terça-feira, 12 de março de 2013

Um homem de confiança


A novela O Bem Amado, distribuído hoje em DVD e que quase a população inteira do Brasil conhece, fez muito sucesso devido a seus impagáveis personagens folclóricos; dentre eles o Dirceu Borboleta, o homem de confiança do prefeito Odorico Paraguassu. Dirceu é aquele puxa saco típico: ingênuo, medíocre, humilde, sempre pronto para qualquer tarefa que o prefeito lhe mandar executar. Ele não é daqueles que em passeatas e finais de discursos, coloca o prefeito no ombro para sentir o saco no cangote. Ele não tem força para tanto. Ele tem uma constituição frágil e é até um cara bom, o pobrezinho. Mas os puxa sacos de agora não são nada ingênuos, humildes e bonzinhos. São arrogantes, mandões e presunçosos.
Tomemos como exemplo o evento da posse do prefeito em seu segundo mandato. Tudo seguia o figurino normal nessas ocasiões, com discursos, abraços e elogios mútuos em profusão, quando aparece um Dirceu Borboleta da vida para fazer um panegírico exaltando as qualidades morais e administrativas do prefeito. Ninguém entendeu aquela puxação de saco  tão acintosa e explícita. Normalmente os baba ovos são mais discretos, mas aquele não, aquele não teve sequer um pingo de simancol e desandou a ler seu atestado de cara de pau irremediável. Foi constrangedor, para dizer o mínimo. Depois, quando da nomeação dos secretários municipais e sua atuação a partir daí é que se entendeu o propósito daquela patacoada.
Vejamos quem é esse Dirceu Borboleta versão século XXI.
Ao contrário da música de Roberto Carlos, esse cara é totalmente o contrário do romântico cantado pelo nosso Rei. Além disso, tem uma característica inconfundível que o torna o sujeito mais antipatizado de nossa cidade: a empáfia. Você olha para ele e vê um indivíduo com uma postura de quem se considera o bom da bocada; alguém com um formidável talento para alguma coisa que desconhecemos. Talvez para ator, e medíocre por sinal. Nada nele é autêntico, verdadeiro, tudo é postiço. Seu riso é um esgar que deixa transparecer uma alma profundamente imbuída de um sentimento de superioridade em relação aos comuns dos mortais. Até para falar no celular ele faz pose. E ai de quem for vítima de sua antipatia; não existe sujeito mais vingativo e perseguidor, principalmente com aqueles por quem se sente humilhado. Nada lhe traz mais rancor do que o sucesso alheio. 
Ele gostaria de escrever  bem mas a falta de intimidade com a língua portuguesa o impede de praticar a escrita. Seu maior sonho era ter um jornal: influente, bem diagramado, muito bem escrito. Mas a mediocridade e a falta de traquejo para o ramo são obstáculos invencíveis. Mas acima de tudo, de qualquer sonho ou desejo ele gostaria de ser rico, de ter posses, muitas posses. Além da falta de talento para outros ramos, há a de comandar a política alcançando postos de mando. Quem sabe eleger-se prefeito? Com aquela postura? É ruim, hein? Por isso a busca incessante por dinheiro, o sucedâneo do poder. 
Então um dia a sorte lhe sorriu: seu primo se elegeu vereador e foi eleito presidente da Câmara. Mas o que teria isso de bom para ele, posto que o irmão desse primo também fora eleito vereador? É que aquele nunca lhe deu oportunidade. E o novo presidente da Câmara nomeou-o seu homem de confiança, dando-lhe todas as prerrogativas pelas compras daquela casa legislativa. E ele passou então a executar seu plano de vingança contra seus desafetos que não eram poucos. E depois o primo foi eleito prefeito e se reelegeu. E ele lá, responsável pelo controle das compras. Não poderia haver melhor arranjo do que esse, ele que perseguira tanto o dinheiro fugidio. A prefeitura só compra de quem ele quiser. E isso nos provoca alguns pensamentos maledicentes. Mas houve uma mudança sutil; ele não é mais o Dirceu Borboleta, agora é papagaio de pirata. E o que vem a ser isso? É aquele sujeito que está sempre colado na alta autoridade para aparecer nas fotos. E sorrindo, aquele seu sorriso postiço que até aquele menino do nariz cagado nota logo. E quanto mais a conta bancária cresce, aumenta também a empáfia.
Quem sabe se algum dia um puxa saco qualquer, diante de tanta arrogância, não possa confundi-lo com uma autoridade e vá carrega-lo nos ombros? Para ele seria a suprema glória. Um puxa saco-mor  que ascendeu na carreira e agora é levado por outro nos ombros. Talvez ele até queira nomear um homem de sua confiança. Na duvide, na política os medíocres tem futuro brilhante.

