sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dsicípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis


by José Maria e Silva
Em sua arbitrária simplificação de Machado de Assis, em que comete erros primários de intepretação de texto, a escritora-empresária Patrícia Secco embrutece o espírito do leitor ao falsear o mestre e descaracterizar seus personagens
Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela “O Alienista”, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de “Papéis A­vulsos”, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de “O Alienista”, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.
“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da “Folha de S. Paulo”. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: “O Alienista”, de Machado de Assis, e “A Pata da Gazela”, de José de Alencar.
A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica “Uma História da Leitura”, o argentino-canadense Alberto Manguel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeia “Polychronicon”, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.
Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoiévski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel Antônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: “O bom adaptador não falseia o original”.

Facilitação de Machado nega o escritor

Paulo Freire: pedagogia análoga à escravidão condena o pobre à fala de tijolo, como se um operário não pudesse ouvir estrelas
Paulo Freire: pedagogia análoga à escravidão condena o pobre à fala de tijolo, como se um operário não pudesse ouvir estrelas
Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século depois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo “O Alienista”, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do “Estadão”, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.
Com sua adaptação de “O Alienista”, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.
Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler “O Alienista” — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?

Censo de 1872 abalou a literatura brasileira

O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro “Limites”, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Patrícia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises da “Carta de ABC”, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Macaúbas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por alguém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Como Mocinha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o menino Graciliano, enfezado vivente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de Alencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.
Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na “Folha de S. Paulo”, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese “Os Leitores de Machado de Assis” (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.
Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-ins­tituição, encarnada na Acade­mia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, no­meando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mes­ma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No pró­prio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitanguy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.
E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais “O Guarani” pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.
Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se an­gus­tiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da li­teratura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e re­servando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.

Simplificar livros agrava o problema da leitura

Escritora-empresária Patrícia Secco: R$ 10 milhões captados no Ministério da Cultura e produção de literatura infanto-juvenil em ritmo industrial
Escritora-empresária Patrícia Secco: R$ 10 milhões captados no Ministério da Cultura e produção de literatura infanto-juvenil em ritmo industrial
Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?
Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.
Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de “O Alienista” de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apre­sentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.

Machado de Assis para consumo próprio

Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de “O Alienista”, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da “Folha”, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.
A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.
Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!

Deturpando o enredo e a história

Na arbitrária simplificação de “O Alienista”, com erros de interpretação de texto, escritora embrutece espírito do leitor ao falsear estilo machadiano
Na arbitrária simplificação de “O Alienista”, com erros de interpretação de texto, escritora embrutece espírito do leitor ao falsear estilo machadiano
Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qual­quer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.
Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Ma­chado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o ca­pitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Indepen­dência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.
Uma das admiráveis qualidades do conto “O Alienista” é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.
Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção “O Gondoleiro do Amor”, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O conflito da Ucrânia com a Rússia

