quinta-feira, 5 de junho de 2014

Após veto de Dilma, Câmara aprova nova proposta para a criação de novos municípios.

Deputados aprovaram nesta quarta-feira o projeto de lei que estabelece regras para a criação, fusão e emancipação de municípios brasileiros

Marcela Mattos, de Brasília
Câmara aprova nova proposta para a criação de municípios
Câmara aprova nova proposta para a criação de municípios (Saulo Cruz/Agência Câmara)
Após um acordo com o Palácio do Planalto, a Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira o projeto de lei que estabelece regras para a criação, fusão e emancipação de municípios brasileiros. Em outubro do ano passado, matéria semelhante foi aprovada pelo Congresso Nacional, mas recebeu o veto da presidente Dilma Rousseff pelo rombo que causaria aos cofres públicos: os gastos poderiam chegar a 9 bilhões de reais por mês. Com o aval do governo, o texto foi reajustado e agora deve dificultar a formação de municípios. Por ter sofrido alterações, a matéria volta para a análise do Senado.
Leia também:
Governo manobra para evitar derrota em projeto de criação de municípios

A proposta vetada por Dilma permitia a criação de até 188 novas cidades. Com o novo texto, a quantidade não deve ser superior a 50, estima o relator do projeto, deputado Moreira Mendes (PSD-RO).
O novo projeto alterou a quantidade mínima de habitantes exigida para a criação de municípios. Nas regiões Sul e Sudeste, o texto aprovado em outubro previa uma população de 12.000 habitantes – esse número subiu para 20.000. No Nordeste, a exigência passou de 8.400 para 12.000 habitantes. Já no Norte e Centro-Oeste não houve alterações: 6.000 moradores.
O processo deverá ser precedido por requerimento enviado à Assembleia Legislativa do Estado endossado por, no mínimo, 20% dos eleitores residentes no município ou em área geográfica envolvidos, no caso de emancipação ou desmembramento, e de 3% dos eleitores no caso de fusão ou incorporação. Também é necessária a realização de um plebiscito e da aprovação de projeto de lei que defina aspectos específicos da nova cidade, como nome e limites.
A matéria foi aprovada em maio pelo Senado, mas volta para a análise dos senadores por ter sofrido duas mudanças. A primeira inclui na contagem mínima exigida como requisito para a formação de municípios os imóveis de toda a área que pretende se emancipar - o texto original previa a contagem de imóveis apenas no núcleo urbano. Além disso, foi retirada do texto a área mínima que a nova cidade deveria ter. Antes, havia a previsão de área superior a 200 quilômetros quadrados, quando localizadas nas regiões Norte e Centro-Oeste, e 100 quilômetros quadrados nas demais regiões brasileiras.  
Gastos - A presidente Dilma justificou o veto com base em uma análise feita pelo Ministério da Fazenda, que apontou para o risco de desequilíbrio nos cofres públicos. De acordo com o despacho presidencial, o Ministério da Fazenda alertou que “a expansão expressiva do número de municípios” acarretaria o aumento das despesas com a manutenção da estrutura administrativa e representativa. O ministério argumentou, ainda, que o crescimento de despesas não será acompanhado por receitas que permitam a cobertura dos novos gastos, “o que impactará negativamente a sustentabilidade e a estabilidade macroeconômica”.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Diário da Dilma: as flores do futuro estão nas sementes de hoje.




1º DE ABRIL_Cinquenta anos do Golpe. Fiz uma visita clandestina ao Dirceu. Levei o violão, convidei um pessoal da UNE e cantamos várias do Geraldo Vandré. No final, Delúbio apareceu com um bumbo e soltou o vozeirão. Emendou Gracias a la Vida com Volver a los 17, tudo da Mercedes. Deu vontade de decretar o comunismo no Brasil.

