segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Eleita “a executiva mais poderosa do ranking global”, presidente da Petrobras luta para consertar estragos do antecessor, Sergio Gabrielli. Como prêmio, Gabrielli quer ser governador da Bahia

 

A presidenta da Petrobras, Graça Foster, diz que para se chegar onde se quer é preciso esforço e estudo (Foto: Petrobras)
A presidente da Petrobras, Graça Foster, diz que para se chegar onde se quer é preciso esforço e estudo (Foto: Petrobras)

A gerência de imprensa da Petrobras distribuiu na semana passada nota que reproduzo em parte.
Vejam só:
“Pelo segundo ano consecutivo, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, foi apontada pela revista americana Fortune como a executiva mais poderosa do ranking global, concorrendo com mulheres de negócios de diversos setores e países. Tanto em 2012 como em 2013, Graça Foster ficou em primeiro lugar na lista de executivas que atuam fora dos Estados Unidos.
Para elaboração do ranking global das Mulheres mais Poderosas, a Fortune selecionou um grupo de 50 candidatas de diversos países, como Inglaterra, Austrália, Suécia, Turquia, entre outros. A classificação foi baseada em quatro critérios: a importância e o tamanho do negócio liderado pela executiva na economia global; o sucesso e a condução dos negócios; a trajetória de carreira da executiva; e sua influência social e cultural.

Maria das Graças Silva Foster é engenheira química e a primeira mulher a comandar a Petrobras. Assumiu a presidência em fevereiro de 2012. Antes foi diretora de Gás e Energia da Petrobras e presidente da Petrobras Distribuidora, entrou outros cargos executivos. Está há 32 anos no quadro de profissionais de carreira da companhia.
Para ver a lista Global 2013 das 50 Mulheres de Negócios Mais Poderosas da Fortune clique aqui: http://money.cnn.com/magazines/fortune/most-powerful-women/2013/global/ “
Pois muito bem.
Se eu fosse maldoso, diria: “agora, só falta Graça Foster consertar a Petrobras”.
Mas, procurando ser justo, diria que mesmo os críticos do governo reconhecem que Graça Foster, que assumiu a presidência em fevereiro do ano passado, tem feito o possível para recuperar a empresa do estrago que foi a gestão do ex-presidente José Sergio Gabrielli — a mais longa gestão de um presidente da Petrobras (2005-2012) desde a criação da empresa, em 1953.
Gabrielli: depois de gestão ruim na Petrobras, quer como prêmio candidatar-se ao governo da Bahia pelo PT (Foto: diariodepernambuco.com.br)
Gabrielli: depois de gestão ruim na Petrobras, quer como prêmio candidatar-se ao governo da Bahia pelo PT (Foto: diariodepernambuco.com.br)
Gabrielli é o atual secretário do Planejamento da Bahia.

Como prêmio por uma gestão que atrasou a exploração do pré-sal, não conseguiu resolver a pendenga com a Venezuela sobre a construção da refinaria Abreu Lima, em Pernambuco (o chavismo deu um calote no sócio brasileiro e ficou por isto mesmo), fez recuar a apregoada auto-suficiência do país em relação ao petróleo (só até julho deste ano, o país importou o equivalente a 25,8 bilhões de dólares de óleo e derivados), desestimulou a meritocracia na empresa e levou-a a uma brutal desvalorização nas bolsas de valores (em junho passado, a Petrobras havia encolhido, em 12 meses, de um valor de 250,5 bilhões de reais para 198,9 bilhões), Gabrielli, agora, quer ser candidato do PT ao governo da Bahia.

Ricardo Setti

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

‘Avacalhação. Que coisa! Tô ficando velho’

REYNALDO ROCHA
 
Já é avacalhação!
(Avacalhação, segundo o Dicionário WEB, é o ato de bagunçar, promover desordens e permitir algo absurdo do ponto de vista ético e moral).
Já houve um tempo (meninos, eu vi!) em que os assaltos eram cometidos por bandidos com máscaras, para ocultar os rostos. A polícia prendia “aos costumes” pelo crime de vagabundagem (abstrai-se a crueldade com os desempregados). As traições eram consumadas em sigilo.