 A palavra Ucrânia deriva do eslavo antigo ukraina, que significa “região de fronteira”. Esse país de 45 milhões de habitantes, que até 1991 marcava a fronteira ocidental da extinta União Soviética, foi a região que sofreu mais abusos do ditador comunista Josef Stalin. Entre 1932 e 1933, Stalin planejou e executou contra os ucranianos – que ele via como um povo orgulhoso e nacionalista demais para seu gosto – o mais cruel plano de genocídio da história contemporânea. A Ucrânia foi isolada pelas tropas soviéticas. Mais de 5 000 intelectuais foram deportados e mortos em campos de concentração. A população foi privada de todos os meios de sobrevivência. Metodicamente, a policia soviética confiscou todo o gado, toda a produção de trigo. Famílias pegas com trigo estocado em casa eram sumariamente fuziladas. No auge da campanha de terror, 25 000 ucranianos morriam de fome por dia. Em dois anos, Stalin matou a tiros ou de fome 10 milhões de pessoas na Ucrânia. A censura interna e eficiente propaganda comunista no Ocidente esconderam durante décadas esse hediondo crime contra a humanidade. Com o fim da tirania soviética, a verdade foi aos poucos sendo restabelecida, mas só em novembro de 2006 o Parlamento da Ucrânia aprovou a lei que reconheceu oficialmente o genocídio premeditado por Stalin e tornou ilegal negar sua existência. É esse país que, agora, a Rússia quer manter em órbita pressionando Viktor Yanukovich, presidente ucraniano, a desistir de assinar um acordo de livre-comércio e associação com a União Europeia. O documento, que vinha sendo negociado fazia seis anos, abriria caminho para a Ucr}ania se tornar um dos membros do bloco. Milhares de pessoas ocuparam a Praça da Independência, no centro de Kiev, e pediram a renuncia de Yanukuvich, a uma temperatura de 11 graus negativos. O presidente frustrou as esperanças de modernização, reabrindo as feridas do genocídio stalinista e reavivando o pesadelo da vida sob a para do urso soviético. Vladimir Putin, presidente da Rússia, decidiu que a Ucrânia tem de se unir não à Europa, mas à União Eurasiana, zona de livre comércio que inclui o Cazaquistão e a Bieloruússia. Putin mostrou os dentes à moda antiga, ameaçando, caso contrariado, cortar o fornecimento de gás natural à Ucrânia. “É assim que Moscou trata as antigas repúblicas soviéticas”, diz Kataryna Wolczuk, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Prefeito tem como certa a aprovação de suas contas pela Câmara de Vereadores

Paulo Maracajá, presidente do Tribunal de Contas dos Municípios, fez as seguintes considerações a respeito do julgamento de contas das prefeituras e Câmaras de Vereadores: “As contas dos prefeitos são rejeitadas. A Câmara vai julgar se nós estamos certos ou não? Nós que inclusive fiscalizamos as contas da Câmara? Isso é uma incoerência. E se a Câmara disser que as contas estão certas, nosso parecer ficaria como? É um absurdo e um contrassenso. Já quando nós julgamos a Câmara Municipal, de qualquer uma que seja não há recurso para isso. Somos a última instância disso. Mas prefeitura não. Prefeitura ainda tem como último recurso a Câmara Municipal.” Essa introdução vem por conta do verdadeiro descalabro em que se tornou a administração municipal de Morro do Chapéu. São dois anos alternados em que a prefeitura tem suas contas rejeitadas pelo TCM, bem como a da Câmara de Vereadores que decidiu embarcar na nau dos insensatos. Como frisou Paulo Maracajá, a prefeitura conta com a Câmara para dar a parecer final sobre a rejeição. É por isso que o prefeito foi numa emissora de rádio local, explicar esse detalhe, com muita satisfação por sinal, pois deixou claro que elas serão aprovadas como sempre foram em todas as administrações. É um acinte, uma prova inequívoca do desprezo pela opinião pública cultivada pelo atual prefeito, eleito que foi por uma margem mínima de votos numa demonstração cristalina da vontade de mudança desejada pela população morrense. Essa falta de transparência, de respeito pelo contribuinte, vem de longa data. Contas reprovadas vem desde o tempo a administração de Wilson Mendes Martins. Como naquele tempo não havia a Lei de Responsabilidade Fiscal e a exigência de limites máximos aplicados ao Fundef, Saúde e pagamento do funcionalismo público, criados no governo de Fernando Henrique Cardoso, as contas da prefeitura eram reprovadas em determinados itens e não sofria sanções que tornassem o prefeito inelegível. A LRF só passou a vigorar a partir de maio de 2000. Antes disso o ex-prefeito Aliomar da Rocha Soares conseguiu o feito inédito de ver suas contas reprovadas em todos os itens em 1999. Campeão de contas reprovadas pelo TCM, o ex-gestor teve suas contas rejeitadas nos anos de 2005 e 2008, constando como inelegível pelo TCE e TCU. O ex-prefeito Edgar Dourado Lima foi igualmente punido pelo TCM em 2003, Cleová Barreto em 2010 e 2012 e os presidentes da Câmara Erasmo Lúcio Rocha Barreto (2004) e João Humberto Batista (2010 e 2012). Como veem é uma situação insustentável que conta com a leniência da Câmara de Vereadores que não move um dedo para tentar sanar esse descalabro administrativo. Como se sabe a Câmara é o órgão fiscalizador das contas da prefeitura, bem como a do presidente que a comanda. Não podendo dar um basta extinguindo essa casa legislativa, os eleitores estão cada vez mais exigentes na proposta de apoio a candidato a vereador. Exigente no aspecto financeiro, bem entendido. A cada renovação de mandato, o eleitor pede cada vez mais: dinheiro, telhas, tijolos, portas, janelas, pagamento de contas de luz e água, emprego para um filho; tudo isso porque ninguém acredita mais em propostas políticas de uma classe cada vez mais desprezada, com raras e honrosas exceções.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PT: um partido que endossa o crime


