domingo, 10 de novembro de 2013

Aniversário da queda do Muro de Berlim

Hoje, dia 9 de novembro, completam-se 24 anos da queda do Muro de Berlim, marco histórico que simboliza o fracasso do socialismo e a vitória do capitalismo liberal na Guerra Fria. Em 2009, quando foi aniversário de duas décadas desse momento incrível, escrevi um texto para o jornal GLOBO, que vai abaixo:
 
Vinte anos depois
 
Dia 9 de novembro de 1989, 23h17, duas palavras selaram o destino da Guerra Fria. Uma multidão gritava em uníssono: “Abram! Abram!”. Eram os alemães do lado oriental, exigindo o direito de atravessar para o lado ocidental. O guarda responsável da fronteira finalmente cedeu, e ordenou: “Abram tudo”. Os portões escancararam-se. Era o fim do Muro de Berlim, ícone do regime socialista que vinha mantendo o próprio povo em cárcere desde 1961.
Inúmeras causas podem ser apontadas para esta conquista. De um lado, parece inegável o papel desempenhado pelos americanos, em especial o presidente Reagan, que exigiu em 1987: “Senhor Gorbatchov, derrube este Muro!”. Atrás da retórica, um expressivo gasto militar que expôs a incapacidade do regime socialista de acompanhar o ritmo americano. O colapso econômico do sistema soviético era cada vez mais evidente. A queda no preço do petróleo daria o golpe fatal. O contraste com o dinamismo das nações capitalistas era gritante demais.
Papel fundamental na derrubada do Muro, entretanto, foi exercido por alguns importantes líderes do Leste Europeu. Eis o que demonstra o jornalista Michael Meyer em “1989: O Ano que Mudou o Mundo”. Meyer foi chefe da sucursal da revista Newsweek na Alemanha Oriental durante o desenrolar dos eventos e pôde verificar in loco os fortes ventos da mudança soprando na região. Ele mostra como alguns “reformistas”, convencidos de que o sistema não funcionava, tomaram decisões cruciais que culminaram na derrocada completa do socialismo.
Entre esses líderes, Miklós Németh merece destaque, por seu corajoso golpe no governo comunista húngaro. Por meio de suas articulações políticas, a fronteira da Hungria com a Áustria seria aberta, fazendo um buraco na Cortina de Ferro. Os regimes comunistas sempre tiveram a necessidade de impedir a livre saída do povo, para não deixar que os cidadãos descontentes – quase todos – votem com seus pés. Assim, a fotografia de soldados húngaros cortando um trecho da cerca de arame farpado que separava a fronteira austro-húngara ganhou o mundo.
Outra grande conquista se deu na Polônia, onde o movimento Solidariedade, liderado por Lech Walesa, conseguiu uma incrível vitória pacífica nas eleições que o regime comunista, sob intensa pressão popular, aceitou realizar. Nas palavras de Meyer, “para os anticomunistas de todos os lugares, era como tomar um grande gole de coragem”. Aquilo que antes parecia impossível passava a ser visto como viável.
A Alemanha Oriental seria a próxima da lista, apesar da postura intransigente do poderoso dirigente Honecker. Não dava mais para conter o desejo de liberdade do povo. O Muro de Berlim representava a cicatriz da Europa dividida. Sua queda marca o fim da Guerra Fria, com a humilhante derrota socialista. Vinte anos depois, esta data merece ser celebrada, para jamais esquecermos os horrores do socialismo, que, por onde passou, deixou um rastro de miséria, escravidão e terror.
Alguns intelectuais e “movimentos sociais”, infelizmente, tentam ressuscitar na América Latina o que foi devidamente enterrado no Leste Europeu. Sob um novo manto, o “socialismo do século XXI” quer inegavelmente seguir os mesmos passos fracassados do passado. A diferença é o discurso hipócrita da “revolução bolivariana”, com que se pretende hoje vestir a ditadura, dando-lhe uma roupagem democrática. Trata-se do uso da “democracia” para destruir as nossas liberdades individuais mais básicas. O alerta antigo vale mais que nunca: “Aqueles que ignoram o passado estão condenados a repeti-lo”.  

sábado, 9 de novembro de 2013

Celular ilumina casa de família em povoado baiano

 

JOÃO PEDRO PITOMBO
DO ENVIADO A SANTO ESTEVÃO (BA)
 
No mesmo povoado baiano que Lula visitou em 2006 para celebrar a chegada da eletricidade, uma família só consegue enfrentar o escuro com a luz de um celular.
A situação remete às dificuldades de acesso do Luz para Todos a áreas remotas. Na casa de Edinéia Conceição, 28, no povoado do Paiaiá, em Santo Estevão (BA), a luz não chegou por falta de poste, diz a dona de casa.

