sábado, 11 de maio de 2013

Diário da Dilma: Para quem tem que pagar na Páscoa, a Quaresma é curta

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE MAIO DA REVISTA PIAUÍ

1º DE ABRIL_Guido me ligou para dizer que os analistas refizeram as contas: o Brasil vai crescer 5% e a inflação ficará abaixo da meta. Já pensava na gargalhada cáustica que daria nas fuças do Merval e da Miriam, quando o italiano me soltou a graçola naquela prosódia de quem tomou um Lexotan a mais: “Primeiro de abril!” Desde que a Economist lhe garantiu estabilidade de emprego, Guido chutou o pau da barraca. Já não respeitava as leis econômicas, agora não respeita mais a hierarquia.
Por sugestão do Mercadante, iniciei um sistema de rodízio no Ministério dos Transportes. A cada três meses, um parlamentar do PR assume o cargo. Primeiro, o César Borges, que tem RG com final 02.
2 DE ABRIL_Vim para o Ceará acabar de vez com a seca. Eis que descubro que a Sudene ainda existe. Sudene! Pelo andar da carruagem, nem com transposição do oceano Atlântico isso se resolve.
Gente, o Murilo Benício já namorou a Carolina Ferraz. Não lembrava.
3 DE ABRIL_Sorte do Maduro, que vê o Chávez como um passarinho. Queria ver se ele tivesse um papagaio como o Lula no ombro…
Guido agora quer cobrar hora extra quando ligo para ele sexta à noite pedindo que refaça todas as planilhas. Ficou animadinho com a PEC das domésticas. Na-na-ni-na-não. Tudo tem limite.
4 DE ABRIL_Que bafão da Daniela Mercury! A Eleonora Menicucci com aquelas manias dela queria que eu assinasse uma moção de apoio ao casamento gay e mandasse mensagem parabenizando a Daniela. Tive que dar um basta no grito. O Papa argentino está vindo e ele não gosta da Cris K. Não é hora de dividir forças.
Recebi o pessoal da UNE. Hoje em dia ficou fácil cooptar a rebeldia. Basta receber a estudantada e deixar que eles postem fotos do encontro no Face.
5 DE ABRIL_Inaugurei a Fonte Nova. Ia fazer embaixadinhas e parar a bola no topete, mas achei melhor dar só o pontapé inicial. Tive o cuidado de descalçar meu Louboutin para não dar brecha para a imprensa burguesa dizer que estou de salto alto. João Santana me felicitou, e ainda comentou que passei um sinal claro de que sou a favor do futebol moleque, seja lá o que for isso.
6 DE ABRIL_“Cansei de ver o PSDB dividido”, disse o FHC. Ora bolas. Não foi ele que inventou o Serra? É como Otelo despachar com Iago e depois reclamar que o matrimônio vai mal.
Aniversário da Marisa Letícia. Parecia uma reunião ministerial, só que as pessoas estavam alegres. Em tempo de figos há amigos. Agora eu pergunto: quem faz festa em churrascaria? Não posso mais comer carne à noite. Fiquei conversando com a chuleta até o dia seguinte. Não houve Estomazil que desse conta.
7 DE ABRIL_Ressaquinha, de leve. Exagerei um pouco no bloody mary quando vi que tinham convidado o Guido. Ô carma! Juro que às tantas ele pegou um tomate e saiu atrás do moço do bufê perguntando quanto tinha custado.
8 DE ABRIL_Margaret Thatcher foi uma espécie de Dilma às avessas. Nossa única semelhança era o uso criativo do laquê. Meryl Streep, por exemplo, não me faria bem no cinema. Gina Lollobrigida, sim, nos velhos tempos. Hoje, talvez a Judi Dench, mas faltam as formas. Se misturasse com o corpo daquela mocinha casada com o Michael Douglas, ficaria perfeita.
10 DE ABRIL_Hum, vi na coluna da Joyce as fotos do baile da Amfar. Nem sei bem o que faz essa Amfar, mas só tinha gente chique e famosa. Sou louca para conhecer a Sharon Stone e a Kate Moss, que estavam lá. Para essas coisas ninguém manda convite, mas para dar chute inaugural em estádio de futebol eu tenho que ir.
11 DE ABRIL_Partiu Porto Alegre! Arrumei umas coisinhas para inaugurar só para poder visitar Gabrielzinho. É hoje que eu mordo aquelas dobrinhas.
12 DE ABRIL_Quem é esse Gerald Thomas?
13 DE ABRIL_Ai, meu Deus, essa PEC das empregadas está tirando meu sossego. Minha tia não para de falar nisso. Já expliquei que aqui é tudo 0800, a gente não tem que abrir a bolsa para nada! As empregadas podem fazer he que a Viúva paga. Não adianta! Outro dia me atrasei para o jantar e tive eu mesma que fazer um pratinho e pôr no micro-ondas. Minha tia disse que já tinham vencido as oito horas e mandou a Edilene para casa.
14 DE ABRIL_A Gracinha endoidou de vez! Depois que saiu na avenida deu para dar declarações a torto e a direito! Ela dizer que acha rua engarrafada uma coisa linda porque vende gasolina é coisa de dono de posto! Quase tive uma sapituca quando li aquilo.
15 DE ABRIL_Rede Sustentabilidade. Ainda bem que a intimidade da Marina com bons marqueteiros é igual à minha com um seringal. João Santana é meu pastor e nada me faltará.
Esse pessoal da imprensa é chato demais. Prometi acabar com a pobreza extrema, não com a inflação.
16 DE ABRIL_Eduardo Campos vai para a tevê dizer: “É possível fazer mais.” Duvideodó. Então faça, ué! Já dizia Benjamin Franklin: Para quem tem que pagar na Páscoa, a Quaresma é curta.
Vetei a inflação.
17 DE ABRIL_É a segunda eleição que a Ideli perde em menos de um ano. Primeiro, foi o Mitt Romney; agora, o Capriles, por quem ela também é doidinha.
18 DE ABRIL_Depois dessas cartas com veneno para o Barack, fiquei com as barbas de molho. Mandei os Correios suspenderem as entregas lá em casa. A Caixa me manda agora um e-mail todo mês com o extrato do meu Fundo de Garantia, uma gentileza que pedi ao presidente. Acompanho de perto o saldo… A gente nunca sabe o dia de amanhã…
19 DE ABRIL_Hoje é aniversário do Roberto Carlos. Passei o dia trancada ouvindo O Côncavo e o Convexo.
20 DE ABRIL_Engordei 3 quilos. E a Veja ainda me pôs na capa pisando no tomate com aquelas canelonas grossas. Odeio minha panturrilha! Já pesquisei tudo o que há, mas não tem o que fazer. Vou incluir mais calça comprida no meu guarda-roupa, de preferência cigarrete, que afina bem.
21 DE ABRIL_Hum. A direita se elegeu no Paraguai. Os tempos estariam mudando? Vou ligar pra Kátia Abreu e pedir uma receita de empadão goiano. Se der abertura, ainda pergunto que produto ela usa para estar assim tão bem. O André Esteves me explicou que isso se chama “fazer um hedge”.
22 DE ABRIL_Pedi ao Gilbertinho que fizesse uma lista com nome e foto de todos os ministros. Deixei na minha mesa de cabeceira e dou uma olhada toda noite antes de dormir. Me disseram que é a melhor forma de memorizar. Não conheço bem uns quinze, tenho que ficar esperta. A reeleição está aí e não quero esse Eduardo Campos ciscando na minha horta.
24 DE ABRIL_É fato que os búlgaros não são conhecidos pelo seu ritmo. Por que então o cerimonial não me protege do Carlinhos Brown, aquela ameaça em forma de baiano? Quase dei com a tal caxirola na cabeça do Gilbertinho.
25 DE ABRIL_Como eu não descobri o Mercadante antes? Que moço bom, fino, educado, preparado. Ele me enche de atenção, puxa a cadeira para eu sentar, me serve cafezinho, pergunta se quero água, e só me dá notícia boa. Lobão ainda tem aquele je ne sais quoi que faz a diferença, mas Mercadante tem se mostrado um príncipe. Vou promovê-lo assim que aparecer uma vaga melhor de ministro.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

