quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A guerra está declarada


by fernaslm
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Com o juramento do Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, de lutar "sem descanso" até que “os corruptos e corruptores” resposáveis “pelo incêndio de grandes porporções que consome a Petrobras e convulsiona um país que não tolera mais a desfaçatez de alguns agentes públicos e maus empresários que precisam conhecer o cárcere” porque “a corrupção também sangra e mata”, seguida da ordem expressa de Dilma Rousseff ao seu constrangido ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardoso, que ouvira praticamente calado o repto do mais alto representante do Ministério Público, para que convocasse toda a imprensa nacional e voltasse a público para desafia-lo, está oficialmente aberto o confronto final entre a lei e a ordem e a liberação geral do vale-tudo em que estamos embarcados e do qual, se confirmado, não haverá retorno.
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Janot entende perfeitamente com o que está lidando e qual a importância desta batalha:
“A resposta aos que assaltaram a Petrobrás será firme dentro e fora do País, e caberá aos procuradores que atuam na primeira instância do Judiciário propor ações penais e de improbidade contra todos aqueles que roubaram o orgulho dos brasileiros pela sua companhia. Aqui e alhures (EUA, Holanda...), a decisão é de ir fundo na responsabilização penal e civil daqueles que engendraram esse esquema. Não haverá descanso. A Procuradoria Geral da República age e o Ministério Público Federal fará com que todos os criminosos envolvidos no esquema respondam perante o Judiciário”.
Pois Dilma Rousseff fez questão de responder-lhe com um desafio direto, sustentando a diretoria conivente com o assalto à Petrobras pessoalmente nomeada por ela cuja demissão ele acabara de exigir.
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Rodrigo Janot foi responsável pela criação do grupo de procuradores que investigam o caso a partir da Justiça Federal do Parana e é quem tem a competência para pedir ao Supremo Tribunal Federal a abertura de ação penal nos casos em que há envolvimento de políticos e outras "autoridades" com foro privilegiado.
Dilma Rousseff é conhecida pela permanente confusão que faz entre a sua pessoa e a institucionalidade do cargo que ocupa mas, a esta altura, isto não pode mais ser tido apenas como acidente. É exatamente essa a natureza do desafio do PT lança contra a “democracia burguesa” cujos rituais e valores o partido não tem nenhuma noção do que sejam e tem raiva de quem tenha, seja ele um cidadão comum, seja o mais alto representante da defensoria pública.
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A promessa de justiça do procurador Janot, para se consubstanciar, precisará, entretanto, materializar-se em ações de um processo cujo relator é Teori Zsavaski, o ministro da Suprema Corte onde deverão ser julgados os mandantes do assalto à Petrobras e à Nação. E todas as suas manifestações sobre o caso, até o momento, foram claramente enviesadas.
Alinha-se nesse mesmo exército a banda podre do Congresso Nacional onde, entretanto, uma oposição que parecia morta nos últimos 12 anos se tem mostrado mais aguerrida do que nunca. Foi lá que, agora ha pouco, sofreu a primeira baixa o exército do Brasil bandalho com a cassação de André Vargas, o eterno comparsa de Alberto Yousseff, por 349 votos contra 1 e 6 abstenções.
Quem decidirá esta guerra é o brasileiro das ruas. O Ministério Público só poderá derrotar o Brasil bandalho, que está solidamente plantado em todas as encruzilhadas do sistema que lhe podem garantir a impunidade, se todos nós formos às ruas tantas vezes quantas for necessário para ecoar a exigência de Justiça que Rodrigo Janot colocou nos termos exatos que esta calamidade pede.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Lula, Dilma e o petrolão

