XX… Mas vai explicar isso para uma mulher que usa aquela maquiagem. Dizem que dá até problema de coluna. E aquele meninote vice-ministro de olhos azuis? Hum.
O Patriota me lembrou que não é Maldivas, mas Malvinas.

17 DE ABRIL ─ Mamãe anda impossível! Chata, chata, chata!

18 DE ABRIL ─ Tem gente que deve estar morrendo de inveja. Não vou nem dizer o nome… Estou na lista da Time dos 100 mais influentes do mundo! Tem a Gracinha também. E o Eike. Não sei quem está com o cabelo mais feio. Já dei um toque para a Gracinha cortar no ombro, uma coisa mais apropriada para a idade dela. A desculpa é que o marido gosta.
Agora, o que é aquele aplique do Eike?! Me explica! Com o dinheiro que ele tem podia conseguir coisa melhor. Bastava se espelhar no Lobão.

19 DE ABRIL ─ Vem Paul McCartney, Bob Dylan, Tom Cruise, Blatter, todo mundo mamar na onça. Agora, a Rio+20, que é coisa séria, vai ficar às moscas. Culpa dos ecochatos do PV. Disse e repito: enquanto o Minc não largar aqueles coletes, o Brasil não avança.

20 DE ABRIL ─ Pedi para a Helena Chagas mandar gravar aquele programa que ensinou a dançar okuduro. Acho sensual e deve fazer perder peso.

21 DE ABRIL ─ Santa Bigudina, o que a gente não descobre numa CPI! Achei um senador que se chama Sérgio Petecão!!! Isso não pode ser sério…

22 DE ABRIL ─ Novela boa essa da Carminha! E a das sete é uma graça! Só gente boa. Aquele Ricardo Tozzi é um gato. A Cláudia Abreu pegou direitinho o jeito da Gaby Amarantos, que eu adoro!
Tomara que o Sarkozy vença. Esse Hollande tem cara de programação da TV Câmara.

23 DE ABRIL ─ Hoje à noite começa a nova temporada de Mad Men. Nem que a imprensa diga que o Cachoeira instalou um ofurô na casa do Zé Dirceu eu me levanto desse sofá.

24 DE ABRIL ─ Esse Don Draper mexeu com o meu metafísico.

25 DE ABRIL ─ O documentário do Stuckinha é uma graça, perfeito mesmo, não fosse o 3D. Para que isso, Deus meu? Nem falo dos óculos, que são até engraçadinhos. O problema são os quilos, que saltam da tela feito assombração. O Lula, coitado, está uma baleia.

28 DE ABRIL ─ Será que o Lobão gosta de ofurô?

terça-feira, 15 de maio de 2012

‘Julgar o mensalão’

Publicado na Folha de S. Paulo neste domingo
Foram necessárias mais de cem páginas para o ministro Joaquim Barbosa reduzir ao essencial, em relatório divulgado na quinta-feira, o processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de longo, o documento resulta de um considerável esforço de concisão e objetividade.

O processo, que examina o maior escândalo político ocorrido no país depois do Collorgate (1992), acumulou cerca de 70 mil páginas, distribuídas em 147 volumes e 173 apensos. Mais de 600 testemunhas foram arroladas pela defesa ─ meia centena de advogados.

Dos 40 envolvidos, apenas quatro tiveram, até agora, dissipadas as ameaças de sofrer condenação. Por falta de provas, Luiz Gushiken, ministro das Comunicações no governo Lula, e Antônio Lamas, irmão do então tesoureiro do PL, Jacinto Lamas, tiveram a absolvição pedida pelo Ministério Público Federal. O secretário-geral do PT na época do escândalo, Sílvio Pereira, fez acordo e aceitou prestar serviços comunitários. José Janene, deputado federal pelo PP, morreu em 2010.

