domingo, 8 de setembro de 2013

Os filhos dados das mães pobres do sertão. Entregar crianças para serem criadas por outras famílias ainda é comum no Nordeste

BRUNO PAES MANSO / TEXTO, TIAGO QUEIROZ / FOTOS, ENVIADOS ESPECIAIS, MONTE SANTO -

O Estado de S.Paulo

O sofrimento e os dilemas vividos pela lavradora Beatriz Oliveira Lopes durante a gravidez de seu primeiro filho, nascido em Euclides da Cunha, no sertão baiano, são dignos das tragédias do Cinema Novo. O pai da criança era um jovem covarde e desinteressado, que bebia demais e não quis assumir o romance com a mãe. Bia, como é chamada, tinha 20 anos e morava com uma família de 12 irmãos. O padrasto, ao saber das novas, apontou uma arma para a cabeça dela e a expulsou de casa.

Talvez por falta de hábito ou por convicção, aborto não era uma escolha. Na pobre cidade de Monte Santo, Bia também não poderia contar com bons serviços públicos como creches, escolas e postos de saúde. Ela acabou seguindo um costume secular da região, onde o beato Antônio Conselheiro ergueu Canudos e Glauber Rocha filmou Deus e o Diabo na Terra do Sol. Enfrentou a gestação e as dores do parto, viu o rosto da criança antes de dar o próprio filho para outra família criar.
"Era minha única opção. Se eu não tivesse dado, hoje o Max estaria morto. Ele precisou ainda passar por uma cirurgia quando tinha 2 meses. Eu não poderia pagar", conta Bia, na varanda de casa no povoado de Várzea dos Bois, na frente do terreno onde planta milho e feijão com a mãe e os irmãos.
Benhard Max Lopes seria o primeiro filho adotivo da gaúcha Carmen Topschall, de 49 anos, e do alemão Benhard, de 56, que tentavam montar na Bahia uma empresa de exportação de tripas para embutidos. Os dois são personagens da outra ponta do drama: representam o lado dos familiares de classe média, moradores das grandes cidades, que carregam para seus lares os filhos doados nos confins da seca. Cortam, assim, as longas filas de espera para adotar recém-nascidos.
Segundo o Cadastro Nacional de Adoção, atualmente há uma criança disponível para cada seis pretendentes. O funil vai se estreitando conforme aumentam as exigências das famílias. Entre as crianças, menos de 1% são meninas brancas, com menos de 1 ano, tipo preferido pelos pais. "Se desejar uma menina branca recém-nascida, a fila de espera é longa. Se aceitar receber um menino negro, de 10 anos, que já viveu na rua, a adoção ocorre no dia seguinte", explica o advogado Antonio Carlos Berlini, presidente da Comissão Especial dos Direitos à Adoção da OAB-SP.
Em 2005, depois de perder uma criança e ser obrigada a tirar o útero, Carmen se candidatou à adoção em Salvador. Depois de Max, eles adotariam outras duas crianças e mediariam a adoção de mais uma dezena para famílias do Sul e do Sudeste. As articulações levantaram suspeitas, que resultaram em reportagens na televisão e jornais, motivando a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa da Bahia e no Congresso Nacional. Eles eram suspeitos de participar de uma organização criminosa que traficava crianças.
Percorrendo os povoados entre Monte Santo, Euclides da Cunha, Cansanção e Quijingue, para falar com as mães que deram seus filhos, o que sobressai, acima de tudo, são dramas familiares, arrependimentos, cicatrizes abertas - resultado do encontro de mães de dois mundos diferentes, com expectativas diversas sobre o futuro.