Hoje, assaltos são planejados nos palácios e comemorados em restaurantes. Reparte-se o butim em gabinetes.
Hoje, a Justiça libera condenados do cumprimento de penas e transforma roubos em crimes menores. E as traições ocorridas em plenários e tribunais são transmitidas ao vivo.
Quer dizer então que, somados, os tempos na TV do PROS e Solidariedade na TV serão equivalentes ao reservado ao do PSDB? Que o PSOL terá metade do tempo do PSC? Que o PR vai ocupar mais espaço que o PSB?
Se isso não é avacalhação, o que é? Lei? Ok, uma lei avacalhada! Os tempos destes nanicos amorais (não me refiro a Celso Amorim) serão usados (vendidos?) para fortalecer o PT. São partidos que não se contam em parlamentares. São partidos-taxímetros.
O assombroso é que deveríamos todos perguntar; “Onde é que estamos? Que tempos são estes?” Sei, estamos no Brasil e são tempos medíocres. Só isto explica a negociata exposta publicamente. O que antes era feito às escondidas hoje é assumido como handicap pelos venais.
Não se sentem envergonhados. Nem há algum repórter que ouse perguntar: “Qual o programa do partido que o SEU partido apoia?”. Ou: “Há discordância entre o que vocês acreditam e o que o partido majoritário prega?”.
Nada. Nem ao menos a pergunta óbvia: “Os eleitores de seu partido foram consultados sobre a aliança?”.
Vale para qualquer partido, qualquer tendência. De oposição e principalmente de situação. O PT criou o PROS em busca de 1 minuto. E de apoios nunca explicados. Idem o Solidariedade de Paulinho da Força Fraca.
São todos amantes que não precisam de motel nem de moita. Preferem as tribunas. E com TV filmando! Se comprazem com a safadeza que deveria – ao menos, em nome de alguma vergonha – ser privada. Ou bidê, tanto faz.
O que vem a ser o PROS? Pros o que? Contras quem?
Só sabemos que Ideli Salvatti esteve à frente (com Fernando Pimentel) desta criação teratológica. Isso já diz tudo.
O SDD (que sigla!) de Paulinho Toda Força registrou como apoiadores (aceitos pelo TSE) até defuntos.
E estão aí, vendendo minutos. Faltam ideias e ideais. Sobra avacalhação. E dinheiro. Pedágio. Suborno. Propina. Capilés (com segundas intenções ninjas, por favor).
Mais uma luta perdida. Como eu, muito se insurgiram contra a contravenção penal da dita vagabundagem em um país de desempregados. Perdemos.
Sinto falta de alguém dizer em alto e bom som: “AOS COSTUMES!”.
Seria um retrocesso penal e jurídico, mas um avanço ético e político.
Senhores que precisam de parlamentares para transformá-los em segundos, por favor, fiquem atentos: “AOS COSTUMES!”

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ler, escrever e fazer contas são mistérios para maioria dos alunos do ensino fundamental brasileiro

Quase 70% dos estudantes concluem o 3º ano do ciclo sem dominar competências básicas de redação e cálculo, comprova Prova ABC
Lecticia Maggi
'Vestibulinhos' para ingresso no primeiro ano do ensino fundamental estão proibidos
Estudantes do 3º ano do ensino fundamental não sabem o mínimo esperado (Thinkstock)

Quase 70% dos estudantes brasileiros concluem o 3º ano do ensino fundamental sem dominar competências básicas de escrita e matemática. Mais da metade não sabe ler no nível adequado a um aluno dessa etapa escolar. O alarme foi dado nesta terça-feira pela organização não-governamental Todos Pela Educação, que analisou os resultados da Prova ABC — avaliação aplicada no final de 2012 a 54.000 alunos do 2º e 3º anos de 1.185 escolas públicas e privadas de todos os estados brasileiros.

Leia também:
Brasil aparece em penúltimo em ranking de educação
37% das cidades não atingem metas do IdebCom mais dinheiro, educação decepciona

Ensino médio brasileiro era ruim. E está pior

O estudo é mais uma confirmação de que o ensino vai mal no Brasil. Além disso, comprova que o país está muito longe de atingir as metas estipuladas pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). Lançado em julho 2012 pelo governo federal, o Pnaic é um compromisso entre estados, municípios e União que tem como objetivo garantir que toda criança esteja plenamente alfabetizada até os 8 anos de idade.
A situação da escrita não é mais favorável do que as de matemática e leitura. Em nenhum estado a parcela de estudantes que dominam a competência é superior a 50%. Longe disso: no Pará, por exemplo, somente 11,6% dos estudantes atendem aos quesitos da avaliação. "Uma criança alfabetizada não é aquela que está aprendendo a ler, mas aquela que demonstra capacidade de ler para aprender. Ou seja, possui as habilidades básicas para continuar avançando no conteúdo escolar", afirma Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos pela Educação.
Em matemática, tradicional bicho-papão dos estudantes brasileiros, só 33,3% dos alunos do 3º ano atingiram o nível de conhecimento esperado: 175 dos 250 pontos possíveis. Segundo avaliação da prova — e do governo, portanto —, quem não atingiu a marca de proficiência (175 pontos) não consegue resolver problemas envolvendo moedas ou unidades padronizadas, como litros ou quilos, tampouco ler horas em um relógio digital, associando 20h com 8h da noite, por exemplo.

