quarta-feira, 25 de maio de 2011

O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné


Nascido no Piauí, Francenildo Costa era caseiro em Brasília. Em 2006, depois de confirmar que Antonio Palocci frequentava regularmente a mansão que fingia nem conhecer, teve o sigilo bancário estuprado a mando do ministro da Fazenda.
Nascida na Guiné, Nafissatou Diallo mudou-se para Nova York em 1998 e é camareira do Sofitel há três anos. Domingo passado, enquanto arrumava o apartamento em que se hospedava Dominique Strauss-Kahn, sofreu um ataque violento do diretor do FMI e candidato à presidência da França, que tentou estuprá-la.
Consumado o crime em Brasília, a direção da Caixa Econômica Federal absolveu liminarmente o culpado e acusou a vítima de ter-se beneficiado de um estranho depósito no valor de R$ 30 mil. Francenildo explicou que o dinheiro fora enviado pelo pai. Por duvidar da palavra do caseiro, a Polícia Federal resolveu interrogá-lo até admitir, horas mais tarde, que o que disse desde sempre era verdade.
Consumado o crime em Nova York, a direção do hotel chamou a polícia, que ouviu o relato de Nafissatou. Confiantes na palavra da camareira, os agentes da lei descobriram o paradeiro do hóspede suspeito e conseguiram prendê-lo dois minutos antes da decolagem do avião que o levaria para Paris ─ e para a impunidade perpétua.
Até depor na CPI dos Bingos, Francenildo, hoje com 28 anos, não sabia quem era o homem que vira várias vezes chegando de carro à “República de Ribeirão Preto”. Informado de que se tratava do ministro da Fazenda, esperou sem medo a hora de confirmar na Justiça o que dissera no Congresso. Nunca foi chamado para detalhar o que testemunhou. Na sessão do Supremo Tribunal Federal que examinou o caso, ele se ofereceu para falar. Os juízes se dispensaram de ouvi-lo. Decidiram que Palocci não mentiu e que as contundentes provas do estupro eram insuficientes para a aceitação da denúncia.
Depois da captura de Strauss, a camareira foi levada à polícia para fazer o reconhecimento formal do agressor. Só então descobriu que o estuprador é uma celebridade internacional. A irmã que a acompanhava assustou-se. Nafissatou, muçulmana de 32 anos, disse que acreditava na Justiça americana. Sempre jurando que tudo não passara de sexo consensual, o acusado foi soterrado pela montanha de evidências e, depois de trocar o terno pelo uniforme de prisioneiro, recolhido a uma cela.
Nesta quinta-feira, Francenildo completou cinco anos sem emprego fixo. Até agora, ninguém se atreveu a garantir a estabilidade financeira do caseiro que ousou contar um caso como o caso foi. No mesmo dia,  Palocci completou cinco dias de silêncio: perdeu a voz no domingo, quando o país soube do milagre da multiplicação do patrimônio. Pela terceira vez em oito anos, está de volta ao noticiário político-policial.
Enquanto se recupera do trauma, a camareira foi confortada por um comunicado da direção do hotel: “Estamos completamente satisfeitos com seu trabalho e seu comportamento”, diz um trecho. Estimuladas pelo exemplo da imigrante africana, outras mulheres confirmaram que a divindade do mundo financeiro é um reincidente impune. Nesta sexta-feira, depois de cinco noites num catre, Strauss pagou a fiança de 1 milhão de dólares para responder ao processo em prisão domiciliar. Até o julgamento, terá de usar uma tornozeleira eletrônica.
Livre de complicações judiciais, Palocci elegeu-se deputado, caiu nas graças de Dilma Rousseff e há quatro meses, na chefia da Casa Civil, faz e desfaz como primeiro-ministro. Atropelado pela descoberta de que andou ganhando pilhas de dinheiro como traficante de influência, tenta manter o emprego. Talvez consiga: desde 2003, não existe pecado do lado de baixo do equador. O Brasil dos delinquentes cinco estrelas é um convite à reincidência.
Enlaçado pelo braço da Justiça, Strauss renunciou à direção do FMI, sepultou o projeto presidencial e é forte candidato a uma longa temporada na gaiola. Descobriu tardiamente que, nos Estados Unidos, todos são iguais perante a lei. Não há diferenças entre o hóspede do apartamento de 3 mil dólares por dia e a imigrante africana incumbida de arrumá-lo.
Altos Companheiros do PT, esse viveiro de gigolôs da miséria, recitam de meia em meia hora que o Grande Satã ianque é o retrato acabado do triunfo dos poderosos sobre os oprimidos. Lugar de pobre que sonha com o paraíso é o Brasil que Lula inventou. Colocados lado a lado, o caseiro do Piauí e a camareira da Guiné gritam o contrário.
Se tentasse fazer lá o que faz aqui, Palocci não teria ido além do primeiro item do prontuário. Se escolhesse o País do Carnaval  para fazer o que fez nos Estados Unidos, Strauss só se arriscaria a ser convidado para comandar o Banco Central. O azar de Francenildo foi não ter tentado a vida em Nova York. A sorte de Nassifatou foi ter escapado de viver num Brasil que absolve o criminoso reincidente e castiga quem comete o pecado da honestidade.

Complementando

“No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba ele vira ministro”.

Lula, num palavrório de 1988, quando ainda não nomeava ministros

terça-feira, 24 de maio de 2011

História de Morro do Chapéu II

ESCRITURA DE DOAÇÃO DAS TERRAS DA CIDADE DE MORRO DO CHAPÉU, FEITAS PELO PADRE FRANCISCO GOMES DE ARAÚJO E SUA IRMÃ.

     O padre Francisco Gomes de Araújo e sua irmã Ana Umbelina de Araújo, compraram as terras da atual cidade de Morro do Chapéu a Manuel de Saldanha da Gama Melo e Torres Guedes de Brito, VII Conde da Ponte.
     A escritura foi redigida nos seguintes termos:
     “Escritura de doação que para regalia dos habitantes deste arraial e Freguesia de Nossa Senhora das Graças fazem a esta os doadores o Senhor Vigário Francisco Gomes de Araújo e D. Ana Umbelina de Araújo da terra circunferência do mesmo Arraial que integra ao Frabiqueiro (o administrador de uma igreja) e a domínio desta Matriz Manoel Joaquim da Silva Miranda, que para si e seus sucessores, juntamente com o Senhor Juiz de Paz que tiver servindo conceder-lhes as licenças necessárias para o levantamento de casas e lugares de que cada qual precisar, e quanto para o futuro este arraial chegar a ser Vila, tomará a Câmara Municipal conta dele e tudo na forma que abaixo se declara:
     Saibam quantos este público instrumento de escritura de doação virem, que sendo do ano de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e quarenta e um, neste arraial e Freguesia de Nossa Senhora da Graça do termo de Jacobina, em o cartório de mim Escrivão adeante nomeado, comparecerão perante mim como doadores o Senhor Vigário Francisco Gomes de Araújo e Dona Ana Umbelina de Araújo, por eles me foi dito perante as testemunhas adeante nomeadas e no fim assinadas que eram senhores possuidores das terras de huma fazenda denominada Pedras, vizinha deste arraial as quaes houverão por compra ao Senhorio da Casa da Ponte, que tenho tombado à dita fazenda, incluindo nella as terras deste arraial, tudo comprarão por escritura como della e de reforma constará e por isto feito assim senhores e donos deste terreno doão a circunferência deste arraial, confrontado-se da parte do norte no morro vizinho, para o sul no Rio Jacuipe, para o nascente estrada abaixo que vai para o Olho D´Água, no lugar onde se fincou um marco de pedra e ao poente a partir com a fazenda do Morro no lugar de sua extrema; e assim demarcados este terreno do derredor deste arraial disserão elles doadores que de muitas livres vontades doarão todo elle a Nossa Senhora da Graça, para a regalia de todos os moradores e às pessoas que aqui quiserem formar moradas com permissão do Administrador da Igreja que estiver servindo o qual juntamente com o Sr. Juiz de Paz que então for concederão as licenças necessárias para o alevantamento de qualquer casa que porventura conseguirem edificar, assim como dos terrenos para quintais, não consentindo que cada qual ao seu alvedrio tome parte de terreno maiores do que havereis permitido e quando para o futuro este Arraial for elevado a Villa a Câmara Municipal tomará della mais não se receberá foro algum, e assim confrontado e demarcado este terreno de doação feita a Nossa Senhora da Graça, elles doadores tirão de si posse, domínio e senhorio que nelles por virtude de sua compra, cedendo e traspassando o fim indicado sem que elles doadores mesmos pessoas herdeiros possam contraditar esta doação que é feita no valor de cinqüenta mil réis em relação ao preço porque comprarão a terra por inteiro, estando presente o atual Fabriqueiro da Igreja Manoel Joaquim da Silva Miranda disse que aceitava a presente doação na forma que estava declarada. Em fé e testemunho da verdade doarão e aceitarão e requerirão a mim Escivão feito este instrumento nesta Nota, para dar traslado necessário o que satisfis como Oficial Público, aceitei, estipulei, em nome das pessoas ausentes a quem o direito tocar possa e tudo forão por testemunhos Antonio Ferreira Soares e o comandante Manoel Fulgêncio de Figueiredo as quaes assinadas com os doadores e aceitantes depois que esta foi lida perante testemunhas que foram por mim Manoel Bárbara de Souza, escrivão do Juiz de Paz que o escrevi.
Assinados Francisco Gomes de Araújo, Ana Umbelina de Araújo, Manoel Joaquim da Silva Miranda, Antonio Ferreira Soares e Manoel Fulgêncio de Figueiredo”.

DESCREVENDO OS LIMITES

   O terreno doado pelo padre Francisco Gomes de Araújo e Dona Ana Umbelina de Araújo não tinham  os limites muito bem definidos: “ao norte no morro vizinho, para o sul no Rio Jacuipe, para o nascente estrada abaixo que vai para o Olho D´Água, no lugar onde se fincou um marco de pedra e ao poente a partir com a fazenda do Morro no lugar de sua extrema”. O morro vizinho (qual?) deve ser onde hoje está localizado o cemitério. Depois para o nascente estrada abaixo que vai para o Olho D´Água no lugar onde se fincou um marco de pedra. Estrada abaixo deve ser a partir da fazenda Morro Velho até um lugar onde se acha um marco de pedra. É evidente que esse “marco de pedra” era maleável podendo se fixar em qualquer lugar. E onde era o lugar de extrema (de uma ponta a outra) da fazenda Morro Velho? Com o tempo esses limites incertos foram se estendendo muito além do que foram estabelecidos, abarcando terras distantes dos marcos iniciais. É só imaginar as possibilidades que havia para quem detinha o poder de legalizar as doações.Convenhamos; o padre Francisco Gomes de Araújo foi bem intencionado, mas muito ingênuo.
    


A pergunta que não quer calar.

Por onde anda o deputado Edson Pimenta? Depois da última eleição quando foi eleito deputado federal, o parlamentar sumiu sem deixar vestígios.

COOPAF adia Assembléia de prestação de contas pela terceira vez

Mais uma vez a COOPAF adia Assembléia Ordinária que seria para prestação de contas do exercício 2010, parecer do conselho fiscal, destinação das sobras e perdas do exercício findo de 31/12/10, aprovação de planos e metas e eleição dos cargos vagos no conselho de administração. Apenas Fábio conselheiro Administrativo e os dois conselheiros fiscais Gessivaldo e Helton, estiveram presentes, hoje pela manhã 23/05, onde seria a terceira tentativa de realização desta assembléia, com o novo adiamento causou indignação entre os cooperados, logo em seguida se dirigiram para o auditório do Centro Cultural Judite Arlego.
Os motivos do cancelamento alegados pelo presidente da cooperativa Sr Hérico Sampaio, seriam razões médicas. Segundo Gessivaldo conselheiro fiscal Hérico teria enviado um email pedindo o adiamento da assembléia por entender que os cooperados teriam muitos questionamentos, e sem a presença dele não seria possível sanar todos os questionamentos. Gessivaldo disse ainda, que Leandro Wilker, diretor financeiro e Hérico já estariam com os cargos vencidos, e só no final do ano estariam deixando os cargos, porém Hérico preferiu antecipar sua saída, pois muitos estariam misturando as questões da cooperativa com política.
Cerca de cem cooperados de diversas cidades e da zona rural compareceram no galpão da cooperativa, na saída para Utinga, onde aconteceria a assembléia. Por falta de informação muitos não tiveram acesso ao edital de cancelamento, tendo em vista, que a publicação teria sido veiculada em um jornal de circulação em Feira de Santana.
Alguns técnicos agrícola que prestam serviços à COOPAF afirmaram que estão há cinco meses sem receber seus salários, o que tem causado um caos em suas vidas. O Técnico Evaldo Pereira Dorado, disse que gostaria de perguntar ao diretores Cássio e Leandro Wilker se eles estariam na mesma situação em que ele se encontra, tendo que “trocar cheque a juros para sobreviver”. Muitos cooperados indignados consideraram uma falta de respeito à ausência dos membros da mesa diretora para dar explicações sobre o atraso.
Muitos cooperados que já vinham insatisfeitos com a diretoria, onde criticas e acusações, de estarem envolvidos em irregularidades, como possível desvio de dinheiro, venda do patrimônio sem o conhecimento dos cooperados como: Gado, veículos entre outros implementos da cooperativa. Outra especulação dos cooperados foi um trator Valtra que está dentro do galpão da Coopaf.
Após muitas discussões e opiniões contrárias o movimento ficou dividido, muitos cooperados deixaram a reunião indignados. Para o técnico Evaldo, o movimento tornou-se político apesar dele não ser de Morro do Chapéu, não justifica o que está acontecendo. “A prefeitura tem interesse que a cooperativa se afunde e não vamos deixar, afirmou o técnico Evaldo Pereira Dourado”
Logo em seguida foi formada uma comissão de cinco agricultores que se juntaram aos três membros do conselho fiscal para analisarem a prestação de conta enviada pela diretoria, será também contratado um contador para ajudar nos trabalhos de auditoria. Outra assembléia deverá acontecer no dia 07 de junho 2011. chapadaonline.com

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Leitura indispensável: um grande artigo de Fernando Henrique

07/02/2010
Para o petista, o único governo que existiu é o do PT. Para eles, Lula foi o maior governante desde Tomé de Souza. Para eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nada fez de bom. Além de não fazer nada ainda vendeu as empresas brasileiras para o estrangeiro. Essa semana um petista peão da roça (nada contra), gritou nos meus ouvidos insistentemente: “Cadê Fernando Henrique?”
Bom aí está ele num artigo luminoso desafiando Lula para mais um debate, dizendo no fim com respeito a seu governo: “Nada a temer”.
SEM MEDO DO PASSADO
Fernando Henrique Cardoso
O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.
Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?
A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.
Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.
Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.
Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.
Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010. “Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”.
O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.
Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.
É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).
Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

sábado, 21 de maio de 2011

Atleta de Morro do Chapéu quebra recorde sul-americano que já durava 18 anos


DE SÃO PAULO

A atleta Simone Alves da Silva, 27, do Clube de Atletismo BM&F/Bovespa, quebrou nesta sexta-feira à noite o recorde sul-americano dos 5.000 m em pista, que já durava 18 anos.
Vice-campeã da última São Silvestre, ela baixou em 3s14 a marca que era de Carmem de Oliveira e cravou 15min18s85 no Desafio Internacional Olímpico, evento feito para a inauguração da nova pista do Estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, em São Paulo.
"Já vinha tentando os 5 mil em pista, às vezes chegando muito perto da marca. Venci com muita diferença", disse a baiana, de Morro do Chapéu.
"Prefiro competir à noite. Pela manhã, não corro bem. Hoje [sexta] estava inspirada e não me cobrei e nem me forcei. Faz pouco tempo que consegui o índice para o Pan, ou seja, estou em uma boa fase", afirmou Simone.
Ela já tem índices para integrar a seleção brasileira no Pan de Guadalajara, em outubro, nos 5.000 m e nos 10.000 m.
"Pensei em tentar o índice para o Mundial (15min12s02), mas o braço começou a travar. Se entrar numa prova mais competitiva, acho que consigo o índice", completou.
Também nesta sexta, o bicampeão da maratona de Nova York Marílson Gomes dos Santos, do mesmo clube, venceu os 10.000 m com o tempo de 28min09s24 e garantiu índice para os Jogos Pan-Americanos do México.
Marilson é recordista sul-americano dos 10.000 m em pista (27min28s12). Nesta temporada, ele também estabeleceu a melhor marca de sua carreira na Maratona de Londres, em abril, com 2h06min34.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ler, escrever, calcular.

César Benjamin*
Não devem passar despercebidos dois artigos publicados nesta Folha nos últimos dias. Em “Repetência e alfabetização”, de 27 de janeiro, João Batista Araújo e Oliveira apresentou resultados de um teste aplicado em 338 mil alunos do segundo ao quinto ano em 350 municípios brasileiros espalhados por 25 Estados, uma amostra muito representativa. Nada menos de 70% dos avaliados foram considerados analfabetos, e 50% dos estudantes do quinto ano foram classificados assim.
No dia 4, a Folha noticiou o desempenho de alunos da rede municipal de São Paulo em matemática. Não me estenderei. Ocimar Alavarse, da USP, avaliou o resultado como “escandaloso”. Um teste semelhante, em escala nacional, mostraria resultado igual ou pior. Tais avaliações mostram que o Brasil ainda recusa à maioria dos seus filhos a possibilidade de participar das potencialidades da civilização contemporânea. Estamos diante de um problema grave, antigo, estrutural, que envolve todos os níveis de governo e a sociedade. Mas não conseguimos reagir.
Há íntima relação entre a capacidade formal de expressão e os conteúdos que se deseja expressar. Em um dos Seminários de Zollikon, Heidegger pergunta: “Por que os animais não falam?”. Ele mesmo responde, de maneira simples e muito perspicaz: “Porque não têm o que dizer”. Quando depois se refere ao homem como “o animal falante”, talvez possamos ler “o animal que tem o que dizer”.
Os homens sempre tiveram muito a dizer. Todas as sociedades, das mais primitivas às mais avançadas, separadas por dezenas de milhares de anos, criaram línguas que apresentam grau semelhante de complexidade, a ponto de até hoje não ter sido possível construir uma teoria evolutiva da linguagem, esse grande enigma humano.
Pois é de uma linguagem criativa que se trata, o que nos diferencia. Adquirimos na infância a misteriosa capacidade de construir e entender um número indefinido de sentenças que jamais ouvimos e que talvez jamais tenham sido enunciadas, enquanto os sistemas de comunicação usados por outras espécies só permitem a transmissão de um pequeno conjunto de mensagens cujo significado é fixo.
Assim, além das funções de expressão pessoal e de comunicação imediata, que compartilhamos com os animais, nossa linguagem possui funções superiores que lhe são específicas, como descrição, conceitualização e argumentação.
Graças a elas, podemos desenvolver, por exemplo, padrões de crítica, a ideia de verdade, o conceito de razão. Popper é enfático: “É ao desenvolvimento das funções superiores da linguagem que devemos a nossa humanidade, a nossa razão, pois nossos poderes de raciocínio nada mais são do que poderes de argumentação crítica”.
A capacidade de abstração, a formulação de explicações, a compreensão de objetos complexos -tudo isso exige o cultivo das funções superiores da linguagem, que, no mundo contemporâneo, implica o domínio pleno da leitura e da escrita, além de fundamentos de lógica que nos são transmitidos, principalmente, pela matemática.
Nenhuma sociedade poderá se manter à tona, no século 21, sem disseminar essas capacidades em suas populações. Isso exige que as crianças aprendam a ler, escrever e calcular, com proficiência, na idade adequada. É a base do que vem depois. Se isso não for obtido no tempo certo, toda a estrutura educacional do país permanecerá comprometida. Eis um grande tema para a campanha presidencial, se ela quiser ser mais que uma pantomima.
* Editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006).