No povoado de Mandassaia, em Monte Santo, a reportagem chega à casa de Dona Belinha, de 60 anos, para falar de sua sobrinha-neta, entregue quando tinha 2 anos para ser criada por Carmen. É o início de uma longa conversa, regada a lágrimas. A mãe que deu os filhos é Lineide Barbosa, de 32 anos. Além de Andréia, ela deu também um filho recém-nascido para um casal do interior de São Paulo.
Lineide admite que pediu ajuda e queria se desfazer dos rebentos. Mas se arrependeu e, segundo ela, foi enganada pelas mães adotivas. Andréia, que tinha 2 anos e hoje é criada por Carmen, não queria ir embora. A menina, no dia em que foi dada, se agarrou à mãe pedindo para ficar. No hospital, levaram seu filho recém-nascido. "Como o pai estava envolvido com drogas, me disseram que eu seria presa, caso não desse meus filhos", conta.
Os parentes de Lineide, contudo, culpam a irresponsabilidade e o descaso da mãe pela perda da criança. E pedem apenas para ver a menina de 2 anos mais uma vez. "A forma como a menina foi embora, chorando, deixou a gente traumatizado. Ela desapareceu e a gente gostaria de saber pelo menos se está bem", diz Belinha.
Advogado de Carmen, Maurício Vasconcelos afirma que o costume de dar crianças é antigo no Nordeste. Ele próprio, segundo conta, foi criado com uma irmã dada pela mãe miserável. Seu tio-avô também foi dado por uma família pobre. A prática era recorrente entre cangaceiros, ele explica, que ofereciam seus filhos para serem criados pelas famílias abastadas do Nordeste. "Nunca houve controle de natalidade nos sertões e dar os filhos, na maioria das vezes, é uma maneira amorosa de garantir o futuro da criança."
A falta de estudos e de repertório para conversar com pessoas mais estudadas, no entanto, é própria para mal-entendidos, sentimentos de injustiça e impotência. A lavradora Maria José da Silva, de 26 anos, que deu seu filho em 2011 para uma família de São Paulo, se arrependeu. Se sentiu pressionada, diz, porque a cesárea foi paga pela família adotiva. Achava que veria a filha novamente e não guardou uma foto da criança. "Caí no conto deles."
Ao contrário da lavradora Eunice de Jesus, de 40 anos, que mora em uma casinha de barro à beira da BR-116, com dois filhos. Ela deu a menina recém-nascida a uma família adotiva, amiga de Carmen. Eunice, como as demais mães nordestinas, nega ter recebido dinheiro. A mãe adotiva pagou o hospital, o ultrassom e a ligação das trompas de Eunice. A menina nasceu com um problema no olho esquerdo. "Foi o melhor para minha filha ficar. De um pecado pelo menos Deus não vai me cobrar. Eu não tomei remédio para ter meu filho morto no meio do mato", diz Eunice, alegando que, pelo menos, não fez aborto.
Dúvida. Outra lavradora, Pascoalina Maria de Jesus, de 48 anos, ia dar seu filho Jonaelson, um menino de 3 anos e olhos verdes. A mãe adotiva chorou e comprou presentes para ele quando o viu. Mas Pascoalina se arrependeu antes de a criança ir definitivamente. Restaram as dúvidas sobre o futuro do filho, que hoje vive à base de doações de alimentos. Sem falar nas dúvidas que a perturbam sobre a vida que o filho teria se tivesse sido criado por uma família rica.