Ainda sem luz

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Raul Spinassé/Folhapress
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Edinéia precisa acender velas em sua casa; ela não foi contemplada pelo Luz Para Todos
O vizinho improvisou um "gato" no poste a 20 metros da casa de Edinéia, mas não houve acordo para que ela também usasse a ligação.
Órfã e sem ajuda dos pais de seus filhos, Edinéia tem a única fonte de renda nos R$ 215 do Bolsa Família. O orçamento apertado não banca as velas necessárias, recurso que ainda traz risco de incêndio: uma tábua já pegou fogo, que quase se alastrou.
 
Como a fumaça do candeeiro também causava tosse, o celular de R$ 150 perdeu a função original (também não sobra para créditos) e faz as vezes de lanterna na casa de três cômodos em que Edinéia vive com dois filhos.
E carregar o aparelho já virou rotina: uma amiga empresta a tomada sempre aos finais de semana. "Carrego o celular, mas a bateria dura só até quarta, quinta. Nunca dá para a semana toda", diz.
O filho mais velho da dona de casa abandonou a escola neste ano, e a mãe acha que a falta de luz teve sua culpa.
"Ele fazia [sob luz de velas] uma questão [de tarefa de casa] e parava". Apesar do apagão doméstico, o adolescente acessa a internet em um centro ao lado de casa e mantém conta em rede social.
A Prefeitura de Santo Estevão disse que vai fazer estudos para tentar levar energia até a casa de Edinéia. Informou ainda que o índice de ligações elétricas na área rural da cidade é de 99%

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Às vésperas da eleição interna, PT e aliados racham na Bahia

Movimentos sociais e partidos aliados à sigla no Estado também têm se manifestado sobre a disputa; três nomes concorrem à direção estadual

TIAGO DÉCIMO - Agência Estado
Salvador - Às vésperas da eleição que vai definir a composição da nova direção estadual da legenda,  no sábado, 9, e do anúncio oficial de quem será o candidato do partido ao governo da Bahia, previsto para o próximo dia 30, o PT enfrenta disputas internas que já extrapolaram os limites do partido.
Na linha de frente, estão apoiadores de três pré-candidatos da legenda a suceder o petista Jaques Wagner no comando da administração estadual: o secretário da Casa Civil, Rui Costa, preferido do governador; o secretário do Planejamento e ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que tem o apoio de organizações sindicais e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; e o senador Walter Pinheiro, que reúne boa parte da base do partido, mas encontra forte resistência da direção estadual da legenda.
Até grupos organizados que historicamente apoiam a legenda no Estado, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), escancaram as divergências. O líder nacional do movimento, João Pedro Stédile, por exemplo, divulgou vídeo, na segunda-feira, 4, em apoio a candidatura de Gabrielli. "É o melhor quadro do PT baiano para ser governador", disse no depoimento, distribuído pela internet.
No dia seguinte, a direção baiana do MST reagiu publicamente ao anúncio. "O posicionamento reflete uma opinião pessoal de nosso companheiro, não uma posição da direção do MST na Bahia", disse o líder estadual do movimento, Márcio Matos, também integrante da direção nacional do MST. "Estamos com Rui Costa pela sua relação histórica com o MST baiano."
A disputa se estende aos partidos aliados ao governo. Apesar de ainda restrita aos bastidores, já há conversas sobre possível saída de legendas da base caso um ou outro candidato seja o escolhido. O PP, liderado no Estado pelo ex-ministro das Cidades Mário Negromonte, por exemplo, já avisou ao PT baiano que prefere a candidatura de Walter Pinheiro - e não descarta apoiar a senadora Lídice da Mata, pré-candidata ao governo pelo PSB, caso o escolhido seja outro.
Favoritismo. O nome de Costa, porém, desponta como o favorito. Companheiro de Wagner desde os tempos em que ele liderava o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Petroquímica do Estado, no fim dos anos 1980, o secretário da Casa Civil acompanhou o governador em toda a carreira política e atualmente cuida de duas das áreas mais estratégicas em investimentos no Estado, transporte e mobilidade urbana. Ele também conta com o apoio da atual direção da legenda no Estado e do candidato favorito a assumir a nova direção, Everaldo Anunciação - um dos cinco candidatos na também conturbada eleição.
A pré-candidatura de Costa ainda recebeu, na semana passada, um grande reforço, quando ele foi publicamente elogiado pela presidente Dilma Rousseff durante a inauguração de uma via expressa em Salvador. Presente ao evento, sentado na primeira fila das autoridades - Costa estava na de trás -, Pinheiro não escondeu a insatisfação com o comentário.
Enquanto isso, Gabrielli tenta arregimentar apoios no PT nacional e põe o pé na estrada na Bahia. O pré-candidato, que chegou a fazer um grande evento, no dia 19, em um hotel de Salvador, para lançar "oficialmente" a pré-candidatura (a campanha chama-se "Tô com Zé"). Ele também se reuniu com Lula no início da semana,em São Paulo, e parte, neste fim de semana, para uma série de viagens pelo interior da Bahia. A intenção é visitar até o fim do mês, 13 cidades que são polos regionais do Estado, em grandes eventos organizados por seus apoiadores.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Carta de uma atriz pornô ao seu filho não nascido

