sexta-feira, 8 de março de 2013

A comissão de frente do Bloco dos Bufões Bolivarianos capricha na pose de quem virou órfão e viúvo de uma vez só




Três titulares absolutos da comissão de frente do Bloco dos Bufões Bolivarianos começaram já nesta quarta-feira, na Venezuela, o aquecimento para o último desfile puxado por Hugo Cháves. No primeiro ensaio, a argentina Cristina Kirchner combinou o vestido preto-angústia com a maquiagem de Viúva-de-Tango. Sócio recente do clube dos liberticidas, o uruguaio Jose Mujica já aprendeu que é proibido usar gravata. Logo o Tupamaro-de-Fusca aprenderá que também paletó é coisa de burguês.
Sabe disso há muito tempo o boliviano Evo Morales, informa o blusão que virou uniforme de presidente e acaba de ganhar um novo adereço: apareceu na concentração em Caracas enfeitado pelo rosto de Che Guevara. Como atesta a foto, tanto o Lhama-de-Franja quanto seus parceiros capricham na pose de quem foi golpeado simultaneamente pela viuvez e pela orfandade. Estocadas nos cantos dos olhos, lágrimas furtivas estão prontas para descer ao som dos cliques que denunciam fotógrafos em ação.
A dor simulada pelos canastrões de longo curso é mais convincente do que a esboçada por Nicolás Maduro, fantasiado de bandeira venezuelana dois ou três metros atrás. Há alguns anos, o sucessor do bolívar-de-hospício era motorista de ônibus. Nomeado vice-presidente por Hugo Chávez, agora pilota um país. Sabe que precisa ficar triste, mas a euforia não para de pedir passagem e a alma hesita entre o pranto e a gargalhada. Caçula da turma, o bolívar-de-picadeiro tem muita coisa a aprender com os mestres que completam o grupo de elite.
Além da trinca à beira do caixão, a comissão de frente inclui a dupla brasileira Lula e Dilma, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o cubano Raúl Castro, o nicaraguense Daniel Ortega, o equatoriano Rafael Correa, o paraguaio Fernando Lugo, o hondurenho Manuel Zelaya e outras maravilhas da fauna permanentemente em guerra contra o estado democrático de direito, os Estados Unidos e o Código Penal. (Se soubessem o que significa a expressão muito frequente no Rio dos tempos de Nelson Rodrigues, seria fascinante conferir a reação dos enlutados fora-da-lei ao berro perturbador: “Olha o rapa!”)
Para que o homenageado pudesse ser visto pela multidão em companhia dos melhores amigos, o herdeiro Maduro prolongou o velório por mais sete dias e revogou o enterro. Numa urna de vidro, o corpo embalsamado ficará  exposto à visitação pública pelos próximos anos, décadas ou séculos. Logo aparecerão devotos jurando que foram curados pelo milagreiro imortal. Se forem muitos, é improvável que Hugo Chávez resista à tentação de ressuscitar para um agradecimento de pelo menos cinco horas.
Ele merece. A plateia também.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Hugo Chávez, a pior distância entre duas crises

Hugo Chávez assumiu o poder na Venezuela em 1999 para um mandato de cinco anos. Acabou ficando 14. Já havia anunciado a pretensão de ficar no poder até 2031 — modestos 32 anos…  

Chávez venceu a eleição presidencial de 1998 à esteira de uma profunda crise econômica e política, o que abriu espaço para sua pregação virulentamente populista, nacionalista, socializante e anti-imperialista  — um coquetel de coisas ruins, de atrasos. Não houve solução fácil e errada para problema difícil a que não tenha aderido.