Bolsa Família faz dez anos; exame de paternidade aponta petistas, tucanos e neoliberais do Banco Mundial

“Deve-se confiar nos pobres, eles fazem boas escolhas”, disse a uma plateia de petistas de primeiro escalão o americano David de Ferranti, na época vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina.

A época era o ano de 2003, mais precisamente no dia 31 de março, quando o governo Luiz Inácio Lula da Silva completava seus primeiros três meses e debatia em seminário o seu mais importante programa social.
Um tal Fome Zero.
Sem muita sutileza, Ferranti atacava a proposta que havia encabeçado a campanha de Lula ao Planalto, cuja grande inovação seria a distribuição de cartões a serem utilizados obrigatoriamente na compra de comida.
A receita alternativa do economista era o que havia de mais consensual na agenda neoliberal de Washington: unificação de ações de combate à pobreza em um programa de renda focado apenas nos segmentos mais miseráveis da poupação, no qual os beneficiários têm liberdade para usar o dinheiro desde que se comprometam com contrapartidas como a frequência escolar dos filhos.
Poucos meses depois surgia o Bolsa Família, cujo primeiro decênio de vida começa a ser comemorado pelos petistas.
É óbvio que Ferranti não havia feito uma mera contribuição pessoal ao debate. Sua tese contava com aliados no Ministério da Fazenda de Antonio Palocci e seu secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa.
Lisboa vinha do Iets (Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade), entidade que tinha o Banco Mundial entre seus financiadores, e na campanha eleitoral havia coordenado um documento conhecido como a “Agenda Perdida”. O texto pregava reformas liberais na economia e ações sociais focalizadas _até então, a política social brasileira era composta basicamente por programas universais, ou seja, disponíveis para todos.
As ideias provocavam reações veementes no PT. Em um seminário no mês de abril, Guido Mantega, então ministro do Planejamento, chamou a “Agenda Perdida” de “agenda fajuta”.  Dias antes, em entrevista publicada pela Folha, a economista de maior renome no partido, Maria da Conceição Tavares, havia chamado Lisboa de “semi-analfabeto” e o Iets de “grupo de débeis mentais do Rio de Janeiro”.
Um documento publicado em 2007 pelo Banco Mundial tratou da paternidade do Bolsa Família. Relata-se um encontro sobre o assunto, naquele mesmo março de 2003, entre Lula, o presidente do organismo, James Wolfensohn, e Santiago Levy, formulador de um programa de combate à pobreza no México. Dali em diante, o banco prestou assistência técnica na elaboração do programa brasileiro.
Como o texto aponta, porém, as origens da ideia são mais antigas no debate e na prática administrativa do país. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP), por exemplo, já defendia obsessivamente havia mais de uma década um programa de renda mínima.
Em 1995, quase simultaneamente, o governo do Distrito Federal, comandado pelo PT, e a Prefeitura de Campinas, do PSDB, lançavam iniciativas pioneiras, que seriam posteriormente copiadas ou adaptadas em uma série de municípios.
Em 2001, FHC criou o Bolsa Escola federal, repetindo o nome adotado no DF, e o Bolsa Alimentação. Até o final de seu mandato, outras ações de menor montante, como o Auxílio-Gás, seriam inauguradas.
Tucanos costumam reivindicar uma parcela majoritária do DNA do Bolsa Família, que, segundo sua argumentação, seria mera unificação de verbas já existentes. Mas foi a administração petista que deu ao programa uma escala antes inimaginável: em 2002, o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação gastavam juntos R$ 1,7 bilhão, ou R$ 3,2 bilhões em valores atualizados, enquanto o Bolsa Família desembolsará R$ 21,4 bilhões neste ano.

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Médico desiste do programa de Dilma e afirma: “É uma aberração: teto caindo, muito mofo e infiltração, uma parede que dá choque, sem ventilação no consultório, sala de vacina em local inapropriado, falta de medicamentos”