Luciano Ribeiro


por
     
 
Carta de Aurora Snow a seu filho ainda não nascido
Meu filho,
 
Enquanto escrevo, você ainda não chegou ao mundo e não deve nascer até a metade de dezembro. No momento em que ler esta carta, terá idade o suficiente para usar a internet e será velho o bastante para conhecer o nome “Aurora Snow”. Agora, eu já terei temido esse dia por muitos anos e a minha esperança é que você encontre este artigo antes de acidentalmente esbarrar em qualquer foto ou vídeo que mostre sua mãe de um jeito que ela nunca desejou que você visse. Deixe-me explicar.
Sua mãe cresceu muito, muito pobre. No começo da década de 2000, eu frequentava a Universidade da Califórnia, em Irvine, e embora eu fosse uma aluna de honra, com pontuações altas nos testes e tenha gasto semanas após semanas preenchendo dados em formulários, continuava mergulhando em empréstimos. Frustrada e sentindo minhas chances de ter uma educação superior escapando, respondi a um anúncio no jornal Orange County Register.
A impressão grande, em negrito, fisgou meus olhos: Modelos para Nudez Feminina – ganhe $2.000 por dia.
Eu não tinha vergonha e precisava do dinheiro. Eu tinha certeza que nunca ia querer ter uma família. Foi em uma idade anterior a todos e tudo estarem online e eu realmente achava que podia esconder isso da minha mãe, pai e irmãos. O que eu tinha a perder? Planejei entrar nessa por um ano, pagar minhas dívidas estudantis e cair fora sem olhar pra trás. Não aconteceu bem desse jeito.
A atenção me fez sentir bem. O dinheiro era incrível. Mas mesmo com a atenção, nunca me senti bonita. Eu achava que a qualquer momento eles perceberiam que cometeram um erro e me pediriam para ir pra casa e trariam alguma garota bonita para o set. Eles nunca fizeram isso. E aquele trabalho de modelo logo levou alguém a me perguntar se eu faria sexo na frente da câmera por dinheiro. Ainda mais dinheiro. Eu disse sim e aquela escolha me levou ao agitado e colorido mundo dos filmes adultos.
Por razões além da minha compreensão, eles continuaram me pedindo para fazer filmes. Logo eu estava em capas, pôsteres e até mesmo alguns programas de televisão mainstream. Sua bisavó foi a primeira a descobrir a profissão secreta da sua mãe (ela me viu em uma fita VHS na casa de um amigo dela) e rapidamente informou sua avó e tios. Apesar de terem ficado desapontados com minhas escolhas, eles nunca deixaram de me amar.
Sua avó achou que eu deveria fazer algo com a minha mente, não com meu corpo. Ela se preocupou bastante comigo e sempre teve esperança de que eu encontrasse um jeito de sair. Acho que eu nunca falei sobre o assunto diretamente com seus tios, mas isso sempre foi o elefante na sala. Seu avô estava vivendo em um outro estado e descobriu o que eu estava fazendo quando me viu no programa de TV do Howard Stern. Lembrando, eu era bastante agradecida por ter sido uma das poucas garotas no programa do Stern a manter as roupas no corpo. Sempre mantive um senso de modéstia quando não estava filmando.
Neste ponto da sua vida, espero que eu tenha falado sobre a importância da honestidade, então, serei honesta com você. Eu fiz tudo o que é imaginável na minha carreira adulta e, se você procurar o suficiente, vai encontrar coisas que deve achar bastante terríveis. Posso dizer honestamente que eu encarei fazer filmes adultos como um trabalho e, como em qualquer trabalho que já tive, achei importante fazer o meu melhor. Algumas vezes, fazer meu trabalho bem, significava fazer coisas bastante grosseiras. Espero que você nunca veja isso.