Recorreu aos instrumentos que a democracia fornece — eleições, por exemplo — para instaurar o que pode ser chamado, sem exagero, de ditadura, ainda que ela não obedeça ao molde conhecido na América Latina em décadas passadas ou em vigor em vários países do mundo. Existe uma ativa oposição no país, sim — e isso não é o corriqueiro nas ditaduras convencionais. Mas ela está, na prática — e vamos ver por quanto tempo —, impedida de chegar ao poder porque só o “governo bolivariano” tem acesso, por exemplo, às TVs e às rádios. Chávez estatizou a radiodifusão, e a imprensa escrita vive sob severa vigilância.
O coronel morre com as instituições em frangalhos. Foi a pior distância entre duas crises. A economia do país está destruída e depende hoje exclusivamente do petróleo. O estado venezuelano foi ocupado por uma súcia e existe com o propósito de atender aos interesses do chamado grupo bolivariano. O Poder Judiciário está corrompido e é parte desse movimento. Só isso explica o fato de Nicolás Maduro ter se mantido na Presidência. A solução foi escancaradamente inconstitucional — mesmo para os padrões de uma “Constituição Bolivariana”.
Ao longo de 14 anos de poder, em vez contribuir para emancipar boa parte da população dos rigores da pobreza e da miséria, Chávez fez o contrário: cevou os miseráveis com seu assistencialismo agressivo e manteve intocado o ciclo de reprodução da exclusão — só que agora sob o manto protetor do estado.
A pantomima, inclusive a legal, que cercou sua doença e morte denuncia o desastre. O ditador se vai, e o país terá de se ocupar de reconstruir os espaços da interlocução democrática, com as quais ele acabou. Não deixa como herança nem mesmo um partido organizado. Ao contrário: o chavismo é um “movimento”, a que não faltam, prestem atenção!, nem mesmo as milícias armadas.
Em menos de um mês, haverá eleições na Venezuela. É quase certo que Nicolás Maduro, tão carismático quanto uma caixa de isopor, seja eleito. A comoção com a morte do coronel se encarregará de lhe garantir os votos. Aí será a hora e começar a contagem regressiva para o esfacelamento do chavismo — na verdade, já começou.
Será a hora, então, de a oposição entrar em cena, aprendendo a fazer política sem ter mais o ditador como polo aglutinador às avessas. Os que se opõem ao governo terão de buscar o diálogo com as frações que forem se desgarrando do que restar do chavismo para reconstruir o espaço da política, que ele destruiu. A morte do ditador também serve de alerta à América Latina. Trato desse assunto em particular em outro post.
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 5 de março de 2013

Milícias fascistoides tentam bater em jornalista. Sentem-se incentivados pelas falas de Gilberto Carvalho e Rui Falcão e estimuladas pelo arremedo de jornalismo financiado por estatais. Dilma, posso lhe garantir que isso não é bom nem para o país nem para a sua (re)candidatura! Que vergonha, presidente!