2 DE ABRIL_Estou tão emotiva. Qualquer dia choro em inauguração de supermercado. Fui ao Galeão assinar a concessão do aeroporto para a iniciativa privada – xô, privatização – e me lembrei de que os exilados voltaram por ali. Me deu uma saudade de ser oposição!
No final da tarde, recebi a Magazine Luiza Trajano. Ela, fofééézima, me trouxe várias pranchas de cabelo com íon negativo e revestimento de cerâmica. Mandamos uns e-mails para o Diogo Mainardi.

3 DE ABRIL_Nove e meia da matina e me carregam para um tal Fórum Nacional CACB Mil. Ninguém teve a gentileza de me dizer do que se tratava. Com esse nome podia ser evento de agropecuária, biblioteconomia ou acupuntura. Fiz discurso enaltecendo a diminuição das desigualdades sociais. Cabe até em batizado.
Passei a semana procurando esses documentos de Pasadena. A última vez que vi, estavam na gaveta das meias. Mamãe deve ter jogado fora. É a cara dela.

4 DE ABRIL_Mercadante é um homem muito gentil. Daqueles que ainda falam “dependurado” e “defronte”. Fiquei chateada por apelidarem ele de Freddie Mercury. Fico pensando: qual gabinete hoje no mundo conta com dois Apolos do feitio dele e do Lobão? Isso a imprensa burguesa omite.
Gleisi veio toda esbaforida me mostrar uma pesquisa do Ipea provando que a cidade de Pasadena nem existe. Sei não.

5 DE ABRIL_Sabadão e eu micada em casa. Nem uma tranca consegui armar. Nessa hora a gente vê quem são as amigas... Só porque derrapei nas pesquisas o pessoal começa a ficar arisco. Fiquem de olho, traíras. É como dizia minha tia-avó: as flores do futuro estão nas sementes de hoje. Ou vocês acham que Dilminha 2.0 não se lembrará de quem a deixou molhada na chuva?

6 DE ABRIL_Estou assistindo de camarote ao fuzuê armado pelo André Vargas. Bem-feito pro Rui Falcão, aquele pepino de óculos, baixinho e mandão. Está tomando o maior caldo. Esse André é macho mesmo. Sei lá o que ele sabe... Aliás, prefiro não saber.
Polêmica: pulseira por cima da manga é inovação ou arroubo juvenil?

7 DE ABRIL_Ando viajando demais de avião. Fico tão estressada que meu pé enche de bolha. Deve ser por isso que peguei diverticulite.
Essa Marina Silva foi criada com papa de tamarindo. Só assim para ser tão azeda.

8 DE ABRIL_Chega! Marquei uma reunião com esse João Roberto Marinho. A novela das nove tá de encher o pacová de qualquer cidadão. Me diga, senhor João Roberto: que mulher vai largar o Gianecchini?!! Depois o pessoal vai para as ruas e a Globo se espanta de virar alvo da ira popular. Algumas coisas têm que ser ditas!

9 DE ABRIL_Ainda não achei meu caderninho com as anotações de Pasadena. Já revirei até o cesto de roupa suja.

10 DE ABRIL_Lula ficou tão feliz com a entrevista que deu aos blogueiros que resolveu dar pitaco na minha campanha. Em vez de participar daqueles debates engessados com Aécio, Eduardo e nanicos, sugeriu que eu debatesse minhas propostas apenas com a Marilena Chauí; e entrevista, só para o Sakamoto.

11 DE ABRIL_Gente, tem coisa mais cafona que essa Fifa? Fingi que não vi a logomarca da Copa, toda a parte gráfica, os fulecos da vida e a música-tema. Mas essa Fan Fest parece uma quermesse. Benza Deus.

12 DE ABRIL_O COI decidiu intervir nos preparativos para as Olimpíadas. Ainda bem. Se deixar na mão do Pezão, eles quebram o Maracanã de novo para colocar uma piscina atrás de cada gol.

13 DE ABRIL_Domingo é dia de botar a leitura em dia. Nada me relaxa tanto como tomar um Campari na varanda vendo as modas. Fiquei estupefata com o infográfico da revista Capricho que, de forma clara e definitiva, mostrou todos os vestidos que as princesas da Disney já usaram. Pocahontas é a mais econômica.