Fonte: GLOBO
Há quem tente jogar todos no mesmo saco podre. Há, ainda, quem tente enaltecer a postura ética do PT, posição insustentável após a passagem pelo governo. Mas o fato é o seguinte: quem ainda tem vergonha na cara não pode mais permanecer em um partido que, em vez de seguir o próprio estatuto e expulsar criminosos presos, sai em público para defendê-los!
O que o PT fez em seu quinto congresso, com as presenças de Lula e Dilma, foi um ato vergonhoso. Claro que o histórico petista já era vergonhoso antes disso, sendo o mensalão seu ápice. Mas esperava-se, ao menos, um mínimo de compostura diante da situação. O próprio ex-presidente Lula tinha dito que não ia se manifestar agora sobre o assunto. Mas não consegue se controlar.
Para uma plateia inflamada de cúmplices ideológicos dos criminosos presos, o ex-presidente disse:
Nosso partido tem sido vítima das suas virtudes e não só de seus defeitos. Somos criticados pelas coisas boas que fazemos, não só pelos erros. Se for comparar o emprego do Zé Dirceu no hotel com a quantidade de cocaína no helicóptero, pelo menos houve uma desproporcionalidade na divulgação do assunto.
Tem que ter muito pouco apreço pela verdade e até pelos quase 90% de entrevistados simpatizantes do próprio PT que aprovam a prisão dos mensaleiros, para desviar tanto assim o foco da questão. O que tem alho com bugalhos? Não só a imprensa deu bom destaque ao helicóptero apreendido com drogas, como tem mais do que direito – tem a obrigação de investigar e relatar uma proposta de emprego tão suspeita como a feita para Dirceu. Tanto que foi logo desfeita, justamente porque a imprensa demonstrou que havia muito podre debaixo dos panos.
O presidente do PT, Rui Falcão, diante da presidente da República, ou seja, de todos os brasileiros, teve a cara de pau de afirmar sobre o julgamento do mensalão: 
É o típico caso da manipulação realimentando a mentira e da mentira realimentando a manipulação. A história vai provar que nossos companheiros foram condenados sem provas, em um processo nitidamente político, influenciado pela mídia conservadora.
Como pode uma presidente da República, que indicou vários dos ministros do STF junto com o ex-presidente Lula, ficar passiva diante de uma acusação tão grave dessas? Quem cala consente! Então quer dizer que Lula e Dilma colocaram no STF farsantes, “golpistas conservadores”? É isso?
A situação toda é bizarra demais, digna de uma República das Bananas. Em qualquer país sério do mundo isso seria motivo, no mínimo, para um processo contra a presidente. Ela tem a obrigação de se explicar. Participa de um evento de seu partido onde o presidente afirma, em sua presença, que a Corte Suprema do país não respeita as leis!
O PT não vai expulsar criminoso algum. Isso já ficou claro. Tampouco vai tentar ignorar essa enorme mancha em seu currículo. A opção foi pelo ataque às instituições republicanas mesmo. Com isso, o PT prova ser um partido que endossa o crime, que abriga e protege criminosos condenados e presos.
Resta perguntar: que tipo de gente ainda defende o PT? Não pode ser o mesmo tipo que defende o império das leis…