MÉDICOS DE CUBA: Conselho Federal de Medicina critica duramente importação “irresponsável” de médicos estrangeiros e de brasileiros com diploma no exterior sem revalidação

Médicos cubanos (Foto: Gramna)

Médicos cubanos com a bandeira de seu país: depois da Venezuela, chegou a vez de serem exportados para o Brasil (Foto: Gramna)

NOTA DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA CONTRA A ENTRADA DE MÉDICOS ESTRANGEIROS
O Conselho Federal de Medicina (CFM) condena veemente qualquer iniciativa que proporcione a entrada irresponsável de médicos estrangeiros e de brasileiros com diplomas de Medicina obtidos no exterior sem sua respectiva revalidação. Medidas neste sentido ferem a lei, configuram uma pseudoassistência com maiores riscos para a população e, por isso, além de temporárias, são temerárias por se caracterizarem como programas políticos-eleitorais.
O CFM e os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) envidarão todos os esforços possíveis e necessários, inclusive as medidas jurídicas cabíveis, para assegurar o Estado Democrático de Direito no país, com base na dignidade humana. Este princípio passa a ser desrespeitado pela irreverência do Poder Executivo ao pretender ofertar à parcela maior e mais carente da população brasileira assistência à saúde sem segurança e qualificação.
Se a Constituição Federal não estipulou cidadãos de segunda categoria, então, o país não pode permitir que tais segmentos sejam atendidos por pessoas cuja formação profissional suscita dúvidas, com respeito a sua qualidade técnica e ética.
Ao contrário do que asseguram os defensores desta proposta, estudos indicam que os médicos estrangeiros tendem a migrar para os grandes centros a médio e longo prazos. No entendimento do CFM, a criação de uma carreira de Estado para o médico do SUS – com ênfase na atenção primária (com a previsão de infraestrutura e de condições de trabalho adequadas) – asseguraria a presença de médicos e um efetivo atendimento nas áreas distantes e nas periferias dos grandes centros.
Além disso, para o SUS se manter público, integral, gratuito, de qualidade e acessível a toda a população, o Estado Brasileiro não deve se furtar da responsabilidade de destinar-lhe mais recursos (um mínimo de 10% da receita bruta da União), buscando o aperfeiçoamento de seus serviços, dotando-os de infraestrutura e recursos humanos valorizados, para atender de forma eficaz e com equidade a população.
Conclamamos o Poder Legislativo; o Poder Judiciário; o Ministério Público; as entidades médicas; as universidades; a imprensa; e todos os movimentos da sociedade civil organizada a se posicionarem contra esta agressão à Nação e em benefício de um sistema público de saúde de qualificado.
Não podemos admitir que interesses específicos e eleitorais coloquem em risco o futuro de um modelo enraizado na nossa Constituição e que pertence a 190 milhões de brasileiros. O que precisamos é de médicos bem formados, bem preparados, bem avaliados e com estímulo para o trabalho. Tratar a população de maneira desigual é sinal de desconsideração e de desrespeito para com seus direitos de cidadania.

Ronaldo Laranjeira, duro crítico da descriminação das drogas, comandará programa anticrack em SP; não existe nem existirá “Bolsa Crack” no Estado; trata-se de uma absurda distorção