Uma coisa realmente transformadora aconteceu em 20 de fevereiro de 2009. Seu tio Keith sofreu um acidente de moto terrível, quebrou o pescoço e seus dois filhos vieram aos meus cuidados. Eu não tinha a menor ideia do que fazer com crianças, mas fui forçada a aprender quando tomava conta dos seus primos por dois anos, enquanto Keith se recuperava. Durante esse tempo, alguma coisa mudou. Eu sentia que algo poderoso estava acontecendo dentro de mim, quando um dos meus sobrinhos colocava seus braços ao meu redor, confiando a mim sua vida e me dando seu amor incondicional. De repente eu percebi: “merda, eu quero minha própria família.”
Nunca acreditei no amor e morria de medo de qualquer coisa ou qualquer um que pudesse me prender. Eu era um espírito livre que podia ir e vir a qualquer momento, mas esse sentimento desapareceu quando percebi o que estava perdendo.
Minhas prioridades mudaram. Eu não era mais a garota que queria fazer qualquer coisa, ao invés disso, me tornei uma mulher com um objetivo. Eu queria uma família, mas primeiro tinha que encontrar alguém com quem pudesse criar essa família. Não era uma tarefa fácil. Um amigo querido me apresentou a um cara do campo. Ele era caloroso, charmoso e muito ligado à família.
Mesmo que eu quisesse bastante, é difícil mudar depois de dedicar uma década da sua vida a uma carreira, não importa qual seja essa carreira. Seu pai reconheceu o ciclo no qual eu estava presa e disse: “Só aperte o botão de ejetar.” Era um conselho que eu finalmente estava pronta para ouvir. Pela primeira vez eu tinha tanto a coragem quanto a motivação para deixar o emprego.
Filho, eu espero que esse artigo ajude-o a compreender e impeça-o de clicar nos links dos meus vídeos de sexo. As escolhas que nós fazemos podem mudar nosso caminho para sempre de um jeito que talvez não compreendamos no momento. Eu fiz escolhas que me levaram a um caminho que muitos desaprovam. Apesar do que pensava na época, estas são escolhas que eu agora estou explicando ao meu próprio filho. Tudo se resume a escolhas. Se eu soubesse que um dia mudaria de ideia e desejaria ter minha própria família, teria feito escolhas completamente diferentes. Eu não posso dizer que elas seriam melhores, porque cada escolha que fiz me trouxe a este ponto e eu não voltaria atrás. Quando você tem 18 anos, é fácil ver o futuro e saber exatamente o que você quer e não quer, mas apenas dez anos depois, essa clareza toda desaparece.
Então, lembre-se quando você estiver fazendo grandes escolhas na vida, pense longe no futuro e pergunte a si mesmo: “Posso viver com isso?” Minha resposta a essa pergunta é esta carta, que eu espero que fale por si própria.
Com amor,
Mamãe
* * *
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Aurora Snow, uma mãe

Seca por decreto

Lauro Adolfo
 
Era uma cidadezinha encravada no alto sertão baiano. Como é de praxe em toda cidade os desfavorecidos moravam em barracos de taipa na periferia da cidade, vivendo das esmolas dos políticos em troca de votos. A atividade mais rendosa do lugar era a medicina pois em lugar algum se via tanta gente doente lotando os hospitais.

