terça-feira, 18 de dezembro de 2012

CPI do Cachoeira: Impunidade, picaretagem e vexame. Ou: Instituições um pouco mais rebaixadas do que antes


O deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira, mesmo sendo um petista — e essa escolha implica certas obrigações de caráter, digamos, religioso, como jamais contestar “O Profeta” e os aiatolulas que falam em seu nome —, até que tentou, inicialmente, se portar com decoro. Foi pescado pelo governo Dilma para ser relator de uma CPI que o PT queria que fosse da vingança: contra a oposição, contra o Ministério Público Federal, contra o STF, contra a oposição, contra a imprensa…
Bastaram os primeiros movimentos, e ficou claro que Carlinhos Cachoeira era apenas o Carlinhos Cachoeira de Goiás, a, vamos dizer assim, sucursal menos rentável de um esquema gigantesco. Ele era só um operador menor. Quem seria, por exemplo, o Carlinhos Cachoeira do Rio de Janeiro? Quem seria o Carlinhos Cachoeira dentro do governo federal? Sim, estava e está patente: o nome do grande esquema criminoso é Delta, com seu impressionante laranjal.
O furor investigativo diminuiu muito, não custa lembrar, quando vieram a público as folias físicas e metafísicas da “Turma do Lenço” de Paris, vocês devem lembrar. As cenas do governador Sérgio Cabral dançando “Na Boquinha da Garrafa” com Fernando Cavendish entrarão para a história de quem decidir contar a história a sério. Quase todo mundo passou a olhar para o outro lado, inclusive setores consideráveis da imprensa.
Não custa lembrar: um senador da República foi cassado, E MUITO BEM CASSADO!!!, porque flagrado criando facilidades a um contraventor, mas um alto executivo do Dnit, Luiz Antonio Pagot, afirmou com todas as letras que, no cargo, atuou para fazer caixa para a campanha de Dilma Rousseff em 2010. E ficou tudo por isso mesmo.
Em suma: a CPI que o PT criou para melar o processo do mensalão, para “pegar” a imprensa, o STF, o procurador-geral e ministros do STF (e valia tudo para isso, muito especialmente a mentira) começava a acumular explosivos nos subterrâneos do Palácio do Planalto. Então foi preciso mudar o rumo da prosa.
Aqueles fiozinho de independência que Cunha parecia ter de início desapareceu, e ele se tornou mero esbirro da máquina de sujar reputações. O PT, como sabem, é assim: oferece a sua lavanderia de biografias para tipos como José Sarney e Fernando Collor e acusa Cristo de charlatanismo se isso, num dado momento, lhe parecer conveniente.
O resultado é este que se vê: tudo devidamente pesado, a coisa para eles está de bom tamanho considerando o que ficou escondido na Caixa de Pandora: um senador da oposição foi para o brejo, um governador tucano saiu lanhado, e a Al Qaeda eletrônica aproveitou para satanizar um pouco mais a imprensa independente. Não conseguiram o objetivo principal, aquele prometido por Lula, que era sacudir a República e interferir no placar do STF no julgamento do mensalão. Mas até isso ficou em segundo plano quando se descobriu o potencial explosivo do esquema Delta — a empresa segue sendo a terceira que mais recebe do PAC.
O fim da CPI é mais do que melancólico. Trata-se do triunfo escancarado da impunidade, ao menos no ambiente do Congresso. A comissão não podia, por si, punir ninguém, mas lhe cabia dizer o que, por ali, se considera inaceitável. E tudo, como se nota, parece… aceitável. O que se reuniu, e é muito pouco, vai para o Ministério Público.
Note-se, adicionalmente, que as instituições saem um pouco mais rebaixadas — escrevi nesta manhã sobre a lenta e contínua deterioração institucional. Pela primeira vez na história, a maioria decidiu fazer uma CPI para perseguir a minoria, o que já é um assombro. Instalada a comissão, essa mesma maioria começou, involuntariamente, a produzir fatos contra si mesma. Então decidiu dar um golpe dentro do golpe, selecionando alguns alvos no relatório final. A iniciativa soou tão escandalosa que não prosperou.
A Odair Cunha não restou outra alternativa que não o vexame do relatório nenhum. Eis o PT contribuindo para um Brasil mais justo, mais sóbrio e mais digno.
Por Reinaldo Azevedo

Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, emite nota sobre post do blog e não esclarece nada. Quero saber como US$ 45 milhões se transformaram em US$ 1,204 bilhão. Ou; Cuidado, baianos!


Costumo começar alguns posts assim: “Que gente pitoresca!”

Ontem, o “Bahia Notícias” publicou a seguinte nota. Leiam. Volto em seguida:
O secretário de Planejamento e ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, esclareceu por meio de nota as afirmações feitas pelo colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo. Por meio de nota, a assessoria do titular da Seplan informa que a pauta “é requentada”.
“Em novembro 2005, a Petrobras assinou um Memorando de Entendimento com a Astra Oil Company (Astra). Em setembro de 2006, a Companhia concluiu a aquisição através de sua subsidiária Petrobras America Inc. (PAI). Desentendimentos entre os sócios levaram a Astra a requerer o direito de vender seus 50%”.
Segundo o documento, o valor foi acrescido de juros e outras atribuições durante o processo arbitral. “A Petrobras empenhou seus melhores esforços e obteve uma redução significativa no montante pleiteado pela Astra. Em junho de 2012, um acordo extrajudicial totalizou US$ 820 milhões. Parte desse montante, US$ 750 milhões, já vinha sendo provisionado, restando o complemento de provisão de US$ 70 milhões”, diz a nota. “O acordo tornou a refinaria [de Passadena] um ativo negociável, ainda que não haja uma obrigatoriedade nem urgência em se desfazer da mesma”, finaliza o comunicado.
Voltei
Comecemos por botar no devido lugar alguns fatos que não têm a ver com o mérito:

1: Meu post não tinha como objeto a Secretaria de Planejamento da Bahia. Gabrielli deveria parar de usar a máquina do estado para responder a questões que dizem respeito à sua gestão na Petrobras.
2: O meu post de sábado é uma síntese, com alguns comentários, da excelente reportagem de Malu Gaspar publicada na revista VEJA desta semana; se algo merece resposta, é a reportagem. Mas entendo: o post na rede correu como um rastilho de pólvora. Agora aos fatos.
O mérito
1 –
Em 2005, a Astra, uma empresa belga, compra uma refinaria sucateada nos EUA por meros US$ 45 milhões;

2 – Em 2006, vende 50% dessa porcaria à Petrobrás por US$ 365 milhões. Por alguma razão, a empresa brasileira considerou que, em alguns meses, o patrimônio havia tido uma valorização de 1.500%;
3 – O homem que participou da negociação em nome da Astra é um ex-funcionário da Petrobras. que agora trabalha para os belgas;
4 – Petrobras e Astra fazem um protocolo para investir US$ 1,5 bilhão naquela sucata.
5 – A empresa brasileira se compromete a comprar a parte dos belgas caso os dois lados se desentendam e ainda garante aos sócios uma rentabilidade de 6,9% numa empresa que dá prejuízo;
6 – Os dois lados se desentendem (!!!), e a Petrobras “tem” de comprar a outra metade. os belgas pedem escandalosos US$ 700 milhões;
7 – Em 2008, Dilma, presidente do Conselho da Petrobras, diz “não” e esculhamba Gabrielli;
8 – Dilma deixa o assunto pra lá, e os belgas vão à Justiça. Em junho deste ano, a Petrobras teve de comprar aqueles 50% por US$ 839 milhões;
9 – Graça Foster decidiu pôr a sucata à venda: apareceu só um comprador, que paga pela velharia apenas US$ 180 milhões.
10 - A empresa nunca serviu para processar o petróleo brasileiro, que é pesado, incompatível com a refinaria. 
Rombo da Petrobras se vender: mais de US% 1 bilhão, sem contar o prejuízo operacional. Os belgas compraram uma sucata por US$ 45 milhões em 2005 e, em 2012, tinham conseguido passa-la inteiramente adiante, embolsando US$ 1,204 bilhão da brasileirada.
A nota de Gabrielli
O que diz a nota de Gabrielli sobre o fato em si? Nada! Acusa a matéria de “requentada”. Não é. Mas ainda que fosse: um escândalo já noticiado deixa de ser escândalo por isso? Ainda que os petistas os produzam em penca, continua tudo… escândalo.
Eu continuou a esperar que o sr. Gabrielli demonstre como os US$ 22,5 milhões de 2005 (50% da empresa comprada pelos belgas) se transformaram em US$ 365 milhões menos de um ano depois. E, claro, gostaria que ele nos dissesse como, em 2008, aquele patrimônio já valorizado em 1.500% teve uma valorização de 100%… Os números falam por si: se quiser vender a estrovenga, a Petrobrás vai conseguir apenas US$ 180 milhões.
Trata-se de um dos maiores escândalos da era Lula, eis a verdade. Gabrielli não explica nada. Arrogante, como de hábito, ainda diz que a empresa conseguiu baratear o preço de compra.
Ah, bom! O que valia US$ 45 milhões em 2005 foi comprado pela Petrobras por US$ 1,204 bilhão, e Gabrielli quer que a gente lhe se seja grato pela pechincha.
Cuidado, baianos! Vai que ele esteja empregando seus métodos revolucionários de gestão no Estado…
Por Reinaldo Azevedo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dilma e Carvalho estão com inveja do baguncismo argentino. Ou: O PT deveria estar feliz, mas está com ódio. Por quê?

A presidente Dilma Rousseff, ainda não está claro se apenas porque pressionada pelo PT ou também por gosto, resolveu flertar com o baguncismo. E como faz isso? Permitindo que um ministro seu, Gilberto Carvalho — desde sempre os braços, os olhos, os ouvidos e a boca de Lula na atual gestão —, atue como se fosse mero militante partidário, convocando a militância petista a ir às ruas, depois das festas de fim de ano, em defesa de Lula e do PT. Segundo Carvalho, em 2013, “o bicho vai pegar”. Vai ver o ministro e sua chefe estão com inveja da Argentina… Para Carvalho, os “ataques sem limites” a Lula buscam destruir o governo e o partido: “Vamos nos preparar para, assim que passarem as Festas, a gente ir para as ruas”.

Quais ataques?