Pois é… No ritmo em que vão as coisas, o país logo precisará de “Mais Médicos”… cubanos! As condições de trabalho no interior do país e nas periferias requerem mesmo a mão de obra escrava oriunda da ilha comunista. Os profissionais que conservam o seu direito de ir e vir e que são donos do próprio destino tendem a recusar os pardieiros que abrigam as unidades de atendimento. Leiam trecho de reportagem publicada nesta terça pela Folha. Volto depois.
Médicos questionam infraestrutura e exigências e abandonam programa
Por Daniel Carvalho e Nelson Barros Neto:
A carreira de Nailton Galdino de Oliveira, 34, no programa Mais Médicos, bandeira de Dilma Rousseff (PT) para levar atendimento de saúde ao interior e às periferias, durou menos de 48 horas e exatos 55 atendimentos. Alegando estar impressionado com a estrutura precária da unidade em Camaragibe (região metropolitana do Recife), onde atuou por dois dias, pediu desligamento. “É uma aberração: teto caindo, muito mofo e infiltração, uma parede que dá choque, sem ventilação no consultório, sala de vacina em local inapropriado, falta de medicamentos”, afirmou.
Casos de desistência como esse frustraram parte dos municípios que deveriam receber anteontem 1.096 médicos brasileiros da primeira etapa do programa (os estrangeiros só vão começar depois). A Folha encontrou exemplos espalhados pelo país, com justificativas variadas alegadas pelos profissionais –incluindo falta de infraestrutura, planos profissionais e pessoais e desconhecimento de algumas condições. Na prática, as desistências de brasileiros devem reforçar a dependência do programa por profissionais estrangeiros.
Um balanço da segunda rodada do Mais Médicos mostra baixa adesão de novos interessados na bolsa de R$ 10 mil por mês. Houve só 3.016 inscrições — mais de metade de formados no exterior. Enquanto isso, a demanda por médicos ultrapassou 16 mil — menos de 10% foi suprida na primeira etapa. O ministro Alexandre Padilha (Saúde) disse que, após a nova fase, deve pensar “outras estratégias” para atrair mais médicos. Ele comparou as baixas às dificuldades cotidianas de contratação.
(…)
Voltei
Aí vai uma síntese do caráter deletério do programa Mais Médicos. O governo queria espalhar os doutores Brasil afora, mas sabia, e sabe, que inexiste a estrutura física para abrigar esses profissionais. Não é por acaso que o Ministério da Saúde não consegue a chamada “interiorização” dos médicos. Sentindo-se aviltados, acabam recusando o trabalho; outros tantos, como se lê acima, desistem quando constatam o cenário miserável em que terão de trabalhar.
Eis que surgem, então, os cubanos. Acostumados com situações até mais precárias do que as que encontrarão aqui; impossibilitados de dizer “não” ao regime que os exporta — a alternativa é ficar na ilha e receber US$ 35 por mês; impedidos de construir uma carreira no Brasil porque suas respectivas famílias ficaram em Cuba, e o visto provisório não lhes dá o direito de exercer outra atividade que não aquela do “contrato”; sabedores de que é inútil tentar desertar ou, como ameaçou o governo, serão “devolvidos”; submetidos ao regime férreo de obediência ao comunismo; postos, mesmo aqui no Brasil, sob a tutela de agentes cubanos, que são seus verdadeiros chefes, então os doutores de Fidel ficarão — com parede dando choque, mofo, sem ventilação… Mais: eles não reivindicarão nada. Ficarão longe de qualquer associação ou órgão de classe. Pronto! O modelo é perfeito. Na campanha do ano que vem, Dilma e Padilha se orgulharão do seu feito.
A ditadura cubana receberá, em valores de hoje (e tomando 4 mil médicos como referência) US$ 200 milhões por ano, na expectativa de que chegue a US$ 500 milhões, já que se fala lá em Brasília na contratação de até 10 mil cubanos — uma leva grande viria dos que atuam hoje na Venezuela. É um negócio bom para todo mundo, até para esses profissionais de Cuba — afinal, mesmo recebendo só uma pequena parcela dos R$ 10 mil, a alternativa é muito pior. Sem precisar prestar contas a quem quer que seja, a ditadura receberá a dinheirama. E sempre há, não custa relembrar, a chance de que parte dela volte na forma de financiamento de campanha, né? Será que os nossos patriotas fariam uma coisa feia como essa?
Informa ainda a Folha: “Em Vitória da Conquista (BA), dos cinco médicos que deveriam ter começado, três já desistiram. Na região metropolitana de Campinas, dos 13 selecionados, 5 pediram para sair. Na capital paulista, 1 de 6 voltou atrás. Em Salvador, 5 dos 32 convocados já abandonaram, assim como 11 dos 26 profissionais previstos em Fortaleza. No Recife, 2 desistências foram confirmadas de um total de 12 médicos selecionados.”
O sistema de saúde de que Padilha é o chefe máximo é incompatível com um regime de homens e mulheres livres.
Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Arlindo Chinaglia, do PT, achava que havia médico DEMAIS no Brasil. Queria vetar novos cursos em 2003…

  PL 65/2003. Autor: Deputado Arlindo Chinaglia, do PT/SP. Emenda: Proíbe a criação de novos cursos médicos e a ampliação de vagas nos cursos existentes, nos próximos dez anos e dá outras providências.
 
A íntegra do projeto de lei pode ser lida aqui. Os dois primeiros artigos já dão o teor da coisa:
 
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º Fica vedada a criação de novos cursos médicos nos dez anos seguintes à
promulgação desta Lei.
Art. 2º Fica vedada a ampliação de vagas nos cursos médicos existentes nos dez
anos seguintes à promulgação desta Lei.
 