Ronaldo Laranjeira, que não tem o miolo mole, vai comandar projeto anticrack em SP
Informação em primeira mão: o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos maiores especialistas em dependência química do Brasil (candidato a ser o maior), internacionalmente reconhecido por seu trabalho na área, será o coordenador-geral do Projeto Recomeço, de combate ao crack, que está sendo implementado pelo governo de São Paulo. Atenção! Não existe “Bolsa Crack” nenhuma em gestação no Estado! Isso é uma grave distorção! Ainda que se queira dizer que “é como as pessoas estão chamando”, então é preciso que se lhes diga a verdade: “Pessoas, vocês estão erradas! Isso é uma besteira!”. Já chego lá. Laranjeira, PhD em psiquiatria pela Universidade de Londres (Maudsley Hospital), justamente no setor de Dependência Química, é um crítico severo da descriminação das drogas. Pesquisador rigoroso, é titular do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP, diretor do INPAD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas) e coordenador da UNIAD (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas). Muito bem. O que é o Projeto Recomeço? PRESTEM BEM ATENÇÃO!
Será impossível contar com instituições públicas e leitos públicos em todas as cidades do estado de São Paulo para dar atendimento aos dependentes químicos. Esse trabalho terá de ser feito também por instituição privadas, devidamente credenciadas. O Estado de São Paulo estabeleceu o valor de R$ 1.350 para pagar por esse serviço. Anotem:
1: O DINHEIRO NÃO SERÁ DADO AO DEPENDENTE.
2: O DINHEIRO NÃO SERÁ DADO À FAMÍLIA DO DEPENDENTE.
3: O DINHEIRO SERÁ REPASSADO DIRETAMENTE À INSTITUIÇÃO QUE PRESTAR O SERVIÇO.
A família de quem estiver em tratamento, esta sim, receberá um cartão atestando que FULANO DE TAL está em tratamento na unidade “x”. Por que isso é importante? Porque é uma forma a mais de saber se o serviço está mesmo sendo prestado, abrindo, ademais, a possibilidade de avaliar a sua efetividade ou não.
ISSO É “BOLSA CRACK”? TENHAM A SANTA PACIÊNCIA!!!
O governo de São Paulo, felizmente, não é um “liberacionista” — Laranjeira tampouco. Ao contrário. A polícia do estado é uma das mais intolerantes com o tráfico e é a que mais prende, no que faz muito bem. Alckmin implementou a internação involuntária no estado e apresentou um projeto para que menores que cometem crimes hediondos possam ficar até oito anos retidos. Estou a dizer que não se trata de um governo que tem um postura nefelibata diante do crime.
Falar em “Bolsa Crack” sugere que o governo repassará aos familiares dos dependentes R$ 1.350 para que gastem como lhes der na telha, de sorte que ter um viciado em casa poderia significar até um ativo. Isso não existe!!! O dependente que quiser tratamento poderá contar também com a rede privada, se a pública não puder atendê-lo. Uma vez cadastrado, sua família recebe o cartão. Não é um cartão de débito nem de crédito, mas de mera identificação. E por que fica com a família? Porque esse tipo de doente é sabidamente arredio a controles.
São Paulo cumpre o que Dilma prometeu
O programa de combate ao crack do governo federal, por enquanto, é pura ficção. O estado de São Paulo tem procurado apertar o cerco ao tráfico e prestar auxílio médico aos dependentes. Essas são as linhas gerais do programa. E estão, até onde se alcança, corretas.
É absurda a ilação de que se trata de uma “bolsa”. Fosse assim, melhor seria dar R$ 1.350 às famílias dos alunos que só tiram A no boletim, não é mesmo? Não se trata de um prêmio ou de uma compensação para a família que tem em casa um viciado. Não! Já que o estado brasileiro decidiu que a dependência química é uma doença e já que existe a urgência social de tratá-la, que se faça isso, então, de maneira organizada.
O programa, de resto, estará em mãos seguras. Laranjeira não é um desses que, com a mão direita, oferece tratamento aos dependentes e, com a esquerda, facilitam o acesso àquilo que os mata. Ao contrário: ele tem a clareza — mera questão de lógica elementar — de que, junto com o tratamento, é preciso criar dificuldades para a circulação de substância entorpecentes.
Quem quer Bolsa Droga é o aloprado ex-presidente da Colômbia César Gaviria, membro da Comissão Latino-Americana Sobre Drogas e Democracia. Este, sim, defende que o estado forneça a droga aos viciados. Laranjeira, felizmente, é de outra cepa.
Texto publicado originalmente à 1h01
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 7 de maio de 2013