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

REYNALDO-BH: A diferença entre o jornalista Augusto Nunes e o “jornalista” autor do livro “A Privataria Tucana”


Augusto Nunes e Amaury Ribeiro Jr., a diferença entre um Jornalista e um "jornalista" (Fotos: VEJA :: LCA)




Reynaldo-BH: A diferença entre Augusto Nunes e Amaury Ribeiro Jr. é a diferença entre um jornalista e um “jornalista” (Fotos: VEJA :: LCA)
Post do leitor e amigo do blog, Reynaldo-BH
Post-do-Leitor1
O último mês foi pródigo de exemplos e, por menores que tenham sido na divulgação, foram imensos no significado.

No começo de novembro o jornalista Augusto Nunes mais uma vez – perdi as contas – foi inocentado em uma ação na qual o ex-presidente enxotado do Planalto (e atual aliado do PT) Fernando Collor pretendia ser indenizado em meio milhão de reais por ter sido chamado de “bandido”, “chefe de bando” e “farsante”.
A Justiça negou o pedido, pois o jornalista somente exerceu o direito de manifestar a opinião. (O que traz em si um juízo de valor embutido. Se os mesmos termos houvessem sido utilizados contra Sobral Pinto por exemplo, certamente o jornalista teria sido condenado).
A favor de Collor, o comportamento de ter procurado a Justiça para buscar a proteção jurisdicional a que julgava ter direito.
Soubemos, depois disso, da instauração de ação penal contra Amaury Ribeiro Júnior (mais uma) por corrupção ativa, violação de sigilo funcional, falsificação de documento, falsidade ideológica e uso de documento falso. E a autorização para que a Polícia Federal continue as investigações das ligações de Amaury com o submundo da arapongagem.
Ficou provado que Amaury Júnior e mais cinco comparsas (sendo um deles, uma funcionária do SERPRO, o Serviço Federal de Processamento de Dados, empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda) obtiveram ilegalmente dados fiscais do ex-presidenciável e ex-governador paulista José Serra, de sua filha, a advogada Verônica Serra, e do ex-secretário-geral da Presidência durante o governo FHC Eduardo Jorge, entre outros.
Estes dados formaram um dossiê usado pelo comitê de Dilma na campanha de 2010.
A justificativa de Amaury Ribeiro Júnior – na fase de investigação da Polícia Federal – foi que os dados lhe teriam sido enviados sem que ele soubesse como. Ao ser confrontado com o dossiê falso descoberto no comitê de Dilma, afirmou que os mesmos dados (que estariam em seu computador) teriam sido roubados por Rui Falcão.
Este nega.
Este é o autor de A Privataria Tucana, livro de cabeceira de muitos lulopetistas.
A movimentação financeira de Eduardo Jorge foi explicada documentalmente. Na de José Serra e da FILHA dele, nada foi encontrado de anormal.
O que diriam os lulopetistas se um jornalista autor de algum livro contra o PT houvesse quebrado (e roubado) o sigilo fiscal de Lulinha (o filho), de filhos de José Dirceu, de Genoino ou de Dilma? Seria ou não o fim do mundo?