Eis a justificação que o deputado deu para seu PL:
 
O primeiro objetivo desta Projeto de Lei é o de proteger a população do País contra a gravíssima ameaça resultante de cursos de Medicina de má qualidade, no Brasil ou no exterior.
O segundo objetivo é o de proteger os médicos brasileiros formados em instituições de bom nível, ainda a grande maioria, do aviltamento das suas condições de trabalho – contra a invasão do mercado de trabalho por diplomados em Medicina, sem adequada condição de exercê-la.
O Brasil já tem uma relação de médicos por habitante acima do índice recomendado por instituições internacionais que é de 12 médicos para 10.000 habitantes. Essa proporção deverá continuar crescendo com rapidez, uma vez que o aumento da população de medicos – que tem se mantido constante – é maior do que a taxa de crescimento do total da população ( que tem decrescido ).
Ao impedir a criação de novos cursos de Medicina e congelar o número de vagas, o Projeto contribui para barrar os interesses de uma verdadeira indústria no ensino. A esse respeito, grandes empresas de saúde já estão se apoderando/fundando escolas médicas, onde o objetivo não é aperfeiçoar o aparelho formador, mas sim obter mão-de-obra barata já a partir do trabalho dos estudantes e pós-graduandos e, posteriormente, com a superoferta no mercado.
A situação atual do mercado de trabalho já é muito mais grave em várias regiões e centros urbanos nacionais. Com as mudanças ora propostas, haverá uma melhor adequação do número de médicos às necessidades da população brasileira, que terá melhores profissionais e em número suficiente para atendê-la.
[...]
O Projeto de Lei estabelece, ainda, que o Poder Executivo deverá definir normas para controle de entrada de profissionais de outros países no mercado brasileiro. É de extrema importância que seja tomada tal medida, em vista da globalização da economia e especialmente da integração de nossa nação no Mercosul. O intercâmbio científico, cultural, econômico e social é uma realidade que devemos impulsionar, e para que isso ocorra em benefício de nossas populações, cada poder nacional deve ter regras democráticas. No exercício da medicina é necessário que os cursos feitos no exterior sejam validados como dispõe o art. 4º do presente projeto de Lei.
 
Quem te viu, quem te vê! O deputado petista achava que havia médico demais no país em 2003! Seu Projeto de Lei pretendia congelar as vagas em novas universidades. O petista estava preocupado com a “invasão de médicos de má qualidade” no país.
E o que temos hoje, após uma década do Projeto de Lei e do PT no poder? A situação caótica da medicina no país, os médicos sendo acusados pelo governo como fonte dos problemas, e a importação de milhares de “médicos” cubanos sem a devida qualificação e sem validar o diploma como exige a lei. É ou não é uma afronta aos brasileiros?
Funciona assim, para resumir: o próprio PT, via um de seus deputados mais conhecidos, tenta impedir a formação de novos médicos no país. Uma década depois, o PT aponta a falta de médicos no interior do país, e como solução “mágica” apresenta a importação de “médicos” provenientes de uma ditadura falida.
Mas tem gente que cai na ladainha do partido, acredita em suas boas intenções e que a medida é mesmo necessária. Seria cômico, não fosse trágico.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Diário da Dilma - Em festa de formiga não se elogia tamanduá




1º DE JULHO_Alma lavada com o título da Copa das Confederações. Fui ao jogo disfarçada de Shakira. Apareci no telão e ainda ganhei uma piscadela do Piqué. My hips don’t lie.
Reunião de emergência com o núcleo duro: João Santana, Celso Kamura e minha figurinista Luisa Stadtlander. Mercadante, meu farol de Alexandria, também veio. Na onda dos protestos, pressionei por um penteado menos trabalhoso. Em tempo de murici, cada qual cuida de si.

2 DE JULHO_Já tentei constituinte, plebiscito, pacto, médico gringo, o diabo. Nada cola. No meu tempo, protesto tinha palavra de ordem, a assembleia decidia antes o que ia acontecer, e o centralismo democrático resolvia tudo. Agora, como é que eu vou entender essa bagunça? Tudo o que eu proponho o pessoal acha ruim. Acordei e liguei para o Franklin Martins. O João não está dando conta do recado.

3 DE JULHO_Toda vez que o chupa-manga do Mantega bate no meu gabinete, levanto meu cartazinho de cartolina: “Pibinho NÃO.”