‘A morte lenta do chavismo’, um artigo de Mario Vargas Llosa


PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO


MARIO VARGAS LLOSA
Um animal ferido é mais perigoso do que um que não está, isso porque a raiva e a impotência fazem com que ele provoque grandes destroços antes de morrer. Este é o caso do chavismo depois do tremendo revés sofrido nas eleições de 14 de abril em que, apesar da desproporção de recursos e o descarado nepotismo do Conselho Nacional Eleitoral – quatro de seus dirigentes são militantes governistas convictos e confessos – o herdeiro de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, perdeu cerca de 800 mil votos e provavelmente só conseguiu vencer o opositor Henrique Capriles por meio de uma gigantesca fraude eleitoral. (A oposição documentou mais de 3.500 irregularidades em seu prejuízo durante a votação e a contagem de votos.)
O “socialismo do século 21″, como Chávez denominou seu programa para promover o regime, começou a perder apoio popular: a corrupção, o caos econômico, a escassez, a altíssima inflação e o aumento da criminalidade estão esvaziando a cada dia suas fileiras e engrossando as da oposição. Além disso, a incapacidade evidente de Nicolás Maduro para liderar um sistema abalado por discórdias e rivalidades internas, explica as manifestações exacerbadas e o nervosismo que nos últimos dias levaram os herdeiros de Chávez a mostrar a verdadeira cara do regime: sua intolerância, sua vocação antidemocrática e suas inclinações à bravata e à delinquência.
Assim deve ser explicada a emboscada da qual foram vítimas na terça-feira deputados da oposição, membros da Mesa de Unidade Democrática, durante uma sessão presidida por Diosdado Cabello, ex-militar que acompanhou Chávez no seu frustrado golpe contra o governo de Carlos Andrés Pérez. O presidente do Congresso iniciou a sessão retirando o direito dos parlamentares de oposição de se manifestar sobre a fraude eleitoral e ordenou que seus microfones fossem desligados. Quando os deputados protestaram, levantando uma faixa que denunciava um “golpe contra o Parlamento”, membros oficialistas e seus guarda-costas lançaram-se contra eles com socos e pontapés que deixaram alguns deputados, como Julio Borges e María Corina Machado, com lesões e edemas. Para evitar provas da arbitrariedade, as câmaras da TV oficial foram direcionadas oportunamente para o teto da assembleia. Mas os celulares de muitos participantes filmaram o ocorrido e o mundo inteiro tomou conhecimento da selvageria cometida, assim como das gargalhadas de Diosdado Cabello com o fato de María Corina Machado ser arrastada pelos cabelos e espancada pelos valentes revolucionários chavistas.
Duas semanas antes ouvi María Corina falar sobre seu país na Fundación Libertad, em Rosario, Argentina. Foi um dos discursos políticos mais inteligentes e comovedores que escutei. Sem vestígios de demagogia, com argumentos sólidos e uma desenvoltura admirável, ela descreveu as condições heroicas em que a oposição venezuelana enfrentava o oficialismo. Para cada cinco minutos na TV de Henrique Capriles, Nicolás Maduro dispunha de 17 horas. Referiu-se à intimidação sistemática, as chantagens e violências sofridas pelos opositores do regime, reais ou imaginários, em todo o país, e o estado de calamidade em que o desgoverno e a anarquia deixaram a Venezuela depois de 14 anos de nacionalizações de empresas, expropriações, populismo desenfreado, coletivismo e incompetência burocrática. Mas ela também manifestou esperança, um amor contagiante pela liberdade, a convicção de que, por maiores que fossem os sacrifícios, a terra de Bolívar acabaria por recuperar a democracia e a paz num futuro muito próximo.
Todos os que a ouviram naquela manhã saíram convencidos de que María Corina Machado desempenhará um papel importante no futuro da Venezuela, salvo se a histeria que parece ter se apoderado do regime chavista, agora que se sente em pleno processo de decomposição interna e enfrentando uma impopularidade crescente, não lhe preparar um acidente, ou colocá-la na prisão e mesmo encomende sua morte. É o que pode ocorrer com qualquer oponente, a começar por Henrique Capriles, que a ministra de Assuntos Penitenciários já alertou publicamente que tem pronta a cela onde logo ele vai parar.
Não é mera retórica: o regime começou a dar golpes à direita e esquerda. Ao mesmo tempo em que o governo de Maduro transformou o Parlamento num sabá de brutalidade, a repressão nas ruas aumentou, com a detenção do general aposentado Antonio River e um grupo de oficiais não identificados acusados de conspiração. E também perseguições contra líderes universitários e a expulsão de centenas de funcionários públicos dos seus cargos pelo fato de terem votado na oposição nestas eleições.
Os desorientados herdeiros de Chávez não compreendem que estas medidas abusivas os delatam e, em vez de conter a perda de apoio na sociedade, elas só farão aumentar o repúdio popular contra o governo.
Leviandade. Talvez diante do que vem sucedendo atualmente na Venezuela os governos dos países sul-americanos (Unasul) se conscientizem da leviandade cometida ao se apressarem em legitimar a vergonhosa eleição venezuelana e de seus presidentes (com exceção do Chile) participarem, dando um ar de legalidade, da investidura de Nicolás Maduro na presidência da república. Já terão comprovado que a recontagem de votos a que o herdeiro de Chávez se comprometeu para conseguir seu apoio, foi uma mentira flagrante, pois o Conselho Nacional Eleitoral proclamou seu triunfo sem realizar nenhuma revisão. E agirá da mesma maneira com relação ao pedido do candidato da oposição para que seja revisto todo o processo eleitoral impugnado diante das inúmeras violações do regulamento cometidas durante a votação e na contagem das atas de apuração.
Na verdade, nada disso importa muito, pois somente contribui para acelerar o desprestígio de um regime que já sofre um processo de enfraquecimento sistemático que só agravará no futuro, em razão da situação catastrófica das finanças, a deterioração da economia e o triste espetáculo oferecido por seus principais dirigentes, a começar por Nicolás Maduro.
É triste ver o nível intelectual desse governo, cujo chefe de Estado assobia, ruge ou insulta porque não sabe falar

sábado, 4 de maio de 2013

No Brasil, conservadores e até reacionários resolveram ser ecologistas, abortistas, gayzistas, emessetistas, quilombolistas, ateístas, antirruralistas, indianistas, maconheristas… É o país da divergência perdida!