O jornalista Merval Pereira, colunista no Globo e comentarista do GloboNews, denunciou na sua coluna de domingo, no jornal, algo muito grave. Na coluna, reproduzida em seu blog, ele conta que foi à inauguração, na sexta-feira à noite, do museu MAR, na praça Mauá, zona portuária do Rio. Havia lá, informa, vários grupos de protesto. Os mais ruidosos atacavam a revitalização da área e criticavam a MP dos Portos, que já classifiquei aqui de um dos acertos do governo Dilma. Muito bem!
Reproduzo, em azul, trecho de seu artigo, intitulado “Meu momento Yoani”. Leiam com atenção.
“O que esses jovens do PT, do PCdoB, da Juventude Socialista, do PDT, sei lá de onde, queriam dizer é que a revitalização do centro do Rio é uma modernidade que rejeitam. E o que dizer da nova legislação sobre os portos do país? O que está por trás dos protestos, no entanto, é uma nada estranhável, embora exótica, aliança entre órgãos sindicais e empresários que operam os portos sem competição, beneficiando-se de uma reserva de mercado tão ultrapassada quanto prejudicial à economia brasileira.”
(…)
As pessoas que saiam da festa de inauguração forçosamente tinham que passar pelos manifestantes para pegar seus carros, e houve momentos em que as agressões verbais chegaram às raias da agressão física. Uma senhora que ia à nossa frente foi chamada de “fascista” por um manifestante, que gritou tão perto do seu rosto que quase houve contato físico.
Passei pelo grupo com minha mulher sob os gritos dos manifestantes, e um deles me reconheceu. Gritou alto: “Aí Merval fdp”. Foi o que bastou para que outros cercassem o carro em que estávamos, impedindo que saísse. Chutaram-no, socaram os vidros, puseram-se na frente com faixas e cartazes impedindo a visão do motorista. Só desistiram da agressão quando um grupo de PMs chegou para abrir caminho e permitir que o carro andasse.
Foram instantes de tensão que permitiram sentir a violência que está no ar nesses dias em que, como previu o Ministro Gilberto Carvalho, “o bicho vai pegar”. É claro que o que aconteceu com a blogueira cubana Yoani Sanchez nem se compara, mas o ocorrido na noite de sexta-feira mostra bem o clima belicoso que os manifestantes extremistas estão impondo a seus atos supostamente de protesto.
(…)
Voltei
Muito bem, meus caros. Já volto à manifestação. Antes, algumas outas considerações. Nesta segunda, Rui Falcão, presidente do PT, participou da abertura do Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). Esse modelo em que o chefe do partido fala a uma categoria que está sob a tutela da legenda tem história: é de inspiração fascista. Não é assim porque eu quero. É assim porque é o que informa a história. Falcão aproveitou a oportunidade para, mais uma vez, pregar o que os petistas chamam “democratização da mídia”, demonizado, uma vez mais, a imprensa brasileira. “Democratização”?
A fala acontece três dias depois de o Diretório Nacional do PT ter divulgado uma resolução que trata do mesmo assunto. No documento, a referência para a tal “democratização” são as propostas contidas no Fórum Nacional de Democratização da Comunicação. No sábado de manhã, escrevi um post a respeito. Demonstrei que o tal fórum defende, sem meias-palavras, que  os “representantes da sociedade civil” — valer dizer: os petistas — controlem o conteúdo do que é veiculado pela imprensa. Assim, o que o PT chama democratização é, em verdade, ditadura partidária. É simples assim.
Pois bem… A violência retórica do petismo contra a imprensa tem crescido. Órgãos financiados pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal hostilizam abertamente os jornalistas considerados “de oposição” — ou incômodos ao governo — e abrem suas respectivas áreas de comentário às manifestações explícitas de ódio. Reitero: não se trata de exercício da divergência, por mais dura e azeda que fosse. Não! É satanização mesmo, com estímulo ao linchaento. Lá do Palácio do Planalto, no ano passado, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, avisou: “Em 2013, o bicho vai pegar”.
E está pegando. Como se vê, dados a fala de um ministro de estado, a permanente pregação dos petistas contra a imprensa e o incentivo do subjornalismo chapa-branca (que, reitero, publica comentários os mais desvairados, incentivando o pega-pra-capar), os ditos “militantes” decidiram partir para a ação direta. Antes, eles só protestavam, gritavam, xingavam. Agora não! Impunes, certos de que nada vai lhes acontecer, eles decidiram que é hora de começar a espancar aqueles de que discordam. É uma nova fase da sua “luta”.