4 DE JULHO_Disse à imprensa que meu governo é “padrão Felipão”. Só manda quem tem bigode. Recado cheio de sutilezas, com repercussões até para o Mantega, que é imberbe.

5 DE JULHO_“550 quilômetros, 550 quilômetros. Para um pouquinho, descansa um pouquinho, 550 quilômetros.” Cantei para o Renan. Ele sorriu e me confidenciou que já acumulou mais milhas na FAB do que o Henrique Alves, que é tido como imbatível. É mesmo admirável.

6 DE JULHO_Coisas do arco da velha acontecem naquele hospital de Amor à Vida. Exigi que o Padilha começasse a assistir de caderninho na mão. Uma novela com crase precisa ser levada a sério.

7 DE JULHO_Coitado do Cabralzinho! Depois daquele sapeca iaiá na porta da casa dele, agora aparece essa história do Juquinha andando de helicóptero. Ele adora aquele cachorrinho, que é mesmo muito fofo. Já que vai a família, por que não levar o Juquinha? Mas o povo não entende isso. Queriam o quê? Que jogassem uma guia lá do alto e fossem arrastando o Juquinha até Mangaratiba? Vou te contar uma coisa, está cada vez mais difícil. O aquário que eu ia dar para o Gabrielzinho vai ficar para depois do mandato. Não quero que digam que usei o corpo técnico do Ministério da Pesca em benefício próprio.

8 DE JULHO_Obama me ligou para dizer que o Guido Mantega sofre de constipação. Quando a gente para pra pensar, faz sentido. Estou começando a gostar desse negócio de espionagem. Pedi para ele verificar como anda o casamento do Lobão.

9 DE JULHO_Dei um perdido essa semana; coloquei uma peruca loira e fui ao cinema com a Erenice assistir ao Super-Homem. É com aquele garoto lindo que trabalhou nos Tudors. Ela colocou lente e um turbante para disfarçar um pouco. Depois comemos no McDonald’s o cheeseburger Angus que é o fino! Arrematei com um sorvete com calda de caramelo que eu adoro. Voltei de ônibus e ainda puxei um coro contra a tarifa. Ninguém me reconheceu.

10 DE JULHO_Segunda vaia que eu tenho que engolir. Agora foram os prefeitos. Virei Geni. Tanta injustiça só se justificará se o Chico fizer uma canção.

11 DE JULHO_Mandei o Patriota dar um pulo na Bolívia para ver se soltam aqueles corintianos. Ele disse que nem adianta, que tá tudo dominado. Estou precisando acertar uma. Não aguento mais tanta rejeição. Não sou de ferro, dói muito. Titia tentou me consolar. Me levou um Nescau quentinho na cama e disse que isso passa, que o povo é ingrato mesmo, que eu sou boa demais para esse país de menos. Ela foi falando, falando, falando até que dormi.

12 DE JULHO_Reunião com a tchurma do Mercosul desanuvia um pouco. A gente não precisa pensar muito. Conversamos na língua do “p” para dificultar o trabalho da NSA.

13 DE JULHO_José Dirceu veio com um papo confuso sobre controle social da Mídia Ninja. Fiz cara de paisagem e mandei apenas um recado: se queres um grilo, vá pari-lo.

14 DE JULHO_Passei o domingão pensando em maneiras de emplacar esse plebiscito. Talvez convocar mamãe e titia para queimarmos uns pneus em frente ao Congresso. Estamos tão unidas agora.

15 DE JULHO_Essas cantoras evangélicas são umas fofas. Oraram pelo governo Dilminha. Disse que era para passar no gabinete do Guido depois. Toda ajuda é bem-vinda.

16 DE JULHO_Por que é que eu fui inventar essa história de importar médico cubano? Qualquer dia nem consigo entrar no Sírio Libanês.

18 DE JULHO_Esse PMDB é uma bola mesmo. Agora sugerem reduzir o número de ministérios. É como se o PSTU sugerisse reduzir o número de passeatas, ou o Roberto Justus me pedisse para cortar a quantidade de laquê.