O levantamento mostra que há regiões do país onde a situação do ensino é ruim, e outras onde é péssima. As regiões Sul e Sudeste são as únicas em que mais da metade das crianças, ao término do 3º ano, possui proficiência em leitura. No Norte, o porcentual é de 27,3%. Proficiência, na definição da própria Prova ABC, significa capacidade de localizar informações explícitas em um texto e de identificar temas e características de personagens em fábulas e histórias em quadrinhos, entre outras habilidades.
Há grande discrepância também entre estados. Enquanto em São Paulo as crianças com proficiência em leitura somam 60%, no Amapá e no Pará, elas representam menos de um quarto do total de alunos. O mesmo cenário se repete quando analisadas as demais habilidades: em Minas Gerais, 49,3% dos alunos do 3º ano aprenderam o esperado em matemática, contra 9,7% no Amazonas. Já no item escrita, a discrepância maior de aprendizado é verificada entre Goiás (42,1%) e Pará (11,6%). "Isso mostra que a desigualdade educacional no país começa já no início da vida escolar do aluno. É algo gravíssimo", afirma Priscila Cruz. "O Brasil não pode tratar como iguais regiões e estados tão diferentes. É preciso intervir para garantir que essas crianças tenham direito à aprender".

Prova ABC – Parceria entre o movimento Todos Pela Educação, a Fundação Cesgranrio, o Ibope e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a Prova ABC foi aplicada pela primeira vez em 2011. Os dados daquele ano, no entanto, não são comparáveis aos divulgados agora. Isso porque, naquela ocasião, a prova foi realizada por alunos do primeiro semestre do 4º ano — na presente edição, os estudantes cursavam o segundo semestre do 3º ano.
A prova ABC é composta por cinquenta questões de matemática e cinquenta de leitura, divididas em blocos de dez. Cada aluno respondeu a vinte itens de uma das duas áreas e todos realizaram a redação.
Essa foi a última edição do exame. Em razão da criação do Pnaic, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que usará um instrumento próprio de verificação do aprendizado dos alunos, a Avaliação Nacional de Alfabetização (Ana). A expectativa é que a Ana seja aplicada neste ano a todos os concluintes do 3º ano do ensino fundamental na rede pública de ensino.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Biógrafo de Clarice pede que Caetano mude posição sobre biografias; leia carta