O colunismo chapa-branca na grande imprensa — e há um monte — e propagandistas financiados por estatais, disfarçados de jornalistas, acusam a existência de uma suposta conspiração contra Lula que teria como objetivo, na verdade, desestabilizar o governo Dilma para impedi-la de se reeleger em 2014. Trata-se de uma mentira estúpida sob qualquer ângulo que se queira ver a questão.
Rosegate
Cumpre indagar: quem conspira contra Lula? Seria a Polícia Federal? Sim, foi ela que deflagrou a Operação Porto Seguro. A raquítica oposição e a “mídia” (como eles chamam a imprensa) não têm nada com isso. A primeira cumpre até com discrição o seu papel, que consiste em, no mínimo, tentar ouvir no Congresso os acusados, o que a base governista não permite. Até aí, vá lá… Mas se trata de delinquência pura e simples aprovar um “convite” para ouvir FHC sobre a tal Lista de Furnas, um documento comprovadamente fraudulento, criado por… petistas. Usar a maioria para impedir depoimentos incômodos ao governo demonstra, sim, um Congresso que serve de capacho ao Executivo, mas ainda está no terreno do aceitável, dados os rebaixados padrões em que se faz política no país. Recorrer, no entanto, a essa maioria para tentar jogar no colo do adversário o que se sabe ser uma farsa já entra no terreno da política feita com dolo.
A imprensa, por sua vez, está sendo bastante discreta com Lula no que diz respeito ao “Rosegate”, considerando que sua “relação íntima” é coisa que diz respeito à sua vida privada. Assim seria se ele não a tivesse colocado no comando do escritório da Presidência em São Paulo e se ela não fosse figura frequente nas viagens do então presidente ao exterior — às vezes, era uma passageira, para todos os efeitos legais, clandestina porque não incluída oficialmente na comitiva. Isso, por si, já é um delito, como se sabe. Assim seria se ela não estivesse usando o cargo para intermediar negócios e não fosse considerada pela Polícia Federal o braço político da “quadrilha”.
O que o PT gostaria que a “mídia” fizesse? Que comportamento lhe seria adequado no Rosegate? Repetir as bobagens da rede lulo-petista financiada com dinheiro público? A propósito: sobre Rose em particular, essa gente não tem o que dizer. Limita-se a vociferar contra a imprensa, que noticia, diga-se, o que consegue apurar junto à Polícia Federal. A imprensa inglesa, americana ou italiana já teriam alargado esse viés mais picante do noticiário. Berlusconi fazia os seus “bugas-bugas” em propriedades privadas. O bufão ainda tentou argumentar que ninguém tinha de se meter nos seus assuntos pessoais. Acontece que ele era primeiro-ministro da Itália. Ocorre, e isto é relevante, que a imprensa brasileira não está nessa, não! Cobre apenas a dimensão pública do escândalo.
E noto: já aconteceu de escândalos inicialmente noticiados pela imprensa resultarem em investigações, demissões, crises políticas etc. É o caso da mãe de todos eles, o mensalão. É o caso do Collorgate — foi a entrevista de Pedro Collor à VEJA que detonou a crise. Naqueles tempos, noto, o PT achava o jornalismo necessário e progressista… Mudou de ideia a partir de 2003.
Marcos Valério
Cumpre indagar de novo: quem conspira contra Lula? Marcos Valério? Foi ele quem prestou um depoimento à Procuradoria-Geral da República, que vazou, sim, como vazaram antes os depoimentos de centenas de pessoas. Sempre que esse vazamento foi do interesse do PT, o partido não chiou. Os repórteres que cobrem política poderiam enumerar, aliás, quantos e quais foram os petistas que, ao longo da história, lhes passaram documentos e depoimentos sigilosos, dados de investigação que correm sob sigilo de Justiça e até informações sobre transações bancárias de seus desafetos. Não! Os jornalistas não farão isso porque vão preservar o sigilo da fonte — e a Constituição lhes faculta esse direito. Mas que se note: a Carta lhes faculta esse direito tanto quando a notícia é do interesse do PT como quando não é. No caso do depoimento de Valério, os petistas foram acometidos de um furioso surto de legalismo.
Valério, o que estava até anteontem trabalhando com o PT; Valério, o que tinha como interlocutor Paulo Okamotto (o petista confirma); Valério, o destacado para fazer grandes negócios em benefício da legenda; Valério, o mago do sistema de compra de consciências… Seria ele o conspirador? Ora…
Não há uma só pessoa na imprensa — também essa é uma acusação falsa — que tome o que diz o ex-operador do mensalão como sinônimo de verdade. Mas é um absurdo supor que o jornalismo deveria ignorar o que diz sendo ele quem é, tendo operado como operou, tendo exercido o papel que exerceu. Evoco de novo a Itália: alguém imagina os promotores ou os jornalistas daquele país a desprezar o eventual testemunho de mafiosos: “Ah, não, esse está metido com o crime”?
Um jornalismo que simplesmente ignorasse as acusações de Valério, exaltando, em seguida, os feitos do ex-presidente, estaria apenas a repetir José Sarney: “Ninguém tem autoridade moral para atacar Lula”. Não por acaso, isso é que fazem os petistas, o colunismo chapa-branca e o subjornalismo financiado por estatais. A grande imprensa ainda não chegou a esse estado miserável.
Pesquisas
A estar certo o levantamento feito pelo Datafolha, o Rosegate e as acusações de Valério não mexeram com a avaliação que boa parte dos brasileiros faz do governo Dilma e do próprio Lula. Ambos, segundo pesquisa divulgada neste domingo, se candidatos à Presidência, se elegeriam no primeiro turno. Nos votos espontâneos, ela aparece bem à frente do antecessor (isso deve ter deixado um monte de petistas fulo da vida…). Há três dias, a pesquisa CNI-Ibope apurou que o governo Dilma é considerado ótimo ou bom por 62% dos brasileiros, o que é, se verdadeira, uma excelente marca.
Logo, pergunta-se: que diabo de “campanha para destruir Lula, Dilma e o PT” é essa? Petralhas enviaram para cá centenas de comentários, com aquela delicadeza habitual, cacarejando e zurrando vitória: “Está vendo? Não adianta nada! Não adianta nada!”. ORA, ENTÃO POR QUE TANTA HISTERIA? POR QUE CARVALHO QUER BOTAR O “POVO” NA RUA? Não há, pois, razão para isso, certo? Que linchamento é esse que denuncia o PT sem linchadores?
Eis um ponto interessante. Essas boas almas totalitárias não aceitam a crítica, a divergência e, como se vê, nem mesmo a lei. Se o Supremo não decide conforme a sua vontade, eles saem demonizando o tribunal e os ministros. O PT não se dá por satisfeito em ter uma oposição pequena, que pouco pode. O objetivo é e sempre foi não ter oposição nenhuma. Mas não só isso: tem na imprensa — majoritariamente simpática ao partido, como todos sabem — a principal inimiga porque reconhecem nesse setor áreas ainda insubordinadas.
Convenham: os petistas têm tudo para a linguagem do amor e da fraternidade, não? A popularidade de Dilma é grande; ela própria e Lula venceriam a disputa eleitoral no primeiro turno (sei que a eleição está longe…); a oposição ainda não tem um candidato viável… Então por que tanto ódio, tanta baixaria, tanta violência retórica?
Porque o partido não admite a existência de uma oposição legal e legítima que possa confrontá-lo. Porque o partido não admite a existência de uma imprensa livre, que possa, quando achar necessário, criticá-lo. Porque o partido não aceita a existência de uma Justiça independente que possa declarar o triunfo das leis democráticas sobre as vontades. Porque o partido aceita a democracia apenas até o Capítulo 12… 
Texto publicado originalmente às 4h45
Por Reinaldo Azevedo