A democracia deles – “Acossado”, último canal crítico ao chavismo será vendido; homem de maduro anuncia que a TV passará a ser “vermelho-vermelhinha”

“Estamos acossados”. Assim o presidente e acionista majoritário do canal privado venezuelano Globovisión, a única emissora do país que ainda mantém uma linha crítica ao governo “bolivariano” iniciado com Hugo Chávez, resumiu a situação da empresa nesta segunda-feira. Em carta aos funcionários, Guillermo Zuloaga declarou que está negociando a venda do canal, confirmando rumores dos últimos dias, embora tenha negado que o veículo já foi vendido. A razão da venda, segundo ele, é a “inviabilidade” da Globovisión diante da pressão chavista e do combalido mercado de anunciantes na Venezuela.

“Somos inviáveis economicamente, porque nossa receita já não cobre nossas necessidades de caixa. Somos inviáveis politicamente porque estamos em um país totalmente polarizado e do lado oposto a um governo todo-poderoso que quer nos ver fracassar. Somos inviáveis juridicamente porque temos uma concessão que termina (em dois anos), e não há intenção (do governo) de renová-la. Pelo contrário, estamos acossados pelas instituições do estado, apoiadas por um TSJ (Tribunal Superior de Justiça) cúmplice que as ajuda e colabora em tudo aquilo que possa nos prejudicar”, explica Zuloaga no comunicado.
A derrota da oposição nas eleições de outubro, quando a Globovisión apoiou Henrique Capriles, explicou Guillermo Zuloaga, pôs a emissora “em uma situação muito precária como canal e como empresa, somando-se a isso o acúmulo de processos judiciais movidos pelo governo”.
A carta aberta de Zuloaga – que vive exilado nos Estados Unidos – foi enviada depois que seu filho e vice-presidente do canal, Carlos Zuloaga, afirmou. em um breve transmissão. que havia “uma oferta de compra formal” e “uma intenção de venda”. A negociação, segundo o dono da Globovisón, estava pronta para ser fechada nesta semana, mas ele pediu que só fosse concretizada depois das eleições presidenciais de 14 de abril, convocadas após a morte de Hugo Chávez. O provável comprador é o empresário do setor financeiro Juan Domingo Cordero, ex-proprietário de uma corretora de ações fechada após a intervenção do governo chavista no mercado de capitais que, com autorização do governo, abriu recentemente uma seguradora – sinal de que possui a aprovação oficial.
Opinião pública
Especializada em notícias, a Globovisión só transmite com sinal aberto em Caracas e na cidade de Valencia, a oeste da capital, mas chega ao resto do país como TV por assinatura e pela internet. Apesar de ser um canal relativamente pequeno, influencia a formação da opinião pública ao oferecer uma linha diferente da oficialista. Isso pode acabar com a eleição de Nicolás Maduro, o candidato governista à sucessão de Chávez, ficando a Venezuela com seis canais estatais permanentemente a serviço do governo e nenhum onde ele seja criticado abertamente.
Os outros dois principais canais privados de alcance nacional, Venevisión e Televen, reduziram ao máximo o espaço do jornalismo para não entrar em choque com o governo, que usa contra a Globovisión o apoio do canal à tentativa de golpe de 2002, que tirou Chávez do poder por dois dias. Cerca de 80% da Globovisión pertencem a duas famílias – a Zuloaga tem a maior parte, que está sendo vendida. Os 20% restantes foram confiscado pelo governo três anos atrás, e o antigo dono desse percentual luta na Justiça contra o estado para recuperá-lo.
Voltei
Andrés Izarra, ex-ministro das Comunicações e um dos homens de confiança de Maduro, comemorou a notícia e disse que, em breve, a emissora será “roja-rojita” — “vermelho-vermelhinha”.
O vermelho é a cor oficial do chavismo.
Por Reinaldo Azevedo

segunda-feira, 11 de março de 2013

Negro e racista? Desta vez, a patrulha quebrou a cara. Não foi por falta de aviso, né?