Já não bastam mais as tentativas de linchamento moral; já não bastam mais as correntes organizadas de difamação na Internet. E olhem que eles se especializaram nisso! Como revelou reportagem da mais recente edição de VEJA, o rapaz que desenvolveu um programa, um método mesmo, para achincalhar os adversários do PT (ou os assim considerados pelo partido) é funcionário do deputado André Vargas (PT-PR), vice-presidente da Câmara. Seu nome é André Guimarães. Ele já vende seus serviços a quem estiver disposto a comprar. A depender do pacote, pode custar de R$ 2 mil a R$ 30 mil. Então ficamos assim: as estatais pagam a rede suja, e a Câmara paga um expert em difamação. Não é mais o suficiente.
Também isso tem história. Também isso obedece a uma gradação. Ao discursar para uma multidão no dia 10 de fevereiro de 1933, 11 dias depois de Hitler ter se tornado chanceler da Alemanha,  Goebbels anunciou uma guerra contra a imprensa dos “judeus insolentes”. Em sua fala, fica evidente que a máquina difamatória contra os inimigos era apenas a primeira etapa do processo. E ele anunciava ali: “Um dia nossa paciência vai acabar e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!” Quando “a paciência” dos nazistas acabou, a gente sabe bem o que fizeram.
Então é isto:
– a paciência de Gilberto Carvalho conosco acabou;
– a paciência de Rui Falcão conosco acabou;
– paciência da subimprensa a soldo conosco acabou.
Agora é chegada a hora de calar, na porrada, a boca dos “judeus insolentes”, que somos nós.
É uma vergonha, presidente!
É claro que ninguém vai encontrar nas palavras de Carvalho ou de Falcão o incentivo explícito à pancadaria — até porque isso ensejaria processo judicial. O mesmo se diga daquela gente financiada por estatais. Mas é óbvio que eles todos, juntos, formam o caldo de cultura que conduz a essa intolerância — que começa a crescer também dentro das redações, é bom que saibam — nesse caso, ninguém bate em ninguém; não ainda. Mas as ideias já começaram a ser impiedosamente espancadas; a liberdade de expressão já está sob permanente assédio.
Em recente evento do PT, lá estava fazendo o seu trabalho uma jornalista de TV. Assim que um dos chefões petistas fez um ataque à “mídia” e à sua suposta parcialidade, uma idiota gritou: “Fulana de Tal está Aqui!!!” Deixassem a coisa por conta dela, a repórter poderia apanhar ali mesmo. Foi o que aconteceu com Merval. Essa é a democracia deles — aquela em que as pessoas de que discordam são linchadas. Jamais se viu um democrata propor algo parecido. Já os comunas e os fascistas — essencialmente iguais, é bom notar — não podem tolerar a divergência. Inimigo é para ser esmagado!
Não adianta Dilma fazer cara de paisagem e fingir que não tem nada com isso. Tem, sim, presidente! Todos têm o dever de zelar pelas leis e pela Constituição, mas ao presidente da República é reservado também o papel de liderança moral, não de chefe de facção. Essa história de que ela nada pode no partido é, lamento!, mera conversa mole de quem está na zona de conforto. Se não tem como impedir a pregação bucéfala dos petistas, tem ao menos como censurá-la. Ademais, enquanto dinheiro publico continuar a irrigar campanhas organizadas de difamação, que já começam a resultar em agressão física, Dilma tem, sim, “a ver com isso”.
Não é bom, presidente!
Não, presidente, isso não é bom! Não é bom para o país por razões que me dispenso de explicar. E não é bom também para a sua candidatura. A corrida nem começou, mas a violência retórica já alcança dimensões estúpidas. Aqui e ali, já começa a haver sinais de que setores importantes da sociedade estão se cansando do autoritarismo petista. O caso de Yoani Sánchez, evocado por Merval, foi exemplar, não é? A tramoia contra aquela moça contou com a participação de um assessor do governo (e com o apoio técnico de um funcionário de um figurão do PT), e nada aconteceu.
“Esse Reinaldo! Os caras que tentaram agredir Merval, que chutaram seu carro, estavam também contra a MP dos Portos, editada pela própria Dilma…” Eu sei. Esses grupos sempre são livres para divergir à esquerda… Isso é lá com eles, problema interno. Eu estou cuidando aqui é da tolerância com o “outro”.
Nos textos que escrevi sobre Yoani, afirmei, está em arquivo, que a blogueira cubana era apenas a primeira da fila e que os fascistoides estavam se preparando para espancar também os adversários nativos. Eis aí. Dilma não precisa nos cobrir de beijos, como faz com “Chalitinha”. Basta que faça cumprir a Constituição da República Federativa do Brasil.
Por Reinaldo Azevedo