  Caro Caetano,

Nos EUA, quando eu era menino, havia uma campanha para prevenir acidentes na estrada. O slogan rezava: "Amigos não deixam amigos bêbados dirigir". Lembrei disso ao ler suas declarações e as de Paula Lavigne sobre biografias no Brasil. Fiquei tão chocado que me sinto obrigado a lhe dizer: amigo, pelo amor de Deus, não dirija.
Nós nos conhecemos há muitos anos, desde que ajudei a editar seu "Verdade Tropical" nos EUA. Depois, você foi maravilhoso quando lancei no Brasil a minha biografia de Clarice Lispector, escrevendo artigos e ajudando com o alcance que só você possui. Admiro você, de todo o meu coração.
E é como amigo e também biógrafo que te escrevo hoje. Sei que você sabe da importância de biografias para a divulgação de obras e a preservação da memória; e sei que você sabe quão onerosos são os obstáculos à difusão da cultura brasileira dentro do próprio Brasil, sem falar do exterior.
Fico constrangido em dizer que achei as declarações suas e da Paula, exigindo censura prévia de biografias, escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura do Brasil. Para o bem dessa mesma cultura, preciso dizer por quê.
Primeiro, achei esquisitíssimo músicos dizerem que biógrafos querem ficar com "fortunas". Caetano, como dizem no Brasil: fala sério. Ofereço o meu exemplo. A biografia de Clarice ficou nas listas de mais vendidos em todo o Brasil.
Mas, para chegar lá, o que foi preciso? Andei por cinco anos pela Ucrânia, pela Europa, pelos EUA, pesquisando nos arquivos e fazendo 257 entrevistas. Comprei centenas de livros. Visitei o Brasil 12 vezes.
Fiquei contente com as vendas, mas você acha que fiquei rico, depois de cinco anos de tais despesas? Faça o cálculo. A única coisa que ganhei foi a satisfação de ver o meu trabalho ajudar a pôr Clarice Lispector no lugar que merece.
Tive várias vantagens desde o início. Tive o apoio da família da Clarice. Publico em língua inglesa, em outro país.Tenho a sorte de ter dinheiro próprio. Imagine quantos escritores no Brasil reúnem essas condições: ninguém.
Mas a minha maior vantagem foi simplesmente ignorância.
Não fazia ideia das condições em que trabalham escritores e jornalistas brasileiros. Não sabia quanto não se pode dizer, num clima de medo que lembra a época de Machado de Assis, em que nada podia ofender a "Corte".
Aprendi, por exemplo, que era considerado "corajoso" escrever uma coisa que todo mundo no Brasil sabe há quase um século, que Mário de Andrade era gay. Aprendi que era até inusitado chamar uma cadeira de Sergio Bernardes de feia.
Aprendi o quanto ganham escritores, jornalistas e editores no Brasil, e quanto os seus empregos são inseguros, e como são amedrontados por ações jurídicas, como essas com que a Paula, tão bregamente, anda ameaçando.
É um tipo de censura que você talvez não reonheça por não ser a de sua época. Não obriga artistas a deixarem o país, não manda policiais aos teatros para bater nos atores. Mas que é censura, é. E muito mais eficaz do que a que existia na ditadura. Naquela época, as obras eram censuradas, mas existiam. Hoje, nem chegam a existir.
Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Para só falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?
Eu queria fazer. Mas não vou. Porque o clima no Brasil, financeiro e jurídico, torna esses empreendimentos quase impossíveis. Quantos escritores brasileiros estão impedidos de escrever sobre a história do seu país, justamente por atitudes como as suas?
Por isso, também, essas declarações, de que o biógrafo faz isso só por amor ao lucro, ficam tão pouco elegantes na boca de Paula Lavigne. Toda a discussão fica em torno de nossas supostas "fortunas".
Você sabe que no Brasil existem leis contra a difamação; que um biógrafo, quando cita uma obra ainda com "copyright", tem obrigação de pagar para tal uso. Não é diferente de você cantar uma música de Roberto Carlos. Essas proteções já existem, podem ser melhoradas, talvez. Mas etsamos falando de uma coisa bem diferente da coisa que você está defendendo.
De qualquer forma, essas obsessões com "fortunas" alheias fazem parte do Brasil do qual eu menos gosto. Une a tradicional inveja do vizinho com a moderna ênfase em dinheiro que transformou um livro, um disco, uma pintura em "produto cultural".
Não é questão de dinheiro, Caetano. A questão é: que tipo de país você quer deixar para os seus filhos? Minha biografia foi elogiosa, porque acredito na grandeza de Clarice. Mas liberdade de expressão não existe para proteger elogios. Disso, todo mundo gosta. A diferença entre o jornalismo e a propaganda é que o jornalismo é crítico. Não existe só para difundir as opiniões dos mais poderosos. E essa liberdade ou é absoluta, ou não existe.
Imagino, e compreendo, que você pense que está defendendo o direito dos artistas à vida privada. Mas quem vai julgar quem é artista, o que é vida privada e o que é vida pública, sobre quem, e sobre o que se pode escrever e sobre quem e, sobre quem não? Você escreve em jornal, você, como o artista deve fazer, tem se metido no debate público. José Sarney, imortal da Academia Brasileira das Letras, escreve romances. Deve ser interditada também qualquer obra crítica sobre ele, sem autorização prévia?
Não pense, Caetano, que o seu passado de censurado e de exilado o proteja de você se converter em outra coisa. Lembre que o Sarney, quando foi eleito governador do Maranhão, chegou numa onda de aprovação da esquerda. Glauber Rocha, também amigo seu, foi lá filmar aquela nova aurora.
Não seja um velho coronel, Caetano. Volte para o lado do bem. Um abraçaço do seu amigo,
Benjamin Moser