domingo, 16 de dezembro de 2012

ESCÂNDALO BILIONÁRIO NA PETROBRAS – Resta, agora, saber se, ao fim da apuração, alguém vai para a cadeia! Ou: Quem privatizou a Petrobras mesmo?


É do balacobaco!

Desde que Sérgio Gabrielli, o buliçoso ex-presidente da Petrobras, deixou a empresa, os esqueletos não param de pular do armário. A presidente Dilma Rousseff o pôs para correr. Ele se alojou na Secretaria de Planejamento da Bahia e é tido como o provável candidato do PT à sucessão de Jaques Wagner. Dilma, é verdade, nunca gostou dele, desde quando era ministra. A questão pessoal importa menos. Depois de ler o que segue, é preciso responder outra coisa: o que ela pretende fazer com as lambanças perpetradas na Petrobras na gestão Gabrielli? Uma delas, apenas uma, abriu um rombo na empresa que passa de UM BILHÃO DE DÓLARES. Conto os passos da impressionante reportagem de Malu Gaspar na VEJA desta semana. Prestem atenção!
1: Em janeiro de 2005, a empresa belga Astra Oil comprou uma refinaria americana chamada Pasadena Refining System Inc. por irrisórios US$ 42,5 milhões. Por que tão barata? Porque era considerada ultrapassada e pequena para os padrões americanos.
2: ATENÇÃO PARA A MÁGICA – No ano seguinte, com aquele mico na mão, os belgas encontraram pela frente a generosidade brasileira e venderam 50% das ações para a Petrobras. Sabem por quanto? Por US$ 360 milhões! Vocês entenderam direitinho: aquilo que os belgas haviam comprado por US$ 22,5 milhões (a metade da refinaria velha) foi repassado aos “brasileiros bonzinhos” por US$ 360 milhões. 1500% de valorização em um aninho. A Astra sabia que não é todo dia que se encontram brasileiros tão generosos pela frente e comemorou: “Foi um triunfo financeiro acima de qualquer expectativa razoável”.
3 – Um dado importante: o homem dos belgas que negociou com a Petrobras é Alberto Feilhaber, um brasileiro. Que bom! Mais do que isso: ele havia sido funcionário da Petrobras por 20 anos e se transferiu para o escritório da Astra nos EUA. Quem preparou o papelório para o negócio foi Nestor Cerveró, à frente da área internacional da Petrobras. Veja viu a documentação. Fica evidente o objetivo de privilegiar os belgas em detrimento dos interesses brasileiros. Cerveró é agora diretor financeiro da BR Distribuidora.
Calma! O escândalo mal começou
Se você acha que o que aconteceu até agora já dá cadeia, é porque ainda não sabe do resto.
4 – A Pasadena Refining System Inc., cuja metade a Petrobras comprou dos belgas a preço de ouro, vejam vocês!, não tinha capacidade para refinar o petróleo brasileiro, considerado pesado. Para tanto, seria preciso um investimento de mais US$ 1,5 bilhão! Belgas e brasileiros dividiriam a conta, a menos que…
5 – … a menos que se desentendessem! Nesse caso, a Petrobras se comprometia a comprar a metade dos belgas — aos quais havia prometido uma remuneração de 6,9% ao ano, mesmo em um cenário de prejuízo!!!
6 – E não é que o desentendimento aconteceu??? Sem acordo, os belgas decidiram executar o contrato e pediram pela sua parte, prestem atenção, outros US$ 700 milhões. Ulalá! Isso foi em 2008. Lembrem-se que a estrovenga inteira lhes havia custado apenas US$ 45 milhões! Já haviam passado metade do mico adiante por US$ 360 milhões e pediam mais US$ 700 milhões pela outra. Não é todo dia que aparecem ou otários ou malandros, certo?
7 – É aí que entra a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, então presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Ela acusou o absurdo da operação e deu uma esculhambada em Gabrielli numa reunião. DEPOIS NUNCA MAIS TOCOU NO ASSUNTO.
8 – A Petrobras se negou a pagar, e os belgas foram à Justiça americana, que leva a sério a máxima do “pacta sunt servanda”. Execute-se o contrato. A Petrobras teve de pagar, sim, em junho deste ano, não mais US$ 700 milhões, mas US$ 839 milhões!!!
9 – Depois de tomar na cabeça, a Petrobras decidiu se livrar de uma refinaria velha, que, ademais, não serve para processar o petróleo brasileiro. Foi ao mercado. Recebeu uma única proposta, da multinacional americana Valero. O grupo topa pagar pela sucata toda US$ 180 milhões.
10 – Isto mesmo: a Petrobras comprou metade da Pasadena em 2006 por US$ 365 milhões; foi obrigada pela Justiça a ficar com a outra metade por US$ 839 milhões e, agora, se quiser se livrar do prejuízo operacional continuado, terá de se contentar com US$ 180 milhões. Trata-se de um dos milagres da gestão Gabrielli: como transformar US$ 1,199 bilhão em US$ 180 milhões; como reduzir um investimento à sua (quase) sétima parte.
11 – Graça Foster, a atual presidente, não sabe o que fazer. Se realizar o negócio, e só tem uma proposta, terá de incorporar um espeto de mais de US$ 1 bilhão.
12 – Diz o procurador do TCU Marinus Marsico: “Tudo indica que a Petrobras fez concessões atípicas à Astra. Isso aconteceu em pleno ano eleitoral”.
13 – Dilma, reitero, botou Gabrielli pra correr. Mas nunca mais tocou no assunto.
Encerro
Durante a campanha eleitoral de 2010, o então presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, fez propaganda de modo explícito, despudorado. Chegou a afirmar, o que é mentira descarada, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, durante a sua gestão, tinha planos de privatizar a Petrobras.
Leram o que vai acima? Agora respondam: quem privatizou a Petrobras? E noto, meus caros: empresas privadas não são tratadas desse modo porque seus donos ou acionistas não permitem. A Petrobras, como fica claro, foi privatizada, sim, mas por um partido. Por isso, foi tratada como se fosse terra de ninguém.
Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A fala ridícula de Rui Falcão. Ou: Dirceu também é desqualificado porque um condenado, ou só Marcos Valério?