Ao contrário, desta feita, os fins justificam os meios. No mínimo, covardia do autor, que se revela quando tenta incriminar Rui Falcão como sendo o autor do malfado dossiê.
Porque os fatos listados no Privataria Tucana não ensejaram NENHUMA ação por parte de quem tinha POR OBRIGAÇÃO JURÍDICA assim agir? Ao contrário, quem buscou a Justiça foi José Serra e os citados no dossiê falsificado.
Collor foi mais honesto em suas ações. Mesmo carecendo de direito, buscou o caminho da Justiça. O PT e o governo federal preferiram o silêncio e a inação.
Certamente pelo fato de sequer haver causa de pedir, como se diz em Direito. Corria o risco que assistimos agora: o acusador se transformar em réu.
O silêncio dos adoradores de Aumaury Ribeiro Jr. é ensurdecedor. O jornalista, que foi despedido de jornais pelos métodos nada éticos que empregava, conhecido como quem não apurava notícias (antes preferia criá-las, mesmo que fantasiosas), que era amigo da pior escória de Brasília (os arapongas de aluguel), que tentou vender o dossiê tão sólido como um castelo de areia e buscou uma editora para publicação só conseguindo após a quinta tentativa, é o heroi dos lulopetistas.
Seu livro – carente de fatos, pois TODOS eram públicos e sem lógica (insisto que Amaury desconhece o que seja um fundo de investimento, chamando o maior do mundo – algumas centenas de vezes maior que o fundo de pensão da Petrobras, o Petros, por exemplo – de “lavanderia” e não sabendo distinguir Conselho de Administração de Conselho Executivo) é usado e reusado como “prova” contra Serra.
Não tenho – e rejeito! – qualquer procuração de Serra para defendê-lo. Não me é nem um pouco simpático, ao menos. Daí a considerá-lo (e à FILHA, em uma atitude ABJETA) como corrupto, vai uma imensa diferença. Posso discordar – e discordo quase 100% – de Eduardo Suplicy, para citar apenas um exemplo, mas reconheço sua honestidade, em se tratando de dinheiro público.
Meu foco é a idolatria CEGA a um “jornalista” que desonra a imprensa brasileira. Que está sendo acusado de corrupção, uso de documentos falsos, falsificação de documentos, etc. Pergunta-se: tem que credibilidade pode ter esse senhor como jornalista?
Reconheço o direito de todos de publicar o que queira. O contrário seria censura. Caso quem tenha sido citado, que busque a Justiça. Como fez Collor (sem nenhuma razão) e Serra (com todas).
O que assusta é a adoração a qualquer um que “bata” no PSDB e na herança de FHC, mesmo que diga em um livro que Serra é na verdade um vampiro que suga sangue e dorme de cabeça para baixo ou, no passado, foi o Lobo Mau que atacou a Chapeuzinho Vermelho!
Seria um sucesso. E considerado como verdade.
Diferenças existem para ser realçadas.
Ficou claro a diferença ente um JORNALISTA (Augusto Nunes) e um “jornalista” (Amaury Jr.)?
Será preciso desenhar?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sancionada Lei que trata da reestruturação administrativa da PMMC