19 DE JULHO_Estou na maior saia justa. Vou ter que tirar a Ideli e já estou prevendo o barraco. O pior é que ela não tem mandato e ministro não tem seguro-desemprego. O salário daquele soldado marido dela deve ser uma merreca. O jeito é achar uma vaga num conselho qualquer. Não é nada, não é nada, uma reunião mensal pode render uns cinco paus. Não sei se coloco no lugar dela o Mercadante ou a Gleisi. Vou ter que agir com a cabeça, e não com o coração.

20 DE JULHO_Cabral anda precisando de uma consultoria com o João Santana. Tá culpando “forças internacionais” pelos protestos. Cuidado para não acabar como o Jânio. Em festa de formiga não se elogia tamanduá.

21 DE JULHO_E esse bebê da Kate que não nasce, hein? Já tá me dando dor nas juntas de tanta ansiedade!

22 DE JULHO_Gilbertinho tá deslumbrado com essa JMJ. Queria até cantar para o papa. Disse que só autorizava se ele se confessasse. Mudou logo de assunto.

23 DE JULHO_Ai, meu Deus, como estou atrasada para ir ao Rio esperar o papa! Pedi para o Gilbertinho mandar o avião papal dar umas voltas até eu chegar. A cabeleireira errou na minha escova e a costureira entregou a roupa com um defeitinho na barra. Quase tive um chilique e mandei refazer.
Acabou atrasando tudo. Mas gostei de ter ido. O papa é simpaticão, cumprimentou todo mundo numa boa, sem frescura. Pedi para ele operar o milagre da transferência de popularidade.
Duro foi a fila depois. Pela quantidade de gente, essa história de que os evangélicos estão tomando conta deve ser mentira. Renan, Henrique, Cabral, cada um querendo mais bênção do que o outro, o que até compreendo. O diabo é que essas coisas tomam tempo e o bebê real tinha nascido. Eu doida para ver a cara do fofonildo e aquele mar de gente. Só a Ideli ficou uns dois minutos aprendendo de cor uma oração para combater o culote.

24 DE JULHO_O Aldo também no jatinho da FAB???!! Meu Deus, essa nem o Enver Hoxha aprovaria! O PCdoB não era disso. Tô bege!

25 DE JULHO_Vou proibir pesquisa de opinião. Já chamei o Márcio Thomaz Bastos para ver como fazer o decreto sem parecer censura. A cada pesquisa eu caio um pouquinho. Não sou ação do Eike!

27 DE JULHO_O mês está acabando e nenhuma das minhas ideias para acabar com esses protestos vingou. O Franklin ficou de me dar umas ideias novas, mas já não se faz revolução como antigamente. Ainda que pôr fogo em lata de lixo não derrube presidente. E está pegando mal esse negócio de depredar banco, loja, a rede Globo. Qualquer hora o vento ainda acaba virando a meu favor.