14 DE ABRIL_Fui ao Recife só para visitar o Porto de Suape. Recado dado.

15 DE ABRIL_Marquei com a Gleisi, Ideli e Mercadante aqui no meu gabinete para trocarmos figurinhas do álbum da Copa. Ninguém consegue completar o Uruguai. Represália ao Mujica? Pedi para a Abin investigar.

16 DE ABRIL_Até tu, Graça? Não é que ela foi ao Senado dizer que a tal refinaria foi mesmo um mau negócio? Poxa, a gente tem que ser solidária com os amigos na alegria e na tristeza, no erro e no acerto. Nesse caso, especialmente no erro.

17 DE ABRIL_Bem enjoadinho esse bebê real, o George. Esnobe desde pequenininho. Vi todas as fotos da Kate e do William lá pela Austrália e o menino me pareceu um entojo. E quase obeso.
Tive que mandar a tropa ajudar o Jaquito lá na Bahia. Ele sempre me recebe tão bem. Não me custa dar uma mão aos amigos nas horas difíceis.

18 DE ABRIL_Parece que o Lula completou o Uruguai. Safado!

19 DE ABRIL_Tão bonitinho esse filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. O protagonista é um deficiente visual que se envolve numa relação homoafetiva. Esse é o Brasil inclusivo do PT.

20 DE ABRIL_Estou enfiando o pé na jaca da Páscoa. Ontem à noite devorei dois ovos de chocolate supimpas – acho até que eram suíços! – que mandaram para o Gabrielzinho. O que tem de puxa-saco! Mesmo em baixa, não faltará gente me mandando chocolate até as eleições. Vou ter que voltar a usar bata e calça de helanca.

22 DE ABRIL_Inacreditável essa coluna do Pondé sobre a falta de interesse que os jovens liberais despertam nas mulheres. Esse homem nunca ouviu falar em Aécio Neves? Aliás: estou achando a maior graça na briga dos netinhos. É vovô Tancredo pra cá, vovô Arraes pra lá... Pergunta para a classe C se alguém sabe quem são esses ilustres. Graças a Deus, brasileiro não se lembra de nada.

23 DE ABRIL_Tá bom, tá bom. Agora que a gente já aprovou essa bodega desse Marco Civil da Internet, alguém pode me explicar o que são os Data Centers?
Gente, o doleiro amigo do André Vargas era vendedor de pastel!!! Depois dizem que não existe mobilidade social no Brasil.

24 DE ABRIL_Não saí na lista da Time dos cem mais. Fiquei arrasada! Entrou o Mujica, entrou o Maduro, e até a Bachelet, por que não eu? Que vantagem Maria leva passando todo esse perrengue aqui no Brasil? Sinceramente, acho que quero devolver essa bomba para o Lula! Ele gosta tanto!

25 DE ABRIL_Gleisi apareceu toda pimpona com uma pesquisa do Ipea provando que 87% dos brasileiros apoiam o atraso das obras da Copa. Sei não.

26 DE ABRIL_Achei minhas anotações sobre Pasadena. Estavam no bolso da minha calça flare de couro ecológico que parei de usar desde a contratação do personal stylist. Tem apenas uns desenhinhos e a receita de crêpe suzette que a Ana Maria Braga ensinou no programa daquela manhã. Acho que não prestei atenção.

27 DE ABRIL_Vou ter que tirar o siri do bolso para dar uma ajudinha para as montadoras. Como chora esse pessoal da Fiesp! Quem vê até pensa!

28 DE ABRIL_A Erenice me mandou um santinho do padre José de Anchieta, que acabou de virar santo. Diz ela que com santo novo a fila é menor.