Vejam esta foto.
Acima, vocês veem o pastor Marco Feliciano abraçado ao padrasto, que é negro, e à mãe — que eu chamo de “mestiça”, mas que os movimentos militantes chamam de “negra” também. Feliciano é, pois, enteado de um negro, filho de uma negra e, segundo os critérios que orientam as leis de cotas no Brasil, também é… negro! Não obstante, querem acusá-lo de racismo por uma frase tonta escrita no Twitter. Ele próprio divulgou a foto no Facebook.
Há um monte de branco raivoso apontando o dedo para o negro Feliciano. Já demonstrei aqui que ele apenas citava uma passagem do Gênesis — e ainda errava sobre a origem bíblica dos africanos. Na democracia, as pessoas são livres para falar e escrever tolices.
Já escrevi dois textos a respeito. Ontem (vejam acima), publiquei o vídeo em que ele pede votos para Dilma Rousseff em 2010. Como demonstro ali, Feliciano, com toda essa visibilidade, também é obra do PT, não é mesmo? Também é obra de Dilma. Ou por outra: enquanto ele puxava votos para o partido e cumpria a tarefa de diminuir a rejeição dos evangélicos ao nome da petista, era útil. Agora, não pode presidir uma comissão. Vamos pensar mais um pouco.
A conexão entre a chamada “grande imprensa” e os movimentos militantes acaba criando alguns “heróis” que são do gosto de ambos, mas, às vezes, a receita desanda, e acontece o inverso do esperado. Os gays e esquerdistas não gostam de Feliciano. É um direito deles. Decidiram pedir a sua destituição da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ok. Também podem. Neste domingo, leio no Globo, foram atazaná-lo na porta de um templo, em Franca. Houve protesto, gritaria, seu carro foi cercado. Aí não dá. Aí já passou dos limites. Isso não pode. É constrangimento ilegal.
Nos textos que escrevi no sábado, observei que esses protestos marcados por intermédio do Facebook têm o condão de transformar minorias em aparentes maiorias. E antevi o óbvio. Acuado, o pastor também pode mobilizar os seus seguidores. É o que ele decidiu fazer. Leio no Globo (em itálico):
Pelas rede sociais, o parlamentar, pastor e fundador da Tempo de Avivamento, convocou líderes religiosos para discutir, nesta segunda-feira à noite, o futuro das igrejas diante do que chama da “batalha contra a família brasileira”.
Feliciano pretende usar o culto que costuma celebrar às segundas-feiras no maior templo de sua igreja, em Ribeirão Preto (interior paulista), para responder às acusações de racismo e homofobia a estelionato que vem recebendo. “Estamos vivenciando a maior de todas batalhas contra a família brasileira, e a igreja está sendo bombardeada pelas mentiras insinuadas por grupo de bandeira LGBT (gays, lésbicas, bissexuais e travestis), que planeja dividir e destruir nossas igrejas e famílias, usando a política e a discriminação como arma”, diz o comunicado de convocação, publicado na página do deputado no Facebook, sábado à tarde.
“O deputado-pastor Marco Feliciano pede a presença de todas as lideranças evangélicas e católicas de Ribeirão Preto e região para a reunião a fim de discutir o futuro de nossas igrejas diante desse grande embate”, prossegue o comunicado. No texto, também é destacado que toda a “imprensa estará presente, precisamos mostrar a nossa união”. Ainda nas redes sociais, Feliciano afirmou ontem estar “abatido” pelo que chama de “perseguições”. “Cheguei em casa essa madrugada abatido pelas perseguições. Mas, ao receber o carinho da minha esposa e minhas filhas, a minha alma se renovou”, escreveu ele na página do microblog
.
Retomo
Já escrevi e reitero: Feliciano é da turma “deles”, não da minha, como revela aquele vídeo em que pede voto para Dilma. Pode ter as ideias mais atrasadas e impróprias sobre isso e aquilo, mas não foi racista e duvido que tenha sido homofóbico — não basta, para justificar essa acusação, que o sujeito seja contra o casamento gay. Posso reprovar as ideias dele e mesmo o pouco que vi de sua prática religiosa, e reprovo — SEMPRE DESTACANDO QUE PEDIR DINHEIRO A FIÉIS, QUE SÓ DÃO SE QUISEREM, É COISA MUITO DIFERENTE DE ROUBAR DINHEIRO PÚBLICO —, mas o movimento que está em curso, lamento, é autoritário.
E se o pastor conseguir reunir bem mais gente em seu apoio? Se 500 ou 600 pessoas contra ele são tomadas, por setores da imprensa, como critério de relevância, caso ele reúna 5 mil ou 6 mil, será a relevância multiplicada por dez? Ou, nesse caso, a maioria será ignorada e considera, sei lá, qualitativamente inferior? O jornalismo que está dando trela à patrulha está, involuntariamente, elegendo um herói. O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), por exemplo, já percebeu quantos votos lhe rende o ódio que militantes devotam contra ele. Esse tipo de intolerância não tem nada a ver com democracia.
Encerrando
Eu não sabia, é evidente, que o padrasto e a mãe de Feliciano são negros. Creio que ele não os considere, e a si mesmo, amaldiçoados, não é? Quando afirmei que aquele seu tuíte não era expressão de racismo, eu o fiz com base apenas no seu conteúdo e na referência bíblica. Agora, diante desse fato, a acusação fica ainda mais ridícula. Já tinham quebrado a cara, nesse particular, com Bolsonaro. Ele também seria um racista militante… Até que se descobriu que sua mulher é o que a própria militância chama “negra”.
É preciso parar com essa prática asquerosa de criminalizar a divergência. Se o sujeito é contra a PLC 122, que estabelece discriminações inaceitáveis, então é “homofóbico”; se é contra cotas, então é “racista”; se é contra qualquer forma de censura à imprensa, então defende a “mídia golpista”; se é crítico da forma como se dá o Bolsa Família, então é “contra os pobres”. ESSA GENTE NÃO QUER DEBATER IDEIAS. QUER É CALAR O OPONENTE, ELIMINÁ-LO SE POSSÍVEL.
Poucos sabiam da existência de Feliciano até outro dia. Agora, tornou-se uma personagem nacionalmente conhecida. E sou capaz de jurar que conquistou novos admiradores, em vez de perdê-los. A turma das passeatas e dos protestos já não votaria nele mesmo, certo?
A intolerância dos que se querem bons está criando um novo “paladino da família”. Tente, no entanto, advertir esses fanáticos da patrulha de que isso não é uma coisa muito inteligente… As acusações acabam se voltando contra você.
Parabéns, gênios! Vão lá, agora, tentar ensinar a Feliciano como é ter uma mãe negra, um padrasto negro…
Por Reinaldo Azevedo