terça-feira, 8 de outubro de 2013


Prefeitos despreparados tem levado a falência da educação no Brasil

Um novo estudo do Fórum Econômico Mundial mostra que o estado lastimável da educação talvez seja o mais grave entre todos os entraves ao pleno desenvolvimento profissional e pessoal dos brasileiros.
O Fórum mediu pela primeira vez o chamado "capital humano" de 122 países. A expressão resume a capacidade, os talentos e o conhecimento dos trabalhadores para gerar valor.
Quando o tema é educação, o Brasil despenca para a 88.ª colocação. Entre os latino-americanos, perde até mesmo da Venezuela (75.º) e da Bolívia (86.º), países que, no ranking geral, aparecem entre os últimos - os venezuelanos em 101.º e os bolivianos em 99.º.
Tal resultado desastroso não surpreende. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012 mostrou que o analfabetismo no Brasil voltou a crescer, após apresentar constante queda desde 1998. Segundo o IBGE, ainda há 27,8 milhões de brasileiros acima de 15 anos de idade, ou 18,3% do total, que têm menos de quatro anos de estudo. Além disso, 11,9% da população com mais de 25 anos tem menos de um ano de estudo ou nenhuma instrução.
Esse quadro atesta o fracasso da educação brasileira ante o desafio de preparar o País para os tempos ultracompetitivos que se avizinham. Essa vergonhosa situação não passou despercebida pelos pesquisadores do Fórum Econômico Mundial.
Ao abordar esse pilar, o estudo sobre capital humano mostra o Brasil em 105.º lugar quando se mede a qualidade de todo o sistema educacional. A colocação é igualmente constrangedora no que diz respeito à qualidade das escolas primárias (109.º) e do ensino de matemática e ciências (112.º).
Parte da responsabilidade por esse estado calamitoso da nossa educação é de responsabilidade dos prefeitos, que após vencerem as eleições, promovem um festival de demissões e remanejamento de pessoal sem atentar para os direitos fundamentais desses funcionários, colocando pessoal desqualificado para lecionar atendendo a interesses eleitoreiros.
É o que está ocorrendo, por exemplo, no município de Ibititá, na região de Irecê-Ba. Naquele pequeno município a Educação está vivenciando um dos seus piores períodos. No dia 8 de agosto os professores decidiram paralisar suas atividades, para cobrar seus direitos que lhes foi retirado violentamente. O prefeito Cafu Barreto se nega a pagar a gratificação por deslocamento para professores que ensinam na Zona Rural, ou locais de difícil acesso; e também, a gratificação por certificação, que nada mais é que, uma gratificação que é conquistada pelos professores por ter estudado, e se aperfeiçoado, para poder trabalhar. Além do retroativo referente ao salário de janeiro, e o terço de férias, garantindo a todos os trabalhadores brasileiros.
E também, a redução de carga horária de professores enquadrados em regime de 40 horas, direito garantido na Lei do Estatuto do Magistério, distribuindo algumas dessas aulas a pessoas que não fazem parte do quadro efetivo, e até mesmo sem formação para lecionar.
O prefeito, com a plena aquiescência de sua Secretária de Educação  também tem promovido a transferência de professores de forma desnecessária, indevida, injustificada, e ilegal, contrariando a Lei do Estatuto do Magistério. Essa rotatividade de professores tem causado danos a qualidade da educação, e ao desenvolvimento da aprendizagens dos alunos.
Eis aí resumidamente, um dos problemas enfrentados  hoje pelo Ministério da Educação para implementar sua política educacional, de molde a elevar o país a um patamar condizente com sua situação de país emergente no cenário mundial. Um sistema educacional que dependa dos humores de um prefeito de uma cidadezinha encravada no Polígono das Secas, não tem muito futuro. Notadamente quando a Câmara de Vereadores não fiscaliza nada, e permite ao prefeito praticar sua política coronelista, que achava-se extinta ainda em meados do século XX.