Marco Antonio Villa
Não há na história da República brasileira um escândalo da magnitude do petrolão. Mais ainda: não há na história mundial nenhuma empresa pública que tenha sofrido uma sangria de tal ordem. Ficamos cada dia mais estarrecidos com a amplitude do projeto criminoso de poder que controla o país desde 2003. Bilhões de reais foram desviados da Petrobras. Agora as investigações devem também alcançar o setor elétrico, as obras do PAC e aquelas vinculadas à Copa do Mundo. Ou seja, se já estamos enojados — aproveitando a expressão utilizada por Paulo Roberto Costa na acareação na CPMI da Petrobras, na semana passada — com o que foi revelado, o que nos aguarda? E quando soubermos da lista de parlamentares e ministros envolvidos?
O país está como aquele indivíduo em Pompeia, no ano 79 d.C., que caminhava tranquilamente nem imaginando que o Vesúvio entraria em erupção. O Congresso mantém sua rotina trocando votos por dinheiro, o que já não causa nenhuma estranheza. O governo não conseguiu nomear seu Ministério e o país está sem orçamento aprovado para 2015. E o Judiciário mantém o ramerrão de sempre: muito formalismo e pouca justiça.
A boa nova é que sociedade civil está se mobilizando. Diferentemente de 2006 e 2010, desta vez o espírito cívico se manteve. Manifestações nas ruas, reuniões, debates nas redes sociais têm marcado a conjuntura pós-eleitoral. É uma demonstração de interesse pelos destinos do país e que desagrada — e não poderia ser o contrário — aos marginais do poder. Mas o que chama a atenção é o silêncio de entidades que, em certa época, estiveram à frente na defesa do Estado Democrático de Direito. Uma delas é a Ordem dos Advogados do Brasil. Qual a razão da omissão? E os artistas? O silêncio tem alguma relação com os generosos patrocínios da Petrobras?
O petrolão atingiu em cheio o governo Dilma. Pesquisa Datafolha divulgada no último domingo mostra que 68% dos entrevistados consideram que a presidente tem responsabilidade no caso. Todas as evidências apresentadas até agora vinculam o maior esquema de corrupção da história ao PT, inclusive à campanha presidencial de 2010. Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, executivo da empreiteira Toyo Setal, afirmou que pagou propina em dinheiro vivo, em remessas a contas no exterior e em doações oficiais ao PT, tudo, segundo ele, combinado com João Vaccari, tesoureiro do partido. Portanto, foram cometidos vários crimes eleitorais. Por que a Justiça Eleitoral está silenciosa? Mendonça Neto disse também que entregava dinheiro vivo a três emissários do PT que se apresentavam com alcunhas típicas de traficantes do Complexo do Alemão: Tigrão, Melancia e Eucalipto.
Alberto Youssef foi claro quando disse: “Não sou o mentor nem o chefe desse esquema. Sou apenas uma engrenagem desse assunto que ocorria na Petrobras. Tinha gente muito mais elevada acima disso, inclusive acima de Paulo Roberto Costa.” A afirmação permite, no mínimo, três perguntas:
1 – Como é possível um esquema dessas proporções sem que autoridades superiores tenham conhecimento ou até comandem essas operações?;
2 – Por que foi organizado este esquema e com quais objetivos?
3 – Como foi possível movimentar fortunas sem que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) tomasse conhecimento?
Neste processo, duas pessoas têm enorme responsabilidade como representantes do Estado brasileiro. O primeiro é o ministro Teori Zavascki. Caberá a ele a responsabilidade de, inicialmente, ser no STF o responsável pelo processo. Na Ação Penal 470, infelizmente, o ministro acabou acatando a tese de um novo julgamento que levou à derrubada da condenação por formação de quadrilha da liderança petista. E, como ficou patente, o julgamento acabou desmoralizado e objeto de chacota. Já no caso do petrolão, é incompreensível a libertação de Renato Duque. O outro é o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Quando assumiu a PGR — e participou da segunda parte do julgamento do mensalão — deixou nos brasileiros uma enorme saudade do seu antecessor, Roberto Gurgel. Teve uma atuação, no mínimo, pífia. Agora, segundo noticiado, teria se encontrado sigilosamente com representantes das empreiteiras envolvidas no escândalo para, sempre de acordo com a imprensa, evitar que o processo chegue aonde deve chegar, ao Palácio do Planalto.
É impossível acompanhar o escândalo sem questionar o papel de Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, a organização e a prática do esquema de corrupção tiveram inicio durante o seu longo período presidencial. Porém, até hoje, apesar da gravidade dos fatos, Lula se mantém em silêncio. Tudo indica que aguarda a revelação das provas em poder da Justiça para só daí — a contragosto — emitir uma opinião. Lula é um safo, como vimos durante o processo do mensalão. Tinha pleno conhecimento do petrolão — e disso não há qualquer dúvida. Nomeou a diretoria da Petrobras com o intuito inequívoco de organizar o maior caixa 2 da história republicana. Se no mensalão ele se salvou, desta vez vai ser muito difícil. Pela primeira vez neste país poderemos ter um ex-presidente não só indiciado, mas condenado pela Suprema Corte. Resta saber se o STF vai agir dentro da lei ou permanecerá um mero puxadinho do Palácio do Planalto, como em outras oportunidades.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, o ex-premiê José Sócrates continua detido suspeito de fraude fiscal e corrupção. Um dia Chico Buarque cantou — ironicamente — que o Brasil iria virar um imenso Portugal. Espero que ele tenha razão.