28 DE JULHO_Vou apresentar o Gabrielzinho para a Kate. Ele e o George Alexander Louis têm grau idêntico de fofice

O Brasileiro típico

Na tipologia de Lukács, que distingue entre os personagens que sofrem porque sua consciência é mais ampla que a do meio em que vivem e os que não conseguem abarcar a complexidade do meio, a literatura brasileira criou um terceiro tipo: aquele cuja consciência não está nem acima nem abaixo da realidade, mas ao lado dela, num mundo à parte todo feito de ficções retóricas e afetação histriônica. Em qualquer outra sociedade conhecida, um tipo assim estaria condenado ao isolamento. Seria um excêntrico.
No Brasil, ao contrário, é o tipo dominante: o fingimento é geral, a fuga da realidade tornou-se instrumento de adaptação social. Mas adaptação, no caso, não significa eficiência, e sim acomodação e cumplicidade com o engano geral, produtor da geral ineficiência e do fracasso crônico, do qual em seguida se busca alívio em novas encenações, seja de revolta, seja de otimismo. Na medida em que se amolda à sociedade brasileira, a alma se afasta da realidade — e vice-versa. Ter a cabeça no mundo da lua, dar às coisas sistematicamente nomes falsos, viver num estado de permanente desconexão entre as percepções e o pensamento é o estado normal do brasileiro. O homem realista, sincero consigo próprio, direto e eficaz nas palavras e ações, é que se torna um tipo isolado, esquisito, alguém que se deve evitar a todo preço e a propósito do qual circulam cochichos à distância.
Meu amigo Andrei Pleshu, filósofo romeno, resumia: “No Brasil, ninguém tem a obrigação de ser normal.” Se fosse só isso, estaria bem. Esse é o Brasil tolerante, bonachão, que prefere o desleixo moral ao risco da severidade injusta. Mas há no fundo dele um Brasil temível, o Brasil do caos obrigatório, que rejeita a ordem, a clareza e a verdade como se fossem pecados capitais. O Brasil onde ser normal não é só desnecessário: é proibido. O Brasil onde você pode dizer que dois mais dois são cinco, sete ou nove e meio, mas, se diz que são quatro, sente nos olhares em torno o fogo do rancor ou o gelo do desprezo. Sobretudo se insiste que pode provar.
Sem ter em conta esses dados, ninguém entende uma só discussão pública no Brasil. Porque, quando um brasileiro reclama de alguma coisa, não é que ela o incomode de fato. Não é nem mesmo que exista. É apenas que ele gostaria de que existisse e fosse má, para pôr em evidência a bondade daquele que a condena. Tudo o que ele quer é dar uma impressão que, no fundo, tem pouco a ver com a coisa da qual fala. Tem a ver apenas com ele próprio, com sua necessidade de afeto, de aplauso, de aprovação. O assunto é mero pretexto para lançar, de maneira sutil e elegante, um apelo que em linguagem direta e franca o exporia ao ridículo.
Esse ardil psicológico funda-se em convenções provisórias, criadas de improviso pela mídia e pelo diz que diz, que apontam à execração do público umas tantas coisas das quais é bom falar mal. Pouco importa o que sejam. O que importa é que sua condenação forma um “topos”, um lugar-comum: um lugar no qual as pessoas se reúnem para sentir-se bem mediante discursos contra o mal. O sujeito não sabe, por exemplo, o que são transgênicos. Mas viu de relance, num jornal, que é coisa ruim. Melhor que coisa ruim: é coisa de má reputação. Falando contra ela, o cidadão sente-se igual a todo mundo, e rompe por instantes o isolamento que o humilha.
Essa solidariedade no fingimento é a base do convívio brasileiro, o pilar de geleia sobre o qual se constroem uma cultura e milhões de vidas. Em outros lugares as pessoas em geral discutem coisas que existem, e só as discutem porque perceberam que existem. Aqui as discussões partem de simples nomes e sinais, imediatamente associados a valores, ao ruim e ao bom, a despeito da completa ausência das coisas consideradas.
Não se lê, por exemplo, um só livro de história que não condene a “história oficial” — a história que celebra as grandezas da pátria e omite as misérias da luta de classes, do racismo, da opressão dos índios e da vil exploração machista. Em vão buscamos um exemplar da dita-cuja. Não há cursos, nem livros, nem institutos de história oficial. Por toda parte, nas obras escritas, nas escolas de crianças e nas academias de gente velha, só se fala da miséria da luta de classes, do racismo, de índios oprimidos e da vil exploração machista. Há quatro décadas a história militante que se opunha à história oficial já se tornou hegemônica e ocupou o espaço todo. Se há alguma história oficial, é ela própria.
Mas, sem uma história oficial para combater, ela perderia todo o encanto da rebeldia convencional, pondo à mostra os cabelos brancos que assinalam sua identidade de neo-oficialismo consagrado — balofo, repetitivo e caquético como qualquer academismo. Direi então que açoita um cavalo morto? Não é bem isso. Ela própria é um cavalo morto. Um cavalo morto que, para não admitir que está morto, escoiceia outro cavalo morto. Todo o “debate brasileiro” é uma troca de coices num cemitério de cavalos

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O fascismo do PT contra os médicos

 O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os "judeus do PT".

Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo "descobriu" que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.
E por que os médicos brasileiros "não querem ir"?
A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?
O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer "contrapor" os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.
A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego decente está aquém do investimento na formação.
Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.
Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.
Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.
É um erro achar que "um médico só faz o verão", como se uma "andorinha só fizesse o verão". Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.
Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada "salva vidas". Isso é coisa de cinema barato.
E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre "camaradas". Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.
Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.
É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, "arregaça as mangas" e resolve "salvar o povo".
A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo "salvador da pátria" importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.
Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.
Luis Felipe Pondé