sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Haddad no ato de desagravo a vereador que aparece ligado a fiscais da máfia: o PT como herdeiro de um pântano moral

Homens de vermelho: Donato e Fernando Haddad. Eles estão juntos. Sempre.
Homens de vermelho: Donato e Fernando Haddad. Eles estão juntos. Sempre.

O PT reuniu nesta quinta deputados estaduais, federais, vereadores, lideranças nacionais do partido e, não poderia faltar, o prefeito Fernando Haddad num ato de desagravo ao vereador Antonio Donato, ex-secretário de Governo da Prefeitura — teve de ser demitido — e ex-coordenador de campanha de Haddad. Donato foi recebido, como já se informou aqui, aos gritos de “Donato guerreiro do povo brasileiro” — é o grito de saudação que o partido costuma dispensar ao patriota José Dirceu. Isso quer dizer que os petistas consideram os dois igualmente inocentes, entenderam?
É claro que é um escracho e um acinte. Haddad decidiu deflagrar a operação para pegar os fiscais — havia mesmo uma máfia atuando na Prefeitura — e tinha a intenção de jogar o passivo no colo de Gilberto Kassab. Era um esforço para tentar reverter o brutal desgaste de sua imagem na cidade. Ocorre que a primeira vítima política do escândalo acabou sendo… Donato! De resto, Kassab tinha um acordo de mais alta esfera com Dilma Rousseff, e do Planalto veio a ordem para deixar o ex-prefeito em paz. Adiante.
De todos os políticos com alguma projeção na cidade, nenhum apareceu tão perto da máfia como Donato:
a: já secretário de governo, ele nomeou para uma diretoria da SPTrans Ronilson Rodrigues, considerado o chefe da máfia;
b: Donato chamou para trabalhar em seu gabinete outro auditor fiscal envolvido com a fraude: Eduardo Barcelllos;
c: num acordo de delação premiada, Barcelllo afirmou que pagava uma pensão mensal de R$ 20 mil ao vereador; o dinheiro, afirmou, era entregue em seu gabinete na Câmara;
d: quando soube que estava sendo investigado pela controladoria do município, Ronilson decidiu procurar justamente Donato;
e: a ex-namorada de um dos auditores, num telefonema ameaçador, captado pela polícia, ameaça revelar que o vereador era ligado ao esquema e que recebeu R$ 200 mil do grupo para financiar sua campanha eleitoral;
f: em depoimento ao Ministério Público, uma ex-auditora diz que o grupo de fiscais financiou a campanha de Donato.
Donato caiu. Mas deixou claro que não aceitava a condição de boi de piranha. Vale dizer: não tem a têmpera de um Delúbio Soares ou mesmo de um José Dirceu. Não é do tipo que aguenta o tranco calado. O vereador exigiu a solidariedade do partido — inclusive a do prefeito — e a obteve.
Atenção! Que petista se reúnam para declarar a inocência de seus soldados, convenham, é do jogo. E todos já estamos acostumados com isso. Que Fernando Haddad tenha comparecido ao evento sem que o Ministério Público tenha concluído a investigação e sem que a própria Controladoria do Município tenha terminado o seu trabalho, eis um absoluto despropósito. Donato exigiu, e obteve, a solidariedade do Prefeito. Eu já havia cantado essa bola aqui no dia 15 de novembro.
Donato - cúpula do PT
Sabem como é… Um coordenador de campanha é sempre um homem muito sabido.
Concluindo
Um dos principais alvos dos petistas no desagravo ao “guerreiro do povo brasileiro” foi o Ministério Público. Como a gente sabe, esse órgão só é batuta quando investiga os adversários do PT
Na minha coluna na Folha desta sexta, lembro um trecho do texto de Trotsky “A moral deles e a nossa”. O líder socialista responde a uma suposta indagação: na luta contra os capitalistas, todos os meios são admissíveis, inclusive “a mentira, a conspiração, a traição e o assassinato”? E ele então diz: “Admissíveis e obrigatórios são todos os meios, e só eles, que unam o proletariado revolucionário (…), que o ensinem a desprezar a moral oficial e seus democráticos arautos”.
Ou seja: sim, tudo é permitido em nome da causa, inclusive mentir, conspirar, trair e matar.
O PT é herdeiro desse pântano moral.
Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Tribunal da França manda desmontar torres eólicas: prejudicam aos homens e à natureza