Se a presidente faz a mesma coisa como esperar que o prefeito seja cassado?

Como todos sabem, há um processo no TRE acusando o prefeito de Morro do Chapéu por fraude na prestação de contas da campanha a prefeito em 2012. O processo obteve uma liminar que foi muito comemorada pelo deputado José Carlos Araujo suspeito de participação no propinoduto da Petrobras. Temos a informação que o processo deveria ter sido julgado na última quinta feira. Deveria porque um dos advogados do prefeito entrou com um recurso jurídico adiando mais uma vez seu julgamento. É para isso que eles são pagos; procrastinar o mais possível os processos passíveis de punir os réus os quais defendem. É possível que o prefeito seja cassado? Dá para acreditar num país em que até a presidente Dilma é acusada de irregularidades na prestação de contas a presidente? Vejamos.

Uma empresa chamada Focal Confecção e Comunicação Visual recebeu a bolada de R$ 24 milhões da campanha. A Focal fica em São Bernardo, e um dos seus donos, no papel ao menos, é Elias Silva de Mattos, um rapaz que é motorista e que, até o ano passado, recebia R$ 2 mil por mês. Ele se tornou sócio em novembro do ano passado, com participação de R$ 3 mil na composição da empresa. A outra sócia é Carla Regina Cortegoso, com cota de R$ 27 mil.
Quando foi a  reação do motorista ao ser confrontado com essa estranha “sociedade”? Esta, prestem atenção:

“Eu sabia que ia virar transtorno na minha vida. Eu não posso dar entrevista, não estou preparado para falar. Eu não sou nada, vai lá conversar com eles”.

Agora vejam uma das irregularidades apontadas na prestação de contas do prefeito de Morro do Chapéu.

Os representados inicialmente informaram à Justiça Eleitoral que a Transportadora MF Ltda cedeu 05 (cinco) veículos modelo GOL Geração IV, ano 2012, placas OKM 0161, OKM 5370, OKL 6431, OKL 5271 e OKL 8837, todavia, verificou-se que os três últimos automóveis estavam licenciados em nome da empresária unipessoal Jerlane Bezerra Coelho Costa Ltda, inscrito no CNPJ sob o no 09.097.918/0001-75.
Ao esbarrarem na exigência de que os bens cedidos devem integrar o patrimônio do doador, resolveram retificar as declarações anteriormente prestadas, e passaram a sustentar que os veículos haviam sido cedidos por Jerlane Bezerra Coelho Costa Ltda.
Não satisfeitos, ao perceberam que a cessão dos veículos era completamente estranha ao ramo de atividade econômica de Jerlane Bezerra Coelho Costa Ltda;”comércio varejista de artigos de vestuários e acessórios”, alteraram novamente a versão apresentada, nesta última, a Transportadora foi outra vez apontada como doadora, não obstante o disposto no artigo 23, parágrafo único da Resolução no 23.376/2012, in verbis:
“Os bens e/ou serviço estimáveis em dinheiro doados por pessoas físicas e candidatos, devem constituir produto de seu próprio serviço, de suas atividades econômicas e, no caso dos bens permanentes, deverão integrar o patrimônio do doador.”
Ocorre que a Trasportadora MF Ltda não tem CNPJ, não possui nenhum veículo e nem endereço onde se poderia localizar a empresa. Sabemos até quem é seu “proprietário”.
Quer dizer, não há como justificar essa cessão, doação ou locação de veículos e é nisso que o prefeito está encalacrado. E é justamente por isso que o processo vai se arrastando no TRE até que se ache um desembargador que tope arquivar o processo em troca de uma gorda propina como já se tornou costume nesses tempos de petismo.