domingo, 3 de março de 2013

Dissidência acusa Cuba de prender 470 em fevereiro


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Regime reprimiu opositores no dia da sessão da Assembleia Nacional que reelegeu Raúl Castro para novo mandato de 5 anos

03 de março de 2013 | 2h 02


GUILHERME RUSSO , ENVIADO ESPECIAL / HAVANA - O Estado de S.Paulo
Havana, 24 de fevereiro de 2013. O Parlamento de Cuba prepara-se para nomear o novo Conselho de Estado, a mais alta instância de poder do país, dois dias depois de o presidente Raúl Castro ter cogitado a possibilidade de renunciar. Dissidentes preparavam manifestações na capital cubana - e a população nem imaginava que o chefe do Executivo havia falado em aposentar-se.
Os protestos resultaram em detenções políticas mal noticiadas de mais de cem opositores, enquanto o líder era reeleito, sob o anúncio de sua saída do cargo em 2018. Manchetes de todo o mundo informaram a data marcada para o início da era pós-castrista.
Como fazem todos os domingos, integrantes das Damas de Branco foram à missa das 10 horas na Igreja de Santa Rita de Cássia, na Quinta Avenida, no bairro Miramar, começando o protesto que repetem desde que se mobilizaram pela libertação de seus maridos e filhos - após a Primavera Negra, de 2003, que resultou na prisão de 75 dissidentes,16 dos quais ainda cumprem pena em regime domiciliar, segundo registros da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN).
Mesmo após 2011, quando todos os seus parentes já haviam sido soltos, as Damas de Branco continuaram a protestar contra o regime.
Naquele domingo, a manifestação das ativistas lembrava os 17 anos das quatro mortes ocorridas na derrubada de duas avionetas da Hermanos al Rescate (Irmãos ao Resgate), entidade de cubanos exilados em Miami, que invadiam o espaço aéreo de Cuba para lançar folhetos de campanha contra o governo e ajudar balseiros que arriscavam-se no Mar do Caribe para fugir da ilha. O opositor Orlando Zapata Tamayo, preso político que morreu em 23 de fevereiro de 2010, após 86 dias em greve de fome, também foi lembrado no protesto.
Orientadas pela dama Berta Soler, as manifestantes juntaram-se diante de um altar nos fundos da igreja após a missa, às 12 horas. Atentas aos sinais da líder, rezaram.
Com fitas negras amarradas nos braços, para simbolizar o luto de que recordavam, vestiam camisetas com a imagem de Laura Pollán, fundadora do movimento, morta em outubro de 2011, jaquetas justas e calças compridas. Todas de branco.
Depois da oração, as 56 damas formaram duas filas paralelas diante da igreja, segurando ramos floridos de gladíolos. E iniciaram sua marcha silenciosa. A passeata começou pela calçada. De maneira ordenada, atravessou a via pela faixa de pedestres e tomou o canteiro central da avenida. Muito concentrada, Berta comandava o ritmo dos passos das damas.
A líder foi a única a romper o silêncio da caminhada, quando entrou ao vivo falando de seu celular para a Rádio Martí, de Miami. Gritava a plenos pulmões um discurso inflamado contra o governo de Raúl Castro, explicando as razões específicas da manifestação daquele dia. "O dia de hoje marca o reinício da luta pela liberdade em Cuba", disse a ativista.
Além do Estado, três repórteres cubanos dissidentes, da Agência Social de Jornalistas Independentes (Aspic, na sigla em espanhol) - apoiada pela blogueira Yoani Sánchez -, acompanhavam o protesto: David Águila, Joisy García e Yuri Valle.
"Raúl está mal da cabeça. Não tem a cabeça sobre os ombros. É louco", afirmou Berta furiosamente à reportagem, logo após encerrar sua conversa com a rádio americana, comentando a declaração do presidente sobre sua possível renúncia.
Repressão. Ao dobrar à direita na Rua 34, saindo da Quinta Avenida, as Damas de Branco passaram a marchar pelo meio da via. Pouco depois, dois carros pararam aproximadamente 100 metros à frente da manifestação e cerca de dez homens fortes desceram dos veículos, que não chegaram a obstruir completamente a passagem.
De braços cruzados e estufando o peito, eles encaravam as manifestantes com expressões fechadas, de maneira ameaçadora. Berta disse para as damas irem para a calçada, orientação que todas atenderam imediatamente, e se prepararem para se sentar ou se deitar no chão, para resistir de maneira pacífica a qualquer tentativa de detenção por parte das autoridades cubanas - que costumam respeitar e permitir os protestos semanais do movimento.
Detenções. Pelo menos 150 "contramanifestantes", vindos do lado oposto da rua, apareceram correndo em direção ao bloqueio dos homens mal-encarados, gritando máximas em favor do regime cubano e de seus heróis, enquanto duas motocicletas com batedores uniformizados e vários carros de polícia repletos de agentes à paisana cercaram as damas por todos os lados.
Imediatamente, um ônibus vazio foi estacionado próximo às damas e as detenções começaram. Enquanto as manifestantes eram levadas à força para dentro do veículo, outros policiais foram em busca de prender todos que estivessem no entorno do protesto.
Neste momento, o repórter do Estado também foi detido, juntamente com os jornalistas dissidentes que também acompanhavam o protesto. Todos os presos foram soltos pouco depois.
"Para nós, está provado que a polícia política secreta espiona a dissidência e planeja minuciosamente a maneira como reprime cada manifestação. Esse procedimento, que envolve o 'contraprotesto' aliado à operação policial, é comum na repressão do governo cubano aos opositores", disse o diretor da CCDHRN, Elizardo Sánchez, afirmando que, em fevereiro, ao menos 470 prisões políticas foram registradas pela entidade

