quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coordenação da campanha de Dilma manda "lavar" seu programa de governo para esconder as reais intenções do PT caso ela se reeleja.

Que coisa bonitinha! A coordenação da campanha da presidente Dilma Rousseff resolveu enviar o pré-programa de governo já aprovado pelo partido à lavanderia para ver se ele fica com uma aparência melhorzinha. Segundo informa reportagem de hoje da Folha, sumiram da versão quer chegou à presidente a “democratização da mídia”, que é o outro nome para censura; o “financiamento público de campanha”, que todo mundo sabe no bolso o que é, e a Constituinte exclusiva para fazer a reforma política. Mas Dilma não abre mão, disto não!, da tal democracia direta por meio de conselhos — aquela estrovenga que ela meteu no decreto 8.243 (ver post).
Esses, digamos, “compromissos” estão no documento aprovado pelo PT, e chegou a se noticiar que a presidente havia se comprometido ao menos com a questão da mídia, que é central para o partido. Segundo informa a Folha, Rui Falcão e Franklin Martins (este ainda não se recuperou da demissão da Globo) queriam, sim, incluir no texto final o combate ao tal “monopólio”, mas foram votos vencidos. Afinal, o programa da presidente tem de contar com a aprovação dos demais partidos — e o PMDB, por exemplo, fez um congresso em que se definiu como diretriz o repúdio a qualquer forma de censura.
Será que os defensores da democracia podemos, então, ficar tranquilos caso Dilma seja reeleita? É claro que não! Os absurdos, na forma e no conteúdo, do Decreto 8.243 falam por si. Sem contar que é preciso deixar claro que o PT está em franca mobilização em favor da Constituinte exclusiva e do financiamento público de campanha — e é claro que vai tentar emplacar essa agenda. Aqui e ali já leio colunistas a vender com suas “ideias” que são do partido.
Até porque a campanha está na rua petista. O partido emitiu uma circular a seus filiados em que deixa claro que a prioridade é, sim, a Constituinte exclusiva — aquela mesma que a coordenação de Dilma tirou do programa para não assustar. O texto tem dois links que remetem para as orientações para os diretórios estaduais e para as redes sociais. Vejam:
A circular
comunicado do PT 1
Orientação para os diretórios:
Comunicado do PT 2
Orientação para as redes sociais:
comunicado do PT 3
Quanto à  tal “regulação da mídia”, que fique claro: todos os documentos oficiais do PT consideram essa uma pauta prioritária. O fato de o tema eventualmente não ser incluído no programa que Dilma vai entregar ao TSE não quer dizer absolutamente nada! De resto, constate-se: o partido decidiu fazer uma lista negra de jornalistas, como é sabido, e seus respectivos nomes costumam frequentar as conversas de alguns ministros do governo Dilma, inconformados com a liberdade de imprensa. Assim, não é verdade que o único controle admitido pela Soberana seja o remoto. Também vale a intimidação.
Para encerrar, destaco: não tenho a boa-vontade de alguns com o dito espírito democrático de Dilma. O Decreto 8.243 deixa claro como ela cede facilmente a tentações. Ademais, no que que concerne à reforma política, o seu programa de governo vai falar em plebiscitos — que podem ser uma boa forma de inflamar a sociedade com apelos demagógicos. Para começo de conversa e para encerrar este artigo, temas dessa natureza sempre vêm a público quando os governos esgotam o seu repertório e já não têm mais como engabelar a sociedade.
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 1 de julho de 2014

A fala asquerosa de Lula no Pará. Ou: os males que o chefão petista faz à política como perverso professor de educação moaral e cívica.

 


Lula recebe do Altíssimo os novos fundamentos da educação moral e cívica
Lula recebe do Altíssimo os novos fundamentos da educação moral 