O exemplo deveria vir de cima. Mas se lá em cima a bandalheira corre solta e nada acontece, o que esperar aqui em baixo? É por isso que os prefeitos estão cada vez mais ousados na roubalheira. O TCM reprova as contas e a Câmara de Vereadores aprova. Há propina nesse caso? Como duvidar se depois da aprovação das contas do prefeito alguns vereadores aparecem com carros novos na praça? Essa é a triste situação dos municípios desse sertão sofrido e mais do que nunca, currais eleitorais dos novos coronéis encastelados no poder.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cinco anfíbios geniais venceram o campeonato mundial apesar do Brasil


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Guilherme Guido, Felipe Franca, Marcos Macedo e Cesar Cielo (4 x 100 medley)
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Etiene Medeiros, ouro e recorde mundial nos 50m de costas
O vencedor do campeonato mundial de natação em piscina curta não foi o Brasil. Foram cinco brasileiros: Etiene Medeiros, Guilherme Guido, Felipe França, Marcos Macedo e Cesar Cielo. As dez medalhas (sete de ouro, duas de prata e uma de bronze) conquistadas em Doha, no Catar, pertencem a esses anfíbios geniais. Eles triunfaram apesar do Brasil.
Além dos maiores nadadores do planeta, os cinco tiveram de derrotar o viveiro de doutores em futebol, um Ministério do Esporte rebaixado a curral do PCdoB, a inexistência de qualquer coisa parecida com política esportiva, cartolas que só descobrem grandes atletas já descobertos por outros países, a crônica escassez de verbas, centros de treinamento em decomposição, uma infraestrutura indigente e tantos outros frutos do casamento da inépcia lucrativa com o oportunismo.
Dilma Rousseff, para quem piscina curta é aquela em que o neto está aprendendo a nadar, não vai perder a chance de enrolar-se na bandeira do Brasil. Ela ainda acha que festejar façanhas alheias fará o povo esquecer que o país do Petrolão logo estará liderando o campeonato mundial da corrupção

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A burocratização das mulheres

Juveninho não consegue criar vínculo amoroso exclusivo com mulheres desprovidas de curiosidade intelectual autônoma.
No Rio de Janeiro, a maioria delas, mesmo quando o escuta com atenção, ou até quando lhe faz perguntas, nunca o faz pelo interesse pessoal no conteúdo efetivo de seu discurso ou, em outras palavras, pelo desejo genuíno de adquirir conhecimento, mas apenas pela satisfação imediata de ouvi-lo discorrer com inteligência e desenvoltura (e graça, diz Juveninho) sobre um tema qualquer. É como se estivessem pensando: “Que charmoso que ele é! Não vejo a hora de mostrar para as minhas amigas, junto com a bolsa e os sapatos que eu comprei!”
Há algumas providas de certo desejo, mas que transferem para Juveninho a função de transmitir-lhes conhecimento, acomodando-se em receber dele e somente dele a instrução que poderiam, também, buscar alhures, com uma autonomia que as faria decerto mais interessantes, ainda que Juveninho já soubesse tudo que elas viessem a aprender por conta própria. O problema, diz ele, não é a eventual incapacidade das moças de ensinar-lhe algo que não saiba, mas a absoluta ausência do senso de dever moral e amoroso de buscar saber, nem que seja só para enriquecer a conversa do casal. É como se estivessem pensando: “Agora que eu tenho um Juveninho para me ensinar tudo, posso cuidar só do cabelo, da pele e das miguxas longe dele.”
Não podem, diz Juveninho. Não se quiserem ter um Juveninho para chamar de seu. Poucas coisas, diz ele, são mais descartáveis do que uma mulher sem curiosidade; e, em matéria de descartar mulheres, Juveninho só não é uma sumidade porque, segundo os amigos, ele vai enrolando todas o quanto pode. Como poderia ele, afinal, vislumbrar um relacionamento longo com mulheres que lhe perguntam burocraticamente “como foi seu dia?” ou “trabalhando muito?” como quem bate um ponto na relação, sem a vontade de conhecer os pormenores e maiores da experiência laboral e seus assuntos? Como pode Juveninho namorar uma mulher para quem não apenas o trabalho é um simples modo de “ganhar a vida” desvencilhado de qualquer vocação autêntica (e nem mesmo usado para servir financeiramente a alguma), mas que é incapaz de conceber que alguém trabalhe por mais do que o dinheiro para aproveitar as férias?
Há mulheres para as quais falar do trabalho é mais entediante do que o próprio trabalho, de modo que, por pura projeção, elas não só imaginam que para o homem também o é, como creem que namorar é apenar sair junto para brincar no parquinho. Juveninho não gosta de dizer em público o que dirá no fim desta frase, e isto porque a patrulha politicamente correta desprovida do senso das nuances o acusaria de chamar mulheres de cachorras, mas o tipo mais comum de namorada na Disneylândia carioca, segundo Juveninho, é a do tipo poodle: aquela que está sempre esperando você levá-la para passear.
Tudo em profundidade, à exceção do sexo (em alguns casos, segundo Juveninho), parece a estas mulheres tremendamente aborrecido, sem contar os temas que, mesmo superficialmente, soam-lhe intragáveis, como, por exemplo, a política. Não que não seja, diz Juveninho, especialmente a política com “p” minúsculo, pequeno-partidária, que Juveninho também abomina porque, como dizia Joaquim Nabuco, “não só um mundo de coisas me parece superior a ela, como também minha curiosidade, o meu interesse, vai sempre para o ponto onde a ação do drama contemporâneo universal é mais complicada ou mais intensa”. Mas a incapacidade de enxergar o drama contemporâneo universal contido em acontecimentos de pano de fundo político – assim como esportivo, artístico, literário, cultural etc. – afunila as possibilidades de assimilação do conhecimento humano de tal forma que ninguém, segundo Juveninho, deveria se dar ao luxo de desprezar completamente aquilo que à primeira vista lhe parece chato.
Juveninho não despreza. Tudo, absolutamente tudo lhe interessa, e uma mulher capaz de discorrer sobre qualquer tema, seja a botânica, o balé, o jazz, a arquitetura ou a engenharia mecatrônica, é-lhe sempre uma companhia mais enriquecedora do que aquelas que, mesmo quando empenhadas em qualquer atividade profissional ou extracurricular, não demonstram saber dela mais do que o necessário para, bem ou mal, exercê-la. No Rio de Janeiro, ninguém quer saber de nada, diz ele, a não ser do que tem de bom no fim de semana, e o “de bom” significa geralmente uma festinha pop. A melhor forma de constranger uma carioca seria perguntar-lhe que livro ela está lendo, mas a maioria das cariocas, segundo Juveninho, nem sequer se constrange de não estar lendo coisa nenhuma. É como se a única autonomia que elas desejassem fosse, quando muito, a financeira; e Juveninho só não vai a outros estados conhecer e namorar seus casinhos virtuais, porque, segundo os amigos, morre de medo de avião.
Antigamente, diz ele, as mulheres que estudavam psicologia, letras, história, filosofia e outras ciências sociais e humanas tinham alguma curiosidade intelectual autônoma, de modo que talvez bastasse aos Juveninhos da época fazer plantão na saída desses cursos para encontrar um grande amor. Agora, com o predomínio da ideologia de esquerda nesses ambientes, quando Juveninho faz plantão na saída, tudo que encontra são ativistas incuráveis, dançarinas de forró, maconheiras ou, na melhor das hipóteses, nerds feinhas que ele jamais pegaria. Juveninho nega ter a dificuldade confessada por outros autores lisos, segundo ele, para conquistar as primeiras, e tampouco declina da tarefa de educá-las durante o processo; apenas lamenta que sejam tão avessas a aprender o que está fora de sua bolha acadêmica enfumaçada.
E o que sobra? Sobram as burocráticas estudantes ou profissionais de administração e direito, aparentemente duas modas entre as moças do seu tempo, que em geral, diz ele, escolheram o primeiro curso por não saber o que fazer e o segundo na esperança de passar em concurso público, trabalhar pouco e ganhar muito para se sustentar e “curtir a vida”. São tão raras as administradoras que buscaram na área apenas as ferramentas para concretizar o sonho de montar determinado negócio e as advogadas movidas pelo verdadeiro ideal da justiça, o qual supõe uma entrega na compreensão das coisas do mundo para muito além da especialidade, que Juveninho, assim de cabeça, não se lembra de ter conhecido nenhuma. De médicas e engenheiras, Juveninho nem fala, porque o orgulho que a maioria sente de seguir carreiras outrora mais restritas aos homens e já recheadas por eles de uma vaidade pueril, infunde-lhes tamanho ar de sabedoria que tudo o mais parecem tratar como uma grande brincadeira. Não que Juveninho de vez em quando, segundo os amigos, não brinque de médico com elas.
Para ele, no entanto, a consequência mais nefasta da cultura brasileira de ódio ao conhecimento é a burocratização das mulheres. Quando os amigos o acusam de fazer generalizações descabidas sobre as brasileiras ou cariocas, ele manda todos procurarem as ativistas de esquerda nos forrós universitários, dizendo que o discurso deles combina e a relação tem tudo para dar certo. Quando as amigas, mais compreensivas e capazes de refletir sem melindres, insistem em dizer que os homens não são diferentes das mulheres descritas por ele, que o problema é nacional etc., Juveninho responde sempre a mesma coisa:
“Ok, mas… de que me interessam os homens?”
Longe dos amigos, Juveninho reza todas as noites para que Nossa Senhora das Exceções lhe brinde com uma bela mulher que o ache charmoso, sim, mas que, provida de curiosidade intelectual autônoma, não tenha se esquecido de ser interessante também.
Juveninho pode até ser mala para muitos, porque alguém tem de sê-lo e ele adora; mas deixa claro que não veio ao mundo para ser bolsa nem sapato de mulher.
Felipe Moura Brasil 


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Como agem os prefeitos desse sertão nordestino



       O prefeito é eleito para gerir as verbas advindas dos governos estadual, federal e outros órgãos da administração pública, com honestidade e espírito público. Este tem como dever, estimular as manifestações culturais, zelar pelo progresso do município e ser fiel guardião da democracia. E os vereadores são eleitos para garantir que todos esses atos serão praticados pelo chefe do executivo municipal com inteira responsabilidade. Esses têm poderes amplos para cassar o mandato do prefeito que não esteja exercendo sua função com probidade administrativa..
   Contudo, o que se vê, notadamente no interior nordestino, é os prefeitos desrespeitarem abertamente todos os princípios que norteiam seus cargos. São inimigos do progresso, do desenvolvimento cultural e são ferozes adversários da democracia. Os recursos financeiros que deveriam ser aplicados em saúde, educação e obras básicas, servem apenas para aumentar seu patrimônio pessoal. Alguns passam de pobretões irrecuperáveis ao serem eleitos, a desfrutar de uma riqueza súbita, adquirindo fazendas, cabeças de gado, apartamentos na capital, mudando-se para uma casa luxuosa e trocando de carro como se troca de camisa. Alguns nem vergonha tem de transferir mulher e filhos para a capital, matriculando os meninos nos melhores colégios e submetendo suas esposas a uma recauchutagem geral para ver se as mesmas adquirem ares de primeira dama. É claro que todo esse investimento é feito com recursos surrupiados da educação, da saúde, dos transportes e obras públicas. Mas como garantir que todos esses recursos sejam transferidos para as suas mãos sem correr nenhum risco? Fácil: colocando gente  de confiança nas secretarias estratégicas para garantir que os recursos sejam manipulados com segurança. Sem esquecer do tesoureiro de absoluta confiança e o especialista em finanças públicas para garantir o acerto da contabilidade  junto ao Tribunal de Contas. Não é por  outra razão que o tesoureiro é sempre o melhor amigo do prefeito. 
Às vezes rouba-se muito e falta dinheiro para pagar o funcionalismo municipal e principalmente, aos fornecedores. Então acontece aquela praga tão bem conhecida por todos que lidam com prefeituras: atrasa-se os pagamentos. Os pequenos funcionários passam necessidades, (os secretários-parentes, contadores e tesoureiro tem seus salários pagos religiosamente em dia) e os comerciantes e empresários ficam a beira da falência. E quem chiar não vai receber nada durante meses. Se se tornar adversário então, nunca mais! É preciso dizer amém para todos seus atos  sob pena de perseguição feroz. Ninguém escapa: delegados e soldados de polícia, professores, diretores de escola, presidentes de sindicatos, comerciantes, empresários, presidentes de ligas esportivas, médicos, enfermeiras, vereadores adversários, jornais, emissoras de rádio, presidentes de associações comunitárias, até promotores públicos (tenta-se de tudo para “amaciar” o juiz eleitoral). Quem quiser entrar na folha de pagamento tem que se submeter. Saddam Hussein?  Besteira! Ninguém é pior do que prefeito de interior. Se não faz faxina étnica é porque não tem poderes para tanto.
Mas o que detém esse ditadorzinho é o avanço cultural. Nada pode lhe trazer maior ódio do que o esclarecimento da opinião pública. Por isso tem de se fiscalizar rigidamente as emissoras de rádio e o jornal local, se houver (o cargo de secretário de cultura é apenas decorativo). Oferece-se boas recompensas para colocá-los a seu serviço. Na emissora de rádio do cupincha do prefeito falará somente quem ele liberar e o jornal fará apenas elogios a sua profícua administração. Se por acaso esses órgãos de comunicação não quiserem se submeter, ficarão a pão e água. Para garantir a completa falência, todo comerciante e empresário que fizer anúncios nos mesmos, serão tirados da lista de fornecedores da prefeitura.
E os vereadores? Esses políticos eleitos para zelar pela boa administração? Vã esperança!  Quase todos são tomados pela cobiça e querem também desfrutar das mordomias. E tudo lhes é dado pelo prefeito desde que se comportem como aqueles macaquinhos: não ouvem, não falam e não vêem nada quando o assunto se refere a ele. Como “recompensa” ao prefeito camarada, aprovam uma emenda que dê a ele gordas diárias quando se desloca para a capital, e a metade da mesma, quando viaja para qualquer município. E o absurdo de tudo isso é que o prefeito viaja para a capital para visitar a família, que lá está residindo, e ganha quantas díárias ali permanecer. Se vai para alguma de suas fazendas, logicamente localizadas em municípios vizinhos, também ganha diária. Afinal, é muito fácil declarar que estava a serviço do município ao qual governa. E o prefeito, para garantir esse privilégio, adquire um novo prédio para a Câmara, com gabinetes particulares e telefone para todos os vereadores. E para esses vereadores submissos, além do salário, haverá sempre uma  outra fonte de recursos. A traição política é incentivada e a falta de caráter, recompensada. Mas nada traz maior dividendos do que as votações importantes como a eleição do presidente da Câmara e a aprovação da contas públicas ou o orçamento anual com a tão cobiçada verba de representação. Nessas ocasiões o prefeito chega a tirar do próprio bolso para garantir votação favorável.
E o povo, essa entidade fantasma que todos gostam de se arvorar como defensores? Pobre povo! Ninguém sofre tanto! Os comerciantes, empresários, delegados, polícias, jornalistas, radialistas, professores, diretores de escola, promotores públicos, tem lá suas fontes de recursos. Mas o povo não tem nada. Estão a mercê do prefeito e sua quadrilha. Quem não for correligionário morrerá de fome, não recebendo a cesta básica e o peixe da semana santa. Haverá somente a esperança de receber alguma coisa, em véspera de eleição, quando o dinheiro e a cesta básica correm soltos. Se alguém quiser vender alguma mercadoria na feira ou em qualquer local público, terá de pedir o aval da prefeitura. E não há como escapar, pois numa cidade pequena, todos sabem da vida de todos. Sabe-se quem é adversário, quem é correligionário, quem anda falando mal do prefeito, quem anda elogiando. As paredes tem ouvidos e os bares e pontos comerciais estão coalhados de puxa-sacos. A atmosfera é sufocante, contrária a manifestação do livre pensamento. Deste modo, o que se espera é apenas a manutenção do atraso secular e o crescimento da ignorância. Uma cidade-fantasma onde reina o silêncio dos mortos. Ou dos inocentes.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O corrupto amigo