O presidente do PT, Rui Falcão, gravou um de seus vídeos para convocar a militância petista a defender o ex-presidente Lula da sanha dos reacionários, da direita e da “mídia conservadora”. Bem, sabemos quem são, para eles, os “reacionários e os direitistas”, certo? Não é Maluf. Não é Sarney. Não é Collor. Não é Delfim Netto. Não é a Frebraban. Não é a Fiesp. Todos esses são aliados do PT e declararam seu amor a Lula. Onde, afinal, estaria a tal “direita”? Já sei… Vai ver é o Roberto Freire, presidente do PPS, que anda cobrando que se investiguem as denúncias contra Lula.
E o que Falcão acha que deveria fazer a “mídia” para, então, deixar de ser “conservadora” e passar a ser “progressista”? Ao recorrer a essa classificação, a gente tem uma ideia do que pretende o partido quando fala em “controle social da mídia”. Peguemos o caso em curso. O Estadão teve acesso ao depoimento prestado por Marcos Valério ao Ministério Público Federal. Quem passou aos jornalistas? Bem, o PT primeiro terá de rasgar a Constituição e acabar com o sigilo da fonte para descobri-lo. Há uma súmula vinculante que dá ao advogado dos réus acesso a todos os passos de uma investigação. Nem mesmo é possível assegurar que o conteúdo tenha vazado de dentro do MP. De todo modo, se o órgão quiser, que faça sindicância.  O PT é que não vai decidir agora o que os jornalistas publicam ou deixam de publicar. Não ainda ao menos. E tenho pra mim que não alcançarão esse objetivo.
O que achei curioso foi ver Falcão censurando os jornalistas por terem publicado algo que seria sigiloso. Entendi! Quando o PT impuser o seu modelo de jornalismo, só falarão fontes oficiais, como na antiga Alemanha Oriental. Não por acaso, na prova de Jornalismo do Enade, demonstrei num post, o estudante era obrigado a responder que fontes oficiais são mais confiáveis… Se forem do partido, melhor!
Para demonstrar que não é conservador, o Estadão deveria ter conseguido o depoimento, lido-o e jogado-o no lixo: “Ah, não! Valério está acusando o Lula, e o Lula, nestepaiz, está acima do bem e do mal. Se acusasse um FHC, vá lá… Mas Lula?  Aí é demais!”.
Todos os jornalistas sabem que, quando na oposição, os petistas eram os grandes pauteiros de reportagens contra o governo FHC — frequentemente, com material colhido no Ministério Público. E, obviamente, os petistas consideravam aquilo tudo justo e legítimo. O mais buliçoso deles era justamente José Dirceu.
Valério é desqualificado?
O que mais surpreende no vídeo de Rui Falcão é vê-lo e ouvi-lo a desqualificar Marcos Valério porque um homem condenado pelo Supremo. É mesmo? José Dirceu é o quê? E José Genoino? E Delúbio Soares? E João Paulo Cunha? Ah, esses, nós aprendemos com o partido, são heróis. Segundo o chefão do PT, Valério não merece crédito, então, porque condenado num julgamento que o próprio partido não reconhece nem como justo nem como legítimo.
Assim, o tribunal que condena Valério desqualifica o publicitário para fazer qualquer outra acusação; já o tribunal que condena Dirceu SE desqualifica!!! Entenderam a lógica do bruto? Voltamos àquela que é uma máxima do partido: seus adversários são sempre culpados, mesmo quando inocentes, e seus aliados são sempre inocentes, mesmo quando  culpados. Trata-se de um absoluto disparate.
Mentiras
Que se diga uma vez mais: é mentira, das mais grotescas, que Lula esteja sendo tratado como culpado pela “mídia conservadora” — que, de resto, no mais das vezes, é petistófila (então é reaconária, certo?). Ao contrário: o ex-presidente está recebendo um tratamento que nenhum outro receberia ou já recebeu estando em seu lugar. Ninguém trata como “verdade” o que diz Marcos Valério. Sempre se lembra que ele pode estar tentando salvar a própria pele. O que se sustenta, e é assim nas democracias, é que ele é personagem importante de uma engrenagem criminosa e denunciou seus antigos parceiros e beneficiários dos seus crimes. Tem de ser levado a sério? Ele não precisa ser levado a sério por ninguém. O que ele diz é que tem de ser investigado. Ou nunca antes um condenado forneceu informações importantes para os órgãos de investigação? Essa questão é de um ridículo ímpar.
Inimputável
O PT, uma vez mais, faz um mal imenso à cultura política do país. Esta estabelecendo uma relação transitiva — e infeliz — entre as “conquistas sociais” do governo Lula (é claro que dá para discutir esse mérito em particular, mas não o farei agora) e as lambanças cometidas. Então vejam que fabuloso: conquista social e ética na política seriam coisas que caminham em sentidos opostos. Aquele que se esmerar na primeira obteria uma licença para, na segunda, enfiar o pé na jaca. Um presidente “do social” teria licença para fazer coisas que outro, reacionário que fosse, não teria.
Essa contradição já teve uma síntese infeliz, que, durante anos, assombrou a política brasileira: “Rouba, mas faz”. Ela sintetizava o perfil do político ladrão, porém operoso; que abria estradas e vias e cavoucava túneis, mas enfiando a mão nos cofres públicos — depois era só enviar a grana para algum paraíso fiscal. 
Que marca os petistas pretendem nos vender? “Fulano faz lambança, mas é do social”? Os petistas já puseram em prática a tática da gritaria, atacando de forma cega para supostamente se defender, e deu com os burros n’água. Valério só decidiu falar — e o que ele fala tem de ser apurado, sim, como se faria em qualquer democracia — porque havia recebido dos companheiros a garantia de que nada lhe aconteceria. Tanto é assim que estava de boca fechada havia mais de sete anos. Acontece que lhe prometeram o que não puderam entregar. Os esforços para cercar o Supremo falharam miseravelmente. Valério pode ter muitas dúvidas, mas não lhe falta uma certeza: vai passar uns bons anos na cadeia.
Tem o direito de recorrer a dispositivos legais para tentar se safar? Tem, sim! Mas terá de oferecer ao Estado que o condenou alguma coisa. Que tal a verdade? 
Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A farsa documentada que tentaram armar contra Gilmar Mendes a uma semana do início do julgamento