O centro da cidade era um amontoado caótico de casas. Havia alguns prédios de apartamentos por isso podemos chamá-Io de centro urbano que é uma expressão mais simpática. A passagem de veículos por suas ruas nem poderíamos classificar de trânsito vez que seus motoristas não respeitavam mão e contramão, estacionando seus carros onde bem entendessem. Talvez isso se devesse a farta distribuição de carteiras de habilitação promovida pelos políticos em época de eleição. O candidato a motorista só não adquiria sua carteira se fosse totalmente cego, faltasse os dois braços ou as duas pernas. Enxergou um pouquinho, deu para pegar no volante e pisar em algum pedal já estava aprovado sem precisar entrar no veículo.

As praças da cidade estavam tomadas pelo mato, capim e pés de algaroba fazendo a felicidade dos muares que ali pastavam tranqüilos. Em algumas cresciam viçosos pés de milho e feijão. De vez em quando o prefeito mandava capinar o mato, podar as algarobas e colher a pequena safra. Uma ou outra tinha piso de pedrinhas, porém as crateras já tomavam conta. Algum espertinho roubava as pedrinhas para decorar sabe-se lá o quê. Bancos naquelas praças para se sentar era um luxo.

        Se havia quebra-molas? Claro, e dos grandes fazendo a alegria dos donos de oficinas mecânicas. Afinal, quebra-molas é uma instituição legitimamente baiana e não há município que não os tenha. Mas tudo isso não era nada diante de um grave problema que afligia a toda população: os esgotos corriam a céu aberto. O problema era insolúvel porque o subsolo era constituído de pedras maciças e abrir um buraco ali só com dinamite. Esse método porém não podia ser usado porque abalaria as estruturas frágeis das residências do lugar. De modo que corria pelas ruas, aquela água negra e fedorenta trazendo um bando de urubus a reboque que tinham elegido a cidade como sua estação de pouso e descanso pois, como se sabe, o ar quente e mal cheiroso faz bem à saúde dessas agourentas aves.

     Um dia correu o boato de que o governador iria visitar a cidade. E este para variar era Antônio Carlos Magalhães em mais um de seus mandatos. O fato é que o prefeito conseguira a promessa de ACM de visitar a cidade para inaugurar algumas obras. E veio exultante dar as alvíssaras. Alguns fogos espoucaram e os vereadores foram consultar as “bases” para saber de suas reivindicações. Fez-se uma reunião onde se debateu as providências a serem tomadas para a chegada de tão ilustre visita. Na dita reunião chegou-se rapidamente a um acordo sobre quais ruas seriam interditadas para a passagem da comitiva. Também se chegou a um consenso sobre o local onde seria servido o almoço e quais iguarias o comporiam. Quem iria discursar no palanque e em qual ordem também foi determinado. Chegou-se ao requinte de nomear dois homens fortes para, no momento oportuno, carregar “espontaneamente” o governador nos ombros num gesto tão característico de nossa gente.

Havia um “porém”, como diz o vulgo, e esse “porém” era aquele esgoto à vista e a urubuzada que denegria a imagem da cidade. Convenhamos que aquele não era um comitê de recepção dos mais recomendáveis para qualquer político quanto mais para ACM. Todo mundo sabe que com o governador não se brinca. Vacilou com ele, a madeira deita. Era preciso limpar as ruas para mostrar a sua excelência como a verba liberada para o saneamento da cidade fora bem aplicada. Alguns vereadores da estreita confiança do prefeito embolsaram parte daquela verba e estavam num beco sem saída.

De modo que ali na casa do chefe do executivo municipal estavam reunidos aqueles vereadores de reputação ilibada, às voltas com um problema de graves proporções e que não apresentava uma solução à vista. O líder da Câmara, vereador conhecido por sua estreita ligação com o prefeito, sugeriu incisivo:

         - Basta lavar as ruas e matar todos os urubus.

    Essa solução porém, foi rapidamente descartada pois, como bem lembrou um supersticioso vereador, matar urubu dá azar e na cidade não havia caminhões que lavassem as ruas.

Outro edil sugeriu que se posicionasse o povo ao longo do trajeto por onde passaria a comitiva escondendo, deste modo, a lama preta dos excelsos olhos do governador. Quanto aos urubus, bastava atirar pedras neles colocando-os em fuga. Estudaram o assunto e alguém lembrou que o povo é ingrato não reconhecendo as relevantes obras feitas em prol da comunidade e poderia não aceitar tão nobre tarefa. Quanto aos urubus todo mundo sabe que esses bichos são treteiros e teimosos. Você atira uma pedra neles, eles voam até um local mais próximo e ficam de lá “urubuservando”. É você se distrair e lá estão eles de volta.