Por que tanto as esquerdas tradicionais (ou seus herdeiros de pensamento) como antigas e sólidas reputações conservadoras estão hoje em dia juntas, a defender uma mesma agenda? Vocês notaram como pessoas as mais díspares, das origens as mais variadas, ligadas aos setores os mais diversos, se tornaram ecologistas? Repararam como a defesa da legalização do aborto se tornou um dos denominadores comuns tanto daquele que se quer ainda um comunista revolucionário como de seu suposto antípoda de classe? Perceberam como o tema da descriminação da droga mobiliza parte da academia, a quase totalidade da imprensa (da base à cúpula), os que se querem ultraliberais e também os esquerdistas? Já se deram conta de que as questões relacionadas à sexualidade parecem, a se dar crédito àquilo que se lê na grande imprensa, navegar no mar calmo do consenso, exceção feita, claro!, àqueles que são tachados de “fundamentalistas religiosos”? Já atinaram como as cotas raciais juntam bancário e banqueiro? E outros temas poderiam ser aqui listados, a unir gregos e troianos, como o ódio ao agronegócio, a defesa dos quilombolas, a tolerância com as violências do MST… Por quê?
Um inocente e um sujeito de não muito boa-fé poderiam dar a mesma resposta: “Ah, Reinaldo, é porque essas questões não têm ideologia; são apenas matéria de bom senso; são bens universais”. Uma ova! No mundo inteiro, temas dessa natureza dividem a sociedade, dividem os partidos, dividem até mesmo as ideologias. Qual é o busílis no Brasil? O que se passa em Banânia? Vou tentar responder à questão. Antes, algumas considerações gerais.
Liberdade e igualdade
Por mais que repudie hoje em dia — e já há muito tempo — o ideário da esquerda socialista, reconheço que, por muitos anos, houve esquerdistas sinceros, e talvez os haja ainda, não sei, embora eu não compreenda que alguém possa, racionalmente, sobrepor o valor da igualdade ao da liberdade. É claro que, até certo ponto, ambos são conciliáveis, e a medida possível da igualdade para que a liberdade não comece a pagar seu preço é aquela que deve haver perante a lei. Se a própria lei, no entanto, como já começa a acontecer no Brasil sob o silêncio cúmplice e unânime das forças políticas, estabelece a desigualdade como fundamento, sob o pretexto de corrigir injustiças, é a liberdade que está potencialmente ameaçada.
Nunca houve um regime socialista e ao mesmo tempo democrático porque só se pode impor a igualdade violando a nossa natureza. Disse-me um estudioso da alma humana dia desses, ao estabelecer diferenças entre várias correntes da psicologia: “Eles [referia-se a correntes às quais se opõe] ficaram bravos conosco porque demonstramos que o homem se parece mais com um ratinho do que com Deus”. Em muitos aspectos, acho que ele está certo, e é por isso que as terapias comportamentais tendem a ser mais eficientes do que aquelas que pretendem nos virar do avesso.
Mas uma coisa não é menos evidente: desde Prometeu, tudo o que há por aí só há porque temos a ambição de ser Deus — e operamos esses milagres com aquela pequena parcela que nos diferencia do rato. O homem só cabe num molde, o da liberdade, porque a natureza (ou o Altíssimo, para os religiosos) não lhe deu outra escolha que não… poder escolher. O livre-arbítrio, assim, nos condena à liberdade — inclusive, na visão religiosa, à liberdade do pecado.
Não deixei de ser esquerdista (já faz tempo!) porque “Ah, sei lá, cansei dessa história!”. Feliz ou infelizmente, sempre fui um pouco mais grave do que isso. Deixei porque entendi, como entendo, que aqueles fundamentos violavam essa nossa segunda natureza.
Mas volto ao ponto: compreendo, não obstante, embora repudie o primado, que haja esquerdistas sinceros, realmente empenhados em garantir, até por amor equivocado à humanidade em alguns casos, a todos os bichos humanos a mesma quantidade de ração. Eliminados os burgueses e aproveitadores, o socialista original acredita que o homem se moldará à imagem e semelhança de uma sociedade, então, justa. Sempre deu em desastre e em milhares ou milhões de mortos!
Muito bem! Renunciei precocemente a essa tolice e às ideias que aí derivaram, invariavelmente autoritárias e justificadoras de violência, como se viu ao longo da história e como temos visto na América Latina, por exemplo, com essa mistura exótica de “socialismo”, nacionalismo chulé e pasta de coca. Mas, reitero, há quem ainda genuinamente acredite naquele ideário.
Agora, ao ponto
Mas e os “neoprogressistas”, hein? E aqueles que aderiam àquela agenda supostamente universal e sem pecados lá do primeiro parágrafo? O que buscam com a sua conversão à causa da ecologia, da legalização do aborto, da descriminação da droga, da igualdade de gêneros (ou seja lá como se chame), das cotas, dos índios, dos quilombolas, dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-aquilo-que-nos-faria-felizes (seja lá o que for…)? 
Noto que não é uma adesão que permite o debate e o exercício do contraditório. Nada disso! A exemplo do que acontece com toda militância sectária, a divergência é demonizada, reduzida à dimensão de uma caricatura. Um projeto que endurece a lei antidrogas, como o de Osmar Terra (PMDB-RS), é tratado como se fosse uma peça de uma escalada fascista. Acusam-no de criar até um cadastro de consumidores, o que é falso. Um projeto de Decreto Legislativo que derruba uma portaria realmente fascistoide de um conselho profissional ganha pecha de “projeto de cura gay”, e isso, que é uma militância, não um fato, é oferecido ao leitor como se fosse notícia.
Durante uns bons cinco anos, as grosseiras mistificações sobre o aquecimento global — tentem saber o que restou das antevisões do filme de Al Gore, o bobalhão espertalhão — foram vendidas como verdades universais, não passíveis de questionamento. Os críticos daquela religião pagã passaram a ser chamados de “os céticos”, como a identificar uma minoria perversa que não estava preocupada com a humanidade. Inventaram até a figura de um pobre urso-polar náufrago, lembram?, que estaria à deriva num pedaço de gelo. Ursos brancos são exímios nadadores.
O fenômeno da adesão às “causas progressistas” é mais ou menos universal (ao menos no universo das sociedades ainda democráticas), mas ganha a dimensão de uma unanimidade (falsa!) aqui no Brasil. Por quê? E agora vem a minha resposta, talvez um tanto surpreendente.
Porque, com efeito, alguma sólidas reputações conservadoras (até reacionárias em alguns casos) e outras tantas que, mesmo sem jamais ter sido liberais ou “de direita”, assim foram tachadas pelo PT, decidiram se tornar ESQUERDISTAS A CUSTO ZERO. Há até quem — e o modelo internacional é George Soros — tenha percebido nesse militantismo excelentes oportunidades de negócios.
Ninguém mais precisa abrir mão de privilégios herdados ou conquistados para, afinal de contas, “ser de esquerda” ou ser considerado um “progressista”. Basta a adesão a essas causas em trânsito para se qualificar como defensor de uma agenda modernizadora, demonstrando, então, ao petismo — que hegemoniza essa processo — que está de boa vontade com os novos tempos e aberto às suas vicissitudes. Os bancos não querem saber de um spread, digamos, ecológico. Mas adoram reciclar papel e financiar profetas da floresta.
A realidade assume dimensões às vezes patética. Não tenham dúvida: se a “mídia” (como “eles” chamam), especialmente as TVs, fosse dominada pelo PT, como o partido pretende (e fará um dia, dada a marcha), ela seria certamente menos abortista, menos ecologista, menos ateísta, menos gayzista, menos cotista, até mesmo MENOS ESQUERDISTA do que a que temos. Há uma renúncia quase generalizada ao ideário que construiu a imprensa livre em nome das “causas” supostamente universais. E ninguém pode ser universal fazendo as vontades de corporações de ofício ou de corporações do pensamento. Ninguém  pode ser universal cumprindo uma pauta que é de natureza sindical — ainda que sejam sindicatos, sei lá, de comportamento. Ninguém pode ser universal atribuindo a entes de razão o poder de definir a verdade. 
Essas causas estão servindo para uma espécie de lavagem de reputação — reputação que, em muitos casos, era originalmente limpa, mas foi sujada pelo PT. Tenho uma enorme admiração por FHC, por exemplo, como todo mundo sabe, mas dou graças a Deus por não ter sido o ex-presidente de agora o presidente de 1995 a 2002. Naqueles oito anos, ele não temeu enfrentar as hordas da desqualificação e fez, no mais das vezes, a coisa certa. Hoje, parece empenhado em conquistar a simpatia de seus detratores.
É um fenômeno curioso, que merece estudo. Caso os jornais entregassem a notícia de ontem sobre o projeto de Decreto Legislativo para Emir Sader redigir, corria-se, sim, o risco de um texto mais analfabeto, mas ele não teria feito coisa muito diferente daquilo que foi noticiado. Boa parte da grande imprensa opta por uma abordagem cada vez mais próxima daquela feita pelos blogs sujos, financiados por estatais. Aproximam-se perigosamente tanto na pauta dita “progressista” como no oficialismo.
É claro que os petistas, assim, nadam de braçada. Até mesmo a sua pregação em favor da impunidade já encontra guarida na cobertura cotidiana da imprensa. Dias antes de ser publicado o acórdão, a turma de Zé Dirceu pautou quem quis, como quis, com as temas que quis. E o alvo era sempre o STF.
Caminhando para a conclusão
Por que tantos aderiram com tanta energia à dita “pauta progressista”? Porque, no fim das contas, isso não lhes custa grande coisa — a rigor, não custa nada! Porque, em muitos casos, não havia, então, o apego a um conjunto de ideias, de convicções, de valores. Ser, como disse, “esquerdista a custo zero” nem chega a caracterizar a cessão dos anéis para não perder os dedos; nem chega a ser uma estratégia deliberada de mudar para conservar. É só a nova configuração que assume o negócio.
É claro que isso não é irrelevante. Essa maçaroca indistinta de “progressismos” tem seu preço, sim. Ela impede, por exemplo, a formação de um partido solidamente conservador, como existe em todas as democracias do mundo. E só existe porque a sua existência, na ecologia da política, é a garantia de sobrevivência do próprio sistema. Ou terminamos na Venezuela, no Equador, na Bolívia… Vive-se a ilusão de uma sociedade sem divergências. E se acaba chamando “progresso” a essa soma orgulhosa e ufanista de atrasos. Esta poderia ser a crônica, e já seria lamentável, de uma capitulação. mas acabou sendo a crônica de um oportunismo. Os que podiam fazer história estão se deixando pateticamente fazer pela história.
Que a irrelevância e o esquecimento lhes sejam leves.
Por Reinaldo Azevedo