29 DE ABRIL_Até eu já estou achando que não vai ter Copa...

PC do B de Morro do Chapéu denuncia esquema de corrupção na prefeitura



Ministério Público investiga prefeito por suposto esquema de corrupção

Indícios de irregularidades levantam a possibilidade de Aliomar Rocha ter desviado R$ 5 milhões dos cofres públicos

O Ministério Público Estadual da Comarca de Morro do Chapéu recebeu em dezembro de 2007, um dossiê, assinado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que solicita uma fiscalização de supostas irregularidades na administração do dinheiro público realizada pelo prefeito do município, Aliomar  Rocha. No documento de 14 páginas, existem mais de 20 itens que apontam indícios de que o prefeito tenha realizado formação de quadrilha, desvio de verba pública com enriquecimento ilícito, duplicidade de pagamento em obras públicas, fraude de licitações e compra de notas fiscais frias.  
De acordo com o documento, nos pagamentos das construções de calçamentos há mais de uma nota fiscal referente ao mesmo serviço, uma emitida pela prefeitura e outra emitida pela empresa prestadora de serviço. Além disso, estas obras não foram executadas pelas empresas contratadas e sim por funcionários (pedreiros, serventes e batedores de pedra) da própria prefeitura e o transporte de material foi feito por veículos (caçambas) locados também pela prefeitura. Esses dados são indícios de que o prefeito, junto aos empresários, montou um esquema de corrupção para desviar dinheiro público. 
Outro caso grave citado foi a recuperação de calçamentos, no qual as notas fiscais apontam um gasto de R$ 115 mil, sendo que as ruas foram recuperadas todas em datas próximas e os valores foram pagos pela prefeitura em três vezes em apenas um mês para a mesma empresa. Um sinal de superfaturamento.
Outro sinal de gasto elevado e esquema para desvio de recurso do fundo especial, foi a recuperação de prédios escolares, nos quais foram gastos R$ 44. 450, e não há nenhuma lista com os nomes das escolas reformadas. Em 2007, foram gastos R$ 250 mil em material didático, mas não existe nenhum detalhamento da quantidade de material adquirido. 
Já na ampliação do sistema de abastecimento de água do povoado de Ouricuri, também houve indício de duplicidade de pagamento, já que foram gastos R$ 61.200 e “a obra também foi realizada por funcionários da própria prefeitura e não pela empresa contratada”.
O relatório também levanta suspeita de desvio de verbas federais do Fundeb (Fundo da Educação Básica), através de altos valores pagos a locação de veículos para transporte escolar. “Como o carro que transporta alunos de Montevidéu e Grotão para o Angelim e percorre por dia 40 Km, mas na nota fiscal o valor corresponde a 91,2 Km por dia, que equivale a R$ 1.596,o que deveria ser na realidade R$ 700, já que são cobrados R$ 0,70 por quilômetro”.  
Ainda existem mais itens no documento, como a de funcionário fantasma, falsidade ideológica, desvios de recursos do PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) e do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e uma lista com diversos bens supostamente adquiridos pela família do prefeito nos últimos quatro anos.
“Com o suposto esquema montado, há possibilidade do prefeito junto aos donos das construtoras terem desviado dos cofres públicos, municipal, estadual e federal aproximadamente R$ 5 milhões”, aponta o dossiê.     
De acordo com a promotora, Dra. Édna Márcia de Oliveira, “as investigações já estão bem adiantadas, mas seguem em segredo de justiça”.


Escrito por PCdoB de Morro do Chapéu às 10h43

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Porque as cidades pequenas não saem do atraso