‘A morte do caudilho’, por Mario Vargas Llosa


PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO

MARIO VARGAS LLOSA

O comandante Hugo Chávez Frías pertencia à robusta tradição dos caudilhos que, embora mais presentes na América Latina que em outras partes, não deixaram de se assomar a toda parte, até em democracias avançadas, como a França. Ela revela aquele medo da liberdade que é uma herança do mundo primitivo, anterior à democracia e ao indivíduo, quando o homem ainda era massa e preferia que um semideus, ao qual cedia sua capacidade de iniciativa e seu livre-arbítrio, tomasse todas as decisões importantes de sua vida.
Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia na qual, quase sempre, se confundem o socialismo e o fascismo ─ duas formas de estatismo e coletivismo ─ e se comunica diretamente com seu povo mediante a demagogia, a retórica, a espetáculos multitudinários e passionais de cunho mágico-religioso.
Sua popularidade costuma ser enorme, irracional, mas também efêmera, e o balanço de sua gestão, infalivelmente catastrófico. Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez. São as mesmas que estremeciam de dor e desamparo pela morte de Perón, de Franco, de Stalin, de Trujillo e as que, amanhã, acompanharão Fidel Castro ao sepulcro.
Os caudilhos não deixam herdeiros e o que ocorrerá a partir de agora na Venezuela é totalmente incerto. Ninguém, entre as pessoas de seu entorno, e certamente em nenhum caso Nicolás Maduro, o discreto apparatchik a quem designou seu sucessor, está em condições de aglutinar e manter unida essa coalizão de facções, de indivíduos e de interesses constituídos que representa o chavismo, nem de manter o entusiasmo e a fé que o defunto comandante despertava com sua torrencial energia nas massas da Venezuela.
Uma coisa é certa: esse híbrido ideológico que Hugo Chávez urdiu chamado revolução bolivariana ou socialismo do século 21, já começou a se decompor e desaparecerá, mais cedo ou mais tarde, derrotado pela realidade concreta: a de uma Venezuela, o país potencialmente mais rico do mundo, ao qual as políticas do caudilho deixaram empobrecido, dividido e conflagrado, com a inflação, a criminalidade e a corrupção mais altas do continente, um déficit fiscal que beira a 18% do PIB e as instituições ─ as empresas públicas, a Justiça, a imprensa, o poder eleitoral, as Forças Armadas ─ semidestruídas pelo autoritarismo, a intimidação e a submissão.
Além disso, a morte de Chávez coloca um ponto de interrogação na política de intervencionismo no restante do continente latino-americano que, num sonho megalomaníaco característico dos caudilhos, o comandante defunto se propunha a tornar socialista e bolivariano a golpes de talão de cheques. Persistirá esse fantástico dispêndio dos petrodólares venezuelanos que fizeram Cuba sobreviver com os 100 mil barris diários que Chávez praticamente presenteava a seu mentor e ídolo Fidel Castro? E os subsídios e as compras de dívida de 19 países, aí incluídos seus vassalos ideológicos como o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel Ortega, as Farc colombianas e os inúmeros partidos, grupos e grupelhos que por toda a América Latina lutam para impor a revolução marxista?
O povo venezuelano parecia aceitar esse fantástico desperdício contagiado pelo otimismo de seu caudilho, mas duvido que o mais fanático dos chavistas acredite agora que Maduro possa vir a ser o próximo Simon Bolívar. Esse sonho e seus subprodutos, como a Aliança Bolivariana para as América (Alba), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica, Nicarágua, San Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, sob a direção da Venezuela, já são cadáveres insepultos.
