sexta-feira, 22 de julho de 2011

Funcionários protestam contra demissão em massa

Alean Rodrigues /Feira de Santana
Cerca de dois mil funcionários da construtora R. Carvalho fecharam o trânsito, em dois pontos da cidade de Feira de Santana, durante toda esta quinta-feira, 21. O motivo do protesto foi o anúncio da demissão em massa dos 5,2 mil funcionários.
Logo no início, os trabalhadores fecharam o acesso ao viaduto da Av. Getúlio Vargas em frente ao escritório da empresa. “Queremos uma posição sobre os nossos salários, somos pais e mães de família e queremos pagar nossos compromissos e não temos nenhuma posição da empresa que está nos fazendo de cachorro”, gritavam.
O clima ficou tenso quando vigilantes da empresa solicitaram aos funcionários que entregassem suas carteiras de trabalho, o que levou policiais militares a interceder. A presença de representante do sindicato para falar sobre a reunião com o Ministério Público do Trabalho na quarta, 20, causou mais revolta ainda.
Em virtude do bloqueio da via, os motoristas realizaram manobras irregulares pelo viaduto. Depois, os trabalhadores seguiram em passeata até a prefeitura, onde queimaram fardamentos e ameaçaram invadir as obras. O trânsito também foi interditado nas Avenidas Senhor dos Passos.
O secretário de Habitação Gilberto Rui Rocha e o chefe de gabinete Milton Brito receberam uma comissão de seis funcionários para ouvir as reivindicações, que segundo eles serão levadas para uma reunião com a Caixa Econômica Federal e à empresa.
Demissão - A decisão de demitir os 5.200 funcionários foi apresentada na tarde de quarta, em uma reunião com os representantes da empresa R. Carvalho, do Sindicato e da Federação da Construção Civil no Ministério Público do Trabalho.
Uma nova reunião está agendada para acontecer no próximo dia 27, em que serão determinados os dias para pagamentos da rescisões.
A R. Carvalho parou as obras em Feira de Santana desde o último dia 8, alegando problemas financeiros. Mais de dez mil imóveis estão inacabados, incluindo empreendimentos do programa do Governo Federal Minha Casa, Minha Vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O escândalo da insegurança pública

Alex Ferraz
A revista Época desta semana traz uma reportagem de duas páginas sobre uma cartilha que está sendo distribuída nos Estados Unidos aos americanos que pretendem viajar para o Brasil. Em resumo, a cartilha adverte que nosso país é “extremamente violento” e “desorganizado”.
  Não me causa surpresa, muito menos qualquer reação patriótica de repulsa à atitude do Tio Sam. Na verdade, se fôssemos um pouquinho mais honestos, nós mesmos já deveríamos ter feito este tipo de aviso. Vejamos uma lista de coisas que turista (nem brasileiro) não pode mais fazer neste país.
1.       Hospedar-se em hotéis de luxo. Ano passado, foi o Intercontinental no Rio, e, agora, um cinco estrelas no bairro de Santa Tereza, na mesma cidade. Invadidos por bandidos que levaram tudo.
2.       É cada vez menor o número de caixas eletrônicos, pois são isca para ladrões que explodem tudo.
3.       Andar tranquilo pelo Pelourinho, em Salvador? Também não pode.
4.       Carregar máquinas fotográficas e/ou filmadoras? Nem pensar.
5.       Passear tranquilo pelas ruas do Rio? Naninha! Se o bandido não pegar, corre-se o risco de ir pelos ares com a explosão de bueiros.
6.       Frequentar restaurantes em São Paulo? Desista. Só este ano, já ocorreram 20 arrastões nesses estabelecimentos, inclusive de alto luxo.
7.       Finalizando: e se o turista ficar doente ou ferido, nem pensar em procurar hospitais públicos. É morte certa.
Quem ganha com isso (I)
  Há um setor que vive sorrindo para as paredes com a incompetência (será mesmo incompetência?) na condução das políticas de segurança pública no Brasil. São as empresas que oferecem segunraça privada. Faturam bilhões.
Quem ganha com isso (II)
   Nas grandes cidades, incluindo Salvador, empresas menores do setor de segurança privada chantageiam moradores para obriga-los a entrar nos pacotes de vigilância de bairros inteiros. Quem não tiver o selo da dita empresa na porta pode ficar certo que será assaltado. Mistério...
Quem ganha com isso (III)
  Em São Paulo, maior metrópole brasileira, há cerca de seis mil vigias, que chegam a ganhar R$ 200 mensais por cada casa ou prédio que fiscalizam, ao longo de ruas inteiras.
    Agora a Polícia Civil está cadastrando essas pessoas, pois descobriu-se que havia até foragidos da Justiça fazendo “segurança”. É ou não é o caos?