Petista, que é funcionário de vice-presidente da Câmara, é pago com dinheiro público para alimentar rede de difamação na Internet. E já está vendendo seus serviços


Vejam estas duas caras.
Por que estão aqui? Vamos lá.
Escrevi na manha de ontem um texto sobre a resolução do Diretório Nacional do PT que, na prática, prega a censura à imprensa. O partido pretende manipular uma proposta de emenda à Constituição de “iniciativa popular” para regulamentar o que eles chamam “mídia”. Como evidencio naquele texto, eles querem mesmo é controle de conteúdo.
O PT já interfere avidamente no setor, e a imprensa, no Brasil, em muitos aspectos, é menos livre hoje do que já foi um dia. E como se dá essa interferência? O governo federal, por meio da publicidade direta e das estatais, premia veículos sabujos. O dinheiro público financia uma vasta rede de difamação disfarçada de jornalismo — os blogs sujos, os sites sujos, as revistas sujas, os sujos sujos… Seu trabalho é falar bem do PT, atacar a oposição e difamar a imprensa independente.
As coisas não param por aí. E voltamos, então, àqueles dois senhores que estão lá no alto. O da esquerda é o deputado André Vargas (PT-PR), secretário de Comunicação do PT e vice-presidente da Câmara dos Deputados. O da direita é André Guimarães, seu funcionário. O que eles fazem? Reproduzo texto publicado na VEJA Online, que se refere a uma reportagem de Hugo Marques, publicada na revista desta semana. Leiam. Volto em seguida.
*
São muitas as histórias de anônimos que alcançaram a fama por meio da internet. O petista André Guimarães tem planos ambiciosos nessa direção. Criador da RedePT13, uma organização virtual formada por perfis falsos e blogs apócrifos usados para atacar aqueles que são considerados inimigos do partido, ele já é uma celebridade entre seus pares. Se é preciso espalhar uma mentira para difamar alguém, Guimarães é acionado. Se for apenas para ridicularizar um oponente, o rapaz conhece todos os caminhos sujos. Na visita da blogueira Yoani Sánchez, ele trabalhou como nunca. A rede postou montagens fotográficas, incentivou os protestos e difundiu um falso dossiê produzido contra ela pela embaixada cubana. O problema é que o “ciberguerrilheiro” petista sustenta sua atividade criminosa com dinheiro público, dinheiro do contribuinte. André Guimarães é funcionário do Congresso. Está lotado e recebe salário no gabinete do deputado André Vargas, o atual vice-presidente da Câmara e secretário nacional de comunicação do PT.
Voltei
Vocês tratem de acreditar no que seus olhos leram. O vice-presidente da Câmara dos Deputados tem um funcionário cuja especialidade é difamar pessoas e instituições na Internet. Ele se tornou o fortão do bairro Peixoto nessa matéria.
Assim, sempre que vocês ouvirem um petista pregando a “regulamentação da mídia” para, segundo diz o partido, “democratizar a comunicação”, não hesitem um só instante em chamar a justificativa de mentira, de empulhação, de safadeza mesmo! O PT, que já usa hoje dinheiro público para manter redes de difamação, quer encontrar caminhos para controlar o conteúdo também nas empresas privadas de comunicação.
Leiam a reportagem na revista. O tal André Guimarães desenvolveu de tal sorte a expertise da difamação que, acreditem!, ele sai Brasil afora oferecendo o seu método para estados e prefeituras. O pacote oferecido, a depender do serviço, pode custar de R$ 2 mil a R$ 30 mil de mensalidade. Na reunião feita na embaixada cubana, que traçou a estratégia para difamar Yoani Sánchez no Brasil, estava presente um outro especialista em “ciberguerrilha”: Ricardo Augusto Poppi Martins, que trabalha para Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência.
Poppi: homem de Carvalho participou de reunião que decidiu ação difamatória contra Yoani Sánchez
Para idiotas
O “trabalho” de Guimarães é coisa para cretinos, para idiotas. Mas quantos são os cretinos e os idiotas? Uma das “sacadas” de sua rede difamatória, por exemplo, é opor Julian Assange, que está escondido na embaixada do Equador na Inglaterra, a Yoani Sánchez. Segundo esse gênio da análise política, isso demonstraria que o capitalismo, que estaria querendo prender Assange, é uma ditadura, e o comunismo cubano, que permitiu a viagem de Yoani, é uma democracia. Uau!
Embora Assange tenha cometido uma penca de crimes envolvendo o roubo de dados sigilosos (isso nada tem a ver com jornalismo ou liberdade de expressão; é banditismo) —, e o único crime da blogueira cubana seja escrever o que pensa —, o chefão do Wikileaks está escondido na embaixada de um país que censura a imprensa, regime que ele apoia com entusiasmo, porque há uma ordem de extradição contra ele para que responda por crime de estupro.
Mas isso é o de menos. As democracias não proíbem que as pessoas digam boçalidades. O ponto é outro. Guimarães está sendo pago com dinheiro público para  alimentar uma rede de difamação.
Em maio, os blogueiros puxa-sacos que se dizem “progressistas” vão realizar um encontro em Fortaleza. Constituem a linha de frente dos difamadores a serviço do petismo. Guimarães será um dos destaques do evento. Lula e José Dirceu devem aparecer por lá. Faz sentido. É o lugar certo para um condenado em última instância por corrupção ativa e formação de quadrilha.
Por Reinaldo Azevedo