O ministro Celso de Mello virou alvo da rede financiada por estatais e outros funcionários do regime, que ficou ainda mais violenta sob o governo Dilma. E lembrei um caso em que tentaram envolver o ministro Gilmar Mendes. Reproduzo abaixo um post do dia 1º de agosto deste ano, que mostra como a “Carta Capital” produziu a sua reportagem contra Mendes, com qual fonte e com que credibilidade.

*
É impressionante que as coisas possam acontecer deste modo, mas o fato é que acontecem. Sabem a suposta lista de pessoas que teriam recebido propina de Marcos Valério, publicada pela Carta Capital, aquela revista dirigida por Mino Carta e que só existe por causa do anúncio de estatais e governos petistas? Pois é… A tal lista, segundo a revista, teria sido elaborada por Marcos Valério e até assinada por ele!!! Seria, assim, um caso de corruptor que assina embaixo. Entre os supostos beneficiários, o saco de pancada de estimação do subjornalismo: o ministro Gilmar Mendes e o agora senador Delcídio Amaral (PT-MS). O próprio Valério negou a autoria do documento. Agora provado está: ela saiu do computador do lobista acusado de estelionato Nilton Antônio Monteiro, o mesmo que participou da tal “Lista de Furnas”. É o que atesta perícia feita pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil de Minas Gerais. E isso a Carta Capital não contou.
Ao contrário. Lê-se naquele arremedo de reportagem:
“No fim, o publicitário [Marcos Valério] faz questão de isentar o lobista Nilton Monteiro, apontado como autor da famosa lista de Furnas, de ter participado da confecção do documento.” E essa é apenas uma das barbaridades daquele troço que pretendem chamar “reportagem”.
Quem é Nilton? Refresco a memória de vocês com matéria da Agência Estado, datada de 21 de outubro do ano passado. Atenção! Isso só serve para caracterizar a personagem. Falta ainda o melhor.
“O lobista Nilton Antônio Monteiro foi preso em Belo Horizonte acusado de fraudar documentos e assinaturas para tentar extorquir diversos políticos. Monteiro é apontado como um dos autores da chamada lista de Furnas, documento que relacionava 156 políticos de 12 partidos que teriam recebido recursos da empresa para a campanha eleitoral de 2002 e que chegou a ser investigado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, que afirmou serem falsas as informações.
O lobista foi preso ontem (20), no Centro de Belo Horizonte. A Polícia Civil mineira também executou mandato de busca e apreensão em sua casa, onde apreendeu diversos documentos que seriam usados nas extorsões e dois computadores. De acordo com a polícia, ele montava documentos de confissão de dívidas, com as assinaturas das vítimas, para cobrar os valores judicialmente. “Ele forjava os documentos, as assinaturas e depois entrava com processo para que a Justiça legalizasse a extorsão”, afirmou o chefe do Departamento Estadual de Operações Especiais (Deoesp) da Polícia Civil mineira, delegado Márcio Simões Nabak.
A maioria dos processos era referente a dívidas milionárias que ele cobrava por “consultoria” prestada aos políticos e empresários. O Grupo Estado obteve cópia de um dos documentos, no qual há uma declaração em nome do ex-presidente de Furnas Centrais Elétricas, Dimas Fabiano Toledo, no qual ele reconheceria uma dívida de R$ 3 milhões com Monteiro.
(…)”
Voltei
Ulalá… No momento, Nilton Monteiro está solto. Matreira, a Carta Capital tenta se precaver: “Monteiro provavelmente tem alguma ligação com a história”. Não! Errado! Ele não tem apenas “alguma ligação com a história”. A lista estava nos seus computadores, apreendidos pela Polícia Civil de Minas. E não é a única, não! Há outras. Mas agora vem a cereja do bolo.
Na reportagem da Carta Capital, assinada por Leandro Fortes, lemos o seguinte:
“Quem entregou a papelada à Polícia Federal foi Dino Miraglia Filho, advogado criminalista de Belo Horizonte. Miraglia chegou à lista por conta de sua atuação na defesa da família da modelo Cristiana Aparecida Ferreira, assassinada por envenenamento seguido de estrangulamento em um flat da capital mineira, em agosto de 2000.”
Miraglia é o verdadeiro herói da reportagem de Fortes — e, dá pra perceber, sua única fonte. Sai acusando deus e o mundo, levantando ilações sobre esse ou aquele. O que Leandro Fortes esqueceu de contar aos leitores crédulos da Carta Capital? Atenção! MIRAGLIA É NADA MENOS DO QUE ADVOGADO DE NILTON MONTEIRO JUSTAMENTE NO PROCESSO QUE APURA ESTELIONATO, ESTE MESMO QUE RESULTOU NA APREENSÃO DOS COMPUTADORES E NA COMPROVAÇÃO DE QUE A LISTA ESTÁ LÁ! Esse herói de Fortes tem Nilton como cliente, conforme se vê na imagem abaixo. O link do Tribunal de Justiça de Minas está aqui. É assim que a Carta Capital trata de seus leitores. Talvez eles mereçam, não é?
Nilton e seu computador
O conteúdo dos computadores de Nilton é um espanto, constatou o Instituto de Criminalística. Vejam esta imagem.
Você entenderam direito. Ele tem um arquivo de assinaturas de terceiros. Não só isso. Logomarcas de empresas e instituições da República também estão lá, para “uso livre”, se é que me entendem.
A propósito: nesta terça, o Ministério Público Federal no Rio ofereceu denúncia contra 11 pessoas por conta da tal Lista de Furnas, num esforço de lhe conferir autenticidade incontroversa. O MP que se vire com as suas crenças. Dizer o quê? A Lista de Furnas foi parida no mesmo ventre desta outra. E quem dá declaração a respeito à imprensa sobre a dita Lista de Furnas? Miraglia, que é advogado de Nilton também nesse caso.
Vou insistir num aspecto: tudo isso se faz com patrocínio de governos e de empresas públicas. O senador Delcídio Amaral (PT-MS), cujo nome aparece na lista, emitiu uma nota repudiando a trapaça. Entre outras coisas, escreveu:
“5 – Aos patrocinadores desse malfadado “documento”, que lembram a famigerada “Lista de Furnas”, outra desastrada trama engendrada por quem tenta confundir a opinião pública em benefício próprio, deixo um conselho: se os fatos apurados pela CPMI dos Correios lhes açoitam, tomem banho de sal grosso!
6 – Estou tomando as providências jurídicas que o caso requer, não só em relação aos autores dos “documentos” e também à revista, mas, eventualmente, às suas indevidas repercussões.”
Pronto, senador! Agora o senhor tem as provas. Está tudo lá, com o Instituto de Criminalística da Polícia Civil de Minas Gerais. Está tudo no laudo.

Por Reinaldo Azevedo

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Diário da Dilma: Bobagem faz quem espirra na farofa