O repórter que desafiou Lourinho

Essa semana os jonais da Bahia anunciaram a morte de Lourinho, o mais famoso e folclórico chefe da torcida do Bahia. Então me lembrei desta crônica que publiquei no jornal Cultura & Realidade de Irecê que fez muito sucesso à época. Será que os fatos aqui narrados aconteceram de fato? Tire sua conclusão.
Lauro Adolfo   

 Corria o ano de 1982 e o Flamengo brilhava no cenário futebolístico brasileiro. Os flamenguistas mais do que nunca orgulhavam-se em ostentar a briosa camisa de seu time. Havia um jovem repórter do combativo jornal “O Farol do Sertão” da pequena cidade baiana de Pandemônio do Oeste, que também era um torcedor fanático da equipe carioca. Seu nome era Tomas Ladino e um dia foi convocado para cobrir a peleja do Flamengo contra o Bahia no Estádio da Fonte Nova.
      Tomas Ladino mal pôde acreditar em tamanho privilégio. E já no Estádio quase explodiu de felicidade por estar vendo ao vivo e em cores seus ídolos do Flamengo ali na área de treinamento em frente aos vestiários. Olhava maravilhado o bate-bola de Raul, Adílio, Júnior, Cláudio Adão, Tita, e seu ídolo maior.. .Zico. Ficou ali paralisado, tão embevecido com sua sorte que se esqueceu de pedir autógrafo aos jogadores.
      O jornal em que Tomas trabalhava pertencia a um deputado que o colocou no estádio para fazer a reportagem do jogo. Ele nunca tivera acesso nos gramados e muito menos nos vestiários de algum grande estádio de futebol. Não conhecia o Bahia, e nem o Vitória posto que vivera em São Paulo desde pequeno, torcendo pelo Palmeiras e pelo Flamengo. Foi por esse desconhecimento das tradições do Bahia que ele cometeu.um ato de extrema coragem que ficou para sempre gravado nos anais históricos do Estádio da Fonte Nova.
      Antes do jogo iniciar-se ele viu um galego alto, de bermuda e camisa do Bahia ajoelhar-se debaixo das traves onde Raul iria ficar. Aquele galego era o Lourinho, chefe da torcida do Bahia e conhecido por suas mandingas e feitiços contra as equipes adversárias do esquadrão baiano. De modo que Lourinho vestiu alguns bonecos com a camisa do Flamengo e amarrou fitas nos olhos e nas pernas dos mesmos. Acendeu velas e fez gestos como se estivesse rezando. Com os bonecos de olhos vendados e pernas atadas os jogadores rubro-negros não enxergariam e nem chutariam a bola com precisão. Pelo menos era o que o feitiço de Lourinho pretendia.
      Tomas foi lá na trave conferir e ficou aflito com o que viu. E se o Flamengo perdesse por causa daquele “despacho”? Teve vontade de ele mesmo pegar os bonecos e rasgar aquelas fitas. A timidez momentânea porém o impediu. Armou-se de toda autoridade que pode reunir e chamou um gandula.
      - Ô garoto, vai lá naquela trave e tira aqueles bonecos que estão debaixo da rede.
      O gandula olhou para aquele sujeito desabusado buscando algum vestígio externo que afirmasse tanta autoridade e não vendo nada, respondeu:
      - Vou não.
      E Tomas com cara de enfezado:
     - Caminha menino!
      - Oxe, vou nada.
      E saiu fazendo deboche do pobre do Tomas.
      E agora? O que fazer? Tomas não teve dúvidas. Imbuído de uma coragem suicida foi lá no gol do Flamengo, pegou os bonecos e rasgou aquelas fitas todas. Agora os jogadores do seu time iriam enxergar a bola e chutá-Ia direitinho no gol adversário. Ouviu-se por toda a Fonte Nova um hóóóóóóóó de milhares de gargantas. Quem era aquele individuo que desafiava abertamente o Lourinho? Seria um grande mandingueiro do Rio de Janeiro que acompanhava a comitiva do Flamengo? Seria uma alta autoridade da CBF disposta a acabar com as palhaçadas do chefe da torcida do Bahia? Ou seria alguém que resolvera perder o juízo em hora errada? O Lourinho já no meio da torcida do seu time espumava de ódio e queria invadir o campo para dar uma lição naquele sujeito abusado, fosse quem fosse, maluco ou não. Todavia o jogo estava correndo e ninguém queria perder um lance.