sábado, 2 de março de 2013

Grafiteiro irrita governo cubano com obras críticas em paredes e placas de Havana

FLÁVIA MARREIRO

DE SÃO PAULO

É praticamente impossível abrir um jornal em Cuba ou caminhar longos períodos em Havana sem topar com uma alusão aos "cinco heróis".
Tudo parte de uma campanha pela liberdade de agentes do país condenados a penas severas na Flórida por espionagem, prioridade máxima para o governo Raúl Castro, que argumenta que eles estavam infiltrados em grupos anticastristas em ações de contraespionagem, e não espionando os EUA.
A insistência no tema foi o ponto de partida para o artista e grafiteiro Danilo Maldonado, 29, cumprir seu objetivo: iniciar o que chama de "diálogo conflitivo" com os dirigentes comunistas.
Com spray na mão, saiu pichando nas paredes e e bancos com a inscrição: "El Sexto", que viraria sua assinatura em todos os trabalhos.
"As pessoas poderiam pensar que era sexto sentido, sexto qualquer coisa. Mas a campanha dos 'cinco' é tão onipresente que não sobra muita interpretação", explicou ele à Folha, numa conversa em Havana no fim de janeiro.

Favia Marreiro/Folhapress
Maldonado exibe obra em seu apartamento em Havana
Maldonado exibe obra em seu apartamento em Havana
"Heróis somos todos os cubanos, é o trabalhador que ganha salário que não dá para nada", segue ele, que desde já foi detido quatro vezes e teve tintas e agendas de desenho confiscadas.
A polícia chegou a apreender um laptop seu, e ele pichou as ruas pedindo o equipamento de volta. Conseguiu.
A última vez que foi detido brevemente --sem apresentação formal de acusação, uma prática comum na era Raúl-- foi durante a visita do então papa Bento 16 a Havana em março passado, ao lado de outros dissidentes.
Do pequeno grupo político e artístico que se opõe ao governo, seus contatos incluem a blogueira Yoani Sánchez e a banda Porno para Ricardo.
As inscrições nos lugares mais visíveis poucas vezes duram mais que um dia. As mais inacessíveis têm mais sorte, conta "El Sexto".
Com graduação não concluída em biblioteconomia, ele diz que a família não entendeu quando ele começou as intervenções."Diziam que eu estava louco."
A primeira intervenção que irritou a polícia foi em 2008, ainda antes de adotar o nome satírico. Num estêncil pôs dois elementos: as letras REV ("de revolução"), e duas flechas apontando para trás, como um "rewind" de gravador.
"A polícia apagou no dia seguinte. A minha ideia era que 'a revolução está retrocedendo'. Mas o que estava lá eram três letras e flechinhas para trás. O resto estava na cabeça deles também."
Maldonado, que se prepara para se tornar pai nos próximos meses, diz que vive de bicos e da venda de trabalhos seus feitos em outras plataformas, como papel.
Conta ter vendido a um comprador inglês, por meio de um amigo no Reino Unido, um trabalho. Trata-se de um grafite representando Fidel e a ordem "Cuspa-o". Não revelou quanto ganhou.