 
 

Enquanto Dilma exaltava as “manifestações” no Programa do Ratinho, o pau comia no Rio e em São Paulo. Estava escrito na estrela


Tomei uma decisão editorial. Sempre que eu escrever sobre a barbárie promovida por fascistas mascarados, a primeira imagem do meu texto será essa. Sim, é Caetano Veloso. Ele é favorável à censura prévia no caso das biografias, mas contra a repressão aos black blocs. Aos fatos da hora.
Enquanto o pau comia nas ruas em São Paulo e no Rio, Dilma Rousseff concedia uma entrevista a Ratinho. Não há nada de errado com o apresentador. Faz o trabalho dele. A questão é saber se ela faz o dela.
Enquanto a presidente dizia no SBT que “os protestos fazem parte do processo da democracia e da evolução social do Brasil”, os mascarados do Black Bloc faziam isto em São Paulo.
Black blocs destroem e viram carro da PM em SP (Foto: Eduardo Anizelli-Folhapress)
Enquanto a presidente dizia a Ratinho que os protestos “têm um sentido positivo”, os black blocs faziam isto no Rio.
Black blocs incendeiam ônibus no Rio (Foto Marcelo Sayão-EFE)
Enquanto a presidente fazia poesia e garantia que os manifestantes querem “mais garantias de direitos” e “mai democracia”, na capital fluminense, assistia-se a esta beleza:
Agência bancária é depredada no Rio por black blocs (foto: Christophe Simon-AFP)
Bomba incendiária é lançada contra a Assembleia Legislativa do Rio (Foto: Pablo Jacob – Agência O Globo)
Enquanto a presidente interpretava os tais protestos como coisa de gente que quer sempre avançar, os “avançados” faziam coisas como esta:
No Rio, Blac blocs acendem coquetel molotov para lançar contra PMs (Foto: Christophe Simon-AFP)
Em SP, os black blocs lançam com estilingue artefato incendiário contra policiais (foto: Fábio Braga-Folhapress)
Então vamos ver
O que você sente, leitor amigo, telespectador amigo, quando repórteres e apresentadores de TV recorrem à expressão “manifestação pacífica”? Não está cansado dessa ladainha, dessa mentira escancarada, dessa pilantragem jornalística? Estão querendo enganar a quem? Nesta segunda, a violência estava inscrita na própria convocação dos atos, desde o começo. Questionei aqui: que sentido fazia marcar um protesto em São Paulo em apoio aos grevistas do Rio?
Era o PSOL, que invadiu a Reitoria da USP, se solidarizando com o PSOL que comanda a absurda greve dos professores no Rio. Tanto lá como cá, contava-se com a colaboração dos black blocs, não é? No Rio, como numa desfile de escola de samba, criou-se uma comissão de frente, com jovens e uma criança, batizada de “Tropa dos Prof”. Parte da imprensa carioca delirou, achou lindo, achou demais, fez poesia, babou de satisfação. Às vezes, tenho a impressão de que há mais black blocs nas redações do que nas ruas. Vejam a foto.
Comissão da Frente da Escola Unidos do Reacionarismo, que fez delirar parte da imprensa carioca (Foto: Christophe Simon-AFP)
Logo atrás, vinha uma outra ala, a dos… black blocs propriamente. E, como é de seu feitio, mandavam a polícia se f…r.
Black blocs estavam na manifestação dos professores desde o começo: eram uma ala do desfile (Foto: Cristophe Simon-AFP)
Respondam, senhores apresentadores de TV.
Respondam, senhores jornalistas de TV.
Respondam, senhores editores de TV.
Respondam, senhores diretores de jornalismo de TV.
Quem, planejando uma “manifestação pacífica”, aceita a colaboração dos black blocs já na própria organização do suposto ato de protesto?
O chato é que a condescendência com a violência e com a desordem não muda o espírito dos que odeiam a imprensa livre e o jornalismo, como se vê na foto abaixo.
Black blocs e professores fundidos num grupo só: hostilidade injustificada à TV Globo
Embora a Globo faça uma cobertura dos eventos de rua que, para ser ameno, é “amigável” com os protestos, os trogloditas continuam a satanizá-la. Se, amanhã, num ato de delírio extremo, a emissora passasse a tratar os black blocs como heróis, eles a acusariam de tentativa de cooptação. Não existem nem amenidade nem adesão o bastante para a fome do gigante.
País estúpido
Leiam este trecho em azul.