      Um sujeito que estava por ali na beira do campo abordou Tomas e perguntou se ele sabia o que estava fazendo.
      - Sei, estou rasgando as fitas destes bonecos para não atrapalhar os jogadores do Flamengo.
      - E quem é você para fazer isso?
      E Tomas na maior inocência.
      - Sou repórter do jornal O Farol do Sertão.
      - Farol do Sertão? Que jornal é esse?
      - É lá da cidade onde eu moro.
     - E cadê o gravador, o caderno de apontamentos? Afinal, quem colocou você aqui dentro?         
      - Ora o dono do jornal que é muito bem relacionado.
      O desconhecido então percebeu tudo.
      - Rapaz, dê uma olhada naquele lado do campo onde está a torcida do Bahia.
      E Tomas olhou e não gostou do que viu. A torcida rugia querendo o seu sangue. Lourinho estava possesso. E foi aí que ele percebeu a tremenda besteira que fez. O desconhecido assustou-o ainda mais:
      - Rapaz se o Bahia perder ou empatar você não sai vivo daqui, nem a polícia vai te salvar.
      - É mesmo? O que é que eu faço então pelo amor de Deus?
      - Se pique, suma, desapareça e agora mesmo.
      E o locutor da Rádio Sociedade da Bahia anunciou:
      - O suicida agora está passando em frente a torcida do Bahia que joga nele, sapatos, sandálias, latas de refrigerante e cerveja e todo objeto que estiver à mão. O Lourinho quer esfolá-Io vivo e a muito custo está sendo seguro pela torcida. Que besteira o suicida irá fazer agora?
      Tomas procurou o dono do jornal e não encontrou. E também o chefe de redação do jornal já tinha sumido àquela altura do campeonato. De modo que ele estava sozinho e mal pago. Todo mundo já estava ciente do seu problema. Tomas não era tão bestinha assim como a princípio se pode pensar. Toda vez que se via em apuros, ele adotava a postura de um tabaréu só para que ficassem com pena dele, em vez de se enraivecerem, as pessoas procuravam ajudá-lo.
      -Ô moço, como é que eu saio daqui? Perguntou com voz chorosa a um rapaz vestido com roupas esportivas.
      - Para você sair daqui vivo tem de ser por aquele túnel que passa por baixo das cadeiras numeradas. Seguindo direto você sai para fora do estádio. Não deixe nem nome nem endereço a ninguém.
      Aqueles poucos metros dentro do túnel que dariam a liberdade a Tomas nunca foram tão longos e assim que chegou ao hotel onde estava hospedado, trancou-se no quarto depois de dizer ao gerente do hotel que não estava para ninguém. Só para seu companheiro de quarto que era o chefe de redação do Farol do Sertão. E Tomas pela primeira e única vez na vida torceu, e como torceu contra seu time. E gemia desesperado:
      - Faz um gol Bahia, ganha essa partida pelo amor de Deus!
      Mas o Bahia não ganhou. O jogo terminou empatado sem abertura de contagem. Dali a pouco chega o chefe de redação do Farol do Sertão apavorado.
      - Rapaz, o Lourinho te procurou por todo canto lá no Estádio querendo o seu couro. E não sei se ele não vai procurar por tudo quanto é hotel aqui em Salvador. Se ele te acha não quero nem pensar!
      - Se ele te acha uma zorra! Se ele nos acha!
      O chefe de redação que sempre andava armado, por via das dúvidas, engatilhou o revólver e ficou com ele na mão a noite inteira. Se alguém batesse na porta do quarto levava tiro. Afinal, ele estava tão encalacrado quanto o seu desastrado repórter.
    O deputado que era torcedor do Bahia, logo depois demitiu Tomas, o chefe de redação e fechou o jornal. Felizmente para ele, ninguém descobriu para qual jornal aquele maluco repórter que miraculosamente conseguira sair vivo da Fonte Nova, trabalhava. E se descobrissem, o fechamento do Farol do Sertão seria sua salvaguarda.
      Quanto a Tomas Ladino, Fonte Nova dali por diante, só na geral, bem quietinho, bem escondidinho e o mais longe possível daquela doido do Lourinho.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Assim é o líder