Tachado de louco, agricultor de SC 'revolucionou' plantio no Brasil

WILHAN SANTIN

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM LONDRINA

Nasci em Rio do Sul (SC), em 1937. Sou filho de alemães. Minha mãe era enfermeira, enviada ao país pela Cruz Vermelha. Meu pai, um imigrante que fugiu da crise de 1929.
Quando tinha um ano, fomos morar na Alemanha para minha mãe tratar uma doença no coração. A ideia era logo voltar ao Brasil. Mas, quando acabou o tratamento, a Segunda Guerra Mundial havia começado. Fomos impedidos de deixar o país.

Em 1945, meu pai foi convocado pelo exército alemão e enviado à Rússia. Foi capturado e feito prisioneiro. Com minha mãe e quatro irmãos, fomos morar em Dresden, com meus avós maternos.
Na noite de 13 de fevereiro houve um grande bombardeio aéreo dos aliados a Dresden. A cidade inteira foi incendiada. Ficamos no porão de uma casa. Éramos 15. O calor chegava a 80ºC por causa do fogo na parte externa. Sobrevivemos porque senhoras jogavam água sobre a gente.
Quando saí, vi esqueletos queimados sobre o asfalto.
Meu pai foi libertado da Rússia em 1948, pesando 44 quilos. Minha mãe morreu em 1958 e meu pai decidiu que era o momento de buscar prosperidade no Brasil. Abandonei a faculdade de engenharia hidráulica no primeiro ano e chegamos em 1960.
Em Rolândia (PR), comprou um sítio, que chamou de Rhenânia, região da Alemanha onde vivíamos.

Sergio Ranalli/Folhapress
O agricultor Herbert Bartz em solo com palha, característica do sistema de plantio direto
O agricultor Herbert Bartz em solo com palha, característica do sistema de plantio direto
O café era o produto principal do norte paranaense. O sítio tinha 5.000 pés. Colhemos e erradicamos os cafezais. Percebemos que não nos adaptaríamos ao trabalho braçal que o café exigia.
Passamos a criar porcos e a plantar milho, arroz e trigo. Em 1964, comprei o primeiro saco de semente de soja.
Mas a prosperidade não chegava. Havia geadas e doenças como a febre aftosa.
Meu pai desanimou. Insisti em viver da terra. Em 1966 ele arrendou o sítio para mim. Investi em máquinas, arrendei terras dos vizinhos e passei a trabalhar mais ainda.
Porém as grandes perdas com a erosão me aborreciam muito. A prática era preparar o solo, deixando-o nu para fazer o plantio, e a cada chuva a terra era levada para os rios.
Numa noite de outubro de 1971, constatei que ou essa situação mudava ou não daria mais. Uma grande chuva estava se formando. Sempre que isso acontecia eu não conseguia dormir. Levantei e fui olhar a lavoura.
Foi uma tromba-d'água. Vi a água levando a terra e sementes recém-plantadas.
No Brasil, não havia solução para a erosão. Tinha que ver fora do país.
Na Alemanha não encontrei nada. Na Inglaterra vi agricultores que colhiam trigo e deixavam a palha no chão, mas a queimavam para plantar a safra seguinte, por causa dos maquinários que tinham. Não gostei.
Nos EUA, visitei o produtor Harry Young, que já plantava no sistema de plantio direto havia dez anos.
Vizinhos dele plantavam no chão coberto com palha. Fiquei eufórico, convencido de que ali estava a solução para o meu problema.
Encomendei uma semeadora própria para plantio direto. A máquina chegou ao Brasil em outubro de 1972.
 