Acusados de crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato (desvio de bens por funcionário público), formação de quadrilha ou gestão fraudulenta de instituição bancária, restam nomes célebres, e outros nem tanto, dentro e fora da hierarquia petista.

Passados sete anos, muitos detalhes do escândalo se esvaem da memória geral. O relatório do ministro Barbosa, sumarizando os argumentos da acusação e da defesa, repõe o caso nos seus devidos ─ e espantosos ─ termos.

Não se tratou, em absoluto, de um simples episódio de “recursos não contabilizados”, ou caixa dois, com sobras de uma campanha política sendo distribuídas informalmente a membros de uma coalizão política. Tal versão, veiculada insistentemente pelas áreas do PT mais implicadas no escândalo, já seria por si só desmoralizante, em se tratando de um partido que por tanto tempo prometera introduzir novos padrões éticos na política brasileira.

Bem mais do que isso, entretanto, veio à luz com o mensalão ─ e será relembrado durante o julgamento do caso pelo STF.

Um partido, o PT, recebe empréstimos bancários sem apresentar em troca as necessárias garantias legais. Os empréstimos, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, eram a fachada para um esquema mais complexo.

Resultavam das operações comandadas pelo publicitário Marcos Valério, em troca de vantagens obtidas de setores do poder petista. A saber, o favorecimento de suas agências publicitárias em contratos com o Banco do Brasil e a Câmara dos Deputados, cujo presidente na época, o petista João Paulo Cunha, de acordo com a peça de acusação, se beneficiou de R$ 50 mil sacados em espécie.

Ainda segundo a denúncia, os favores oferecidos por Marcos Valério não serviram apenas para o caixa petista ou para interesses pessoais de membros do partido (por exemplo, a concessão de um empréstimo à ex-mulher do então ministro José Dirceu).

Deputados de outros partidos da base aliada beneficiaram-se de ajuda financeira para, em tese, votar favoravelmente ao governo.

Dois argumentos em defesa dos envolvidos não cessam de ser postos em circulação ─ e se notabilizam pela fragilidade. Sustenta-se, por exemplo, que “não existiu o mensalão”, porque não tinham regularidade mensal as doações aos deputados. Uma vez que estes já pertenciam à base aliada, acrescenta-se, não era necessário corrompê-los com doações diretas em dinheiro.

Esses e outros argumentos, relativos por exemplo à ausência de irregularidade na prática dos contratos publicitários, serão examinados pelos ministros do STF por ocasião do julgamento. Com o relatório de Joaquim Barbosa, cabe agora ao ministro Ricardo Lewandowski, no papel de revisor, dar andamento ao processo.

Como se sabe, o STF corre contra o tempo. Alguns dos crimes, como peculato e evasão de divisas, poderão prescrever (coisa que depende da pena que será efetivamente aplicada pelo STF). No cenário mais favorável aos réus, mesmo a acusação de corrupção ativa, uma das que pesam contra José Dirceu e outros dirigentes petistas, como Delúbio Soares e José Genoino, já estaria em risco. O mesmo raciocínio se aplicaria ao crime de corrupção passiva, de que são acusadas figuras como João Paulo Cunha, Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto.

Não se leva em conta, num processo jurídico, mais do que a letra dos autos. Está no âmbito da subjetividade de cada ministro, todavia, avaliar o quanto são suficientes os indícios de envolvimento de cada acusado.

Pesam nisso, sem dúvida, inclinações políticas individuais e as pressões contraditórias do mundo político e da opinião pública. Tratando-se de julgamento em corte colegiada, com ampla oportunidade de defesa, é de esperar que haja equilíbrio na decisão final.

O que mais importa, num caso que se arrasta há tanto tempo, é que possa ser julgado o mais breve possível ─ a menos que se queira, pelo mecanismo da prescrição, dar a muitos dos envolvidos a vantagem da impunidade, ao mesmo tempo em que persiste o descrédito que, com tantas evidências acumuladas, fizeram por merecer na opinião pública