É… O mal que Lula faz à decência política do país é algo que será, se for, mensurado a longo prazo. Espero que as futuras gerações um dia se debrucem sobre este período, em que o país viveu sob a égide dos valores lulistas. O resultado certamente será espantoso. Não, senhores! É evidente que o chefão petista não inventou a corrupção, tampouco é ela uma criação de seu partido. Mas não é menos evidente que só Lula e seu partido têm a ousadia — nesse caso, entendida como a cara de pau e a vigarice intelectual — de fazer a defesa pública de que a falha moral é uma questão menor quando está em disputa o poder. Alguém ainda poderia ponderar: “Ah, Reinaldo, assim é com todos os políticos”. Em primeiro lugar, não é verdade. Em segundo, mas não menos importante, é preciso considerar que a defesa pública da lambança corresponde a um mal adicional, além do malfeito original. O crime contra o dinheiro público é coisa de gente deseducada para a democracia. A defesa pública do crime deseduca as gerações futuras. O crime, em si, é coisa de ladrões; a defesa do crime cria novos ladrões. O crime, em si, é um mal temporário; a defesa do crime é um mal permanente; o crime, em si, pode desafiar uma cultura da correção; a defesa do crime cria a cultura da corrupção do caráter.
E é nesse preciso sentido que Lula é um
professor
perverso, que continuará a procriar, para lembrar Fernando Pessoa, muito além do seu e dos nossos respectivos cadáveres. Por que isso? Lula foi ao Pará lançar a candidatura de Helder Barbalho (PMDB) ao governo do Estado. O vice é Paulo Rocha, do PT. Então vamos ver. Helder é filho do notório senador Jader Barbalho (PMDB), que, em 2002, chegou a ser preso pela Polícia Federal, junto com outras dez pessoas, todas acusadas de envolvimento no escândalo da extinta Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). No dia 4 de outubro do ano anterior, tinha renunciado ao mandato de senador, não resistindo a uma chuva de acusações, como desvio de recursos do Banpará e emissão fraudulenta de Títulos da Dívida Agrária. Há três semanas, Dilma chamou o senador de seu “querido”.
E Paulo Rocha? Também renunciou ao mandato de deputado federal em 2005 em razão do escândalo do mensalão. Uma assessora sua sacou R$ 620 mil de uma das contas de Marcos Valério. Ele justificou que o objetivo era pagar dívidas do PT do Pará, arrancou um empate no julgamento do Supremo e acabou absolvido da acusação de lavagem de dinheiro. Mas o saque houve. Dada a moral típica do petismo, ele admitiu que tudo não passou de caixa dois, como se isso fosse legal. Agora voltemos a Lula.
O homem foi ao Pará lançar a dupla intrépida ao governo. Poderia ter se calado sobre o pai de Helder, por exemplo, seguindo a máxima de que as penas pelos crimes do pai não podem recair sobre o filho — é um princípio do direito romano. Isso na hipótese, claro!, de Helder não ser um herdeiro também não virtuoso de Jader. Mas aí Lula não seria Lula. Sabem o que ele disse? Isto: “Helder, você tem de dizer que é filho do Jader com muito orgulho; Paulo, você tem de ir para esta eleição com a cabeça erguida”.
Entenderam? Lula vive a demonizar país afora um político como FHC. Alguém se lembra de alguma acusação moral contra o ex-presidente? Em São Paulo, promove as alianças as mais exóticas e improváveis contra Geraldo Alckmin. Alguém se lembra de alguma acusação moral contra o governador? No Pará, no entanto, ele pede que Helder se orgulhe de o pai ter sido preso pela PF e de ter renunciado ao mandato. E convida o petista Rocha a andar de cabeça erguida, apesar daqueles R$ 620 mil… Afinal, eram só caixa dois, certo?
Sim, é claro que é legítimo que Lula se oponha a tucanos e a outros que disputam com ele o poder. Asqueroso é o convite que ele faz para que seus aliados defendam as lambanças como se fossem virtudes.
Por Reinaldo Azevedo

PT amava os defeitos de Barbosa e odiava as qualidades. Ou: Ministro fez o seu trabalho com dignidade. Ou ainda: Arroubos de temperamento têm cura; rombos de caráter não!


Barbosa: o PT o queria como esbirro, e ele foi minitro
Barbosa: o PT o queria como esbirro, e ele foi ministro

Pronto! Joaquim Barbosa está fora do Supremo Tribunal Federal. Ainda que o tenha feito por vontade e determinação pessoal, muita gente suspira aliviada, nem tanto porque se sentisse ameaçada por ele — não havia como ameaçar ninguém —, mas porque se sentia traída. Assim: a gritaria contra Barbosa — não a crítica justa, que pode ser feita — corresponde a uma algaravia de interesses contrariados e a ódios que traduzem nada mais do que má consciência. Então vamos ver.
O meu blog existe há oito anos. O arquivo está disponível a quem queira consultá-lo. Nunca fui e não sou um fã nem do estilo nem de algumas ideias de Joaquim Barbosa. Acho que seu temperamento um tanto irascível o atrapalhou — e à necessária harmonia dos trabalhos no Tribunal — mais de uma vez. Ele cultiva certa intolerância pessoal com a divergência, e já o vi repelir com acidez até argumentos que concorriam para a sua tese porque nem sempre é um ouvinte prudente. Não concordo também, e já evidenciei isso aqui, com algumas de suas teses sobre racismo — o que, e não me sinto obrigado a provar, nada tem a ver com a cor da sua pela e a da minha.
Mas esperem aí: a gritaria que se armou contra Barbosa se deveu a seu temperamento? Ou ao eventual descumprimento de rituais processuais ou mesmo ao entendimento prejudicado desse ou daquele princípios? Uma ova! A máquina de desqualificação montada pelo petismo e por outros setores da esquerda o atacou em razão de suas virtudes, não de seus eventuais defeitos. É mentira que o julgamento do mensalão tenha recorrido a instrumentos de exceção. É mentira que tenha sido ele — e nem poderia — a manipular tais instrumentos. É mentira que se tenha usado com petistas uma régua e uma conjunto de regras particulares. Isso tudo é obra da guerra política mais rasteira.
Se Lula, no passado, indicou ou não Joaquim Barbosa porque decidiu exercer a seu modo uma política de cotas, isso não é de responsabilidade do ministro. O fato é que os petistas tentaram — e um mensaleiro chegou a vocalizar isto — cobrar do então ministro uma espécie de dívida. Já que Lula teria levado o primeiro negro para o Supremo (é mentira: antes, houve Pedro Lessa e Hermenegildo de Barros), que este então lhe fosse grato, votando conforme as vontades e as necessidades do PT. E, como é sabido, Barbosa não caiu no truque. O ex-deputado João Paulo Cunha, o mensaleiro condenado, não teve vergonha nenhuma de dizer publicamente: “Barbosa chegou ao Supremo porque era compromisso nosso, do PT e do Lula, de reparar um pedaço da injustiça histórica com os negros”.
Entenderam a alma profunda de um petista? Já que Lula levou um negro para o Supremo, a melhor maneira que esse negro tem de demonstrar que é livre é violando a sua própria consciência para ser grato a quem o indicou. É espantoso que algo assim tenha sido dito. E foi. Nos bastidores, então, o inconformismo dos companheiros com Barbosa, cujo nome sempre vem associado a palavrões que não se dizem nem em estádios e a acusações de traição, chega a ser patológico. Não por acaso, ele se tornou o principal alvo do que chamo “Al Qaeda Eletrônica” — as milícias petistas que atuam nas redes sociais.
Curiosamente, quando os petistas cantavam as glórias de Barbosa — consultem os arquivos; isso aconteceu —, eles o faziam porque tinham grande apreço por seus defeitos. Quando passaram a demonizá-lo, tinham ódio de suas virtudes.
Assim, tudo somado e subtraído, com agravantes e atenuantes (para fazer uma blague…), o saldo da passagem de Barbosa pelo Supremo lhe é amplamente favorável e também ao país. Num dado momento, uma poderosa coordenação de forças atuou de modo deliberado para desmoralizar o Supremo e o Judiciário como um todo, alvos permanentes de correntes autoritárias que estão no poder em vários países da América Latina.
Lula é hoje um desafeto pessoal de Barbosa porque descobriu que este acabou se tornando o homem certo, no lugar certo e no momento certo — sempre levando em conta os interesses do país, não os do próprio Lula e do PT. O tempo dirá que não conseguiremos dizer o mesmo de muito engomadinho de fala mansa. Arroubos de temperamento podem ser controlados. Rombos de caráter não têm cura. Joaquim Barbosa fez o seu trabalho com dignidade.
Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lula agora muda a versão e diz que Reinaldo Azevedo e outros oito não são os culpados pelas vaias e xingamentos a Dilma. O que dirão Trajano e suas melancias às avessas da ESPN, a “emissora estadunidense”?

Ai, ai… José Trajano, aquele senhor da ESPN que comanda os melancias às avessas — vermelhos por fora e verdinhos por dentro —, cuja existência descobri quando me atacou — e a mais três — de maneira vergonhosa, vai ficar chateado. Eles estavam convictos por lá, na emissora “estadunidense” (que é como devem falar esquerdistas autênticos como eles, certo?), que as vaias e os xingamentos a Dilma eram coisa dos leitores de Reinaldo Azevedo, entre outros. Coisa, como vituperaram por lá, da “elite branca de São Paulo”. Até cheguei a procurar por esses dias se a ESPN já havia emitido um comunicado renunciando a todos os seus assinantes da “elite branca de São Paulo”. Até agora, nada! Parece que se acovardaram. Eu entendo quando esquerdistas “autênticos” ficam de olho no caixa do Grupo Disney — e no Ibope. Até onde sei, parece que as acusações caíram como uma bomba na audiência. Que peninha! A do meu blog subiu pra caramba! Já bati o recorde antes de o mês acabar. Obrigado, Trajano e melancias às avessas amestradas! Bate que eu cresço! Adiante.
Quem também se acovardou é Lula. Ora, ora, ora… Tão logo a tese da elite branca surgiu naquela “emissora estadunidense”, o Apedeuta saiu a repeti-la pelos cotovelos. Seria tudo coisa de reacionários. O jornalismo áulico reproduziu a patacoada segundo a qual as vaias e os xingamentos tinham sido uma beleza para Dilma. Na minha coluna na Folha de sexta-feira, tirei o sarro dessa mentira. Escrevi lá: “É evidente que o lado positivo da vaia é cascata. Essa versão é obra de ‘spin doctors’, cujo trabalho só é efetivo quando conta com a opinião abalizada de ‘especialistas’ e com a sujeição voluntária ou involuntária da imprensa”.
O primeiro a perceber a armadilha foi Gilberto Carvalho, que correu para negar a tese da elite branca. Pesquisas do Palácio do Planalto apontam que, ao contrário da versão que tentaram emplacar, o evento tinha sido ruim para a presidente, e a versão  tornava tudo pior.
Em entrevista nesta quarta ao “Jornal do SBT”, o ex-presidente mudou o tom — e
sem
combinar nada com Trajano, santo Deus! Agora ele afirma que “o governo, possivelmente, tem culpa” por não ter “cuidado com carinho” das insatisfações da população. Ah, bom!!! Com aquela sua inclinação natural para o pensamento de cunho filosófico, afirmou: “Eu digo sempre que a vaia e o aplauso é só começar que acontecem. Agora, aqueles palavrões me cheirou a coisa organizada, o preconceito, a raiva demonstrada. Possivelmente a gente tenha culpa. Vou repetir: que a gente tenha culpa de não ter cuidado disso com carinho”.
A fala é ainda um tanto confusa, e não se pode esperar nada melhor do que isso. Ou bem os palavrões “são coisa organizada” ou bem “o governo tem culpa”. De qualquer modo, trata-se de uma mudança de tom. Quem também foi desautorizado é o sr. Alberto Cantalice, vice-presidente do PT, segundo quem os xingamentos eram consequência da pregação de pessoas como “Reinaldo Azevedo (este criado que escreve), Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Demétrio Magnoli, Danilo Gentili, Guilherme Fiuza, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor.”
Não deixa de ser divertido. Os petistas não perceberam que algo está mudando no país e que a eterna guerra promovida pelo PT do “nós”, que são eles, contra “eles”, que somos nós, não funciona mais. O petismo botocudo achou que poderia usar o episódio do Itaquerão para promover um arranca-rabo de classes e, se necessário, até um conflito racial, opondo branco a negros, ricos a pobres, paulistas ao resto do país.
Deu-se mal. O tiro saiu pela culatra. Os que embarcaram nessa canoa furada colheram o óbvio: a embarcação virou porque fez água. A versão de que a vaia era coisa da “elite branca” tornou pior para Dilma o que já estava ruim.
Eu bem que adverti aqui, como sabem, que não foi promovendo a guerra de todos contra todos que o PT chegou ao poder em 2003. Ao contrário: aquela linguagem beligerante era coisa do tempo em que o partido só perdia eleições. Lula está tentando consertar o estrago que ele próprio fez com a ajuda do jornalismo idiota ou comprado. 
De vítima, a gente sente pena, mas não lhe dá voto. Lula só foi eleito quando parou de posar de coitado e deixou que toda a sua autoestima, que é gigantesca, viesse à flor da pele, não é mesmo? O PT aprendeu a lição. E o jornalismo?
Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Brasileiro: cidadão de segunda classe em seu próprio país.



Por Fabio Ostermann, publicado no Instituto Liberal

A Copa do Mundo está nos trazendo diversas lições sobre como funcionam as coisas no Brasil. Dentre elas está uma cuja compreensão é de suma importância para o futuro do país: aos olhos dos nossos governantes e em nosso próprio país, nós brasileiros somos cidadãos de segunda classe.
Tal conclusão decorre do fato de que nunca antes na história do Brasil se viu tanto policiamento quanto se vê ocorre agora nas maiores cidades brasileiras. Aparentemente foi necessário que alguns milhares de estrangeiros dessem as caras em nossas cidades para que a segurança pública fosse tratada seriamente.
Nossos quase 60 mil homicídios ao ano, incontáveis roubos, estupros e sequestros-relâmpagos não sensibilizam nossa Presidente e nossos governadores, pelo visto. Mas aparentemente nossos governanetes querem evitar ao máximo qualquer possibilidade de algum cidadão estrangeiro vir a ser mais uma vítima da criminalidade brasileira. Imagina a vergonha internacional se um grupo de turistas americanos é sequestrado? Uma alemã estuprada? Uma família coreana roubada e o pai da família assassinado??! Não podemos correr tais riscos!
Mas como o cobertor é curto, o aumento de efeitvo policial que garante a segurança dos gringos (1ª Classe) e, meramente por tabela, dos brasileiros moradores das cidades sedes (2ª Classe) se dá às custas do deslocamento de boa parte do efetivo das cidades do interior, deixando seus moradores à mercê da criminalidade. Ou seja, dentro desse sistema de divisão de classes temos um grupo ainda mais abaixo de nós, moradores das capitais. Aqueles que habitam as cidades do interior fazem parte, pelo visto, de uma classe ainda mais baixa de cidadãos, cuja segurança realmente não vale nada.
A Copa termina em 3 semanas. Que aproveitemos nossa segurança temporária para refletirmos sobre por que raios o Estado no Brasil se envolve com tantas atribuições (governo federal, p.ex., tem 39 ministérios e participa ativamente da gestão de centenas de empresas nas mais variadas áreas) e não consegue priorizar a atuação em sua função FUNDAMENTAL, que é a segurança pública.
Daqui 3 meses e meio, teremos uma oportunidade única de demonstrar nosso descontentamento com esse tratamento desrespeitoso e indigno. Para alguns milhares de brasileiros será, infelizmente, a última oportunidade antes de se tornarem parte da estatística.

Sob a presidência de Lewandowski e com relatoria de Barroso, STF deve dar hoje autorização para que mensaleiros trabalhem fora da cadeia.

O Supremo Tribunal Federal vai julgar hoje, em sessão presidida pelo ministro Ricardo Lewandowski, o pedido para que quatro presos do mensalão que cumprem pena em regime semiaberto possam trabalhar fora da cadeia. O relator é o ministro Roberto Barroso. Joaquim Barbosa não participa porque vai se declarar impedido.
O que vai acontecer? A autorização será concedida, certo como dois e dois são quatro. De fato, outro tribunal, o STJ, tem garantido essa licença, ainda que isso contrarie o Artigo 37 da Lei de Execução Penal, que estabelece o cumprimento de um sexto da pena — o que ainda não aconteceu — para que o preso ganhe essa permissão. Mais: a concessão não é automática. O juiz tem de avaliar se o preso faz por merecer o benefício, mesmo com um sexto da pena cumprido. Mas isso tudo deve ficar pra lá.
Notem: não estou entre aqueles que consideram que essa concessão vai desmoralizar todo o julgamento etc. e tal. Parece-me uma visão meio apocalíptica e errada. Mas também não vou conceder com falcatruas e mentiras. E uma delas é a história de que José Dirceu e os outros estão em regime fechado — vale dizer: nem o direito que têm ao regime semiaberto estaria sendo cumprido. É falso.
O tribunal vai ainda decidir uma outra questão. A buliçosa defesa de José Genoino entrou com pedido, como sabemos, para que ele cumpra a pena em regime domiciliar. Alega que as condições do presídio não permitem que receba o devido tratamento; aponta crises hipertensivas, problemas de coagulação e alerta para um suposto risco de AVC caso o petista permaneça na cadeia. Cumpre lembrar que ele já foi examinado por duas juntas médicas que disseram que as condições em que está recluso são compatíveis com seu estado de saúde. Tendo a achar que também essa licença será concedida.
E, nesse caso, claro!, ouviremos elogios rasgados, então, ao novo relator e à condução do Supremo sob os auspícios de Ricardo Lewandowski. E, se Joaquim Barbosa foi tomado como o verdugo dos mensaleiros, não se tomem os novos protagonistas como as suas fadas madrinhas. Nada disso! Ministro que vota contra os petistas está necessariamente de má-fé; quando vota a favor, é claro que está apenas cumprindo a lei, certo?
Pois é… Vamos ver onde vão trabalhar os valentes. Delúbio Soares voltará para seu acintoso “emprego” na CUT, onde, na verdade, atua como chefe, como dirigente? E José Dirceu? Qual será a sua ocupação? Assumirá mesmo uma cargo de direção naquele hotel esquisito, onde poderá fazer política à vontade? O que os mensaleiros, em suma, ganharão? O direito de trabalhar ou de voltar justamente às atividades que lhes renderam a prisão?
Todos já sabemos qual será a decisão. Eu ficarei particularmente atento aos argumentos. Para o sim e para o não, podem ser dignos ou indignos.
Por Reinaldo Azevedo