LOUCO

Quando me viram plantando soja sobre a palha do trigo, os vizinhos me chamaram de louco. Até agrônomos e institutos de pesquisa se posicionaram contra mim. Chegaram a atear fogo à palha que deixei sobre o solo.
Surpreendentemente fui bem, com quase 30 sacas por hectare. Parte da safra chegou a ser embargada pela PF, pois um agrônomo denunciou que a soja era ilegal.
Em 1973, o preço do diesel disparou com a crise do petróleo. Passaram a se interessar pelo que fazia, porque o plantio direto economiza combustível, pois não é preciso fazer o preparo do solo.
Foram aparecendo herbicidas que matavam só as invasoras e máquinas mais eficientes para cortar a palha e fazer o plantio. Em 1977, já colhia 50 sacas por hectare. E o solo ficava mais fértil.
Aos poucos, colegas foram aderindo ao sistema.
Tenho certeza de que é possível, com o plantio direto, recuperar áreas degradadas. Não destruímos mais a terra, conseguimos construi-la.
Vão me homenagear com título de doutor. Eu que nem tenho diploma universitário. Sinto-me honrado e feliz

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Querem descriminar as drogas à revelia da população e sem que ela saiba. Militantes levaram questão ao STF; tribunal vai decidir o tamanho do desastre a que estarão expostos os filhos dos brasileiros. Ou: Agenda avança e já quer livrar a cara de “pequenos traficantes”

Nos aniversário de 30 anos, o Datafolha fez uma pesquisa para saber qual é o maior medo do paulistano. Disparado, em primeiro lugar (45%), o maior temor do morador da cidade de São Paulo é que um jovem da família se envolva com drogas.