Nos 14 anos que Chávez governou a Venezuela, o preço do barril de petróleo ficou sete vezes mais caro, o que fez desse país, potencialmente, um dos mais prósperos do planeta. No entanto, a redução da pobreza nesse período foi menor que a verificada, por exemplo, no Chile e no Peru no mesmo período. Enquanto isso, a expropriação e a nacionalização de mais de um milhar de empresas privadas, entre elas 3,5 milhões de hectares de fazendas agrícolas e pecuárias, não fez desaparecer os odiados ricos, mas criou, mediante o privilégio e o tráfico, uma verdadeira legião de novos ricos improdutivos que, em vez de fazer progredir o país, contribuiu para afundá-lo no mercantilismo, no rentismo e em todas as demais formas degradadas do capitalismo de Estado.
Chávez não estatizou toda a economia, como Cuba, e nunca fechou inteiramente todos os espaços para a dissidência e a crítica, embora sua política repressiva contra a imprensa independente e os opositores os reduziu a sua expressão mínima. Seu prontuário no que respeita aos atropelos contra os direitos humanos é enorme, como recordou, por ocasião de seu falecimento, uma organização tão objetiva e respeitável como a Human Rights Watch.
É verdade que ele realizou várias consultas eleitorais e, ao menos em algumas delas, como a última, venceu limpamente, se a lisura de uma eleição se mede apenas pelo respeito aos votos depositados e não se leva em conta o contexto político e social no qual ela se realiza, e na qual a desproporção de meios à disposição do governo e da oposição era tal que ela já entrava na disputa com uma desvantagem descomunal.
No entanto, em última instância, o fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime e, nesses 14 anos, mantiveram viva a lucidez e a vocação democrática, sem se deixar arrebatar pela paixão gregária e pela abdicação do espírito crítico que o caudilhismo fomenta.
Não sem tropeços, essa oposição, na qual estão representadas todas as variantes ideológicas da Venezuela está unida. E tem agora uma oportunidade extraordinária para convencer o povo venezuelano de que a verdadeira saída para os enormes problemas que ele enfrenta não é perseverar no erro populista e revolucionário que Chávez encarnava, mas a opção democrática, isto é, o único sistema capaz de conciliar a liberdade, a legalidade e o progresso, criando oportunidades para todos em um regime de coexistência e de paz.
Nem Chávez nem caudilho algum são possíveis sem um clima de ceticismo e de desgosto com a democracia como o que chegou a viver a Venezuela quando, em 4 de fevereiro de 1992, o comandante Chávez tentou o golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O golpe foi derrotado por um Exército constitucionalista que enviou Chávez ao cárcere do qual, dois anos depois, num gesto irresponsável que custaria caríssimo a seu povo, o presidente Rafael Caldera o tirou anistiando-o.
Essa democracia imperfeita, perdulária e bastante corrompida, havia frustrado profundamente os venezuelanos que, por isso, abriram seu coração aos cantos de sereia do militar golpista, algo que ocorreu, por desgraça, muitas vezes na América Latina.
Quando o impacto emocional de sua morte se atenuar, a grande tarefa da aliança opositora presidida por Henrique Capriles será persuadir esse povo de que a democracia futura da Venezuela terá se livrado dessas taras que a arruinaram e terá aproveitado a lição para depurar-se dos tráficos mercantilistas, do rentismo, dos privilégios e desperdícios que a debilitaram e tornaram tão impopular.
A democracia do futuro acabará com os abusos de poder, restabelecendo a legalidade, restaurando a independência do Judiciário que o chavismo aniquilou, acabando com essa burocracia política mastodôntica que levou à ruína as empresas públicas. Com isso, se produzirá um clima estimulante para a criação de riqueza no qual empresários possam trabalhar e investidores, investir, de modo que regressem à Venezuela os capitais que fugiram e a liberdade volte a ser a senha e contrassenha da vida política, social e cultural do país do qual há dois séculos saíram tantos milhares de homens para derramar seu sangue pela independência da América Latina.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