Nelson Rodrigues
O líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lenin pode ser esquecido, Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de forma punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: – 12 milhões. Era uma maravilhoso canalha e, portanto, o líder, o puro.
E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: – o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza as massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.
Mas, dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Führer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: – nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “Hitler é muito mais revolucionário que a Inglaterra”.
Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer “travesti” do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de “o Velho”. E essa paixão era de um sublime ignóbil.
Já o Czar foi o antilíder. Há um quadro russo da matança da Família Imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a soviética, é puro Osvaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o Czar, a Czarina, as princesinhas, etc., etc. Uns por cima dos outros, e cravejados de bala. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos velhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa dizer.
Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na redação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Coleção das Moças. Reparem no antilíder, no anti-rei, no antitudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mesmo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim havia um “lago azul” como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o Czar estava fascinado pelos cisnes, e a última página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a pauladas, como uma ratazana.
Alguém lembrará a figura de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era líder. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy, gemeu com sotaque: – “Bonito como uma virgem”. Era um líder de luxo, isto é, um antilíder. Ao entrar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: – Johnny casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao sexo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: – não foi, em momento nenhum de sua história e de sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.
Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o aceitaram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: – faltava a Kennedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjeção. Mas foi na morte que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade de sua liderança.
O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Waterloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleônica. Se Lenin vivesse mais quinze dias, seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um cristo morto de coqueluche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao lado da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital. Restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele. Esta morte antes do tempo mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.
Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro, Eu disse algo parecido ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria “odor da História”. E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: – “Vai haver o diabo neste país”. Disse e fez um “suspense”. Instiguei-o: – “O diabo, como?” E ele, misterioso: – “Você não sente que vem por aí não sei o quê?” Esse “não sei o quê” era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: – “”Há muita insatisfação”. Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: – “Sangue?” E o outro: cara a cara comigo e um ar de quem promete hemorragia nacional inédita: – “Sangue”.
Todavia, o “suspense” continuava. “Sangue”, dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em “esquerda”, a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos avancei outros tantos e perguntei: – “Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?”
Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar, Quem ia mudar qualquer coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas. Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a história pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: – enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada

Porque "eles" odeiam a revista Veja

Foram demitidas mais seis pessoas do Ministério dos Transportes. Desde que a VEJA chegou às bancas, no dia 3 de julho, com a primeira reportagem sobre a quadrilha instalada na pasta, já são 12 os demitidos — 13 se contarmos Luiz Antonio Pagot, que, por enquanto, não “aceitou” a própria exoneração. No Diário Oficial de hoje, perderam a cabeça três funcionários do ministério propriamente — José Osmar Monte Rocha, Darcy Michiles e Estevam Pedrosa — e três do Dnit  (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes): Luiz Claudio dos Santos Varejão, Mauro Sérgio Almeida Fatureto e Maria das Graças de Almeida. São dadas ainda como certas a demissão do petista Hideraldo Luiz Caron, diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit, e a de Felipe Sanches, presidente interino da Valec.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A oligarquia de esquerda

 Luiz Felipe Pondé
Você acredita em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida “menos ruim”? Não eu. Mas cuidado: o jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer “vou fazer mais escolas”, dizer “sou por uma sociedade mais justa” pode ser golpe.
Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blablablá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.
Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III”. Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um “critério racional” de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.
Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça “criteriosa” e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no “projeto de justiça social”? Aqui é que a coisa pega.
Mas antes da pergunta “o que é justiça social?”, podemos perguntar quem seriam “os paladinos da justiça social”. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da “matéria bruta da infelicidade humana”, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio “em nome da justiça social”? Humm…
A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.
Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de “justiça social”: controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da “justiça social”. Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.
A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a idéia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.
Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.
Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os “paladinos da justiça social” se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.
Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas “sua casa”. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas idéias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da “justiça social” ela silenciará todos.
Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC-SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