Em entrevista, Edward Glaeser professor de Harvard afirmou: “Ao contrário do que se deixam levar por uma visão romanceada da vida longe das zonas urbanas, sob diversos aspectos essenciais para a existência humana, não há lugar melhor para viver do que em uma grande cidade. Pois é justamente em ambientes de enormes aglomerações que os mais variados talentos podem conviver e aprender entre si, potencializando  ao máximo sua capacidade criativa e inovadora. Aumentam assim, exponencialmente, as chances de ascender, ganhar mais e ter acesso ao que há de mais avançado. Nos formigueiros humanos é que está a riqueza.”
Sem discutir o mérito dessas afirmações, há aqueles que consideram a vida nas cidades pequenas como de melhor qualidade de vida do que numa cidade grande. De fato, numa cidade pequena vive-se uma vida bucólica onde podemos apreciar o canto dos pássaros, a apreciação da natureza em toda sua beleza, a alimentação natural com a colheita dos alimentos in loco. E depois há os barzinhos onde se pode beber com tranquilidade, as roças para se passar um fim de semana comendo e bebendo e se tiver um rio ou lagoa, nadar num banho refrescante.
Mas toda essa beleza tem um custo e ela se esvai quando somos confrontados com a necessidade de buscar os recursos para mantê-la. Há muito poucas possibilidades de se viver num emprego independente e bem remunerado, dentre eles o mais desejado que é um emprego de bancário. A atividade empresarial, de muitos riscos e de ganho incerto, é outra meta desejável. Contudo, os poucos recursos dos consumidores e a falta de mão de obra especializada são obstáculos intransponíveis.
Nas cidades pequenas todos se conhecem, consequentemente, seus pensamentos, suas poucas atividades, sobretudo, em quem você vota, são por todos conhecidos. Nesse aspecto, a vida torna-se muito limitada. Vida cultural inexiste; possibilidades de novos contatos e ascensão social também são quase nulos. As velhas oligarquias se perpetuam nos postos de mando barrando qualquer chance de ascensão de novas lideranças. Os jovens são proibidos de cultivar pensamentos e atitudes próprias e, sobretudo, de ter independência. Todos tem de assumir uma postura de submissão aos poderes constituídos se quiserem ter alguma chance de conseguir um emprego num órgão público, notadamente em prefeituras. Nestas se o candidato for contratado ou nomeado não terá direito a férias e décimo terceiro salário, sem contar que pode ser demitido a qualquer tempo, com ou sem justificativa. E isso nada tem a ver com competência.
Nós que somos pais, fazemos todos os sacrifícios para que nossos filhos estudem e consigam um diploma universitário. Isso porque queremos que eles se tornem independentes e bem remunerados. Mas há muitas formaturas que possibilitam a vinda para a terrinha natal: odontologia, enfermagem, medicina, engenharia civil e outras. Todavia, tem de se travar uma luta insana para que o exercício dessas atividades estejam fora do alcance dos políticos. Se estiver adeus independência; o voto já está encabrestado. Mas não se pense que só o voto é que é obrigatório; há a época das eleições quando se exige a presença em todas as carreatas, comícios, palestras, seminários e visitas as comunidades do interior do município. Nenhuma postura critica é tolerada. Nem mesmo dos filhos do funcionário que moram longe. Desse modo vai se perpetuando o atraso porque não há novas ideias em curso, não há nem mesmo disposição em tê-las.
Como disse o poeta polonês Czelaw Milosz falando sobre a ocupação russa na Polônia na Segunda Guerra Mundial: “A pressão de um Estado totalitário todo-poderoso cria a tensão emocional em seus cidadãos que determina os atos deles. Quando as pessoas são divididas em “leais” e “criminosas”, um premio é dado a qualquer tipo de conformista, covarde e servil, enquanto entre os “criminosos”, podemos encontrar uma porcentagem singularmente alta de pessoas discretas, sinceras e verdadeiras consigo mesmas. Do ponto de vista social, tais pessoas constituem a melhor garantia de que o futuro desenvolvimento do organismo social será em direção ao bem. Do ponto de vista cristão, não possuem nenhum outro pecado em sua consciência, a não ser desprezo pelo César ou a avaliação incorreta do poder deste.”
Como veem essas considerações podem ser transpostas ao regime imposto pelas prefeituras inseridas no Polígono das Secas.  E assim vai se perpetuando um sistema político arcaico e mesquinho,  fator determinante para o atraso secular em que vivem as cidades pequenas do interior nordestino.