sábado, 9 de março de 2013

Eles estão acima da lei, do estado de direito, da propriedade e até da honra alheia. E contam, na prática, com a proteção do Planalto

Vejam esta foto.

São militantes da Via Campesina, um braço do MST e da CPT (Comissão Pastoral da Terra) invadindo as instalações da usina Maravilha, na cidade de Goiana, a 70 quilômetros do Recife (foto de Hans von Manteuffel /O Globo).  O pretexto é a demora na desapropriação de terras para a reforma agrária. Eles também reclamavam que o governo de Pernambuco foi hábil em doar terrenos da região para a construção de uma unidade da Fiat — como se isso fosse um mal para a população local —, mas lento para atender aos sem-terra e coisa e tal. Essa ladainha, bovinamente veiculada pela imprensa, a gente já conhece. A empresa invadida também estaria devendo uma dinheirama em dívidas trabalhistas. Ainda que assim seja, é esse o método a que se deve recorrer? Cinicamente, a Via Campesina usou a depredação como a sua forma de marcar o Dia Internacional da Mulher. É a razão por que aquelas senhoras chegaram quebrando tudo, com porretes e facões. O que vai acontecer com elas? Nada! No Brasil, “movimento social” pode passar a mão no traseiro do guarda…
Anteontem, um grupo de mulheres da mesma Via Campesina depredou e ocupou por algumas horas uma fazenda que pertence aos filhos da senadora Kátia Abreu (PSD-TO). Destruíram nada menos de 500 mil mudas de eucalipto. Por quê? Pelo prazer de destruir. A turma de João Pedro Stedile é conta os eucaliptos… Vejam esta foto.
Acima, vocês veem as mudas arrancadas. O prejuízo, segundo os administradores da fazenda, é da ordem de R$ 500 mil. Uma certa Mariana Silva, coordenadora do MST em Tocantins, explicou assim o vandalismo:
“A ruralista e senadora Kátia Abreu é símbolo do agronegócio e dos interesses da elite agrária do Brasil, além de ser contra a reforma agrária e cometer crimes ambientais em suas fazendas. Por isso estamos realizando esse ato político e simbólico em sua propriedade. Nosso objetivo foi sabotar o modelo de monocultura e mostrar a essa senadora que, em vez de destruir o meio ambiente, o melhor caminho é diversificar a produção de alimentos para o povo”.
Digam-me cá: ela fala ou não fala como uma “mulher do povo”? Para o MST, uma plantação de eucaliptos é “monocultura”. Ela admite o crime. Ela assume a “sabotagem”, tudo em primeira pessoa. Kátia Abreu é “símbolo” do agronegócio? Ainda bem! Não fosse ele, o país estaria no buraco. Mariana, muito sabida, pretende decidir, como se vê, o que Kátia e sua família devem e não devem cultivar em suas terras. Agora vejam isto:
 
Quer dizer que Kátia mandou matar gente no Pará? Por quê? Ora, porque ela é uma “ruralista”. Considerando que dona Mariana resolveu ser porta-voz do grupo e que a senadora está impedida de acionar na Justiça o MST e a Via Campesina porque não têm existência legal, só resta a Kátia processar por calúnia aquela suposta “agricultora” que mal esconde o sotaque ideológico de suas formulações.  Os comandados do senhor João Pedro Stedile não reconhecem a existência de propriedade, de leis e de honra alheia.
No governo do PT, alguns grupos estão acima das regras do estado de direito. Têm licença para ameaçar, invadir, depredar. O ministro que faz a interlocução com os ditos “movimentos sociais” é Gilberto Carvalho, aquele que anunciou no ano passado: “Em 2013, o bicho vai pegar!”. Um funcionário seu foi à reunião na embaixada cubana que preparou os atos vis de hostilidade a Yoani Sánchez.
No fim das contas, Carvalho é a fachada moderada e legalista da turma que faz o “bicho pegar” nas cidades ou no campo.
Por Reinaldo Azevedo