Não obstante, a descriminação das drogas no Brasil — preferem falar por aí “descriminalização” — pode estar mais perto do que parece. Corre o risco de acontecer à revelia da sociedade brasileira, contra a sua vontade, por uma decisão cartorial. A tese tem defensores poderosos e influentes, como a Comissão Brasileira Sobre Droga e Democracia, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma multidão de ONGs por aí e boa parte da imprensa. Não é que essa gente toda defenda necessariamente o consumo de drogas, mas entende que os malefícios da repressão são maiores do que os da liberação. A questão está no Supremo. Já chego lá.
Basta pôr um pouquinho a lógica para operar, e saberemos que a medida seria um desastre. Até porque não se limitaria à maconha, que tende, contra estudos os mais sensatos e técnicos, a ser considerada inofensiva. Se e quando vier, abrangerá todas as substâncias hoje ilícitas. Se acontecer, cairá como uma bomba na juventude brasileira, especialmente nas escolas, que já enfrentam o problema mesmo havendo restrições legais ao consumo. Segundo a lei, quem for pego portando a substância, ainda que para uso pessoal, fica sujeito a eventualmente prestar serviços comunitários. Já não vai para a cadeia.
Não fosse o enorme trabalho que daria e, de fato, a impossibilidade de aplicar uma legislação mais dura, o certo seria coibir o consumo de álcool e tabaco antes dos 25, até que o tal córtex pré-frontal não tivesse chegado à sua fase definitiva. Facilitar a exposição de adolescentes às drogas — e é isso o que vai acontecer se houver a descriminação — é dessas irresponsabilidades que só podem ser defendidas por convicções de natureza ideológica. Não há ciência nenhuma nisso; não há saber. Há, isto sim, é um velho eco que chega lá dos anos 1960, da luta ainda “contra o sistema”, “contra a repressão”, que fez os velhos libertários de hoje.
Perguntem a psiquiatras e psicólogos que trabalham com jovens dependentes para ver o que eles têm a dizer. Eles poderão contar o desastre que a droga pode representar para o próprio consumidor e para suas respectivas famílias. Infelizmente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a tal Comissão Brasileira Sobre Droga e Democracia querem usar os filhos alheios para pagar para ver. Eles estão interessados em testar uma tese. Contra, reitero, a lógica e o fatos. Querem saber se é mesmo verdade que, aumentando a exposição dos jovens às drogas, haverá uma elevação do consumo. Qual é o palpite de vocês? Não raro, a defesa desses pontos de vista se ancora em mentiras clamorosas, como a de que a descriminação provocou uma diminuição do consumo em Portugal. Aconteceu o contrário: cresceu!
Irracionalidade
O pacote da irracionalidade é completo. A defesa da plena descriminação vem acompanhado do discurso da medicalização: o dependente, dizem, tem de se tratado como um doente. Muito bem! Fiquemos de acordo nisso. Os jovens que transitam no universal em que FHC e os membros da tal comissão também transitam sempre terão as clínicas de recuperação e os serviços especializados, que seus pais podem pagar. Uma clinica no Rio — prefiro não citar o milagre, mas todo mundo conhece o santo — é quase uma grife. Entrar lá e sair de lá não rende nota na coluna policial, é claro!, mas em coluna social. Vira um sinal de prestígio. As pessoas, ao se referirem ao local, até eliminam a palavra “clínica”. E é normal diálogos assim: “Você viu quem foi para a…?” E citam o nome do santo. Ou então: “Fulano saiu da (…). Está ótimo!”
Mas para onde vão os filhos dos pobres? Para lugar nenhum! Os mesmos que defendem a descriminação das drogas também defenderam a extinção dos hospitais psiquiátricos. Atenção! Hoje, já não há onde internar os viciados pobres. É por isso que vagueiam pelas cracolândias do Brasil como zumbis. Não é raro que mães e pais que trabalham acorrentem seus filhos em casa, com o risco de o Ministério Público descobrir e meter em cana a doméstica e o pedreiro. Parece que estamos diante de uma perversidade deliberada.
Agenda e descriminação via STF
A questão das drogas segue uma agenda. A lei que temos, de 2006, já determina que o consumidor não vá para a cadeia. Era uma antiga reivindicação dos, como chamarei?, “liberacionistas”. Mas o portador ainda está sujeito a prestar serviços comunitários — não raro, o juiz opta por uma simples admoestação.
Eis que, de repente, surge no debate a figura do “pequeno traficante”, que também não deveria, segundo esses, ser molestado pela lei. O primeiro a transformar isso numa pauta política do poder foi Pedro Abramovay (o chefão do site de petições Avaaz, que demoniza por lá quem bem entender), quando secretário nacional de Justiça. Dilma estava prestes a nomeá-lo para a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas quando ele concedeu uma entrevista ao Globo defendendo que os pequenos traficantes não fossem para a cadeia. A presidente, em começo de mandato, houve por bem demiti-lo. Por discordância da tese? Talvez não!
Por que digo isso? O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, nomeou há pouco um novo titular para a secretaria: trata-se do defensor público Vitore André Zílio Maximiano. No dia 26, o Portal G1 publicou uma reportagem a respeito, Num dado momento, lemos (em vermelho):
“O Brasil nunca prendeu tanto por tráfico. Temos hoje 140 mil presos por tráfico de drogas no país. Até 2006, o número de presos por tráfico representava 10% do total. Hoje, são 30%. O fato é: o aumento é tão grande que nos obriga a pensar em alternativas, porque o custo social é grande. Esta constatação nos exige análise. Sem afirmar que a saída é esta ou aquela. Por hora, precisamos é enfrentar a realidade e pensar em alternativas”, completou Vitore Maximiano.
Ele não disse, mas é evidente que resta aí a sugestão de que também o pequeno traficante, além do consumidor, não vá para a cadeia. É a mesma agenda de Abramovay, só que dita de um modo mais suave. Continuemos com ele (em vermelho):
“A secretaria trabalha, segundo o novo chefe, com o ‘cenário de descriminalização das drogas’ caso o Supremo Tribunal Federal entenda pela inconstitucionalidade do artigo 28 da Lei 11.343, que aplica medidas alternativas à prisão para usuários detidos.
Foi a própria Defensoria de São Paulo que motivou a questão, alegando que o Estado não pode punir porte de drogas para consumo particular por se caracterizar conduta de autolesão. Sete ex-ministros da Justiça dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva assinaram uma petição apoiando a descriminalização das drogas.”
Comento
Como? “Conduta autelesiva” e , por isso, descriminação total??? Bem, se a conduta é “autolesiva” e se vamos brincar, agora, de aplicar Camus ao consumo de drogas — e, pois, todo mundo tem o direito ao suicídio —, cumpre perguntar por que o conjunto dos brasileiros é obrigado, segundo esses mesmos bacanas, a arcar com o custo do tratamento dos dependentes químicos. Deixem-me ver se entendi direito: segundo os que acusam a inconstitucionalidade da lei, o sujeito é livre para se “autolesar” — e, portanto, isso não poderia ser coibido pelo estado —, mas, quando a coisa fica feia e ele precisa de tratamento, aí o problema passa a ser do estado — ou seja, nosso!?!?!? É uma lógica que rumina e baba. E, para variar, enfia a mão no bolso de quem trabalha.
Atenção! A lei antidrogas, fique claro mais uma vez, já não pune com prisão o portador para consumo. O máximo que pode lhe acontecer é prestar serviços comunitários — pena quase nunca aplicada. Os que recorreram ao Supremo estão contra isso também. PORTAR DROGA, QUALQUER DROGA, DESDE QUE SE CONSIDERE QUE É PARA USO PESSOAL, PASSARIA A SER PERMITIDO. E FIM DE PAPO.
Mas o que é “droga para uso pessoal”? Seria preciso definir uma quantidade. O deputado petista Paulo Teixeira (SP) defende que seja o suficiente para 10 dias de consumo. A comissão de aloprados que elaborou proposta um novo Código Penal propõe cinco. Notem, então, que, com a descriminação do consumo, já vem a descriminação do que chamam de “pequeno tráfico”. Ou alguém sai por aí carregando drogas suficientes para cinco ou dez dias? A tal Comissão Brasileira Sobre Drogas e Democracia também defende a definição de uma quantidade — e isso, é evidente, tirará do alcance da lei o pequeno traficante — que sempre trabalha para um grande traficante.
Quando decidir sobre se o trecho da Lei 11.343 é ou não inconstitucional, o Supremo estará decidindo se milhões de crianças e jovens nas escolas Brasil afora serão ou não mais assediadas pelo narcotráfico do que já são hoje em dia. O fato de o porte de drogas não ser considerado legal no Brasil — é sujeito a pena, ainda que alternativa — é um fator de inibição do consumo. Como sabe qualquer jurista e qualquer operador do direito, ser uma determinada prática considerada ilegal cria um fator de interdição social. Sim, sempre há transgressões (ou não haveria crimes), mas é evidente que a proibição gera um constrangimento.
Mais: existe, como se vê na pesquisa Datafolha, o medo das famílias. Esse conceito negativo sobre as drogas também atua como fator inibidor do consumo. Se e quando isso desaparecer, aí há uma boa chance de que conheçamos um desastre. Espero que os senhores ministros do Supremo se informem com os melhores especialistas e saibam por que as drogas são especialmente perversas para o cérebro dos adolescentes — e isso vale, sim!, também para a maconha. O prejuízo pode ser irreversível. E isso não é terrorismo.
Concluo
Numa democracia normal, e a nossa não é, haveria partido ou partidos de oposição que se oporiam firmemente a essa agenda. Teríamos, ao menos, debate. Por aqui, faz-se o contrário. As oposições ignoram o assunto ou, como é o caso de fatias do PSDB, estão alinhadas com o poder oficial e sua política irresponsável.
Um deputado resolveu resistir e propôs uma lei antidrogas mais dura: Osmar Terra, do PMDB do Rio Grande do Sul. Passou a ser demonizado, e a esmagadora maioria da imprensa simplesmente lhe cassou a palavra. Ele só é livre para apanhar de ONGs militantes. Não lhe dão nem mesmo o direito de defesa.
Texto publicado originalmente às 5h59
Por Reinaldo Azevedo