O sujeito que achava que catinga era perfume

Lauro Adolfo
            Ninguém sabia dizer se aquilo era loucura, mania ou retardamento mental. O fato é que aquele elemento sentia enorme prazer em colocar a namorada no carro em dias chuvosos, pedir para ela fechar os vidros e depois soltar um ruidoso e fedorento traque. A namorada fugindo quase asfixiada e pedindo por socorro, deixava de sê-Io a partir daquele momento.
Mas quem disse que ele se corrigia? Era chover e lá ia ele com a namorada praticar seu vício nojento. Seus namoros duravam um pouco mais em época de estio, o que neste sertão dura de oito a nove meses. E foi, como não poderia deixar de ser, num período de seca inclemente que ele se casou. Contudo, foi só cair as primeiras chuvas para ele levar a infeliz esposa para dentro do carro para fazer vocês sabem o quê. O sádico sentia mais prazer ainda quando, após devorar uma enorme e indecente feijoada deixando-a fazer sua trajetória intestinal, castigar as narinas torturadas de sua esposa com sua flatulência criminosa. Os gases humanos, assim como os gases de cozinha são altamente inflamáveis, como todos sabem. De modo que a esposa daquele sujeito levava sempre uma caixa de fósforos consigo para qualquer emergência. Era ele chamá-la para dentro do carro para a sessão de tortura e ela já ia riscando o fósforo.
Quase em desespero, já a ponto de separar-se daquele débil mental, ela ouviu falar de um concurso de flatulência que seria realizado num lugar secreto. E para sua sorte deram-lhe o endereço do local onde seria realizado o indigitado campeonato. Pediu, rogou ao esposo que participasse daquela concorrência para ver se ele aprendia.
- Aprender o quê? Disse o desgraçado.
- Você vai ver o quê. Respondeu ela.
            A infeliz tinha a vã esperança que ele voltasse envergonhado para casa e passasse a usar o esfíncter de modo normal como todo mundo. E lá foi ele testar sua capacidade gasosa.
Os competidores eram profissionais no oficio. Os campeões eram Zé Trovão, Gás Mostarda, Acaba Ferrugem e o campeoníssimo Mata Rato. As notas eram dadas segundo três efeitos provocados no fiscal, ou cobaia melhor dizendo: o tonteio, o desmaio e o coma. A duração do traque bem como o som emitido também ganhavam nota. Nosso personagem caprichou na feijoada e na cachaça. De modo que no outro dia seus intestinos estavam prontos para liquidar qualquer incauto que ousasse cheirar o produto de tão horrenda mistura. Mas ele não contava com o preparo especializado dos fiscais. De modo que a única coisa que conseguiu foi um huuummm meio desenxabido. Ficou mortificado e só não foi embora com o rabo fedorento entre as pernas porque queria ver o desempenho dos campeões.
Zé Trovão demonstrou suas habilidades no ramo soltando um pum tão fenomenal que o médico, após examinar seu esfíncter, recomendou uma semana de repouso absoluto. Gás Mostarda botou a nocaute a primeira fileira de assistentes e tonteou o restante. Acaba Ferrugem era uma caso à parte. Seus gases tinham o miraculoso poder de destravar ferrolhos enferrujados, portas emperradas e parafusos renitentes. De modo que havia ali uma quantidade enorme de carros que não abriam portas e nem soltavam os parafusos das rodas firmemente apertados. Havia também muitos aparelhos enferrujados precisando de uma boa lubrificada. De modo que Acaba Ferrugem cumpriu sua tarefa com a costumeira competência.
Depois veio o campeão dos campeões: Mata Rato. Para fazer a demonstração de sua fantástica habilidade, levaram-no a um armazém  lotado de fardos de milho e também de centenas de ratos. Um fiscal entrou com ele devidamente protegido com uma máscara contra gases. E após ouvirem o som prolongado e harmonioso de seus gases intestinais, ratos saíram pelo ladrão guinchando desesperados. Mas não andavam nem dez metros e já começavam a sacudir suas perninhas nos estertores da morte. De maneira que fez uma limpeza completa no armazém recebendo uma ovação entusiástica e uma polpuda recompensa do fazendeiro proprietário do depósito.
Após tão fantásticos desempenhos será que o nosso personagem ainda teria coragem de soltar seus ridículos e inofensivos gases? Sua esposa ficou bastante esperançosa quando o viu casmurro e acabrunhado pela casa. Quando ela se atreveu a perguntar-lhe a razão daquela tristeza ele narrou sua fraca atuação.
- Bem, acho que agora você aprendeu a lição, não é?
- Aprendi. Vou treinar bastante e ainda serei conhecido não como um Mata Rato qualquer, mas sim como Mata Gato.