Diário da Dilma – Em terra de saci, qualquer chute é voleio


 
1º DE FEVEREIRO - Pelas bengalas do Mandela! Fui dar uma olhada na agenda do mês e meu queixo caiu: o Patriota vai me mandar para a Guiné Equatorial!! Capital, Malabo! MALABO!!! O que eu fiz para esse homem me tratar assim?!
2 DE FEVEREIRO - Pé de pato, mangalô, três vezes! É o terceiro telefonema da Ideli hoje. Não atendi nenhum. Ela está se insinuando para passar o Carnaval comigo na Bahia. Disse que está com medo de ir para Santa Catarina por causa dos ataques. Já expliquei que mando a Força Nacional para lá, que ela pode ir tranquila. Para me livrar dela, despacho até o 2º Exército, e ainda peço ajuda à 4ª Frota americana.
3 DE FEVEREIRO - Em viagens internacionais, o Ney Latorraca faz a mala com dez dias de antecedência. É dessa eficiência que preciso.
4 DE FEVEREIRO - Risco de apagão, aumento da gasolina, polêmica em Belo Monte. Os deuses conspiram para me aproximar do Lobão.
Fui ao Show Rural de Cascavel, no Paraná. É isso que dá colocar Gleisi na Casa Civil.
5 DE FEVEREIRO - Gracinha me contou que vai sair na avenida. Fiz cara de paisagem. Precisa ter muito peito para sair na avenida depois dos resultados da Petrobras. Mas cada um com seu cada um. Se ao menos servir para ela prender aquele cabelo.
6 DE FEVEREIRO - Fiz uma sessão de cinema aqui em casa para os filhos e netos dos ministros. É como diz o conhecido ditado búlgaro: “Quem meus filhos agrada, minha boca adoça.” Uma gracinha de filme, Tainá. Eu adorei! Tarde fofa!
Coitado do Marco Aurélio. Foi operado do coração aqui em Brasília. É um destemido!
7 DE FEVEREIRO - Tá confirmado! Vou para a Bahia no Carnaval! A Base Naval de Aratu vai ficar pequena! Cara, caramba, cara, cara ô!
Brinquei que ia deixar a chave da Nação para o Rei Momo. Em oito minutos, apareceram dezessete parlamentares do PMDB sambando com uma coroa na cabeça. Em terra de saci, qualquer chute é voleio.
8 DE FEVEREIRO - Já está tudo arrumado para o nosso tradicional Baile do Toma Lá Dá Cá. Mamãe e titia arrumaram fantasias de Nina e Carminha. Gabrielzinho vai vestido de Pibinho. Se alguém aparecer com a máscara do Joaquim Barbosa, está demitido. Eu botei uns óculos escuros redondinhos, uma roupa branca, domei o topete e fiquei a cara do Psy. “Oppan Gangnam Style!”
10 DE FEVEREIRO - Estava dançando um frevo esperto quando vieram me dizer que o Lobão estava na linha. Fui pega de surpresa, tropecei e quebrei o dedão.
11 DE FEVEREIRO - De tédio é que eu não morro. O Gilbertinho me acorda cedo para dizer que o papa renunciou. Fiquei besta! Nunca tinha ouvido falar que papa podia renunciar. Não sei se devo me pronunciar. O que eu posso dizer? Vai com Deus, meu filho. Acho que não é esse o tom da coisa.
12 DE FEVEREIRO - Comecei a mascar chiclete. João Santana acha que me dá um ar menos intelectual, mais povão, com um toque de rebeldia.
13 DE FEVEREIRO - Tem coisa mais descolada que presidenta de Crocs vermelhos? Para melhorar, esse sapatinho furadinho, coisa fofa, não fica roçando no curativo que titia fez no meu dedão. Me apeguei.
14 DE FEVEREIRO - Aprendi, finalmente, a fazer bola com chiclete.
15 DE FEVEREIRO - Depois de tanto jornal repetir que o papa é pop, fiquei com a bela obra do Humberto Gessinger na cabeça. Hoje, num despacho com o Patriota, sapequei: “Minha vida é tão confusa quanto a América Central. Por isso não me acuse de ser irracional.” Disse que ia usar na próxima Assembleia Geral da ONU. Precisava ter fotografado a cara que ele fez.
Esse meteorito na Rússia só pode ser coisa do Zé Dirceu. O homem anda amargurado com a falta de apoio da KGB.
18 DE FEVEREIRO - A Ideli, que vive se fazendo de prestativa para provar que tem serventia, deu uma checada na Wikipédia e veio me dizer que existem três Guinés. Vão me mandar logo para a piorzinha delas! Nem português eles falam por lá. É espanhol! A princípio, pensei que fosse coisa do Joaquim Barbosa ou da Veja. Mas agora estou achando que foi o Temer mesmo. Ele deve estar doidinho para assumir logo essa porcaria e bem que se beneficiaria se eu pegasse uma boa malária. Onde estão os movimentos sociais que não saem em minha defesa? Ficam perdendo tempo com essa mala da Yoani, enquanto eu desapareço no coração das trevas?
19 DE FEVEREIRO - Vetei a pobreza extrema.
20 DE FEVEREIRO - Acordei às cinco da manhã e fiquei enrolando brigadeiro para a festa de 10 anos do PT. Lula disse que sou muito centralizadora. Mas será que a militância saberia deixar a borda crocante?
Malan fez 70 anos. Por que esses tucanos envelhecem tão bem? Será que são os bons vinhos? E eu aqui com o Guido, que a cada dia fica com mais cara de maître de restaurante de aeroporto.
21 DE FEVEREIRO - Estou atrás de um mapa para ver onde fica essa Guiné Equatorial. Preciso fazer a mala e nem sei o que levar. Equatorial deve ser um calor de fritar ovo no asfalto. Meu pé incha tanto com o calor…
22 DE FEVEREIRO - Isso aqui é feio como Canapi e quente feito Maceió. O presidente é dono até da carroça de cachorro-quente. Renanzinho ia se sentir em casa. Daqui vou para a Nigéria. Patriota não chega até a próxima reforma ministerial.
24 DE FEVEREIRO - Ufa. De volta para casa. Coisa boa! É domingão de Oscar! Comprei duas caixas de Guaraviton para não dormir e um potão de sorvete de pistache. Daqui não saio nem que me digam que o Lula se filiou ao PSDB. Já pus meu pijaminha de Les Mis para torcer pelo filme. Russell Crowe cantando à beira do abismo me comoveu demais.
25 DE FEVEREIRO - Sonhei que era a Yoani e estava no meio do Congresso da UNE. Os militantes mais exaltados já me atiravam tomos de O Capital quando Lobão apareceu. Ele vestia a boina de Che Guevara e com um só grito calou a multidão. Amanheci estremecida.
26 DE FEVEREIRO - Ideli não confessa, mas anda torcendo pelo Berlusconi nos bastidores. O homem tascou um beliscão na Merkel que quase provocou a Terceira Guerra Mundial. Ideli identificou no gesto uma virilidade sensual que só tinha visto antes no Mitt Romney.
27 DE FEVEREIRO - É a terceira vez que digo para o Sarney que não tenho nenhuma influência no Vaticano. Affe.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Evita, a múmia que assombrou um país e que desafia a imaginação do realismo fantástico. Ou: A civilização preza a obra de seus heróis; a estupidez adora seus cadáveres


Vejam esta foto.