Lauro Adolfo
Se perguntarmos a qualquer pessoa se é a favor da corrupção a resposta com certeza será negativa. De fato, quem seria louco o suficiente para compactuar com a corrupção? No entanto, apesar dessa esmagadora unanimidade a corrupção viceja como nunca, se alastrando por todas as esferas públicas e privadas como erva daninha. Como entender esse fenômeno? Acredito que não é difícil assim encontrar suas raízes. Ela começa em nossa aldeia, em todos os rincões desse pais.
Há um processo em curso por captação ilícita de recursos para fins de campanha eleitoral movido pelo Ministério Público contra o prefeito de Morro do Chapéu, motivando sua cassação em primeira instância. O prefeito recorreu e obteve uma liminar para permanecer no cargo. Essa decisão foi muito comemorada com queima de fogos e carreata. E quem foi um dos patrocinadores dessa manifestação? O deputado José Carlos Araújo que integra o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados em Brasília. Vejam que absurdo; um parlamentar que devia zelar pela ética e moralidade na política comemora a vitória da corrupção lá em seu curral eleitoral. Depois perguntam porque a classe política está tão desacreditada.
O deputado é apenas um dos elos da cadeia que começa lá em baixo, precisamente naquele cidadão boa praça, amigo da família que todos querem bem. No processo em que se aponta as irregularidades praticadas no financiamento de campanha contra o prefeito Cleová Barreto, há um rapaz que sempre é escalado para exaltar os feitos na área de saúde sempre que há uma solenidade em curso, como as atividades do Selo Unicef por exemplo. A plateia presente ficou abismada com sua cara de pau ao mentir deslavadamente sobre realizações fictícias da Secretaria de Saúde, elogiando médicos, enfermeiras, secretária de saúde e prefeito. Deduz-se que esse rapaz é funcionário da Secretaria da Saúde e como tal não deveria prestar serviços à prefeitura fora de sua área de atuação e ser remunerado por isso. Tudo bem se considerarmos que ele atuou para “prestação de serviços para apoio logístico bem assim como a relocação de 40 pessoas para efeito de diversas atividades” como se lê no processo. O que fez de irregular esse rapaz nisso tudo? O valor da prestação de serviço foi de R$ 24 000,00, no entanto ele assinou um recibo de R$ 2 000,00 como comprovante de recebimento. Onde foram parar os 22 000,00? A juíza Eleitoral Dra. Ivonete Souza Araújo detectou a fraude e fez constar no processo sendo uma das razões para a cassação do prefeito.
O que respondeu esse bom moço ao ser inquirido sobre essa evidente falcatrua? Ele nos perguntou qual a contribuição que demos para o bem da comunidade, como se fosse o baluarte da moral e dos bons costumes. Sob qualquer ponto de vista esse cidadão se mostrou desonesto e conivente com a corrupção. Todos sabem que é isso mesmo e no entanto, ele anda aí de cabeça erguida, contando com o apoio da sociedade como alardeia nas redes sociais. Recentemente chamei-lhe a atenção para esse fato numa rede social e foi um Deus nos acuda! Ele retrucou indignado que eu era insignificante e como tal, desconhecido na sociedade como se a descaração lhe conferisse autoridade moral para rebater a acusação.
E não foi só ele; o filho veio de lá furioso e um outro parente deu bronca dizendo que ele é amigo da família e por aí vai. Cidade pequena é isso, todos tem um amigo corrupto e ninguém está a fim de desfazer a amizade só porque o companheiro cometeu um ilícito. Pior é lá em cima não é mesmo? E assim esse bom rapaz poderá ser eleito vereador, e como já fez conchavos com a prefeitura para fraudar uma eleição e conta com a proteção dos amigos e da sociedade, conclui-se que vai prosseguir em sua trajetória de mal feitos podendo vender seu apoio para a aprovação das contas do prefeito, por exemplo.
E o prefeito nem se fala! Ao se dar conta que pode manipular as verbas destinadas à sua administração do jeito que bem entender, não se faz de rogado a bota a mão na massa. Como não faze-lo se o deputado lhe dá toda cobertura lá nos tribunais? O deputado, por sua vez, conta com o apoio de seus colegas parlamentares tendo amplo respaldo para engordar sua conta bancária por meios lícitos e ilícitos. E lá em cima do trono, assistindo a tudo e tirando proveito, assenta-se o(a) presidente da República. Desse modo a cadeia da corrupção segue firme e inabalável enquanto o eleitor brada indignado contra esse estado de coisas. Que ele próprio ajudou a construir é bom que se diga. Todos nós temos um corrupto amigo que toleramos a espera que um dia ele se redima.  Só que isso nunca vai acontecer, ao contrário, o amiguinho vai chafurdar na lama feliz da vida.
É como disse certa vez Roberto Campos: a corrupção tem um passado glorioso e um futuro promissor.