Escrito por Luis Dufaur | 28 Novembro 2013             
                            eoliennes
Os proprietários do castelo de Flers, na região francesa Nord-Pas-de-Calais, obtiveram ganho de causa no Tribunal de Grande Instância de Montpellier, o qual ordenou desmontar dez torres eólicas responsáveis por danos à saúde e ao horizonte visual do castelo e da aldeia vizinha.
A Compagnie du Vent, filial da grande empresa de eletricidade GDF-Suez, também foi condenada a pagar indenizações e vai recorrer.
A sentença causou rebuliço nas fileiras ambientalistas, e segundo o jornal “Le Monde”, poucas sentenças foram tão consultadas, copiadas e analisadas em toda a França, pois as queixas contra as torres eólicas estão se fazendo ouvir pelo país inteiro, enquanto cientistas e economistas criticam seu custo e real utilidade.
Para o ambientalismo há o risco de se abrir uma “caixa de Pandora” de processos contra as torres eólicas, até agora consideradas como totens intocáveis das “energias limpas” tão propaladas por certo ecologismo utópico.
pasdecalais
Para moradores, torres eólicas estragaram o meio ambiente original.

Na realidade a produção de energia elétrica dessas imensas hélices está muito abaixo do prometido, e os danos à população e ao meio-ambiente estão ficando intoleráveis para as populações atingidas.
Os autoproclamados defensores “verdes” apareceram, mas para agir contra o meio-ambiente!
“É uma decisão alucinante, disse o advogado ambientalista Alexandre Faro. Eu acho que eles não ganharão na segunda instância, ainda que seja só pelo mau precedente que uma decisão dessas pode criar”.
Os castelões de Flers invocaram ante o Tribunal de Montpellier os danos sonoros e visuais que sofre a população, assim como “a total desnaturação da paisagem bucólica e campestre”.
castelo
O castelo de Flers existe há séculos bem encaixado na natureza.
Mas, as torres do ambientalismo estragaram o meio ambiente.

Esses argumentos são muito do agrado dos ambientalistas e deveriam conquistá-los.
Mas não! A utopia “verde” quer uma coisa diferente da que promete.
E o ambientalismo caiu em cima dos defensores da natureza.
As dez torres eólicas implantadas a 40 km de Amiens não serão desmontadas enquanto o apelo não for julgado.
Segundo os castelões, elas estragam a vida das pessoas e o horizonte do castelo, um elegante prédio histórico do século XVIII profundamente integrado na natureza local com um parque de 17 hectares.
As ventanias e os assovios produzidos pelos movimentos das pás desses moinhos de tamanho monstruoso são claramente audíveis e estragam a vida outrora tranquila da cidadezinha de Flers.
Elas atingem 110 metros de altura e emitem um flash luminoso a cada dois segundos, dia e noite.
Os juízes do Tribunal viram nisso um fator gerador de “tensão nervosa” entre os habitantes. Voltando ao castelo após a restauração, “parecia um verdadeiro jogo de fogos”, disse a castelã Ingrid Wallecan.
De fato, a Companhia do Vento consultou os vizinhos, porém ninguém sabia ao certo as consequências reais desses imensos engenhos. No máximo tinham ouvido falar positivamente na TV.
Agora estão imersos no pesadelo. Os políticos locais estão contentes com o lucro adicional proporcionado pelas torres eólicas.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Cuidado. Aquele que lhe puxa o saco quer mesmo é puxar-lhe o tapete

 

by André J. Gomes
O chefe chega mais tarde ao escritório e o vassalo corre ao seu encontro, o rabo abanando, uma bolinha de borracha entre os dentes.
— Tudo bem, patrão?
— Tudo.
— Chegando tarde?
— É.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Fui ao oftalmologista.
— Cuidar dos olhos?
— Não. Do pé.
O tributário solta uma gargalhada submissa e retorna saltitando à sua baia de funcionário, agradecido por participar da vida de seu dono. É assim que ele gosta de se comportar. Como um estúpido. É assim que aprecia ser tratado. Como lixo.
Incapaz de um raciocínio mais complexo que contar os minutos para a hora da próxima refeição, ele nem desconfia de que pertence a uma espécie ordinária, a mais danosa entre todas as pragas que hoje assolam o mundo, mais daninha que o gafanhoto, a traça, o cupim, o spam ou as duplas sertanejas. Nem imagina o quanto encarna fielmente o clássico bajulador. Ele mesmo, o bom e velho puxa-saco.
Acredite. Essa racinha miserável não tem mãe. Nasce em casulos pendurados nas protuberâncias que ficam na região pélvica de artistas, celebridades, endinheirados de alguma classe, políticos de qualquer cargo e chefes de toda sorte.
Os bajuladores, da família dos Adulatoris Babaovis, há tempos foram abandonados pelas propriedades cognitivas e neurológicas. E agora andam por aí à espreita, em busca de novas vítimas que serão obrigadas a se equilibrar em chão lambido e suportar toda sorte de mesuras falsas e servilismos.
Nas empresas, repare bem, os aduladores estão sempre no mesmo lugar: exatamente onde estiver o chefe. Esperando para fazer uma lisonja sem nenhum propósito senão o de amenizar seu sentimento de medonha insegurança. Os puxa-sacos sofrem de uma autoestima tão baixa que vivem de se arrastar e se submeter a toda sorte de humilhações. São sujeitos que fazem da facilidade de rasgar elogios interesseiros a sua única vantagem competitiva. No mais das vezes, elogiam pela frente e profanam pelas costas. São capazes das piores tramoias contra seus colegas e, desgraçadamente, se reproduzem como ratos, baratas e mosquitos cinzentos de banheiro em todos os departamentos de qualquer corporação.
Subservientes por desgraça da natureza, os escova-botas aplaudem toda e qualquer porcaria produzida por aqueles a quem desejam adular. O objeto de um puxa-saco nem termina uma frase e logo surge, do nada, alguém pronto a despejar-lhe um balde de baba.
— Genial! Que inteligência! Você é o máximo, sabia?
Sim, é isso mesmo o que passa por aí. E o pior: esse tipo de assédio provoca na vítima — o alvo do puxa-saco — os mais baixos instintos. Intimamente, o elogiado até reluta, tenta, segura, morde a língua. Mas por fim a empáfia passa a rasteira na modéstia e levanta os braços, vitoriosa:
— Você acha? Imagina! É só a maneira como fui criado. Pertenço a uma casta que se alfabetizou ouvindo os grandes pensadores. Devo isso à mamãe. Rá, rá, rá!
Pronto. Venceu a vaidade, a imodéstia e o pedantismo! Viva a bajulação!
Quando engata, a conversa entre o balujador e o bajulado, palavrosa e convencida, aspergindo cuspe e mau gosto para todo lado, embrulha o estômago até do vira-lata mais habituado a rolar na carniça.
— Adorei aquela piada suja e pesada que você contou, chefe!
— Qual? A do elefante que caiu na lama?
— Essa! Genial! Não conhecia. É nova, né?
— É. Eu sou assim mesmo.
— Procura se atualizar sempre?
— Não. Sujo e pesado.
E as gargalhadas ecoam pelos arredores, matando pernilongos e grilos e pulgas e gambás e ratazanas do banhado a quilômetros de distância.
Nas festas corporativas, os lambedores de sola ajoelham para sair nas fotos com os patrões. Depois publicam as imagens no Facebook com legendas elogiosas e cheias de gratidão. Aí a empresa perde um negócio, toma um prejuízo, a equipe inteira é esculhambada e sabe o que acontece? Os mesureiros pegam a foto com o chefe e correm até a primeira macumbeira de má fé formada pela internet.
— É esse aqui o maldito, mainha.
— Deixa comigo.
— Bota esse lazarento na boca do sapo, minha mãe, bota.
No fundo, a esperança de todo lisonjeiro é assistir à penúria do lisonjeado. O puxa-saco quer mesmo é puxar o tapete de seu “herói”. Quer sentir um imenso dó quando ele cair doente. Quer chorar no enterro de quem ele tanto admira. Mas enquanto isso não acontece, vai destilando seu açúcar.
Em qualquer organização há chefes que não podem se movimentar na cadeira sem esbarrar nos cuidados de um intrépido puxa-saco.
— Majestade chamou?
— Não. Isso foi um peido.
E se o chefe demonstrar que está saindo da sala, a situação piora ainda mais:
— Posso ajudar, alteza?
— Não. Estou apertado. Vou ao banheiro.
— Precisa de ajuda para limpar o popô?
— Não, obrigado.
— Nem aceita um refresco de limão com bastante açúcar?
— Também não.
— A gargantinha de vossa grandeza não está seca, não?
— Não.
— Mas eu vou trazer o refresco assim mesmo. O senhor usa para lavar o cabelo, tá? Fortalece a raiz.
Até que uma hora, curtido num mar de baba, o elogiado acredita ser mesmo especial e deixa de se esforçar, desiste de se superar e começa a se repetir. Ele se acomoda. Também, tanta gente diz que ele é bonito, rico, esperto, gostoso. Ele se convence. E daí para o buraco é só um passo.
Quando, por qualquer motivo, um chefe bajulado perde o trono, seus bajuladores comemoram o fracasso de quem idolatravam e, na manhã seguinte, começam tudo de novo, com um novo alvo.
— Está bonito hoje, hein, chefinho!
— É.
— Tá comendo o que aí? Lasquinha de gengibre torrada?
— Não. Casquinha de nariz. Quer?
— Quero!
E então o vassalo come o acepipe de seu líder, lambe os beiços manchados de sol e veneno e vai correndo para a rua, urinar no primeiro hidrante e rosnar para quem passar perto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A doença de Genoino é real; a sua transformação em mártir é uma farsa; petista e seu advogado recusaram exame do IML no dia da prisão; em seguida, deram início à narrativa do suposto calvário. Vejam o documento assinado por ambos

José Genoino está doente, sim! Mas a sua transformação em herói é uma farsa calculada. Faz parte do seu show e do show do PT. O que vocês veem abaixo é um documento da Polícia Federal. No dia da prisão, em São Paulo, atenção!, O SENHOR JOSÉ GENOINO E SEU ADVOGADO DISPENSARAM O EXAME PREVENTIVO NO IML. Vejam.

Genoino documento dispensa 2
 
O documento está assinado pelo próprio José Genoino.
O documento está assinado por seu advogado, Luiz Fernando Pacheco.
O documento está assinado pelo delegado Eduardo Augusto Afonso.
Não sou cretino. O documento não muda as condições objetivas de saúde do petista. Também não vou dizer “ele que se dane”. A minha questão é outra: por que ele seu advogado recusaram o que lhes foi oferecido como rotina? Para, em seguida, dar início à farsa da saga do mártir que teria sido torturado por Joaquim Barbosa?
Ora, um exame feito naquela sexta-feira, então, atestaria as mesmas condições logo em seguida verificadas. Esse documento, lamento constatar, evidencia que há muito de mentira e má-fé se misturando à verdade.
Não! A doença de Genoino não é uma farsa. É de verdade! Se eu decidisse, mandaria que cumprisse a pena, por enquanto ao menos, em casa. O Genoino transformado em mártir, no entanto, é puro cálculo. O documento que vai acima é parte da pantomima que tenta transformar Genoino em juiz dos juízes. Ah, as esquerdas… Quer coisa mais típica do que recusar o que lhes é oferecido pelo “estado burguês” para, em seguida, reivindicar a mesma coisa com estardalhaço?
Post publicado às 21h17 desta quarta
Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sepulturas sem sossego


exumacao-jango

Em São Borja, uma brigada internacional de especialistas, semelhante à que agiu em Caracas, vigiou o rito que começa a substituir o embalsamamento de divindades civis como Lenin, exposto à visitação pública em Moscou desde 1924
 
AUGUSTO NUNES
 
Três anos e quatro meses depois de aberta por Hugo Chávez com a exumação de Simón Bolívar, a temporada de caça ao veneno chegou à etapa brasileira no interior gaúcho. Em sossego desde dezembro de 1976 no cemitério de São Borja, cidade onde nasceu e até agora jazia em paz, o presidente João Goulart foi transformado na bola da vez pelos praticantes da política dos mortos. Eles vivem à procura de pretextos para algum acerto de contas com o passado que permita reescrever a história com a mão esquerda. Os organizadores do resgate da última quarta-feira, por exemplo, sonham provar que Jango sucumbiu não ao infarto mais que previsível, mas a uma florentina troca de remédios tramada por envenenadores a serviço das ditaduras que infestavam o subcontinente. Aconselhados pelo que lhes resta de juízo, os celebrantes do rito fúnebre no Rio Grande do Sul substituíram por um velório pelo avesso a carnavalesca recepção armada por Hugo  Chávez, em julho de 2010, para homenagear El Libertador à saída do seu mausoléu.

Em julho de 2010, a reencarnação de Bolívar resolveu desenterrar o original para descobrir que o herói da independência morreu envenenado com arsênico pelos pérfidos colonialistas. Transmitido  ao vivo pela TV e narrado pelo ministro do Interior, o espetáculo da morbidez chegou ao clímax quando Chávez confiscou o microfone para advertir os espectadores: ”Tirem as crianças da sala, que a cena que vamos exibir será forte”. Dado o alerta, a câmera exibiu em close a ossada gloriosa. Na madrugada, ainda grávido de emoção, o chefe da revolução bolivariana decidiu ressuscitar o exumado pelo Twitter: “Levanta-te, Simón, porque não é hora de morrer!”, ordenou. Bolívar só foi devolvido ao mausoléu depois de sete dias sem sair da horizontal — e sem saber do resultado dos exames: para decepção dos  profanadores de túmulos com bons índices de popularidade, ele morreu de tuberculose.
Nesta quarta-feira, a exumação de Goulart foi feita sem câmeras de TV nem jornalistas por perto. Para frustração dos turistas que lotaram a mirrada rede hoteleira de São Borja, só tiveram acesso ao cemitério — além da brigada internacional de especialistas formada por brasileiros, uruguaios, argentinos e cubanos — alguns parentes, uns poucos amigos de fé e três celebridades federais: o governador Tarso Genro, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e a inevitável Maria do Rosário. Secretária dos Direitos  Humanos (com status de ministra), a combatente do PT gaúcho encarregou-se da retórica hiperbólica. ”Exumar Jango é exumar a ditadura”, informou. Como se vinte anos coubessem num único personagem ou num caixão. Como se merecesse ser levada a sério uma frase que pode acabar inocentando o regime militar de todos os homicídios que lhe são atribuídos. Basta ficar comprovado que Jango foi abatido pelo coração arruinado por falta de cuidados e excessos de sobra.
Essa hipótese é mais que provável, previnem os dois casos registrados em território chileno entre a exumação de Bolívar e a de Jango. Em maio de 2011, Salvador Allende foi retirado do túmulo para eliminar a suspeita que afligia os derrotados pelo golpe militar chefiado 38 anos antes por Augusto Pinochet: o presidente cometera suicídio ou fora executado depois da invasão do palácio em que estava entrincheirado? Foi suicídio, reiteraram os exames. Em abril de 2013, chegou a vez do poeta Pablo Neruda. Neste 8 de novembro, uma junta de onze médicos chilenos e estrangeiros concluiu que Neruda morreu há quarenta anos em decorrência do câncer na próstata que precipitara a internação num hospital. Mas não vai descansar por muito tempo. Inconformado com o resultado adverso, o juiz Mário Carroza promete exigir uma segunda bateria de testes. O desvendamento de um assassinato político justifica qualquer gastança, ensinou Maria do Rosário aos jornalistas interessados nas despesas exigidas pela exumação de João Goulart, incluídos exames e traslados. “Custa menos do que uma ditadura”, resumiu.
E exumar é bem mais barato que embalsamar, poderia ter acrescentado a ministra. Embalsamar é verbo que não combina com os  humores pendulares do subcontinente, como atestam a saga de Evita Perón e o fiasco produzido por Nicolás Maduro quando tentou transformar Hugo Chávez na versão cucaracha de Lenin (veja o quadro ao lado). Bem menos complicada é a exumação. Não tem contraindicações, nem provoca efeitos colaterais. Se der em nada, o exumado volta à tumba sem perdas nem danos. Se funcionar, qualquer despesa parece irrisória. Para quem confunde urna funerária com urna eleitoral, morte morrida é de pouca serventia. Muito mais proveitosa é morte matada. Essa não tem preço.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ordem dos fatores

DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo

Rememorando o que foram antes e a condição em que estão hoje José Dirceu e José Genoino - para falar dos que nos anos áureos desfilavam com mais visibilidade e discorriam em tom imperativo sobre o "projeto" - compreende-se a razão pela qual procuram vestir o figurino de presos políticos.
Na perspectiva deles tudo o que fizeram nunca teve outro objetivo senão a política. Partindo desse princípio desenharam, cada qual à sua maneira, a cena do momento fatal: braços erguidos, punhos cerrados, a capa bordada com referência a poema de Mário Quintana, protestos por escrito contra o "casuísmo", saudações de correligionários, vivas ao PT, clamores contra a injustiça.
Mas a realidade conta outra história: são políticos presos. Aqui a ordem dos fatores altera o resultado.
O que são presos políticos? Por definição, pessoas privadas da liberdade por atos de retaliação do poder em decorrência de opiniões ou ações que contrariem a vontade e/ou a lei imposta pelas autoridades ilegítima e ilegalmente constituídas no País.
Nenhuma semelhança, portanto, com o Brasil de hoje.
As leis decorrem de um Congresso eleito, a Presidência da República tem seu poder emanado do voto popular e o Supremo Tribunal é composto por nomeações do chefe da nação aprovadas pelo Legislativo. Tudo nos conformes da legalidade e da legitimidade.
Diferente de "ontem", da ditadura contra a qual Dirceu, Genoino e tantos outros se insurgiram pagando caro com a supressão da liberdade, a violação da integridade física e, em muitos casos, com a vida.
Na época, sim, foram presos políticos, vítimas do arbítrio de um regime ao qual se opunham.
Agora não, integram a situação. O tribunal que os condenou é instituição de um país democrático, cujo governo, ao contrário de lhes ser hostil, é chamado por eles de "nosso" em contraposição aos "outros", vistos como infratores por serem adversários.
Governo em nome do qual cometeram os atos sobre os quais até poderiam não ter noção da gravidade, admita-se, mas pelos quais foram condenados por se acharem acima da lei e atuarem como donos das instituições, senhores de todas as vontades.
Ao aceitarmos a denominação de presos políticos para os petistas, devemos aceitar também para os políticos não petistas: Roberto Jefferson, Bispo Rodrigues, Valdemar Costa Neto, Pedro Henry, Pedro Corrêa e companhia. Por que não?
Porque seria mera fantasia.
Em 2025. Enquanto não tiver início a execução da pena de Henrique Pizzolato, corre o prazo de prescrição dos crimes aos quais foi condenado: lavagem de dinheiro (três anos e oito meses), peculato (cinco anos 10 meses) e corrupção passiva (três anos e nove meses), num total de 12 anos e sete meses.
Os prazos são contados separadamente e no dobro de cada sentença. Considerando a pena mais alta de quase seis anos, daqui a no máximo 12 anos, se não for preso nesse meio tempo, Pizzolato pode sair da Itália - até voltar ao Brasil - porque seus crimes estarão prescritos.
Calendário. Fala-se muito em demora no exame do mensalão mineiro no Supremo, mas há uma razão para isso. O uso do esquema de Marcos Valério na campanha pela reeleição de Eduardo Azeredo ao governo de Minas, em 1998, foi descoberto durante as investigações das denúncias de Roberto Jefferson em 2005.
Só então Azeredo virou investigado. A acusação de peculato e lavagem de dinheiro foi apresentada ao Supremo Tribunal Federal em 2009, dois anos depois de recebida pelo tribunal a denúncia do Ministério Público relativa à compra de apoio político ao governo Lula. Apenas neste ano foi designado o relator, ministro Luís Roberto Barroso.

domingo, 17 de novembro de 2013

Energia solar vira fonte de renda no sertão baiano

ELIANE TRINDADE
DE SÃO PAULO

Contemplada pelo programa Minha Casa, Minha Vida há dois anos, Gilsa Martins de Oliveira, 54, tornou-se proprietária de uma casa de dois quartos no condomínio Morada do Salitre, em Juazeiro (BA). A partir do fim deste mês, ela passa a gerir também uma "microusina" doméstica de energia solar.
"Eu estou animada, já tinha ouvido falar dessas placas, mas sabia que existia só em casa de rico", conta.
Síndica do condomínio, ela se refere aos painéis fotovoltaicos colocados sobre os telhados de 1.000 casas em dois residenciais populares para transformar luz do sol em energia no sertão baiano.
A 395 km dali, em Feira de Santana (BA), a nova fábrica de pneus da Pirelli, prevista para ser inaugurada em meados do ano que vem, também vai utilizar coletores solares gigantes para produzir vapor, tecnologia inédita no mundo em escala industrial.
O calor do sol nordestino será colhido por espelhos gigantes espalhados por uma superfície de 2.400 m² e armazenado em tubos que manterão a temperatura a 500°C. "O equipamento solar será conectado diretamente às linhas de vapor utilizadas para a produção de pneus", diz Mario Apollonio, gerente de energia da Pirelli.
Divulgação
Painel fotovoltaico é instalado em residência do Minha Casa, Minha Vida em Juazeiro (BA)
Painel fotovoltaico é instalado em residência do Minha Casa, Minha Vida em Juazeiro (BA)
"Com a energia solar, a emissão de carbono será zerada nessa etapa", afirma o técnico. A estimativa é de redução de 2.000 toneladas na emissão gás carbônico, em cinco anos, sem a queima de gás natural ou diesel para alimentar as caldeiras.
O investimento é de cerca de € 2 milhões, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente da Itália.
As duas experiências-piloto são sinais de que o Brasil, terra das hidroelétricas gigantes, começa a despertar para outras formas de geração de energia limpa.
VENDA DE ENERGIA
Parceria do fundo socioambiental da Caixa Econômica Federal com a empresa Brasil Solair, o projeto de Juazeiro, também pioneiro no Minha Casa, Minha Vida, foi regulamentado no mês passado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A estimativa é que a instalação de 9.500 painéis solares nos dois condomínios possa produzir 3.600 megawatts por ano. "Toda a energia gerada será medida e vendida para a própria Caixa", afirma Nelson da Silveira, presidente da Brasil Solair.
O projeto tem capacidade instalada para gerar 3.500 MW/h, suficientes para abastecer 1.600 casas populares. Os sistemas serão conectados à distribuição da Coelba (Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia).
Estudos preliminares calculam que a energia excedente a ser produzida nos dois residenciais corresponderá à quase totalidade do consumo anual do prédio central da Caixa em Salvador.
O valor que o banco pagaria à Coelba será repassado então à associação de moradores pela distribuidora.
Orçado em R$ 7 milhões, o projeto de microgeração de energia é voltado para moradores com renda de até três salários mínimos, organizados numa associação que vai administrar os recursos.
Depois de abatidas as despesas, cada morador deve receber por mês cerca de R$ 90.
TECNOLOGIA ITALIANA
Os italianos também apostam no potencial brasileiro. "Além do projeto na Bahia, estamos propondo o uso de tecnologia similar para geração de eletricidade em São Paulo, na construção civil, em universidades e em hospitais", afirma Corrado Clini, diretor do Ministério do Meio Ambiente da Itália.