A América Latina já viveu o seu patético momento com uma múmia (com os vivos, então…) — no caso, a de Evita Perón. A história é misto de comédia com filme de terror — o que não chega a ser uma síntese ruim da história da América Latina, muito especialmente a da Argentina, que experimenta, no momento, o pastelão trágico de Cristina Kirchner, que vai ficar lá até a última besteira, até conduzir o país para um beco sem saída. Essa tem sido a rotina desde Perón, não é?, com alguns poucos espasmos de lucidez.
Evita, mulher de Perón, morreu de câncer no dia 26 de julho de 1952. Era a “mãe dos descamisados”.  A exemplo de Chávez, o general era autoritário, autocrata, mas um grande distribuidor de prebendas que minoravam o sofrimento dos mais pobres. Evita já era adorada em vida quase como uma santa. A Argentina assistiu, no dia de sua morte, a uma das maiores manifestações públicas de sua história.
Perón mandou embalsamar o corpo, que ficou abrigado na sede da central sindical peronista, a CGT. O chefe populista foi deposto por um golpe em 1955, liderado pelo general Eduardo Lonardi, logo deposto por outro, Pedro Eugênio Aramburu, que governou até 1958. Para evitar que o corpo se tornasse objeto de culto, Aramburu determinou que Carlos Eugênio de Moori Koenig, chefe do serviço de inteligência do Exército, sepultasse o corpo em local secreto. Não foi obedecido. Koenig mandou um subordinado seu esconder a múmia no porão de sua própria casa, o que deu margem, depois, a falatórios, segundo os quais ele teria se apaixonado por ela, exercitando, digamos, paixões necrófilas. Calma, que isso é só o começo da loucura.
NOTA UM – Koenig, um oficial graduado, iniciava ali o caminho do fim. Tornou-se um alcoólatra e passou a perambular pelas ruas.
NOTA DOIS – O pobre rapaz que guardava a múmia de Evita em casa também se desgraçou. Vivia aterrorizado. Um dia, ouviu barulho no porão e desceu armado. Atirou. Matou a mulher, grávida de seis meses, que descera para saber, afinal, que mistério se escondia lá. Não acabou, não!
Aramburu ficou furioso ao saber que o corpo ainda estava na Argentina. Mobiliza a cúpula da Igreja Católica para que fosse transferido para a Itália. Foi enterrado com nome falso: Maria Maggi de Magistris. Reza a lenda que uma série de acidentes incomuns ocorreram no trajeto até o aeroporto. Aramburu documentou toda a operação, deixando ordens expressas de que o material só fosse aberto depois de sua morte.
Em 1970, foi sequestrado por terroristas montoneros. Uma das exigências é que revelasse onde estava Evita. Não revelou. Foi assassinado. Em 1971, o governo argentino devolve o corpo para Perón, que estava exilado na Espanha. Uma nova onda de boatos tem, então, início. José López Rega, um misto de secretário e faz-tudo de Perón, dizia-se também um bruxo. Foi acusado de usar a múmia em rituais de magia para transferir a alma de Evita para Isabelita, a nova mulher do caudilho. Os montoneros não se deram por satisfeitos: sequestraram o corpo de Aramburu e prometeram entregá-lo apenas quando Evita voltasse à Argentina.
Em 1973, com a redemocratização argentina, Perón volta ao país e se elege presidente. Morre no ano seguinte, e Isabelita, que era sua vice (afinal, havia roubado a alma da outra, né?) assume a Presidência. Manda buscar o corpo de Evita na Espanha, em 1974, e o deposita ao lado do de Perón na Quinta de Olivos, residência oficial. É a fato que vocês veem lá no alto.
Ainda não era o descanso final. Em 1976, Isabelita é deposta por um golpe de estado. Os generais decidem, então, entregar o corpo de Evita às suas irmãs, que o enterram no Cemitério da Recoleta. Em 1977, o corpo de Perón é sepultado secretamente no cemitério La Chacarita. Ele não tinha sido exatamente embalsamado, mas substâncias conservantes tinham sido injetadas no corpo. Em 1987, seu túmulo foi profanado, e suas duas mãos foram decepadas e roubadas, como se vê na foto abaixo.
Pois é…
A América Latina desafia a imaginação do realismo mais fantástico. Uma nova múmia está chegando por aí. A ela, desconfio, outras se seguirão. A civilização costuma prezar a obra de seus heróis. A estupidez adora seus cadáveres.
Por Reinaldo Azevedo