QUINTA, DIA 05 DE DEZEMBRO, FOI SANCIONADA A LEI QUE TRATA DA REESTRUTURAÇÃO ADMINISTRATIVA DA PMMC.

O projeto de Lei 010/2013 foi sancionado pelo prefeito no dia 11 de setembro e teve sua anulação publicada no Diário Oficial do dia 13 do mesmo mês.

Segundo a Lei Orgânica do Município, o prefeito perdeu o prazo para qualquer manifestação, e coube ao Legislativo sancionar a Lei, que entra em vigor hoje....

O Projeto de Lei nº 010/2013 trata da reestruturação administrativa da PMMC, com a emenda de autoria da vereadora Professora Sheila, Ademar Ferreira, Leonardo Moreira e André Valois, com apoio dos demais vereadores, que altera o prazo de 180 para 90 dias, a contar da data de vigência a elaboração da Plano de Cargos e Salários e do Estatuto dos Servidores.

Agora estamos mais perto de garantir um direito que é legítimo dos servidores Públicos Municipais que ocupam cargos efetivos de terem seu Plano de Carreira.

Aos servidores, mais uma vez, a luta ainda não terminou, precisamos estar juntos com o SISPUMUMC porque apenas o primeiro passo foi dado!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A trapaça histórica, conceitual e moral da carta-renúncia de Genoino

O deputado José Genoino enviou uma carta de renúncia. O tom é o de sempre: o do herói injustiçado. E continua a produzir mistificações sobre o passado e sobre o presente. Leiam o texto. Volto em seguida.

*
“Dirijo-me a Vossas Excelências após mais de 25 anos dedicados à Câmara dos Deputados, e com uma história de mais de 45 anos de luta em prol da defesa intransigente do Brasil, da democracia e do povo brasileiro, para comunicar uma breve pausa nessa luta, que representa o início de uma nova batalha dentre as tantas que assumi ao longo da vida.
Assim, e considerando o disposto no inciso II, do artigo 56 da Constituição Federal;
Considerando ainda, a transformação midiática em espetáculo de um processo de cassação;
Considerando, de outro modo, que não pratiquei nenhum crime, não dei azo a quaisquer condutas, em toda minha vida pública ou privada, que tivesse o condão de atentar contra a ética e o decoro parlamentar;
Considerando que sou inocente;
Considerando, também, que a razão de ser da minha vida é a luta por sonhos e causas ao longo dos últimos 45 anos, reitero que entre a humilhação e a ilegalidade prefiro o risco da luta; e
Considerando, por derradeiro, que sempre lutei por ideais e jamais acumulei patrimônio e riqueza.
Por tudo isso e ao tempo em que agradeço a confiança em mim depositada, ao longo de muitos anos pelo povo do Estado de São Paulo e pelo Brasil, RENUNCIO ao Mandato Parlamentar e encaminho a presente missiva através do deputado José Guimarães PT/CE e do Dr. Alberto Moreira Rodrigues, Advogado inscrito na OAB/DF nº 12.652
Atenciosamente
José Genoino Neto
Deputado Federal Licenciado
Dr. Alberto Moreira Rodrigues
OAB/DF nº 12.652″
Comento
Vamos pôr 0 devido pingo nos “is”. Começo pela questão propriamente jurídica. Existe uma diferença entre uma declaração subjetiva de inocência; a expressão, em suma, de uma consciência ou convicção individuais, e a inocência, digamos, jurídica. Não! Genoino foi condenado por corrupção ativa em última instância. Para o Estado, ele não é inocente, mas culpado.
Sim, ele praticou crimes — aquilo que a ordem jurídica de um estado democrático e de direito define como tal. Genoino pode não gostar dessa ordem, isso é com ele, com não gostava daquela outra, sob o regime militar. Naquele caso, escolheu a pior maneira de enfrentá-la. Nesse caso, também. Sempre destacando que há, sim, diferenças entre ser marginal do poder na ditadura e ser marginal do poder na democracia.
Eis o ponto. Genoino fala dos seus 25 anos de vida parlamentar. Até o advento do mensalão, era, sim, considerado um dos príncipes do Congresso. Aliás, era mais fácil encontrar pessoas que o admiravam fora do PT do que  no petismo — onde era tachado, imaginem vocês, de “a direita do PT”.
Ocorre que Genoino diz ter dedicado 45 anos à luta democrática. Aí é preciso discordar, não ? A menos que ele me prove que o PC do B queria democracia e que a guerrilha do Araguaia era seu instrumento.
E este é não o equívoco, mas a trapaça histórica, conceitual e moral da narrativa inventada por Genoino e pelos petistas: democracia não é ditadura; assinar um empréstimo fraudulento não é como pegar no trabuco. São crimes diferentes. Nem aquele serviu para construir a ordem democrática — que foi obra da resistência pacífica — nem este outro serviu para consolidar o “poder do povo”. Guerrilha e fraude bancária eram só escolhas erradas de partidos que supõem, em tempos distintos e com equívocos distintos, que detêm a condução da história.
Por Reinaldo Azevedo