domingo, 1 de junho de 2014

Dormindo em berço esplêndido



       Antigamente dava-se o nome de Suíça brasileira ao município de Morro do Chapéu. Um evidente exagero vez que qualquer cidadezinha de Santa Catarina, por exemplo, deixa nossa cidade para trás nesse quesito. E depois, nem o clima ajuda mais. Na verdade estamos mais para Terra do Nunca do que para Alice no País das Maravilhas, pois, como sabem todos, aqui nada progride, nada avança a não ser o atraso secular. E pensar que o lema dessa atual administração municipal é “Novos Tempos, Dias Melhores” quando na realidade deveria ser “Velhos Tempos, Dias Piores”.  O prefeito anda caçando qualquer evento, até entrega de carrinho de lanches para ver se sacode um pouco o marasmo, já que nada tem para inaugurar.
     Para sair da pasmaceira, essa terra só se anima em época de eleição a prefeito e vereadores. É tanta movimentação que se tem a impressão que finalmente o município começou a trilhar o caminho do progresso e desenvolvimento. Nas últimas eleições nossos políticos tiraram proveito do campo de experimentação de uvas viníferas para fazer romaria no local; veio governador, veio secretário de Estado, veio técnicos da Embrapa, diretores de autarquias diversas, vereadores a rojão e o prefeito sempre a reboque.  Até um presidente de uma cooperativa vinífera francesa, um tal de Jojô, apareceu por lá. Mudas selecionadas de videiras foram providenciadas para dar mais brilho aos eventos.
     O governador fazendo jus à sua fama de bom vivant, degustou vinhos, queijos e bode defumado.  E para a alegria daquela galera que tem de comparecer a esses eventos para dar a impressão de grande apoio popular, sobrou vinho espumante, bebido com aquela tradicional gulodice para ver se enganava o estomago roncando. Tudo foi fotografado, filmado, jornais foram impressos e entrevistas ao vivo nas emissoras de rádio locais foram providenciadas. Foi uma festança permanente e a animação foi tanta que técnicos da Embrapa, juntamente com o Secretário de Agricultura do Estado e aqueles senhores que detém as rédeas do poder local, adquiriram uma área de terras para produzir uvas viníferas. O prefeito e o deputado não cabiam em si de contentamento, já antevendo uma reeleição tranquila para ambos, com índices de aceitação bem robustos.
E para coroar tanto otimismo, foi providenciada a inauguração da UPA, o governo federal premiou todas as prefeituras com Unidades Odontológicas Móveis, tratores, caçambas, ônibus escolares, ambulâncias do SAMU, motoniveladoras, enfim, foram muitos os investimentos. Ao longo da campanha eleitoral só se falava numa tal de adimplência alcançada pela prefeitura, não sabe por quais artes mágicas.
      Mas o que deixou o eleitorado intrigado foi que nas carreatas do governador do campo de pouso de avião até o contorno pela BA-052, ele não tenha notado o longo cemitério de obras inacabadas margeando essa rodovia. E olha que a rodovia nesse trecho estava bem iluminada para que todos vissem o estado de abandono em que se encontra o município. E a obra mais vistosa que dá para ver de longe é o esqueleto de uma quadra esportiva que não pode ser demolida, nem concluída já que foi embargada por não obedecer às normas técnicas para tal empreendimento. Para nossa perene vergonha (ainda temos?), é o único município em toda Chapada Diamantina que ostenta tamanho descalabro com o dinheiro público.
     E o Hospital São Francisco de Assis? E o prédio que abriga a secretaria de recursos minerais? E o outro que abrigava a Juventude não sei de quê? E a UPA  que nunca funcionou? Para não ficarmos só nesse rosário de calamidades, deve-se registrar que a única obra de vulto nessa rodovia, é uma pousada em vias de conclusão cujo proprietário ninguém acredita que é quem diz ser. Seria quem? Eis o mistério.
     De qualquer modo passada as eleições na qual o prefeito foi reeleito com uma margem mínima de votos, quase levando-o ao infarto, Morro do Chapéu voltou a deitar em seu berço esplendido. Todas as obras prometidas na campanha política foram paralisadas. O estádio de futebol que já quase ninguém se lembra que existe, segue em sua rotina de paralisia. A praça do Pelourinho vai indo a passos de tartaruga; a Academia de Saúde está servindo para a molecada praticar skate; o Hospital São Vicente vai aumentando a estatística de bebes mortos e mau atendimento e a creche de “padrão nacional” lá na Ba-052 ameaça tornar-se mais um prédio abandonado, seguindo a triste sina dessa rodovia. E isso aconteceria se ali não houvesse sido aplicada verbas federais.
    A não ser por alguns espertalhões que estão faturando alto com o projeto de implantação das torres de energia eólica que vai ficando para as calendas gregas, o povo vive desesperançado e sem ânimo, como é a marca registrada do lugar. Se não aparecer um novo Dias Coelho que atenda as necessidades do povo, nosso município não tem lá grande futuro. Que os morangos, as uvas viníferas e os tomates telados contrariem essa previsão.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dsicípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis


by José Maria e Silva
Em sua arbitrária simplificação de Machado de Assis, em que comete erros primários de intepretação de texto, a escritora-empresária Patrícia Secco embrutece o espírito do leitor ao falsear o mestre e descaracterizar seus personagens
Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela “O Alienista”, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de “Papéis A­vulsos”, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de “O Alienista”, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.
“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da “Folha de S. Paulo”. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: “O Alienista”, de Machado de Assis, e “A Pata da Gazela”, de José de Alencar.
A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica “Uma História da Leitura”, o argentino-canadense Alberto Manguel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeia “Polychronicon”, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.
Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoiévski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel Antônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: “O bom adaptador não falseia o original”.

Facilitação de Machado nega o escritor

Paulo Freire: pedagogia análoga à escravidão condena o pobre à fala de tijolo, como se um operário não pudesse ouvir estrelas
Paulo Freire: pedagogia análoga à escravidão condena o pobre à fala de tijolo, como se um operário não pudesse ouvir estrelas
Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século depois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo “O Alienista”, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do “Estadão”, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.
Com sua adaptação de “O Alienista”, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.
Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler “O Alienista” — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?

Censo de 1872 abalou a literatura brasileira

O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro “Limites”, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Patrícia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises da “Carta de ABC”, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Macaúbas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por alguém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Como Mocinha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o menino Graciliano, enfezado vivente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de Alencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.
Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na “Folha de S. Paulo”, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese “Os Leitores de Machado de Assis” (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.
Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-ins­tituição, encarnada na Acade­mia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, no­meando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mes­ma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No pró­prio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitanguy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.
E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais “O Guarani” pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.
Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se an­gus­tiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da li­teratura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e re­servando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.

Simplificar livros agrava o problema da leitura

Escritora-empresária Patrícia Secco: R$ 10 milhões captados no Ministério da Cultura e produção de literatura infanto-juvenil em ritmo industrial
Escritora-empresária Patrícia Secco: R$ 10 milhões captados no Ministério da Cultura e produção de literatura infanto-juvenil em ritmo industrial
Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?
Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.
Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de “O Alienista” de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apre­sentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.

Machado de Assis para consumo próprio

Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de “O Alienista”, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da “Folha”, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.
A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.
Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!

Deturpando o enredo e a história

Na arbitrária simplificação de “O Alienista”, com erros de interpretação de texto, escritora embrutece espírito do leitor ao falsear estilo machadiano
Na arbitrária simplificação de “O Alienista”, com erros de interpretação de texto, escritora embrutece espírito do leitor ao falsear estilo machadiano
Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qual­quer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.
Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Ma­chado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o ca­pitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Indepen­dência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.
Uma das admiráveis qualidades do conto “O Alienista” é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.
Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção “O Gondoleiro do Amor”, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma