quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Seca por decreto

Lauro Adolfo
 
Era uma cidadezinha encravada no alto sertão baiano. Como é de praxe em toda cidade os desfavorecidos moravam em barracos de taipa na periferia da cidade, vivendo das esmolas dos políticos em troca de votos. A atividade mais rendosa do lugar era a medicina pois em lugar algum se via tanta gente doente lotando os hospitais.

O centro da cidade era um amontoado caótico de casas. Havia alguns prédios de apartamentos por isso podemos chamá-Io de centro urbano que é uma expressão mais simpática. A passagem de veículos por suas ruas nem poderíamos classificar de trânsito vez que seus motoristas não respeitavam mão e contramão, estacionando seus carros onde bem entendessem. Talvez isso se devesse a farta distribuição de carteiras de habilitação promovida pelos políticos em época de eleição. O candidato a motorista só não adquiria sua carteira se fosse totalmente cego, faltasse os dois braços ou as duas pernas. Enxergou um pouquinho, deu para pegar no volante e pisar em algum pedal já estava aprovado sem precisar entrar no veículo.

As praças da cidade estavam tomadas pelo mato, capim e pés de algaroba fazendo a felicidade dos muares que ali pastavam tranqüilos. Em algumas cresciam viçosos pés de milho e feijão. De vez em quando o prefeito mandava capinar o mato, podar as algarobas e colher a pequena safra. Uma ou outra tinha piso de pedrinhas, porém as crateras já tomavam conta. Algum espertinho roubava as pedrinhas para decorar sabe-se lá o quê. Bancos naquelas praças para se sentar era um luxo.

        Se havia quebra-molas? Claro, e dos grandes fazendo a alegria dos donos de oficinas mecânicas. Afinal, quebra-molas é uma instituição legitimamente baiana e não há município que não os tenha. Mas tudo isso não era nada diante de um grave problema que afligia a toda população: os esgotos corriam a céu aberto. O problema era insolúvel porque o subsolo era constituído de pedras maciças e abrir um buraco ali só com dinamite. Esse método porém não podia ser usado porque abalaria as estruturas frágeis das residências do lugar. De modo que corria pelas ruas, aquela água negra e fedorenta trazendo um bando de urubus a reboque que tinham elegido a cidade como sua estação de pouso e descanso pois, como se sabe, o ar quente e mal cheiroso faz bem à saúde dessas agourentas aves.

     Um dia correu o boato de que o governador iria visitar a cidade. E este para variar era Antônio Carlos Magalhães em mais um de seus mandatos. O fato é que o prefeito conseguira a promessa de ACM de visitar a cidade para inaugurar algumas obras. E veio exultante dar as alvíssaras. Alguns fogos espoucaram e os vereadores foram consultar as “bases” para saber de suas reivindicações. Fez-se uma reunião onde se debateu as providências a serem tomadas para a chegada de tão ilustre visita. Na dita reunião chegou-se rapidamente a um acordo sobre quais ruas seriam interditadas para a passagem da comitiva. Também se chegou a um consenso sobre o local onde seria servido o almoço e quais iguarias o comporiam. Quem iria discursar no palanque e em qual ordem também foi determinado. Chegou-se ao requinte de nomear dois homens fortes para, no momento oportuno, carregar “espontaneamente” o governador nos ombros num gesto tão característico de nossa gente.

Havia um “porém”, como diz o vulgo, e esse “porém” era aquele esgoto à vista e a urubuzada que denegria a imagem da cidade. Convenhamos que aquele não era um comitê de recepção dos mais recomendáveis para qualquer político quanto mais para ACM. Todo mundo sabe que com o governador não se brinca. Vacilou com ele, a madeira deita. Era preciso limpar as ruas para mostrar a sua excelência como a verba liberada para o saneamento da cidade fora bem aplicada. Alguns vereadores da estreita confiança do prefeito embolsaram parte daquela verba e estavam num beco sem saída.

De modo que ali na casa do chefe do executivo municipal estavam reunidos aqueles vereadores de reputação ilibada, às voltas com um problema de graves proporções e que não apresentava uma solução à vista. O líder da Câmara, vereador conhecido por sua estreita ligação com o prefeito, sugeriu incisivo:

         - Basta lavar as ruas e matar todos os urubus.

    Essa solução porém, foi rapidamente descartada pois, como bem lembrou um supersticioso vereador, matar urubu dá azar e na cidade não havia caminhões que lavassem as ruas.

Outro edil sugeriu que se posicionasse o povo ao longo do trajeto por onde passaria a comitiva escondendo, deste modo, a lama preta dos excelsos olhos do governador. Quanto aos urubus, bastava atirar pedras neles colocando-os em fuga. Estudaram o assunto e alguém lembrou que o povo é ingrato não reconhecendo as relevantes obras feitas em prol da comunidade e poderia não aceitar tão nobre tarefa. Quanto aos urubus todo mundo sabe que esses bichos são treteiros e teimosos. Você atira uma pedra neles, eles voam até um local mais próximo e ficam de lá “urubuservando”. É você se distrair e lá estão eles de volta.

    Os vereadores já estavam de cabeça quente prevendo a tragédia quando o prefeito, estrategicamente mandou servir café com bolinhos para aqueles baluartes da ética e da moralidade. Refeita as forças voltaram ao problema. Um vereador que até aquele momento não dissera uma palavra, sugeriu que se mudasse  itinerário da comitiva passando somente pelas ruas que estivessem limpas. Era uma boa idéia que só um bom café reforçado podia gerar. Estudaram o mapa da cidade e viram como era difícil encontrar alguma rua que não tivesse esgotos fazendo com que o trajeto a ser percorrido abarcasse quase todo o perímetro urbano passando por ruas estreitas e sem calçamento. Estavam todos dispostos a se dar por vencidos quando o prefeito apresentou uma idéia digna de um homem que foi eleito para comandar os destinos do município. Esfregando as mãos de contentamento, disse a seus correligionários:

- Companheiros, vocês se lembram da análise da água consumida na cidade que foi feita em Salvador  constatando contaminação por coliformes fecais?

             Se eles se lembravam! O documento fora engavetado para não alarmar a população e também porque não havia solução à vista.

             - E daí chefe? Inquiriu o presidente da Câmara sem atinar aonde o “chefe” queria chegar.

- E daí meus amigos, é que vamos suspender o fornecimento de água na cidade dizendo que há fortes suspeitas de que esteja contaminada, inclusive com o vírus da cólera e que todos aguardem até vir o resultado da análise.

- E as carroças de água e os caminhões-pipa que abastecem a população? Lembrou outro vereador quase, adivinhando onde o prefeito queria chegar.

- Mandamos confiscar tudo para exame. O povo vai ficar até agradecido pois vivem dizendo que eles são focos de contaminação. Afinal não há um caminhão-pipa que ninguém sabe o que transportava até servir água?

             E continuou o prefeito:

             - Com o corte de água as pessoas só vão usar o líquido para as suas necessidades essenciais. Desse modo, em pouco tempo as ruas estarão sequinhas e basta depois dar uma boa varrida para ficar tudo limpo.

             - E os urubus? Perguntaram todos.

             - Ora amigos, sem a catinga para alegrar as suas narinas eles vão se mandar para outras plagas.

E assim, a egrégia Câmara de Vereadores, reunida em sessão extraordinária sancionou um decreto emanado do executivo municipal que determinava a suspensão de todo o abastecimento de água na cidade. Era a primeira vez que uma cidade do nordeste  sofria uma seca por decreto.

Foi uma linda festa! O trajeto percorrido pelo governador estava que era uma beleza! Tudo limpo e asseado atestando a boa administração executada pelo prefeito provando que ele aplicara bem a verba de saneamento. Os discursos foram entusiásticos e ACM foi carregado espontaneamente nos braços do povo. O almoço agradou a todos os paladares e o governador sancionou todas as reivindicações. É verdade que alguns engraçadinhos apareceram com uma faixa onde se lia: “Queremos água”, mas a polícia dispersou-os antes que ACM visse o que estava escrito.

No outro dia, sem nenhum aviso prévio, a água voltou a jorrar das torneiras, as carroças e caminhões-pipa retomaram as suas atividades normais, os esgotos invadiram de novo as ruas e os urubus voltaram parar refazer suas forças combalidas por muitas horas de vôo.

Quanto ao resultado da análise da água, esse jamais foi divulgado.

 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CNJ afasta presidente do TJ da Bahia

Desembargadores Mário Alberto Simões Hirs e Telma Laura Silva Britto são suspeitos de fraudes no cálculo de pagamento de precatórios

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, durante análise dos recursos apresentados pelas defesas dos 25 réus condenados pela corte, os chamados embargos, nesta quinta-feira (22)
O presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Joaquim Barbosa ( Pedro Ladeira/Folhapress)
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu afastar, nesta terça-feira, o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Mário Alberto Simões Hirs, e da ex-presidente da corte, desembargadora Telma Laura Silva Britto, investigados por suspeita de fraudes no pagamento de precatórios. A Corregedoria Nacional afirmou ter encontrado uma diferença de 448 milhões de reais entre os valores que seriam pagos e os efetivamente devidos.
A abertura do processo administrativo é ancorada em denúncias do corregedor nacional de Justiça, ministro Francisco Falcão, que acusa os dois desembargadores de elevar excessivamente os cálculos de atualização dos valores dos precatórios, fazer cobrança irregular de multas contra os credores, entre outras irregularidades.
“É inadmissível que um presidente de tribunal ignore erros dessa gravidade na elaboração de precatórios. Não se pode sequer admitir a hipótese de ignorância porque ele foi alertado para as irregularidades existentes no cálculo e se omitiu”, afirmou o presidente do CNJ, ministro Joaquim Barbosa

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Pensador Coletivo

 
O Pensador Coletivo é uma máquina regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias
Você sabe o que é MAV? Inventada no 4º Congresso do PT, em 2011, a sigla significa Militância em Ambientes Virtuais. São núcleos de militantes treinados para operar na internet, em publicações e redes sociais, segundo orientações partidárias. A ordem é fabricar correntes volumosas de opinião articuladas em torno dos assuntos do momento. Um centro político define pautas, escolhe alvos e escreve uma coleção de frases básicas. Os militantes as difundem, com variações pequenas, multiplicando suas vozes pela produção em massa de pseudônimos. No fim do arco-íris, um Pensador Coletivo fala a mesma coisa em todos os lugares, fazendo-se passar por multidões de indivíduos anônimos. Você pode não saber o que é MAV, mas ele conversa com você todos os dias.
O Pensador Coletivo se preocupa imensamente com a crítica ao governo. Os sistemas políticos pluralistas estão sustentados pelo elogio da dissonância: a crítica é benéfica para o governo porque descortina problemas que não seriam enxergados num regime monolítico. O Pensador Coletivo não concorda com esse princípio democrático: seu imperativo é rebater a crítica imediatamente, evitando que o vírus da dúvida se espalhe pelo tecido social. Uma tática preferencial é acusar o crítico de estar a serviço de interesses de malévolos terceiros: um partido adversário, "a mídia", "a burguesia", os EUA ou tudo isso junto. É que, por sua própria natureza, o Pensador Coletivo não crê na hipótese de existência da opinião individual.
O Pensador Coletivo abomina argumentos específicos. Seu centro político não tem tempo para refletir sobre textos críticos e formular réplicas substanciais. Os militantes difusores não têm a sofisticação intelectual indispensável para refrasear sentenças complexas. Você está diante do Pensador Coletivo quando se depara com fórmulas genéricas exibidas como refutações de argumentos específicos. O uso dos termos "elitista", "preconceituoso" e "privatizante", assim como suas variantes, é um forte indício de que seu interlocutor não é um indivíduo, mas o Pensador Coletivo.
O Pensador Coletivo interpreta o debate público como uma guerra. "A guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação", explica o deputado André Vargas, um chefe do MAV. No seu mundo ideal, os dissidentes seriam enxotados da praça pública. Como, no mundo real, eles circulam por aí, a alternativa é pregar-lhes o rótulo de "inimigos do povo". Você provavelmente conversa com o Pensador Coletivo quando, no lugar de uma resposta argumentada, encontra qualificativos desairosos dirigidos contra o autor de uma crítica cujo conteúdo é ignorado. "Direitista", "reacionário" e "racista" são as ofensas do manual, mas existem outras. Um expediente comum é adicionar ao impropério a acusação de que o crítico "dissemina o ódio".
O Pensador Coletivo é uma máquina política regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias. Por isso, ele nunca se deixa intimidar pela exigência de consistência argumentativa. Suzana Singer seguiu a cartilha do Pensador Coletivo ao rotular o colunista Reinaldo Azevedo como um "rottweiler feroz" para, na sequência, solicitar candidamente um "bom nível de conversa". Nesse passo, trocou a função de ombudsman da Folha pela de Censora de Opinião. Contudo, ela não pertence ao MAV. Os procedimentos do Pensador Coletivo estão disponíveis nas latas de lixo de nossa vida pública: mimetizá-los é, apenas, uma questão de gosto.
Existem similares ao MAV em outros partidos? O conceito do Pensador Coletivo ajusta-se melhor às correntes políticas que se acreditam possuidoras da chave da porta do Futuro. Mas, na era da internet, e na hora de uma campanha eleitoral, o invento será copiado. Pense nisso pelo lado bom: identificar robôs de opinião é um joguinho que tem a sua graça.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Cardozo e seu governo, por atos e omissões, ajudaram a promover a violência que agora tentam combater. Ou: um texto com fatos e fotos

José Eduardo Cardozo agora acha necessário organizar uma ação contra os black blocs? Pois é… Que coisa, não? A primeira manifestação promovida pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo, ocorreu no dia 6 de junho. Não houve a chamada “violência policial”. Só os manifestantes botaram para, literalmente, quebrar e queimar. No dia 7, informava a Folha:““Em protesto contra a elevação da tarifa de ônibus, metrô e trens em São Paulo, manifestantes entraram em confronto com a Polícia Militar, interditaram vias e provocaram cenas de vandalismo ontem à noite na região central. O ato levou à interdição de vias como 23 de Maio, Nove de Julho e Paulista na hora de pico. Estações de metrô foram depredadas e fecharam. No centro e na Paulista, quebraram placas, picharam muros e ônibus, atearam fogo, provocaram danos a um shopping e ao Masp. Os manifestantes são ligados ao Movimento Passe Livre, liderado por estudantes e alas radicais de partidos.”
Jornais 7 de junho
O Passe Livre não deu trégua. No dia 7, promoveu outro quebra-quebra, também notavelmente violento. Mais uma vez, a Polícia Militar evitou o confronto. Novas depredações, incêndios, quebra-quebras, aí com o fechamento das marginais, causando um colapso na cidade. Os mascarados já estavam lá, atuando junto com o Passe Livre. Os jornais do dia 8 de junho traziam o devido registro.
Jornais 8 de junho
Estava na cara que havia algo estranho no ar. Muito bem! No dia 9 de junho, o Estadão de domingo chega às bancas com uma estranha entrevista de José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, tornada manchete. O alvo principal: o governador Geraldo Alckmin, em particular a política de segurança pública. Era um domingo.
Estadão 9 de junho
Na terça-feira, dia 11 de junho, o Passe Livre e os black blocs voltaram às ruas. A violência chegava ao paroxismo. Coquetéis Molotov foram lançados contra a polícia. Um policial foi linchado. Assim evidenciavam os jornais no dia 12.
Jornais do dia 12
policial ferido 2
Estão acompanhando?
Até aqui, três de seis dias dedicados à depredação e à violência, com a Polícia Militar fazendo um trabalho praticamente de contenção. Entre esses dias, uma entrevista do ministro da Justiça atacando o governador. Observem que estou documentando tudo.
Aí veio a tragédia do dia 13. O Passe Livre voltou às ruas ainda mais disposto ao confronto e à pauleira. Aqui e ali já se colhiam na imprensa sinais de simpatia pelos vândalos. Mas como endossar as práticas terroristas? Era preciso que um valor mais alto se alevantasse. Jornalistas, no geral, têm mais ódio da polícia do que de bandidos com uma “boa causa”. Sei que frases como essa não me rendem uma boa fama. Escrevo o que quero. Não devo satisfações a aiatolás do pensamento. Pois bem: nesse dia, a tropa de choque combinou com “os meninos” (como diria um repórter de TV…) que eles não romperiam o cordão de policiais rumo à Avenida Paulista. Não adiantou. Eles romperam. E o pau comeu. A Polícia Militar reagiu com bombas de gás e de efeito moral e balas de borracha. Jornalistas foram alvejados. Aí a coisa toda mudou de figura, como se via no dia 14.
jornais do dia 14
Uma imprensa que já estava doida para aderir encontrou ali o pretexto de que precisava. E que se note: não estou endossando a ação da PM naquele dia. Foi exagerada, atabalhoada, desorganizada. Mas não muda a moral da história. 
A PM passava a ser a vilã. E os protagonistas da truculência dos dias 6, 7 e 11 eram tratados como heróis que estivessem lutando contra um estado autoritário. As TVs, em especial, passaram a dar aos trogloditas a grandeza de resistência civil. A GloboNews, por exemplo, entrou em rimo de AL Jazeera cobrindo a Primavera Árabe. A diferença nada ligeira é que o Brasil é um estado democrático.
CARDOZO DE NOVO!
Naquele mesmo dia 13, com a cidade tomada pelo caos — eu voltava de uma palestra no Rio e fiquei quase cinco horas preso no Aeroporto de Congonhas porque meu bairro estava sitiado por vândalos —, Cardozo concedeu uma entrevista aos portais oferecendo “ajuda” ao governador Geraldo Alckmin. Não telefonou, não conversou, não procurou nem foi procurado. Falava pela imprensa. Tirava uma casquinha. Fazia de conta que o problema era de São Paulo.
No dia 17, marca-se outra manifestação em São Paulo. A Polícia aceita as condições dos trogloditas que haviam vandalizado a cidade no dias 6, 7, 11 e 13: nada de tropa de choque, nada de bala de borracha, nada de bombas e nada de restrição a áreas de protesto. Qualquer lugar é lugar. Tudo pode e tudo vale. Os petistas aderiram ao protesto. Já não era mais pelos 20 centavos, dizia-se, mas por cidadania, sei lá o quê. Algo começava a sair do planejado: em São Paulo, a convocação reuniu 65 mil pessoas. A do Rio, que seria apenas em solidariedade, juntou mais de 100 mil… Epa!!!
No dia 18 de junho, aí era a Folha que trazia outra entrevista de José Eduardo Cardozo, também contra o governo de São Paulo, com ataques diretos à Polícia.
Folha 18 de junho - cardozo
Concedida no dia 17, antes do término das manifestações, este gênio usou como exemplo bem-sucedidos as polícias do Rio e do Distrito Federal:“O que vi em SP, e as câmeras mostraram, é de uma evidência solar que houve abuso. Vi o que aconteceu no Distrito Federal e no Rio. Padrões de comportamento bem diferentes”.
Patético! Naquele dia 17, não houve violência em São Paulo. Alguns bananas tentaram invadir os jardins do Palácio dos Bandeirantes, mas nada muito grave. No Rio, no entanto, um dos bons exemplos de Cardozo, assistiu-se aos caos, como isto aqui:

BrasíliaO ministro da Justiça que “ofereceu” ajuda a Alckmin no dia 13,  que já o havia atacado no dia 9 e que censurou a polícia de São Paulo no dia 17, tinha tudo para organizar, então, com o seu aliado Agnelo Queiroz (PT), governador do Distrito Federal, uma ação preventiva exemplar quando o protesto chegou ao Distrito Federal, certo?
Pois bem! No dia 20, o caos se instalou em Brasília. Meteram fogo no Itamaraty. E ninguém ouviu a voz de Cardozo, o chefe da Polícia Federal e o homem que pode acionar a Força Nacional de Segurança. Vejam.

Setores importantes da imprensa, as esquerdas de modo geral e o governo federal promoveram a demonização da Polícia Militar de São Paulo, que logo virou a demonização de qualquer polícia. Também se inventou a mentira estúpida de que manifestantes eram uma coisa, e baderneiros, outra. Chegou a ser por um brevíssimo período. Logo, os chefes dos protestos deixaram claro que os mascarados eram a sua tropa de choque e que eles estavam juntos.
A violência que José Eduardo Cardozo agora diz querer combater é a mesma que ele e seu governo, por atos e omissões, estimularam. Em São Paulo, muitos patriotas estavam certos de que a confusão lhes seria eleitoralmente útil. Deu no que deu.
Este não é um texto de opinião. É um texto com fatos e fotos.
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Inversão moral – Amigos de rapaz preso, acusado de agressão covarde a coronel da PM, transformam a vítima em algoz


Mais coronel agredido
Não fossem certas ideias mais perigosas do que algumas doenças, eu tenderia a achar que há um estranho vírus por aí. O principal efeito de sua toxina é diluir os argumentos racionais e lógicos e a coerência. Por quê? Vocês se lembram da agressão covarde ao coronel Reynaldo Simões Rossi. Há um preso em flagrante. Chama-se Paulo Henrique Santiago. Tem 22 anos e estuda Relações Internacionais na faculdade Santa Marcelina.
Muito bem. Um grupo de estudantes resolveu divulgar uma carta de apoio ao colega, leio na Folha. Sustentam que Santiago não pertence ao Movimento Passe Livre nem é adepto dos black blocs. Seus amigos afirmam ainda que “ele não é um homicida e não participa de quadrilha que objetiva matar policiais”.
O fato, reitero, é que ele foi preso no local, em flagrante. Que se apure tudo para saber se é um dos culpados. Seus amigos, no entanto, precisam tomar mais cuidado. Como advogados de defesa, podem se transformar em testemunhas da acusação. Na tal carta, resolveram fazer algumas especulações sociológicas:“(…) é preciso questionar por que tantos jovens, provenientes de diversas experiências, lugares e estratos sociais estão cada vez mais se dispondo a enfrentar a polícia em manifestações”.
Como? Digamos que isso rendesse um bom debate… Estou enganado, ou se lê acima uma espécie de justificação da violência, tentando transformar a vítima em culpada pelo mal que a atingiu? Estou enganado, ou uma cena covarde, de tentativa de linchamento, está recebendo uma espécie de endosso ou, no mínimo, de condescendência? Não fosse a intervenção de um policial do Serviço Reservado, o coronel poderia ter sido assassinado ali.
No mesmo texto, há esta outra joia:
“Os moderados falam em negociação. Mas pergunta-se: Como se negocia quando uma das partes possui uma arma, mais ou menos letal? Como qualquer pessoa que não tenha sangue de barata ficaria diante de pessoas sendo espancadas, chutadas?”
É uma boa pergunta. O único espancado, no caso em questão, foi o coronel. O único chutado, no caso em questão, foi o coronel. Os signatários da carta discordam, então, da moderação e da negociação? Talvez o militar tenha apanhado por isto: ele é considerado um bom “negociador” e um “moderado”, um grande pecado nestes dias. 
Quanto às armas… Esses estudantes já ouviram falar que, nas democracias, a alguns se concede o uso legítimo da força? E não é aos arruaceiros… Armados, já são linchados. Imaginem se vão às ruas apenas com argumentos.
Santiago não precisa de inimigos. Ele já tem os amigos.
Por Reinaldo Azevedo

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

‘Beagles e dedos perdidos’,

Publicado no Estadão deste sábado
 
FERNANDO REINACH
 
Foi em Londres, no dia 13 de março de 2006. Seis voluntários entraram no hospital. Estavam felizes com os cerca de R$ 10 mil que receberiam para participar do primeiro teste clínico de uma nova droga. Mal sabiam que só sairiam do hospital meses depois, sem os dedos das mãos e dos pés. Essa é a história do pior acidente ocorrido com seres humanos durante os testes de uma nova droga.

Uma hora depois de receberem uma droga denominada TGN1412, os voluntários estavam com dores no corpo, náuseas, vomitando, e com diarreia. A pressão arterial caiu. O ritmo dos batimentos cardíacos aumentou. Manchas vermelhas apareceram em todo o corpo. Quatro horas depois veio a dificuldade para respirar. Tiveram de ser entubados e ligados a respiradores artificiais. Em 12 horas estavam na UTI. E o pior estava por vir. Múltiplos órgãos deixaram de funcionar e os voluntários foram conectados a máquinas de diálise. A circulação do sangue foi ficando difícil à medida em que o sangue parecia vazar das veias. As alterações foram rápidas e profundas e todos receberam transfusões. Estavam confusos, com a memória e o raciocínio alterados. O acúmulo de líquidos foi tão grande que familiares relataram ter sido quase impossível reconhecer o rosto dos jovens. A descrição do que ocorreu nas semanas seguintes só deve ser lida por pessoas com estômago forte. Após semanas de luta, os médicos salvaram os voluntários, que além de danos em vários órgãos, saíram do hospital sem os dedos das mãos e dos pés. Haviam necrosado e tiveram de ser amputados.
O que teria dado errado? Centenas de testes clínicos são feitos todos os anos e nunca um problema como esse havia ocorrido. Hoje, sete anos depois, sabemos o que causou o problema: os macacos não são suficientemente parecidos com um ser humano.
Esse episódio foi investigado nos seus mínimos detalhes. A causa de todos os sintomas foi uma liberação massiva de citokinas, induzida pelo TGN1412 (hoje chamamos esse fenômeno de tempestade de citokinas). Ficou comprovado que o remédio não estava contaminado e o que foi injetado nos pacientes era exatamente a mesma molécula que havia sido testada anteriormente em animais.
Mas por que essa tempestade de citokinas não foi detectada nos testes pré-clínicos, feitos em animais? Os resultados em animais foram reexaminados para verificar se teria havido falsificação ou omissão de dados pela companhia farmacêutica que desenvolveu a droga. Não houve. Todos os experimentos feitos em animais puderam ser repetidos.
O TGN1412 tinha sido testado em ratos e camundongos e este efeito colateral não tinha sido observado. Os cientistas também acharam prudente fazer os testes em um outro mamífero. Apesar de os cachorros serem muito parecidos com os seres humanos, foi decidido que o TGN1412, que agia sobre o sistema imunológico, deveria ser testado em macacos, o mamífero mais semelhante ao ser humano. Isso foi feito. De novo, nenhum problema. Finalmente, antes de injetar em seres humanos, foram feitos testes em células humanas isoladas, onde também não foi detectado o fenômeno.
Com base em todos esses testes, as agências governamentais autorizaram os testes iniciais em seres humanos. Os voluntários foram recrutados. Os resultados dos estudos pré-clínicos foram explicados a eles, que assinaram um termo de consentimento e entraram sorridentes no hospital.
Durante os últimos seis anos, os cientistas descobriram por que o TGN1412 não provoca a tempestade de citokinas em macacos ou roedores. Mas isso era impossível de prever antes do acidente. A verdade é que nunca é possível prever, com certeza absoluta, a reação de um ser humano a uma nova droga. É por isso que os voluntários são necessários. Para cada remédio que está nas farmácias existe um grupo que tomou a droga pela primeira vez.
Mas se é impossível prever, com centenas de novas drogas sendo testadas todos os anos, por que episódios como esses não ocorrem com mais frequência? A resposta é simples: eles ocorrem. Mas geralmente durante os testes em ratos, cães ou macacos. Sempre que essas reações extremas são detectadas em animais, o desenvolvimento da droga é suspenso e ela nunca chega a ser testada em humanos.
Para a maioria das novas drogas, o organismo de um rato, de um cão ou de um macaco é suficientemente parecido com o de um ser humano. O que permite aos cientistas detectar o problema antes de testar a nova droga em seres humanos. Deveríamos agradecer à evolução o fato de não sermos os únicos mamíferos a habitar o planeta.
Caso os testes em animais sejam abolidos, só restam duas alternativas: testar novas drogas diretamente em seres humanos ou abandonar o desenvolvimento de novos medicamentos.
Esse exemplo mostra quão irreal é a ideia de que esses testes possam ser feitos em computadores ou em animais menos “nobres”, como moscas ou vermes. Você aceitaria ser voluntário no primeiro teste clínico de uma droga que só tivesse sido testada em uma barata?
A verdade é que qualquer droga altera o funcionamento do organismo, e é natural que grande parte desses compostos apresente efeitos colaterais. E mesmo remédios aprovados e utilizados por todos nós apresentam riscos e efeitos colaterais (você já leu uma bula?). Quanto mais próxima do homem for a espécie animal usada nos experimentos, melhor será a chance de prever os efeitos de uma nova droga em seres humanos.
Por outro lado, quanto mais próxima de nós for a espécie utilizada nos estudos, maior será nossa ligação afetiva, e mais penosos serão os experimentos e o sofrimento por eles causados. É por isso que, apesar de necessários, esses experimentos devem ser feitos com moderação e respeito pelos animais. Mas não se iluda, dificilmente eles poderão ser abolidos.
Eu devo um agradecimento aos invasores do instituto de pesquisa que “resgataram” os beagles. Foi observando os seus dedos envolvendo os simpáticos cães que me lembrei desse evento de 2006

Por que o retorno ao mundo natural tem tanto apelo, mas não leva a lugar nenhum

 

BOM PRA QUEM, CARA PÁLIDA? Na raiz de todo ativismo violento está a noção utópica e errônea de que Thomas Hobbes pensou errado e, portanto, a vida selvagem é idílica, prazerosa e fraternal  (Deagostini/Getty Images)
BOM PRA QUEM, CARA PÁLIDA? Na raiz de todo ativismo violento está a noção utópica e errônea de que Thomas Hobbes pensou errado e, portanto, a vida selvagem é idílica, prazerosa e fraternal (Deagostini/Getty Images)
 
Por Eurípedes Alcântara, na VEJA:
“Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”, já dizia o romano Terêncio, dramaturgo de apenas relativo sucesso do segundo século antes de Cristo. Mas temos de concordar com ele. Eta espécie complicada esta nossa. Depois de ralar durante milênios para construir uma civilização tecnológica com aviões, carros, internet, vacinas, antibióticos e anestesia, o bacana agora é lutar pela volta ao mundo natural. Depois de experimentar toda a sordidez da servidão humana aos mais sanguinários tiranos e de sofrer no lombo os mais odiosos arranjos coletivistas totalitários, ainda temos entre nós quem se encante com aiatolás-presidentes, mulás-chefes de po­lícia e caudilhos latino-americanos cobertos de adereços indígenas, medalhas no peito ou pancake no rosto. Depois de rios de sangue derramados para arrancar dos poderosos o compromisso inarredável com os direitos humanos, a justiça igualitária, o rodízio pacífico de poder, a organização econômica baseada no respeito à propriedade, aceitamos que mascarados aterrorizem as grandes cidades quebrando e queimando indiscriminadamente apenas porque estão incomodados com o estilo de vida da maioria. Depois do sacrifício dos mártires que deram a vida para impor o uso apenas legítimo da força pelos governantes, impedindo que o Estado use brucutus para impor a vontade dos ricos sobre os pobres, dos fortes sobre os fracos, ficamos contra os policiais que tentam impedir o triunfo do reino de terror nas ruas. Depois de tudo isso, esquecemos que o que nos trouxe ao atual estágio civilizatório foi o trabalho obstinado e austero de mentes brilhantes em ambientes monásticos e idolatramos os barulhentos ativistas.
A ÚNICA CHANCE?de salvar os cães é nos salvar, ou seja, acelerar os avanços científicos e tecnológicos, e não colocar obstáculos intransponíveis a eles
A ÚNICA CHANCE?de salvar os cães é nos salvar, ou seja, acelerar os avanços científicos e tecnológicos, e não colocar obstáculos intransponíveis a eles
 