PUBLICADO NA EDIÇÃO DE DEZEMBRO DA REVISTA PIAUÍ
1°  DE NOVEMBRO ─ Depois do Haddad, o segundo prefeito eleito que recebo é o de… Niterói. Niterói! Ainda dizem que o PT se saiu bem nessas eleições.
2 DE NOVEMBRO ─ Dia de Finados. Mandei flores para a casa do Serra. Dilminha está espirituosa.
O corretor automático do Word mandou trocar Dilminha oir “Diplominha”. E as pessoas ainda se perguntam porque a Microsoft perdeu a liderança para a Apple e o Google.
4 DE NOVEMBRO ─ Alguém me explica esse sistema eleitoral americano? Mamãe e a Gleisi até tentaram, mas é evidente que não sabem o que falam. A Ideli, que não perde uma boa oportunidade de ficar calada, me apareceu aqui no Alvorada com um datashow. Disse que leu a Wikipédia e compreendeu tudo. No terceiro slide, mandei-a para fora. Desde quando o brasileiro com mais de cinco idas a Orlando tem direito a um voto no colégio eleitoral? O jeito foi apelar para Patriota. O problema é que não pesco metade das coisas que ele diz.
“A maturidade me deu uma adequação, uma maneira de ver a vida sem perder o entusiasmo”, disse Claudia Raia ao jornal O Dia.  Achei precioso.
5 DE NOVEMBRO ─ Cerimônia da Ordem do Mérito Cultural. Outra chatice. Ao menos tirei uma foto com Dona Nenê. O Sarney saiu de papagaio de pirata. Digam o que quiserem, mas ninguém se materializa como ele. O homem é o Mozart da aparição pública.
6 DE NOVEMBRO ─ Reunião com o Lula seguida de jantar com o PMDB. Essas coisas ninguém diz quando vem perguntar se você quer concorrer à Presidência. Cheguei em casa atordoada. Ô troço chato! Se o Exército prestasse, mandava disparar uns mísseis contra Buenos Aires só para desanuviar.
7 DE NOVEMBRO ─ Que inveja da Michelle! Ando meio suspirosa, me sentindo sozinha esse palácio, e aparece ela, com aquele braço e cinturinha fina, abraçando o Obama daquele jeito! Deixei até escapar uma lágrima furtiva! Fiquei com aquela música na cabeça: “Como vai você/ que já modificou a minha vida/ razão da minha paz já esquecida…”
A Ideli está decepcionadíssima com o resultado da eleição. Ela estava doidinha para ser apresentada ao Romney. Achava que, com o vestidinho certo, tinha chance, a sirigaita!
9 DE NOVEMBRO ─ Esse assunto dos royalties já não estava encerrado? Não estou entendo mais nada. Se o Cabral vier reclamar, ponho um guardanapo na cabeça e nem gasto verbo. Faz bobagem quem espirra na farofa.
Gleisi me deu uma bolsa fluo laranja. Disse que é o hit do verão e que vai acender meu look monocromático. É importante estar cercada das pessoas certas.
10 DE NOVEMBRO ─ Acordei outra! O Patriota me avisou que vou para a Espanha! Adoro, adoro, adoro! Sou louca por aqueles leitõezinhos, fazer compras no El Corte Inglés, tomar uma sangria. É tudo de bom! Sei que eles estão numa pindura danada, coitados, mas o que eu posso fazer? De repente até consigo um apartamentinho em conta…
11 DE NOVEMBRO ─ Hum, acordei num bad hair day! Não há escova que dê jeito! Dane-se! Vou trabalhar de pijama. Se emperiquitar toda para encontrar o Guido?! Só vale o esforço quando a agenda prevê discussões sobre os graves assuntos energéticos do país.
12 DE NOVEMBRO ─ Chegou o convite para a posse do Joaquim Barbosa. Lamento, mas estarei ocupada lendo a entrevista da Christine Lagarde na Vogue.
Esse pessoal não tem mais o que fazer. Querem tirar o “Deus seja louvado” das cédulas. O pessoal da ala mais radical do PT queria trocar por “Dirceu seja libertado” e o Cabral sugeriu abrir uma licitação para ocupar o espaço com um anunciante. Que gente!
13 DE NOVEMBRO ─ Agora o Kassab vem me apoiar. Não tenho mais onde empregar tanta gente. Vou abrir uma empreiteira, uma creche, sei lá.
A Lagarde diz que compra terninhos na Austin Reed, de Londres. Resistem bem a voos intercontinentais. Anotei. Questão: a que horas ela se bronzeia? A Ideli acha que ela viaja dentro de um bronzeador, feito o Drácula. Não sei. Certo é que, se continuar assim, vai ficar com pele de retirante da seca.
14 DE NOVEMBRO ─ Mudei meu perfil clandestino no Facebook para Wanda Guarani-Kaiowá. Carlos Minc curtiu. Fiquei emocionada. Ando mesmo precisando de afagos.
“Ex-mai love, ex-mai love. Se botar teu amor na vitrine, ele nem vai valer 1,99.” Gaby Amarantos entende a alma feminina.
15 DE NOVEMBRO ─ Entrou um mosquito do tamanho de um pombo aqui no palácio. Mamãe queria matar. Pedi para o segurança cobrir com um paninho e jogá-lo fora.
Jantei queijo de cabra com espinafre.
17 DE NOVEMBRO ─ Minha prima de Belo Horizonte me ligou para dar outro toque. Diz que estou com uma postura muito ruim, deselegante mesmo. Que eu preciso aprender a sentar direito… Recomendou que eu observasse como a Cristina Lôbo cruza a perna. Fui olhar e vi que fica bom mesmo! Mas é uma ginástica!
18 DE NOVEMBRO ─ Me desapeguei das novelas. Depois de Avenida Brasil não tive mais paciência com essa Salve Jorge. Liguei a televisão e dei com uma cena de gafieira. De novo? Sou muito a favor da ascensão da classe C, mas bem que ela podia ascender só até a novela das 7, e deixar a das 8 para aquelas tramas elegantes do Leblon. Pelo menos me sobra mais tempo para ler esses tais Tons de Cinza. Nunca soube que era possível fazer tanta coisa com uma gravata.
19 DE NOVEMBRO ─ “Austeridade sozinha não ajudará a Europa”, discursei na 22° Cúpula Ibero-Americana. Quem é que dá lição ao Primeiro Mundo? Quem?
O rei Juan Carlos me mostrou o palácio. Pela primeira vez em não sei quanto tempo meu coração deixou de pertencer a um só amo. La noche no quiere venir/ para que tú no vengas/ ni yo pueda ir./ Pero yo irê. Lorca.
20 DE NOVEMBRO ─ “Nenhuma pessoa neste mundo de Deus está acima dos erros e das paixões humanas”,  acabei dizendo ao El País, a propósito do mensalão. Estou passional. Parto vestindo as pedras semipreciosas que Juan me ofereceu. “Tu eres la doña que dicta la moda de la mujer emergente contemporánea”, disse-me na porta do palácio, com um floreio de mão. Respondi inclinando-me para a frente, numa mesura. Funcionou para disfarçar a quase perda dos sentidos.
22 DE NOVEMBRO ─ Tive que ir à posse do Joaquim. Pegou mal o que fizemos na CPI do Cachoeira. João Santana mandou sorrir e dar tchauzinho de miss para os fotógrafos. Cadê minha capa preta?
23 DE NOVEMBRO ─ O chato do Aldo Rebelo veio me sugerir para trocar o nome dessa Black Friday para Sexta Negona. Virei de lado e desdenhei: Talk to the hand.
Aproveitei para comprar um fogão e uma geladeira por um preço incrível. Zelo pelo dinheiro público é isso.
25 DE NOVEMBRO ─ Vi a Hillary, tão abatida por causa dessa confusão lá em Israel! Nem sei direito onde ela estava. O cabelo lambido, o olho empapuçado, muito velha, acabada mesmo! E olha que a gente tem a mesma idade!
26 DE NOVEMBRO ─ Dente para fora evita a comissura dos lábios. Não vou mais pôr aparelho.