A grande mentira é esta: as manifestações nunca foram pacíficas, desde o início. Depois que se decretou que a “culpa é da polícia” e que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, debaixo de uma artilharia como nunca se viu, foi obrigada a declarar qualquer área da capital território livre para as manifestações — “sem repressão” —, estava, para lembrar imagem que usei aqui, aberta a Caixa de Pandora. Como no mito, só a esperança ficou grudada ao fundo. Os males do mundo escaparam todos.
Mais: teve início outra tese ridícula — a da “maioria pacífica”, uma espécie, como direi?, tautologia conceitual. Quando a maioria não é pacífica, o que se tem é revolução. Aliás, também as revoluções são feitas por minorias. A questão é saber se elas são ou não usadas como instrumento de luta. Ou foram os “pacíficos” que empurraram os governadores e prefeitos contra a parede?
(…)
O governo federal está recuperando a ofensiva no terreno político, e não há muito o que a oposição possa fazer. Com as pessoas comuns um pouco assustadas e de volta a seus lares, sobraram nas ruas a turma da porradaria e os radicais de esquerda, que já se mobilizam para dirigir de modo mais claro os ataques contra a imprensa — a mesma que incensou o movimento. E desqualifico, mais uma vez, uma mentira estúpida: o jornalismo não entrou nessa “para derrubar Dilma”, não! Entrou porque não resiste a qualquer coisa que tenha cheiro de povo.
(…)
Vá lá na Suécia e diga que tudo vale a pena se a disposição não é pequena para ver o que acontece. Lembram-se do furacão Katrina, nos EUA? As vítimas foram mandadas para escolas e alojamentos. Todos estavam unidos na tragédia, não é? Os idealistas esperavam solidariedade, a ajuda mútua etc. As Forças Armadas americanas estavam lá. Mesmo assim, começaram a se multiplicar os casos de estupro, e as autoridades alertaram: “Protejam-se; não temos como evitar esses atos”.
“Ah, então o povo, deixado por sua própria conta…” Sim, é isso mesmo! É por isso que existem governos e pactos sociais. O estado não precisa ser o Leviatã, não! Mas precisa ter legitimadas as suas forças de contenção. Ou é a guerra de todos contra todos. Uma coisa é criticar os maus policiais; outra, como se fez, é deslegitimar as polícias. É visível que as PMs do Brasil inteiro estão com medo de agir. Os policiais temem parar atrás das grades por cumprir sua função.
Se a amiga da presidente Dilma, a tal Rosa Maria, da Comissão da Verdade, elege as PMs como inimigas do povo e dos direitos humanos, então está declarado o vale-tudo. Vale-tudo que setores da imprensa pediram e aplaudiram. E agora? Agora são as próximas vítimas.
Retomo
Este é trecho de um post que escrevi aqui no dia 27 de junho de 2013, há mais de três meses. Quem se orienta segundo princípios inegociáveis não precisa esperar o desenrolar os fatos para dizer “não” ao que merece “não”. E eu digo “não” à violência que é dirigida contra as balizas do regime democrático.
VOCÊS SABEM QUE JAMAIS ME DEIXEI LEVAR PELO CANTO DA SEREIA, NÃO É? APANHEI MUITO POR ISSO, INCLUSIVE DE ALGUNS LEITORES HABITUAIS DO BLOG.
“É necessário ficar lembrando o que você escreveu?” É, sim! Não é sem um custo razoável que se afirmam certas coisas, na contramão, na contracorrente, quando há quase uma unanimidade em sentido contrário. É preciso ter memória.
Volto a Dilma
Na entrevista ao Ratinho, Dilma afirmou que, sem as manifestações, talvez o governo não tivesse conseguido aprovar os 75% dos royalties do pré-sal para a educação e 25% para a saúde e criar o programa “Mais Médicos”. Num caso, conta-se com o ovo na barriga da galinha. No outro, como é sabido, o programa já estava em curso e nada tinha a ver com a saúde dos brasucas, e sim com os cofres de Cuba. Isso é o de menos. O que importa é que o governo se desvinculou dos protestos, como antevi que aconteceria ainda em junho, e largou a barbárie para ser resolvida pelas Polícias Militares, que, prudentemente, cansaram de ser vítimas das milícias politicamente corretas das redações.
Se setores da imprensa, a exemplo de Caetano Veloso, acham que os black blocs “fazem parte”, por que seriam os homens de farda a dizer que não? Eles, convenham, pertencem àquele grupo que detém o monopólio do uso legítimo da força. Se os “companheiros” da imprensa acham que esse monopólio foi transferido para os outros fardados, os mascarados, não há muito o que os policiais, que são apenas o povo de farda, possam fazer. Os respectivos comandos das PMs deveriam mandar seus homens saírem às ruas distribuindo rosas & poesias.
Por Reinaldo Azevedo