    Os vereadores já estavam de cabeça quente prevendo a tragédia quando o prefeito, estrategicamente mandou servir café com bolinhos para aqueles baluartes da ética e da moralidade. Refeita as forças voltaram ao problema. Um vereador que até aquele momento não dissera uma palavra, sugeriu que se mudasse  itinerário da comitiva passando somente pelas ruas que estivessem limpas. Era uma boa idéia que só um bom café reforçado podia gerar. Estudaram o mapa da cidade e viram como era difícil encontrar alguma rua que não tivesse esgotos fazendo com que o trajeto a ser percorrido abarcasse quase todo o perímetro urbano passando por ruas estreitas e sem calçamento. Estavam todos dispostos a se dar por vencidos quando o prefeito apresentou uma idéia digna de um homem que foi eleito para comandar os destinos do município. Esfregando as mãos de contentamento, disse a seus correligionários:

- Companheiros, vocês se lembram da análise da água consumida na cidade que foi feita em Salvador  constatando contaminação por coliformes fecais?

             Se eles se lembravam! O documento fora engavetado para não alarmar a população e também porque não havia solução à vista.

             - E daí chefe? Inquiriu o presidente da Câmara sem atinar aonde o “chefe” queria chegar.

- E daí meus amigos, é que vamos suspender o fornecimento de água na cidade dizendo que há fortes suspeitas de que esteja contaminada, inclusive com o vírus da cólera e que todos aguardem até vir o resultado da análise.

- E as carroças de água e os caminhões-pipa que abastecem a população? Lembrou outro vereador quase, adivinhando onde o prefeito queria chegar.

- Mandamos confiscar tudo para exame. O povo vai ficar até agradecido pois vivem dizendo que eles são focos de contaminação. Afinal não há um caminhão-pipa que ninguém sabe o que transportava até servir água?

             E continuou o prefeito:

             - Com o corte de água as pessoas só vão usar o líquido para as suas necessidades essenciais. Desse modo, em pouco tempo as ruas estarão sequinhas e basta depois dar uma boa varrida para ficar tudo limpo.

             - E os urubus? Perguntaram todos.

             - Ora amigos, sem a catinga para alegrar as suas narinas eles vão se mandar para outras plagas.

E assim, a egrégia Câmara de Vereadores, reunida em sessão extraordinária sancionou um decreto emanado do executivo municipal que determinava a suspensão de todo o abastecimento de água na cidade. Era a primeira vez que uma cidade do nordeste  sofria uma seca por decreto.

Foi uma linda festa! O trajeto percorrido pelo governador estava que era uma beleza! Tudo limpo e asseado atestando a boa administração executada pelo prefeito provando que ele aplicara bem a verba de saneamento. Os discursos foram entusiásticos e ACM foi carregado espontaneamente nos braços do povo. O almoço agradou a todos os paladares e o governador sancionou todas as reivindicações. É verdade que alguns engraçadinhos apareceram com uma faixa onde se lia: “Queremos água”, mas a polícia dispersou-os antes que ACM visse o que estava escrito.

No outro dia, sem nenhum aviso prévio, a água voltou a jorrar das torneiras, as carroças e caminhões-pipa retomaram as suas atividades normais, os esgotos invadiram de novo as ruas e os urubus voltaram parar refazer suas forças combalidas por muitas horas de vôo.

Quanto ao resultado da análise da água, esse jamais foi divulgado.

 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CNJ afasta presidente do TJ da Bahia

Desembargadores Mário Alberto Simões Hirs e Telma Laura Silva Britto são suspeitos de fraudes no cálculo de pagamento de precatórios

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, durante análise dos recursos apresentados pelas defesas dos 25 réus condenados pela corte, os chamados embargos, nesta quinta-feira (22)
O presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Joaquim Barbosa ( Pedro Ladeira/Folhapress)
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu afastar, nesta terça-feira, o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Mário Alberto Simões Hirs, e da ex-presidente da corte, desembargadora Telma Laura Silva Britto, investigados por suspeita de fraudes no pagamento de precatórios. A Corregedoria Nacional afirmou ter encontrado uma diferença de 448 milhões de reais entre os valores que seriam pagos e os efetivamente devidos.
A abertura do processo administrativo é ancorada em denúncias do corregedor nacional de Justiça, ministro Francisco Falcão, que acusa os dois desembargadores de elevar excessivamente os cálculos de atualização dos valores dos precatórios, fazer cobrança irregular de multas contra os credores, entre outras irregularidades.
“É inadmissível que um presidente de tribunal ignore erros dessa gravidade na elaboração de precatórios. Não se pode sequer admitir a hipótese de ignorância porque ele foi alertado para as irregularidades existentes no cálculo e se omitiu”, afirmou o presidente do CNJ, ministro Joaquim Barbosa