Esse é o dilema oculto do ativista, a pessoa que se cansou de esperar que as coisas ocorram naturalmente da maneira como ela imagina, e vai à luta para tentar embicar o mundo para o rumo que ela acha certo e com o uso das armas que ela própria acha conveniente usar. Os ativistas que libertam cães em São Paulo, que quebram vitrines em Londres e Paris, que se propõem a ocupar Wall Street, em Nova York, têm em comum a ideia de que a lei e a ordem existem apenas para garantir o modo de vida das pessoas das quais eles discordam – ou, frequentemente, que eles odeiam. Outro ponto comum, em geral inconsciente, para a maioria deles, é a negação do que em sociologia se chama “contrato social”, que nada mais é do que a aceitação da tese de que sua liberdade termina onde começa a do outro. Os filósofos da baderna sustentam que isso que denominamos civilização não passa de uma grande e castrante prisão, à qual somos moldados desde o nascimento, primeiro pelo amor materno e paterno, depois pela educação formal, mais tarde pela democracia representativa, pelo consumo, pela arte degenerada e pelos remédios antidepressivos.
Para quem pensa assim, nós todos vivemos uma vida vicária, uma vida substituta, uma vida no lugar da verdadeira vida que está… que está… que está onde? Ora, na natureza, no mundo selvagem, nas selvas, florestas e savanas, na cova dos leões onde seremos recebidos com lambidas fraternas como aquelas que as feras ofereceram ao profeta Daniel. O que muito se discute atualmente é se a ideia de que o homem solto na natureza, fora do alcance das leis, das instituições, completamente alheio às convenções sociais, estaria mesmo condenado à perversão moral e ao sofrimento físico, vítima da “guerra de todos contra todos”, como o inglês Thomas Hobbes disse ser a vida humana “em estado natural”. É disso que se trata. A vontade de ser seu próprio juiz, único e absoluto, do que é certo ou errado é o traço filosófico que une os ativistas que desprezam as leis, que lutam contra moinhos de vento ditatoriais em pleno regime democrático, contra as injustiças sociais em um Brasil onde há pleno emprego, contra a violência policial quando são eles que mais agridem e vandalizam. Thomas Hobbes escreveu que, fora dos arranjos sociais em que as pessoas obedecem a regras em troca do direito à convivência em sociedade, a vida do homem é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. Hoje, o bacana é apostar que Hobbes pensou errado e que a verdadeira conquista é escapar dos contratos sociais. O preço a pagar para testar aquela hipótese é muito alto. Como é impagável também o preço de um mundo sem ativismo, sem idealismo, sem sonhos.
A REVOLTA DA VACINA - No Rio Janeiro, em 1904, o medo da vacinação obrigatória contra a varíola gerou protestos violentos, como este na Praça da República
A REVOLTA DA VACINA – No Rio Janeiro, em 1904, o medo da vacinação obrigatória contra a varíola gerou protestos violentos, como este na Praça da República
 
O engajamento solidário em causas consideradas justas é uma das grandes conquistas da modernidade. Divisor de águas é o caso do jovem capitão Alfred Dreyfus, judeu falsamente acusado de espionagem e condenado no fim do século XIX em uma França antissemita. A injustiça contra ele foi tão flagrante que se mobilizaram em sua defesa cientistas, artistas, escritores e estudantes . “Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu”, dizia a famosa carta aberta ao presidente da República escrita por Émile Zola em um jornal sob o título: “Eu Acuso…!”. Por serem homens de letras e de ciências, os defensores de Dreyfus eram chamados de modo depreciativo de “intelectuais”. Logo o termo ganhou a conotação positiva de “sábio engajado”. Claro que havia idealismo, sacrifício e nobreza de espírito antes do caso Dreyfus, mas nunca antes tantas pessoas haviam se mobilizado por uma causa sem que tivessem interesse direto nela – seja partidário, religioso, nacionalista, patriótico ou étnico. Elas se mobilizaram contra uma injustiça flagrante. Contra isso sempre valerá a pena lutar.