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Acorda jornalista"

Publicado no Blog Vespeiro
FERNÃO LARA MESQUITA

Um golpe contra a democracia está em curso desde o último dia 26 de maio e a circunstância que o torna mais ameaçador do que nunca antes na história deste país é a atitude de avestruz que a imprensa tem mantido, deixando de alertar a população para a gravidade dessa agressão.
O decreto nº 8.243, assinado por Dilma Rousseff, que cria um “Sistema Nacional de Participação Social”, começa por decidir por todos nós que “sociedade civil” deixa de ser o conjunto dos brasileiros e seus representantes eleitos por voto secreto, segundo padrão universalmente consagrado de aferição da legitimidade desse processo, e passa a ser um grupo indefinido de “movimentos sociais” que ninguém elegeu e que cabe ao secretário-geral da Presidência, e a ninguém mais, convocar para examinar ou propor qualquer lei, política ou instituição existente ou que vier a ser criada daqui por diante em todas as instâncias e entes de governo, diretas e indiretas, o que afeta também os governos estaduais e municipais hoje na oposição.

Apesar da violência desse enunciado, a maioria dos jornais e televisões do país nem sequer registrou o fato. E mesmo os que entraram no assunto depois vêm diluindo o tema no noticiário como se não houvesse nada com que seus leitores devessem se preocupar. Prossegue a sucessão de manchetes em torno do golpe de 1964, mas para o de 2014 o destaque é próximo de zero. Nenhum critério jornalístico justifica isso.
Esse decreto é, na verdade, um excerto do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que o PT já tentou impor antes ao país também por decreto – nas vésperas do Natal de 2009, no apagar das luzes do governo Lula –, mas que, graças à forte reação da imprensa e consequente mobilização da opinião pública, foi obrigado a abortar.
O PNDH-3 contém 521 propostas que, além da revogação da Lei de Anistia, que passou “no tapa” depois que a imprensa comprou a ideia do governo de que a prioridade nacional é voltar 50 anos para trás e não correr 50 anos para a frente, institui “comissões de direitos humanos” nos Legislativos para fazer uma triagem prévia das matérias que eles poderão ou não processar; impõe a censura à imprensa; obriga a um processo de “reeducação” todos os professores do país; veda ao Judiciário dar sentenças de reintegração de posse de propriedades “rurais ou urbanas” invadidas, prerrogativa que se torna exclusiva dos “movimentos sociais”; desmonta as polícias estaduais para criar uma central única de comando de todas as polícias do país, e vai por aí afora.
Ciente de que tal amontoado de brutalidades jamais será aprovado pelo Legislativo, o PT está tratando de fazer com esse Poder o mesmo que fez com o Judiciário. Os juízes não dão as sentenças que queremos? Substituam-se os juízes por juízes “amigos”. Um Legislativo eleito pelo conjunto dos brasileiros jamais transformará essas 521 propostas em lei? Substituam-se os legisladores por “movimentos sociais” amestrados sob a tutela da Presidência da República…
O argumento de que esse é o jeito de forçar o Congresso a reformas não é honesto. Para forçar reformas que o povo deseje, existem instrumentos consagrados tais como o do voto distrital com recall, que arma as mãos de todos os eleitores para demitir na hora os representantes que resistirem ou agirem contra a sua vontade. Este tipo de participação, sim, opera milagres estritamente dentro dos limites da democracia. Substituir os representantes eleitos por “representantes” que ninguém elegeu tem outro nome: chama-se golpe.
Depois da rendição do Judiciário com a renúncia de Joaquim Barbosa, só sobra a imprensa. E os feriados da Copa farão com que só haja pouco mais de meia dúzia de sessões legislativas completas em junho e julho somados. Depois é véspera de eleição. É bom, portanto, que ela desperte já dessa letargia, pois não haverá segunda chance: está escrito no PNDH-3 que a imprensa é a próxima instituição nacional a ser desmontada.