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Pensador Coletivo

 
O Pensador Coletivo é uma máquina regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias
Você sabe o que é MAV? Inventada no 4º Congresso do PT, em 2011, a sigla significa Militância em Ambientes Virtuais. São núcleos de militantes treinados para operar na internet, em publicações e redes sociais, segundo orientações partidárias. A ordem é fabricar correntes volumosas de opinião articuladas em torno dos assuntos do momento. Um centro político define pautas, escolhe alvos e escreve uma coleção de frases básicas. Os militantes as difundem, com variações pequenas, multiplicando suas vozes pela produção em massa de pseudônimos. No fim do arco-íris, um Pensador Coletivo fala a mesma coisa em todos os lugares, fazendo-se passar por multidões de indivíduos anônimos. Você pode não saber o que é MAV, mas ele conversa com você todos os dias.
O Pensador Coletivo se preocupa imensamente com a crítica ao governo. Os sistemas políticos pluralistas estão sustentados pelo elogio da dissonância: a crítica é benéfica para o governo porque descortina problemas que não seriam enxergados num regime monolítico. O Pensador Coletivo não concorda com esse princípio democrático: seu imperativo é rebater a crítica imediatamente, evitando que o vírus da dúvida se espalhe pelo tecido social. Uma tática preferencial é acusar o crítico de estar a serviço de interesses de malévolos terceiros: um partido adversário, "a mídia", "a burguesia", os EUA ou tudo isso junto. É que, por sua própria natureza, o Pensador Coletivo não crê na hipótese de existência da opinião individual.
O Pensador Coletivo abomina argumentos específicos. Seu centro político não tem tempo para refletir sobre textos críticos e formular réplicas substanciais. Os militantes difusores não têm a sofisticação intelectual indispensável para refrasear sentenças complexas. Você está diante do Pensador Coletivo quando se depara com fórmulas genéricas exibidas como refutações de argumentos específicos. O uso dos termos "elitista", "preconceituoso" e "privatizante", assim como suas variantes, é um forte indício de que seu interlocutor não é um indivíduo, mas o Pensador Coletivo.
O Pensador Coletivo interpreta o debate público como uma guerra. "A guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação", explica o deputado André Vargas, um chefe do MAV. No seu mundo ideal, os dissidentes seriam enxotados da praça pública. Como, no mundo real, eles circulam por aí, a alternativa é pregar-lhes o rótulo de "inimigos do povo". Você provavelmente conversa com o Pensador Coletivo quando, no lugar de uma resposta argumentada, encontra qualificativos desairosos dirigidos contra o autor de uma crítica cujo conteúdo é ignorado. "Direitista", "reacionário" e "racista" são as ofensas do manual, mas existem outras. Um expediente comum é adicionar ao impropério a acusação de que o crítico "dissemina o ódio".
O Pensador Coletivo é uma máquina política regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias. Por isso, ele nunca se deixa intimidar pela exigência de consistência argumentativa. Suzana Singer seguiu a cartilha do Pensador Coletivo ao rotular o colunista Reinaldo Azevedo como um "rottweiler feroz" para, na sequência, solicitar candidamente um "bom nível de conversa". Nesse passo, trocou a função de ombudsman da Folha pela de Censora de Opinião. Contudo, ela não pertence ao MAV. Os procedimentos do Pensador Coletivo estão disponíveis nas latas de lixo de nossa vida pública: mimetizá-los é, apenas, uma questão de gosto.
Existem similares ao MAV em outros partidos? O conceito do Pensador Coletivo ajusta-se melhor às correntes políticas que se acreditam possuidoras da chave da porta do Futuro. Mas, na era da internet, e na hora de uma campanha eleitoral, o invento será copiado. Pense nisso pelo lado bom: identificar robôs de opinião é um joguinho que tem a sua graça.