Maldonado, que diz que entre suas referências estão o grafiteiro britânico Bansky e Jean-Michel Basquiat (1960-88), faz outros tipos de intervenção. Em janeiro, quando começou a valer a lei que facilitou viagens ao exterior, confeccionou pequenas asas que colou nos bonequinhos de placas de rua. Batizou de "Todos vão embora." Num dos panfletos que distribui, pede ao receptor preencher: "Medo de...", e indica o lugar para posicionar os polegares e rasgar o papel.
O impacto, diz, não é de entusiasmar. "O que os jovens estão fazendo é fila na porta de embaixadas para imigrar. Conversam comigo dois minutos dizem 'que bom o seu trabalho' e pronto".

Reprodução

sexta-feira, 1 de março de 2013

O surto de megalomania inspira mais uma pedagógica manchete do Diário do Comércio


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O Diário do Comércio voltou a mostrar aos concorrentes, nesta quinta-feira, como se faz uma primeira página. AGORA, LULINCOLN DA SILVA, resume a manchete principal, ilustrada pela fotomontagem que coroa a cabeça do palanque ambulante com uma superlativa cartola ─ marca registrada do estadista que aboliu a escravidão e impediu o esfacelamento dos Estados Unidos. Subtítulo: A boa notícia é que Lula está ‘lendo muito’ (convidados da festa de 30 anos da CUT gargalharam, ao ouvi-lo’). A ruim é que ele agora encarna o presidente Abraham Lincoln.
O diário dirigido pelo jornalista Moisés Rabinovici complementa a aula com a segunda manchete: Veja o PT censurando o cartaz do Mensalão. Na foto ao lado, dois funcionários do partido carregam para os porões do Congresso um painel, instalado pela oposição, que lembra a grande roubalheira descoberta em 2005. Compreensivelmente, o ano foi excluído da exposição em que o PT festeja as proezas que jura ter protagonizado desde o nascimento em 1980.
As duas notícias ficaram fora das primeiras páginas do Estadão, da Folha e do Globo. Os três maiores jornais do país confinaram em espaços mofinos ─ e, pior ainda, trataram como se fossem coisa séria ─ duas brasileirices singularíssimas. Mesmo no País do Carnaval, não é todo dia que um surto de megalomania faz um chefe de seita enxergar Abraham Lincoln quando se olha no espelho. Nem pode ser reduzido a irrelevância rotineira o roubo de um painel que denuncia o sumiço de um ano inteiro.
São fatos que merecem manchete. E merecem o tratamento sarcástico que ilumina a primeira página do Diário do Comércio. Os vigaristas que debocham do Brasil decente reagem a acusações gravíssimas e denúncias de grosso calibre como se fossem confrontados com a previsão do tempo. Só se sentem atingidos no fígado quando o calibre da bala é engrossado pela ironia impiedosa.
Editores de jornais vivem se queixando da falta de leitores. Como demonstra o confronto das primeiras páginas desta quinta-feira, o que falta é argúcia, independência intelectual, coragem e talento.