‘Descida ao inferno’

J. R. GUZZO
 
A desgraça narrada a seguir é real, está baseada em fatos públicos e chegou, alguns anos atrás, a causar certa comoção neste Brasil de hoje, que parece a caminho de se transformar em um dos países a ser estudados com maior atenção, algum dia, por possíveis pesquisadores de uma história mundial da infâmia. Trata-se de um episódio chocante por sua crueldade em estado puro, e o resultado inevitável de uma conspiração não declarada dos agentes do poder público para permitir a prática aberta dos delitos mais selvagens — por serem eles mesmos os autores dos crimes, ou pelo uso que fazem da letra da lei para livrar os envolvidos de qualquer risco de punição. Acontece quase todos os dias, em todo o Brasil, sob a indiferença absoluta das mais altas autoridades e a proteção de um conjunto de leis escritas com o objetivo de praticamente abolir a culpa na Justiça penal brasileira. Não há remédio conhecido contra isso.

Ainda recentemente a repórter Branca Nunes, da edição digital de VEJA, fez uma reconstrução passo a passo da tenebrosa descida ao inferno aqui na terra, entre outubro e novembro de 2007, de uma menina de 15 anos, L.A.B., presa sob a acusação de furtar um telefone celular numa cidade do interior do Pará, a 100 quilômetros de Belém, e punida segundo a hermenêutica que vale no Brasil real. O propósito da reportagem era mostrar, seis anos depois, que fim tinham levado os personagens centrais da história ─ um símbolo fiel de aberrações praticamente idênticas que acontecem a cada dia neste país, e do tratamento-padrão que recebem do poder público. A visita a essa tragédia “confirmou o apronto”, como se dizia na linguagem do turfe. Nada de embargos infringentes para L.A.B. Nada de advogado “Kakay” pregando em seu favor. Nada de todo esse maravilhoso facilitário que faz da lei brasileira um milagre permanente em benefício dos ricos, poderosos e influentes ─ e transforma culpa em mérito, como Cristo transformou água em vinho. Tudo, naturalmente, em favor dos responsáveis por sua agonia.
L.A.B., como relata a reportagem, foi apanhada na cidade de Abaetetuba tentando furtar um celular e uma correntinha de prata pertencentes, para seu azar, ao sobrinho de um investigador de polícia da delegacia local. Chamados pelo rapaz, o tio e dois colegas levaram a garota, um toco de gente com menos de 40 quilos de peso e 1,5 metro de altura, para a delegacia da cidade ─ onde foi trancada numa cela com mais de vinte homens. L.A.B. ficou 26 dias presa, durante os quais foi estuprada regularmente, cinco ou seis vezes por dia. Não se cogitou no seu caso na possibilidade, digamos, de uma prisão domiciliar, alternativa que o bondoso ministro Celso de Mello, do STF, acaba de abrir, em nome do cumprimento rigorosíssimo da lei, para gigantes de nossa vida política condenados no mensalão. Não se cogitou, sequer, no fato de que ela era menor de idade, que não podia ser presa nem, menos ainda, jogada num xadrez exclusivamente masculino. L.A.B., na verdade, foi presa dentro da prisão: arrastada para o fundo da cela, de onde não podia ser vista, tinha a sua miserável comida confiscada pelos outros presos, que só lhe permitiam comer se não desse trabalho durante os estupros. Não tinha direito a prato — precisava pegar sua comida direto do chão. À noite, era acordada por chamas de isqueiro ou pontas de cigarro, quando algum dos presos requeria os seus serviços. A título de ilustração, um deles, o mais ativo de todos, respondia pelo apelido de “Cão”. Que tal?
O mais interessante do caso, talvez, é que as autoridades locais legalizaram, a seu modo, todo o procedimento. A delegada Flávia Verônica Pereira autorizou a prisão de L.A.B. quando a menina lhe foi entregue pelos investigadores que a capturaram. Dois dias depois, a juíza Clarice Maria de Andrade assinou seu auto de prisão em flagrante, sabendo perfeitamente, como a delegada, o que iria acontecer na cela lotada de machos. O desfecho da história é um retrato admirável do Brasil de 2013. Quando o caso começou a fazer ruído na imprensa, L.A.B. foi solta ─ e desde então, nestes seis anos, nunca mais se ouviu falar dela. Os únicos punidos foram “Cão” e um de seus comparsas, que já estavam presos. A juíza Clarice, a mais graduada responsável pelo episódio, não sofreu processo penal. Foi apenas aposentada, mas recorreu até chegar ao STF ─ que anulou em 2012 a punição, por julgá-la “excessiva”. Hoje a doutora Clarice é juíza titular em outra comarca do Pará.
Este é o Brasil que não muda